JOGO 29 – O gato diz adeus x Crime na Feira do Livro

JOGO 29

O gato diz adeus,
de Michel Laub (Companhia das Letras / 2009)
x
Crime na Feira do Livro,
de Tailor Diniz (Dublinense / 2010)

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JUÍZA
Vivian Nickel
– É licenciada em língua inglesa e mestranda em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O jogo

Mesmo sendo literatura comparada a minha área de pesquisa, fazer uma resenha comparativa entre Crime na Feira do Livro, de Tailor Diniz, e O gato diz adeus, de Michel Laub, constitui tarefa ingrata. Em comum, muito pouco, talvez apenas o fato de ambas as narrativas poderem ser lidas, eu diria, numa sentada. Difícil estabelecer um parâmetro de comparação entre os dois textos. Mas como não tenho para onde correr, vamos ao jogo.

Começo com Tailor Diniz e seu divertido Crime na Feira do Livro. Primeiro aspecto que destaco é a representação de Porto Alegre. Talvez seja um preconceito bobo meu, mas sempre tenho a impressão de que qualquer referência à cidade, seja na literatura ou no cinema, sempre vem acompanhada de um longo comentário sobre como nossa terra tem ipês onde cantam quero-queros blah blah blah. Na narrativa de Diniz, há organicidade e confluência entre a história narrada e a cidade. Golaço, na minha opinião.

Como bem afirmou Fernando Ramos (juiz da partida entre Crime na Feira do Livro e Fora de mim, de Martha Medeiros), a narrativa de Diniz é ágil e dosada com muito humor. A sátira ao gênero policial é deliberadamente escrachada, mas às vezes derrapa na infâmia, como no caso da cena em que a sensual delegada liberta o detetive de uma enrascada com uma Colt 45 (ó, céus):

Ligeira como uma serpente iniciando o bote, jogou-se no chão e ergueu outra vez a Colt. Rosquinha girou o corpo, mas ela foi mais rápida. Enquanto rolava no chão, entre um movimento e outro, Jacquet pôde ver que ela usava uma calcinha branca, onde, em preto, na altura do púbis, perfilava-se o olhar de um ursinho panda. (p. 121).

Perfilava-se o olhar de um URSINHO PANDA? Sem comentário.

Há também uma série de ditados populares divertidíssimos (por exemplo, “a prudência é a mãe do elefantinho de cristal”, p. 98 – levarei para a vida, Mestre), mas que, por vezes, parecem não se integrar muito bem às vozes das personagens. Em outras palavras, é claro que ditados como esse e outras expressões estão ali para conferir um tom informal e jocoso ao texto, mas às vezes soam meio inverossímeis. Mais ou menos o que acontece quando Jacquet, do alto de seus “tu achas”, “tu queres”, “tu dizes”, solta um “tem batata nessa chaleira, big friend” (p.33). Ok, ok, é uma sátira, mas às vezes soa forçado demais.

Por fim, acho que a narrativa não perderia em nada se a voz do narrador em terceira pessoa fosse completamente substituída pela voz do protagonista Jacquet. A simbiose entre os dois é tão grande que a relevância do narrador acaba sendo apagada. Melhor seria deixar o Jacquet contar a história, sem intermediários.

E por falar em vozes narrativas, a outra equipe, O gato diz adeus, conta com quatro. Para acessar a história, o leitor precisa juntar os fragmentos das falas-depoimentos de cada uma das quatro personagens – uma estrutura inspirada, segundo o próprio Laub, dentre outros textos, em Enquanto agonizo, de William Faulkner (isso soará tendencioso, eu sei, mas tal referência vale um gol. Então, gol). Essa inspiração é facilmente identificada, mas devo confessar que, durante boa parte da minha leitura, a única referência que vinha à minha cabeça era cenas de reality shows, nas quais os participantes ficam acusando uns aos outros, tentando justificar seus atos e repetindo incessantemente a frase mais irritante de todos os tempos: “eu sempre fui eu mesma” (assim mesmo!). Então, ponto para a forma, mas cartão amarelo para o conteúdo (ok, ok, “forma é conteúdo e conteúdo é forma, blah  blah blah”).

Procurei algumas resenhas sobre o livro de Laub, mas cheguei à conclusão de que a melhor leitura da obra está dentro dela mesma, na voz da personagem Claudia (que lê conosco o livro de Laub):

O livro não faz referência a nenhum fato histórico. Sérgio Fontoura [e eu diria, Michel Laub] não fala de política, de uma notícia do dia, de um programa de televisão, modelo de carro ou marca de cigarro. […] A impressão de que o romance foi escrito para ser lido assim, como se tudo o que relatasse ainda estivesse vivo. (p. 53). Como um texto que assume abertamente suas referências modernistas, O gato diz adeus se esgota na sua autorreferencialidade.

Enfim, pensando em termos futebolísticos, eu vejo essa partida mais ou menos como um jogo entre Bafana Bafana e Espanha. De um lado, o carisma, vontade e alegria de jogar; de outro, um esquema tático bem organizado e executado, mas chatinho. No fim, a técnica até vence, mas quem faz a festa da torcida mesmo é o time que joga alegre (assim mesmo)! Então, dou a vitória ao texto de Laub, mas cumprimento Diniz pela partida. Se serve de consolo, camarada Diniz (apesar da permissividade no tratamento, não, eu não conheço Diniz!), assim que terminei de ler seu livro, corri para o mercado para comprar todos os ingredientes necessários para fazer uma boa à la minuta. Pois (mais ou menos) como diz o narrador de Crime na Feira do Livro, Porto Alegre virou uma cidade de bifês. Nada como uma boa à la minuta!

PLACAR
O gato diz adeus 2 x 1 Crime na Feira do Livro

VENCEDOR
O gato diz adeus, de Michel Laub


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4 respostas para JOGO 29 – O gato diz adeus x Crime na Feira do Livro

  1. Fiquei com a sensação de que a ilustre Juiza gostou mais do livro que perdeu, tendo dado a vitória ao outro por privilegiar mais a forma do que o conteudo.

  2. Ia comentar exatamente isso – e mais cedo, mas tive algum problema com algum bug do WordPress e não consegui acessar a caixa de comentários. Gostei muito da resenha e da forma como a juíza concatena suas impressões e argumentos, mas no final fiquei com uma impressão desagradável ao ler esta frase:
    “No fim, a técnica até vence, mas quem faz a festa da torcida mesmo é o time que joga alegre (assim mesmo)! ”
    Durante a primeira edição do Sport Club Literatura no StudioClio, o Milton Ribeiro, que também já foi juiz deste campeonato, comentou, ao comparar Middlemarch, de George Eliott, e Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, que embora todo mundo goste, ame o segundo, sempre indica o primeiro em listas de “melhores livros”, como se tivesse vergonha de escolher um romance mais curto e que se lê com mais prazer em lugar de um calhamaço exigente (ainda que o primeiro também seja um grande romance).
    Me lembrei disso porque ao fim da leitura me pareceu que a juíza estava incorrendo no mesmo procedimento – parece haver gostado muito mais do livro que perdeu, mas no final escolheu dar a vitória ao que aparenta mais ambição técnica (ainda que a razão para isso não esteja explícita no texto). E ao fazer este comentário, não estou de modo algum dizendo que o romance vencedor deveria ter perdido ou vice-versa, apenas me parece que os critérios escolhidos pela juíza para dar a vitória a um em vez de outro não ficaram claros, e pelo seu texto parece que ela gostou muito mais do time derrotado – sem explicar por que sua decisão parece contrariar seu gosto pessoal, o que também seria completamente válido.

  3. paulo tedesco disse:

    Concordo com os dois comentários, o resultado me pareceu confuso, cheguei, logo após a leitura, a reler novamente, afinal não havia compreendido o resultado. É curioso como o que Carlos André aponta se repete com certa frequência na crítica. Seria preocupação excessiva com o que se acha que é literatura ou esnobismo intelectual de leitores privilegiados por poder “publicar” suas opiniões?

  4. Pingback: JOGO 40 – Bolero de Ravel x O gato diz adeus |

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