JOGO 2 – Cris, a fera x Minicontando

JOGO 2
(1º jogo do Grupo 2)

Cris, a fera,
de David Coimbra (L&PM / 2008)
x
Minicontando,
de Ana Mello (Casa Verde / 2009)

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JUIZ
Gustavo Faraon – É jornalista, mestrando em Comunicação – Linguagem e Culturas da Imagem pela UFRGS. Desde 2007, é editor do CineSemana, jornal semanal dedicado ao cinema e distribuído em salas de exibição do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Também é editor da Revista Turismo Gaúcho e do Diário do Festival de Cinema de Gramado, todos veículos da Nova Pauta Publicações. É um dos sócios e editores da Dublinense.

O JOGO

Há muito e nada em comum entre Cris, a fera e outras histórias, de David Coimbra, publicado pela L&PM, e Minicontando, de Ana Mello, da Casa Verde. Ambos os livros tiveram seus conteúdos originalmente publicados na Internet antes de ganharem edições em papel – David no site da editora e no ClicRBS, enquanto Ana publicou antes em seu próprio blog pessoal minicontosanamello.blogspot.com –, são igualmente pouco chamativos em suas concepções gráficas, em formato de bolso, com capas que não são exatamente belas, impressos naquele papel couché branco de irritar os olhos. Mas enquanto a obra de Ana Mello apresenta minicontos, David Coimbra nos brinda com uma porção de contos longos, ou mininoveletas por vezes divididas em mais de dez minicapítulos; enquanto Ana circula por diversos temas em suas narrativas ultraenxutas, David se demora bem mais, e diversas vezes, no mesmo assunto.

Decidi começar lendo o Minicontando – e morria de medo, confesso. Em primeiro lugar, porque acho que é um gênero diferente do conto em praticamente tudo: estrutura, intensidade, forma. É difícil, quase impossível compará-los. Injusto, pra dizer o mínimo. Depois, minha experiência com os minicontos nunca foi exatamente boa. Sempre achei algo muito aborrecido ter o trabalho de começar centenas de textos diferentes e vê-los acabar de súbito. Não é, via de regra, uma leitura prazerosa pra mim – e eis, no fim das contas, o que me interessa. Ademais, sempre achei incrível a autoconfiança de autores que matam no peito o desafio de ter uma centena de boas ideias. Uma centena!

Bom, é claro que Ana Mello não consegue (me pergunto se algum ser humano conseguiria). E mesmo quando as boas ideias surgem, acabam meio que sufocadas por uma característica que parece ser inerente ao miniconto e que me incomoda um tanto, que é esse caráter de “sacadinha esperta” que os encerra. Claro, é preciso dizer, não sei se há outra saída quando se pretende contar uma história em duas frases. Mas tenho que ser justo: mesmo com toda a minha má vontade para com o gênero – ou subgênero, como queiram –, acabei me divertindo e esboçando aquele sorriso meio involuntário durante a leitura de uns quantos contos. Bom, isso é ponto inequívoco para a autora. O resultado, por fim, foi melhor do que eu esperava.

Comecei Cris, a fera com a expectativa de fazer uma leitura rápida e fácil, apesar das 224 páginas entupidas com um texto espremidíssimo. Minha lógica se mostrou, desde o início, um fracasso. Demorei uma eternidade para vencer os sete contos sobre mulheres de arrepiar.

O leitor que se aventura por Cris, a fera é apresentando a um universo onde todos os lábios são carnudos, todas as pernas são longilíneas, todos os seios são rijos. E não faço aqui uma figura, esses são mesmo os adjetivos usados pra descrever todas as mulheres do livro, sempre os mesmos. David Coimbra fala de mulheres, em muitos sentidos, sempre iguais.

Todos os seus sete contos foram publicados originalmente na Internet no formato de folhetim, ou seja, um capítulo por vez, não sei com qual frequência. Isso explica, em parte, a impressão de que muitos contos têm como único objetivo terminar, chegar ao fim. Reviravoltas sobre reviravoltas só fazem transparecer a maneira burocrática com que, imagino, algumas dessas histórias foram gestadas, sem uma noção de seu todo, apenas sentando na frente do computador e simplesmente improvisando para cumprir compromisso profissional quase contra a vontade, parece. Talvez explique também a repetição incessante dos mesmos adjetivos e das mesmas expressões, pois escrevendo no piloto automático é de fato brabo alcançar uma linguagem mais criativa. Bom exemplo disso é o verbo tartamudear, daquelas que se usa uma vez por obra, senão uma vez na vida, mas que nos textos de David Coimbra se repete a cada três páginas.

Outros detalhes também ajudam na tarefa de tirar o leitor do sério: o uso de uma pontuação totalmente abilolada, sobretudo pontos de exclamação e interrogação acumulados em trincas e quadras, parece ter como objetivo dar alguma intensidade a certos momentos, mas não funciona; a frequência com que os narradores dos contos ficam a se fazer perguntas longa e repetidamente no meio das histórias, além de ser um recurso narrativo odioso, leva a crer que o autor mesmo não faz a menor ideia para onde está conduzindo a trama.

O que mais me desagrada no conjunto de Cris, a fera, entretanto, é a combinação de uma temática sexual – de fato, tudo só parece existir no livro em função do sexo – com uma linguagem extremamente pudica. O sexo move cada linha do livro, mas ainda assim não há bunda, não há pau, não há boceta, não há uma trepada ou um boquete sequer, só restam nádegas, partes pudendas, regiões internas das coxas e um monte de eufemismos que tentam de alguma maneira caracterizar atos sexuais sem ofender o mais recatado dos leitores. Esse esforço de não dar nome às coisas fica evidente pelas repetidas vezes em que o autor avisa: “Então, ela fez de tudo com ele! Tudo! Tudinho! Tudo mesmo!!!!” Tudo o quê, o leitor se pergunta? Sadomasoquismo, espancamento e humilhação? Fez xixi em cima do cara? Foi o contrário? Jogaram canastra? Ela cortou as unhas do pé dele?

Ler Cris, a fera, por fim, é como assistir a um filme erótico softcore, daqueles que mostram uma loira siliconada gemendo debaixo do lençol com um peito levemente escapando para fora. Um troço meio cacete.

PLACAR
Cris, a fera 0 x 1 Minicontando

VENCEDOR
Minicontando, de Ana Mello

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9 respostas para JOGO 2 – Cris, a fera x Minicontando

  1. Ana Mello disse:

    Que maravilha!!!!!! Hurrruuuuuu! A Aninha é demais!!! Obrigada torcida!!!!!

  2. Carmen Silveira disse:

    Resenhas excelentes e corajosas, sem meias palavras. Arbitragem extremamente honesta! Parabéns.

  3. JLM disse:

    é impressão minha ou ganhou o livro “menos ruim”?

  4. Rafael Bán Jacobsen disse:

    “Da-vi-di Coim-braaa! Da-vi-di Coim-braaa!” (cantando com o ritmo e a melodia da famosa introdução de “Seven Nation Army” do White Stripes).

    Caro JLM: joguei as runas, os búzios e o i-ching, e todos foram unânimes ao me dizerem que vai ser muitas vezes assim hahaha!

  5. Bela resenha, Gustavo, direta, pessoal e fundamentada. Acho que senti falta só de um pouco mais de detalhamento sobre o livro da Ana Melo. Talvez, dada a breve extensão dos textos, até de uma citação. Mas, apenas para continuar o debate neste jogo, te pergunto se a elipse que joga algumas coisas para a imaginação do leitor – que apontas como um defeito no livro do David, e entendo o motivo, está bastante clara tua argumentação – nao é, no fim das contas, um recurso válido da literatura como qualquer outro. Tua implicância com ela se dá apenas neste caso? Abraço.

  6. JLM disse:

    tá, lá vou eu provocar dnv… desculpem-me, é inevitável…

    a pergunta q apareceu p/ conversar comigo foi até q ponto o gustavo, sendo sócio da dublinense – tendo em vista q um livro publicado por ela perdeu a 1ª partida – pôde ser totalmente imparcial ao julgar 2 livros de outras editoras? ñ q eu o esteja acusando de algo, longe de mim, mas é uma questão q eu, particularmente, gostaria de saber se este fato chegou a pesar em seu julgamento, e se na sua opinião existe, em 2º plano, uma certa disputa ñ só na qualidade dos contos, mas tb entre escritores e, pq ñ, editoras.

  7. Gustavo Faraon disse:

    CAM: Obrigado. Claro que é um recurso válido. Acontece que, na minha leitura do livro, o recurso não parece ter sido usado como estímulo da imaginação, mas como escape do uso de uma linguagem franca (que muitos poderiam considerar obscena, é verdade) e da descrição/narração de cenas de sexo (algo que, sabemos, está entre o que há de mais difícil na literatura).

    JLM: A questão é pertinente. Bom, na verdade, eu arbitrei (acho que todos os juízes assim o fizeram) sem ter conhecimento do placar de nenhum outro jogo, pois o prazo que me foi solicitado para entregar minha resenha venceu várias semanas atrás – e devo ter enviado a minha há quase um mês, creio, não tenho certeza. Ainda assim, um componente profissional ou afetivo mínimo sempre estará presente, e acho que a lista de impedimentos que cada juiz teve que mandar para os organizadores visa justamente reduzir isso. Só posso falar por mim: encaro a arbitragem como uma opinião pessoal e intransferível, que em nada se mistura com a organização em que cada árbitro trabalha ou que ele eventualmente represente. Se não fosse assim, eu poderia, por exemplo, deixar de emitir uma opinião sincera sobre um livro que não me agradou pessoalmente, mas cujo autor é figura importante de uma empresa de comunicação cujo espaço necessito para divulgar os livros da minha editora. Ora, isso é mesquinharia!

  8. Marceloj disse:

    “Jogaram canastra?”

    Boa, Faraon!
    Ótima, aliás!

    [ou melhor: !!!, rá]

  9. Resenha sensacional. Franca e objetiva. Acabou revelando alguns dos recursos estilísticos que há tempos também me incomodam na literatura dem David Coimbra e que, comprovo por aqui, parecem estar presentes em diversos textos do autor.

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