JOGO 3 – A raiz dos louros x Play

JOGO 3
(1º jogo do Grupo 3)


A raiz dos louros,
de Faustino Machado (7Letras / 2009)
x
Play,
de Ricardo Silvestrin (Record / 2008)
——————-

JUIZ
Bruno Mattos
– Nasceu em Porto Alegre em 1990 e é estudante de jornalismo na UFRGS. Gosta de revisar originais, escrever e traduzir – mas prefere ler. Pra fugir um pouco do cotidiano de trabalho, ao invés de fazer uma análise objetiva, optou por uma resenha bastante pessoal.

O JOGO

Play e A raiz dos louros são livros bastante distintos entre si, e justamente por isso é difícil prever qual dos dois sai vencedor em um confronto direto. Para melhor compreensão, farei uma pequena análise de cada um dos dois livros em separado. Começo por Ricardo Silvestrin, pelo simples motivo de que foi o autor que li primeiro.

A capa é o que me fez ler Play antes de A raiz dos louros. Embora seja de uma cor estranha, funciona bem na relação com o título do livro. E, por um preconceito bobo, tenho dificuldades em aceitar como válida qualquer fotografia que envolva taças de champagne em primeiro plano – como é o caso da capa de A raiz dos louros.

O primeiro conto de Silvestrin, O filme, tem um texto simples, funcional e bem feitinho que, por algum motivo, me lembrou de outro livro de contos, da Rachel de Queiróz, que li na época do colégio. (É sempre bom citar uma escritora assim, logo de saída, senão corre-se o risco de ir parar em alguma dissertação de mestrado intitulado como algo próximo de “A discriminação sexista hegemônica na resenha de opinião literária”, e isso não seria bacana. Eu gosto de ficar de bem com todo mundo.) É claro que aquele livro era uma desgraceira de cunho folclórico, e esse primeiro conto do Silvestrin não – tem final bonitinho. Mas também é claro que aquele livro merece respeito, porque é um livro de desgraceira de cunho folclórico que começa com uma história de etê. Enfim.

Voltando ao Play. Em certo sentido, O filme anuncia o que está por vir: desde o início, Silvestrin já diz a que veio, e seu estilo salta aos olhos. É um projeto estético coerente, marcado por frases límpidas, curtas e de tom poético. Mas aí tem um problema: eu não gosto de frases curtas. Bem, nem é isso: frases curtas, tendo um bom ritmo (e elas às vezes têm), acabam acostumando, e depois de umas páginas já não se nota muito. O maior problema não é esse.

O maior problema é que eu não gosto de poesia.

“Ignorante, iletrado, analfabeto!”, dirão alguns. Bem, me parece simples. Tem gente que não gosta de futebol (eu gosto), tem gente que não gosta de artes plásticas (também gosto) e tem gente que não gosta de cerveja (adoro). Assim, tem também quem não se interesse por poesia – eu, por exemplo. Até leio alguma coisa: Fernando Pessoa é um que funciona, por exemplo. Acho gênio. Mas gênio, infelizmente, é exceção.

Não gostar de poesia colapsa a leitura de Play, e essa é justamente a sua maior falha.  O livro de Silvestrin tem unidade estética e temática, mas, na maior parte dos casos, os contos são rasos demais. Alguns trechos (serei justo: poucos trechos), inclusive, beiram o clichê. Um exemplo é o conto A estrada, que usa rodovias como metáfora para vida. Outro é esta citação, retirada de Preto no preto – uma mistura de drama juvenil com O processo, de Kafka: “Cheguei, no pior dos momentos de devaneio, a pensar que pudessem ter me colocado no lugar de mim mesmo sem que eu percebesse”.

Outra coisa que incomoda: na hora do vamos ver, os personagens de Silvestrin pensam demais. A sequência de contos Sobe, O atraque e Pois é mostram situações reflexivas de ao menos meia página cada, ocorridas em instantes milimétricos de pura ação. Não sei vocês, mas na hora da adrenalina eu acredito que ninguém pensa muito. Em um assalto, ou se passa o dinheiro ou se reage – o porquê da escolha é consequência de instinto, de memória inconsciente (acumulados/adquiridos antes), e você pode até entender o que aconteceu através de uma análise posterior. Durante, você só faz.

E os contos precisam ser realistas? Não, claro que não. Num livro escrito em 2009, inclusive, acredito que não devam. Mas, quando se trabalha constantemente com uma crítica (legítima) ao sistema social, as metáforas devem seguir lógicas (não necessariamente serem realistas, veja bem: apenas seguir lógicas) da vida real. Senão, a coisa toda fica meio esvaziada.

Antes do fim do livro, duas boas surpresas: Conversação e Circular são os dois melhores contos de Play. O primeiro, porque é um conto rápido, divertido e de boa execução. O segundo, porque tem uma estrutura bacana, outra boa execução e até alguns trocadilhos que funcionam (coisa rara). Fizeram, juntos, o único gol de Silvestrin. Pena que o conto homônimo, último do livro, quase marcou contra: é um fluxo de consciência de 40 páginas, completamente desentrosado com o resto da obra e, julgo eu, totalmente dispensável. Ainda bem que só entrou no fim do segundo tempo.

Balanço final: Silvestrin escorrega aqui, escorrega ali, mas não erra tanto assim. Das duas, uma: ou deveria tentar passos mais largos (e correr o risco de errar bem mais feio, mas com mais elegância), ou se dedicar mais à poesia. Afinal, o autor soa o tempo inteiro como um poeta escrevendo contos. E, quando a verdadeira vocação é pra poeta, o melhor mesmo é escrever poesia.

Sobre o livro de Faustino Machado, A raiz dos louros, não tenho tanto para dizer, e já peço antecipadamente desculpas por algumas digressões que alguns julgarão desnecessárias, mas isto fica mais lá pro fim. Vamos em ordem.

Em seu ensaio intitulado Conselhos para escrever um conto, o escritor chileno Roberto Bolaño diz: “Nunca aborde contos de um em um. Se uma pessoa fizer assim, honestamente, corre o risco de escrever sempre o mesmo conto pelo resto de sua vida”. Li essa frase na mesma época em que li a obra de Faustino, e foi impossível não fazer a relação.

Não é que A raiz dos louros não tenha unidade temática, ou mesmo estética. Tem ambas as coisas, e os contos são, sim, diferentes uns dos outros. Mas o subtexto restrito que caracteriza a maioria deles, somado a uma sequência de relatos desinteressantes sobre bares e casas noturnas, acaba fazendo com que a experiência da leitura se torne repetitiva.

O autor tem, no entanto, uma voz própria, justificada principalmente por um esforço de Faustino em dar boa sonoridade às frases. Percebe-se que cada uma delas foi reescrita diversas vezes e isso se mantém ao longo de todo o livro. É a sua maior qualidade, muito embora às vezes as palavras escolhidas soem pedantes. Mas o aspecto principal que me fez desgostar do livro de Faustino foi um certo excesso de frases.

É muito complicado falar na prática do excesso na literatura recente, pois sabemos que muitos autores o fizeram com propósitos específicos (Pynchon, Foster Wallace e o já citado Bolaño, para ficar nos exemplos da moda) e foram bem-sucedidos. É complicado também por causa da polêmica das oficinas literárias que, em alguns casos (supostamente – não falo por experiência própria), estimulam os alunos a escrever apenas o estritamente necessário. Não acredito em “escrever apenas o estritamente necessário”, simplesmente porque escrever não é necessário. Escreve quem quer. Mas a prosa de Faustino não se enquadra em nenhum destes dois casos. Trata-se de uma terceira situação, muito mais sutil: ele conta um pouco demais.

Um pouco demais porque, às vezes, dá detalhes que não contribuem para a fruição do texto, e também porque emite opiniões pessoais utilizando-se de camuflagem falha, ao invés de dispersá-las ao longo do enredo. Como consequência, alguns de seus personagens se tornam inconsistentes. Colocando de outra maneira: alguns diálogos me parecem falar diretamente pelo autor. Um exemplo, retirado de Triângulo vira risco, que conta a história de um homem que se vê mantendo a mulher e a amante como reféns de forma acidental: “Quem sabe, acalmar as duas, dialogar com a polícia e convencer que tudo não passa de um mal-entendido. Os políticos não usam de pretextos estapafúrdios para se livrar de apertos?”

Há ainda situações que pecam pela ausência excessiva de verossimilhança. Em Partilhas, que relata a saga épica de três adolescentes (um menino e duas meninas) que decidem fazer um ménage à trois, o garoto propõe a sacanagem da seguinte forma: “Sim estou falando sério […] Estou, porque a gente se entende desde o começo do curso e sempre fizemos trabalhos de classe juntos e sempre acertamos na nota juntos. Por que a gente não acertaria no prazer?”. Depois deste argumento, as duas colegas – lindíssimas e inteligentes, segundo a descrição – acabam topando. Ah, se a vida fosse assim.

É digno de nota o conto O revés, que me trouxe à mente O velho e o mar, de Hemingway. Nele, um garçom especializado em malabarismo com garrafas de whisky comete um erro certa noite e, partindo deste acidente, o narrador tenta criar uma reflexão filosófica sobre a condição humana – um pouco como faz Hemingway em sua novela. A diferença é que, no caso do norte-americano, a história se baseia na experiência de um velho pescador – um homem que já pressente a morte e aceita sua proximidade, mas, motivado pelo instinto e por um orgulho inconsciente, continua lutando pela própria sobrevivência. Em certo momento, o velho diz ao peixe gigante que lhe põe a vida em risco: “Nunca vi nada mais sereno, mais bonito ou mais nobre do que você, meu irmão. Venha daí e mate-me. Para mim tanto faz quem mate quem, por aqui”. E, em O revés, o que temos é um malabarista de garrafas de whisky, que “gostaria de entender por que a costumeira duplicidade de sabor e de cheiro do Campari se reduziu a uma sensação única de amargura” após quebrar uma garrafa durante o trabalho.

Mas essa foi uma comparação injusta. Faustino não é Hemingway, não tenta ser e, principalmente, não deve tentar ser. É louvável o esforço do autor baiano em criar um estilo próprio, flertando sempre com o noir. Só fiz a citação porque percebi um paralelo entre as duas estruturas, e Hemingway era um escritor que caçava búfalos montado apenas nos próprios pés. Temos muito o que aprender com um homem desses. Mas foi, de fato, uma comparação injusta. Até porque Hemingway não é parâmetro – é gênio. E gênio, infelizmente, é exceção.

Resultado final: A raiz dos louros 0 x 1 Play. Silvestrin não jogou bem e o jogo até foi parelho, mas Faustino não conseguiu marcar.

PLACAR
A raiz dos louros 0 x 1 Play

VENCEDOR
Play, de Ricardo Silvestrin

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6 respostas para JOGO 3 – A raiz dos louros x Play

  1. Carmen Silveira disse:

    Não li os livros. Mas aprendi com as resenhas e as citações de outros escritores (dos quais eu gosto muito). Mas Bruno leva, na minha opinião, pontos de vantagem a julgar as capas. Realmente, “A raiz dos louros” é muito anos 40-50 (se fossem taças mais redondinhas, seria totalmente anos 40-50) e, para isso, o texto tem que ter a mesma qualidade dos grandes daquelas décadas. A impressão para quem não leu os textos e ficou sem a menor vontade de lê-los é a de que foi um jogo duro, duro para o juiz. O juiz apitou tantas faltas que quase expulsa os dois times.

  2. Salvatierra disse:

    Outro jogo que dá a impressão de que ganhou o menos pior… Parece Sérvia e Gana!
    Pelo menos rachei o bico de rir a cada 5 linhas, ô deliça.

  3. Izze Odelli disse:

    Verdade, Carmen. Não parece ter sido uma partida muito agradável de se apitar (e assistir). Queria eu ter essa bagagem e paciência do Bruno para detalhar tão bem os livros. Fez um jogo cheio de faltas algo interessante de ler. E um estudante de jornal não gostar de frases curtas? Poxa… são tão boas (ou: deixa o texto tão fácil de ler). Mas realmente, só quando tem um ritmo bom. Mas mesmo preferindo frases curtas, troco todos os contos assim por um António Lobo Antunes.

  4. JLM disse:

    apreciei mto a opinião pessoal do bruno, pois além de revelar as suas impressões como leitor das obras tb deixa claro aspectos relevantes das suas próprias capacidades como juiz. pode até ser o jurado mais limitado até agora, mas é sincero. e se isso conta muito qdo queremos trocar figurinhas de melhores livros lidos, vale + ainda num julgamento literário.

    ah, uma dúvida: qual era mesmo o livro da rachel?

  5. Rafael Bán Jacobsen disse:

    “Outro jogo que dá a impressão de que ganhou o menos pior… Parece Sérvia e Gana!”

    Eu disse… eu avisei…!

  6. Bruno Mattos disse:

    Olá, JLM.
    O nome do livro da Rachel é “A Casa do Morro Branco”.
    Um abraço!

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