JOGO 6 – Entre facas x Fora do lugar

JOGO 6
(1º jogo do Grupo 6)


Entre facas,
de Liziane Guazina (Nova Prova / 2009)
x
Fora do lugar,
de Rodrigo Rosp (Não Editora / 2009)

JUÍZA
Cássia Zanon – Tem 36 anos, é jornalista por formação, tradutora literária por opção e profissional de internet por fascinação. Considera a leitura um ato basicamente emocional, e também tão natural e necessário como respirar, comer, dormir e acordar. Entre os autores que traduziu para o português, orgulha-se de poder listar Kurt Vonnegut, Herman Melville e Woody Allen.

TIME 1
Fora do lugar, de Rodrigo Rosp
UNIFORME: Livro pocket de 80 páginas com edição e capa bem cuidadas. O projeto gráfico é adequado, e a impressão tem boa qualidade.
ESQUEMA DE JOGO: 13 contos curtos que trazem como ponto em comum o estranhamento.
GOL DE PLACA: O conto Carrasco é o ponto alto do livro. Envolve o leitor de tal forma que faz com que ele consiga se sentir incomodamente dentro do corpo do personagem, até o angustiante desfecho.
BOLA FORA: Curiosamente, a grande bola fora do livro não pertenceria necessariamente a ele. Longo demais – em comparação com o tamanho dos contos – e racional demais, o texto de apresentação de Rafael Bán Jacobsen, A lógica do estranhamento, atrasa a chegada do leitor ao primeiro conto e pode afastar leitores potenciais que, como a juíza, tenham o hábito de escolher os livros que chegarão à sua cabeceira também pelos textos de apresentação.

TIME 2
Entre facas e mais alguns contos, de Liziane Guazina
UNIFORME: Livro de capa dura com ilustrações que por vezes parecem fora de lugar – sem referência intencional ao adversário. À primeira vista, lembra um pouco livros infantis editados nos anos 80. O formato dificulta a leitura.
ESQUEMA DE JOGO: 22 contos divididos em três grupos: Canivete, Punhal e Navalha.
GOL DE PLACA: O ponto alto do livro é o segundo conto. Apesar de não ser exatamente surpreendente, Léo e Lia deixa ao final uma sensação de que vem coisa boa por aí, com a curiosidade em relação ao que mais a autora é capaz de oferecer ao leitor.
BOLA FORA: Apesar de dar nome ao livro – ou justamente por isso –, Entre Facas decepciona. Há muito que se ler nas entrelinhas, aparentemente mais do que as linhas permitem compreender.

O JOGO
Com projeto gráfico mais moderno e atraente do que o competidor, Fora do lugar entrou em campo com alguma vantagem sobre o adversário Entre Facas. Que atire a primeira pedra aquele que nunca escolheu um livro pela capa. Com essa vantagem, Fora do lugar foi lido primeiro, ao contrário do que impunha o critério de ordem alfabética inventado anteriormente pela juíza.

Vencida a longa e excessivamente cerebral apresentação, Fora do lugar começa bem, com o conto de mesmo nome. Ali, como em outros contos – Carrasco e Linguista, com maior destaque – o texto de Rosp permite que o leitor se sinta na pele dos personagens e, sim, viva a sensação de estranhamento proposta pela capa que traz uma poltrona capitonê no meio de uma estrada.  Em outras vezes, porém – como em Coração da noite, Estranho espelho meu e Sala de espera –, a preocupação do autor com a forma estraga a experiência. E mesmo que se possa reconhecer o valor de algumas técnicas, o fato de elas estarem em evidência incomoda.

Em Entre facas, Liziane Guazina consegue manter a narrativa afiada ao longo de praticamente todos os textos. Depois de começar muito bem – com um Controle remoto com jeito de teaser e um Léo e Lia morbidamente divertido –, a narrativa cortante de Liziane por vezes perde o fio, como no conto que dá nome ao livro. Em A espera constrói duas histórias paralelas que parecem carecer de algo além da vontade da autora para estarem no mesma página. Perros infernales e Sob controle, no entanto, são perfeitamente cortantes e hipnotizantes.

Em vitória apertada, graças provavelmente ao maior número de chutes a gol do vencedor, eis o placar final: Entre facas 3 x 2 Fora do lugar.

PLACAR
Entre facas 3 x 2 Fora do lugar

VENCEDOR
Entre facas, de Liziane Guazina

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9 respostas para JOGO 6 – Entre facas x Fora do lugar

  1. Xerxenesky disse:

    Concordo com a crítica ao prefácio de “Fora do Lugar”. Nada contra o texto em si do Jacobsen, de modo algum. Só acho que aquele texto longo e pesado, colocado antes do livro em si, meio que parece tentar direcionar o leitor, do tipo “ó, preste atenção nisso, e naquilo”. Além do mais, um prefácio desses, antes do livro, também passa a impressão de “ó, um escritor sério está te garantindo que o livro é legal”.
    Resumo da ópera, acho que o texto ficaria muito melhor depois do livro, não antes. Um posfácio, não um prefácio. Terminou a leitura e que achar mais coisas no texto? Leia o posfácio! Tchãnns.

    Dito tudo isso, gosto bastante do “Fora do Lugar”, ignorando qualquer amizade pessoal com Rosp. Não li Entre Facas, porém.

  2. Como raramente leio as apresentações de livros sobre os quais eu possa ter que escrever, não li o texto introdutório do Jacobsen. Quanto à resenha, embora eu tenha gostado da forma como foi sistematizada a apresentação dos clubes, acho que eu queria ter lido um pouco mais das considerações da juíza com relação ao jogo propriamente dito. Gostei do texto, mas acho que poderia ser um pouco mais longo.

    • Também gostaria que a resenha fosse mais longa. Inclusive para entender uma regra aplicada pelo árbitro, na análise do Fora do Lugar, que não ficou clara: “a preocupação do autor com a forma estraga a experiência”.

      Não entendo no que a preocupação com forma possa prejudicar um conto ou livro. Pelo contrário, sempre acreditei que na literatura – e em todas as manifestações artísticas – a forma é parte fundamental do objeto. Acho problemático quando o autor NÃO se preocupa com a forma.

      É verdade que o cuidado com a forma, às vezes, pode ser excessivo, exibicionista, maneirista e etecétera. Mas, conhecendo os contos citados na resenha – especialmente Coração da Noite e Sala de Espera -, não vejo como dizer que sejam maneiristas, por exemplo. Acho a forma dos dois contos bastante funcionais e à serviço da história contada.

      Talvez se a resenha fosse um pouco maior, com trechos positivos e negativos, talvez assim desse pra entender melhor essa questão.

  3. Xerxenesky disse:

    CAM: essa sistematização foi proposta pela comissão. Eu, pelo menos, recebi um papel com ela, sendo que fiz igual na minha resenha (que ainda está por sair).

  4. Rafael Bán Jacobsen disse:

    Também fiquei à espera de “mais sustança”, mas enfim…

    De qualquer modo, duas observações tri pertinentes:

    1) Acho que avacalhei o livro do Rosp – hahaha! (Eu bem que avisei, Rosp!… Se bem que, se o pior do livro é algo que o autor não escreveu, é porque o cara é bom huhuhu!)
    2) Impressionante como o nosso texto sempre delata nossas reais características aos olhos mais argutos… Eis 3 características minhas que não posso negar: excessivamente racional, excessivamente cerebral e… excessivamente longo! hahaha!

  5. bruno schurmann disse:

    Sobre os comentários da arbitragem com relação ao uniforme (capa) dos dois times, acrescentaria o seguinte:

    Embora tenha ponderações para com o Entre Facas, especialmente com relação à escolha dos tipos, a sutileza na opção pelas belíssimas ilustrações no estilo ‘desenho cego’ foi muito feliz, pelo caráter de subjetividade e poesia das imagens.

    Já o Fora do Lugar, que faz uso de uma bela imagem e ótima solução gráfica, é muito literal e, portanto, um pouco óbvio.

    • JLM disse:

      ñ creio q a literalidade & obviedade de uma capa diminuam sua beleza. nem q a subjetividade & poematização a valorizem +. afinal, a arte ñ vai além destes critérios?

  6. Também senti falta de uma resenha de maior fôlego. Assim como o Reginaldo, não entendi o quanto a “preocupação do autor com a forma”, naqueles contos citados pela resenhista, poderiam tornar estragar a experiência de leitura. Até pelo fato de considerar especialmente um deles – Sala de Espera – um conto ótimo, tanto em forma quanto em conteúdo.

    Já sobre Entre Facas, que não li, acho pouco valorizante que se faça comentários tão breves sobre apenas cinco contos em um livro que contém vinte e dois. Se a capa já não me seduziu, nem mesmo sua pouco explicada vitória o fará.

  7. Amanda disse:

    Vou confessar pra vocês: mesmo tendo entregue a minha arbitragem (Entre Facas vs. Tempos Frágeis) bem antes dessa publicação, não quis ler essa arbitragem para não rolar aquela tentação de mandar um e-mail pra Lu Thomé mandando trocar mil coisas. Então me segurei.
    Agora lendo, percebi que minha arbitragem discorda totalmente da opinião da juíza com relação ao projeto gráfico de Entre Facas!! As ilustrações da Helena Jansen são lindas e o traço dela é poderoso! 🙂
    Achei que teve tudo a ver com a proposta da Liziane.
    Além disso, o conto que dá título ao livro (Entre Facas) foi um dos meus favoritos (dêem uma conferida no meu texto) justamente por ser um dos últimos e estar presente na seção mais “densa” do livro, que é a das narrativas escritas a navalhadas.

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