JOGO 7 – Guerrilha e solidão x Raiva nos raios de sol

JOGO 7
(1º jogo do Grupo 7)

Guerrilha e solidão,
de Valdomiro Martins (Literalis / 2008)
x
Raiva nos raios de sol,
de Fernando Mantelli (Não Editora / 2008)

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JUIZ
Fernando Ramos – É editor do jornal Vaia, idealizador e organizador da FestiPoa Literária. Esta tentativa de comentar o jogo, mais do que apitar, é dedicada ao narrador Silvio Luiz, cujas inesquecíveis frases aparecem no texto abaixo. E Fernando espera que os autores não chamem a polícia!

O JOGO

Acerte o seu aí, que eu arredondo o meu aqui.

Valdomiro Martins, em seu livro de estreia, Guerrilha e solidão, trata de um tema pouco explorado na literatura do RS: a vida dos negros gaúchos e seus descendentes. Infelizmente, eu, e talvez outro leitor deambulando (salve, Carlos Heitor Cony!) pela livraria Letras & Cia, não me sentiria provocado a, de súbito, estacar (sua bença, Machado de Assis!) e abrir e folhar a publicação, pouco atraído que estaria pela capa do livro. O título da publicação é interessante, mas a concepção da capa deixa a desejar. Ainda mais: o nome do autor está escrito em fonte no tom cinza sobre fundo preto, em menor destaque do que o da editora – destacada em fonte preta sobre fundo branco. Pelo amor dos meus filhinhos! (dá-lhe, Silvio Luiz!). Uma pena.

Mas seguimos em frente. Digamos que, estando eu na Palavraria, tomo o livro das mãos do Luiz Heron, olho, acho interessante o título, abro, leio a orelha do Rubem Penz, que diz coisas acertadas sobre o livro e provoca-me um tanto a curiosidade, vou adiante, folheio algumas páginas, vejo o título da apresentação (Algo de novo) do Assis Brasil, paro ali para ler (já esquecido de que estava conversando com o Luiz Heron), pois, afinal, um texto do Assis Brasil é sempre um texto do Assis Brasil. Essa apresentação começa dizendo que o livro é “um acontecimento a ser comemorado”, pois “o livro é único”, porque fala da realidade da “participação da etnia africana na formação cultural e no próprio éthos gaúcho.” Opa! Curioso, simbora conferir o primeiro conto então. Antes dele, há um texto curto (um parágrafo) do próprio Valdomiro dizendo, em resumo, que “é um livro de contos numa análise cáustica e crua do que foi a vida dos negros gaúchos e seus descendentes (…) num clima de suspense, tensão, esperança e honra, os contos levam o leitor a uma viagem pelos lugares mais longínquos da razão”.

Martins estreia publicando um belo livro. Guerillha e solidão, de fato, consegue captar muito da história e da vida dos negros do RS e transformar essa matéria de memória coletiva em literatura de boa qualidade. Morte e violência decorrem diretamente da escravidão ou da quase total falta de liberdade que afetou os negros gaúchos e descendentes desde a época dos Sete Povos das Missões até os primeiros momentos do século XX. Martins elabora muito bem as 18 histórias do livro, que são, em sua grande maioria, trabalhadas com rigor e cuidado, tanto no estilo (um tanto sóbrio) da linguagem rica em imagens e construções, quanto no ritmo cadenciado, porém ágil, das narrativas.

Talvez o maior desafio que Martins se impôs ou com o qual fatalmente teve de se deparar era evitar que os contos parecessem apenas narrativas que tratam de episódios históricos, o que não permitiria o voo literário. Não há a sensação de que estamos lendo fatos históricos transladados para a literatura. O que há é imaginação e criatividade rigorosamente colocadas a serviço de literatura de boa qualidade. Além disso, Martins é um ótimo construtor de enredo e de personagens. Há densidade na vida de seus personagens, e o autor consegue dosar e descrever os caracteres desses fortes personagens com precisão. Raras vezes cai no lugar-comum da condução do clímax da narrativa ou deixa seus personagens à mercê de estereótipos.

Olho no lance!

Destaco dois excelentes contos: O presente do velho e Lábios na escuridão. Este narra o momento em que o personagem Zacarias, escravo antigo e sapateiro na estância, estaria se despedindo da sinhá da estância  (“Vosmecê me ama?”; “Prometa que não vais fugir!” – diz ela) pois estaria se preparando para fugir (“Não agüento mais esta vida!”). Ele, porém, é pego, preso e chicoteado; o conto encerra-se assim: “Os olhos de Zacarias estão fechados. Poderia desmaiar, esqueceria a dor. Quem sabe esqueceria tudo. O corpo está gelado, os pés e mãos dormentes. A ardência nas costas ainda continua constante. Quando ele descer, as feridas se abrirão e a dor retornará com mais fúria. Escuta passos. Sente o cheiro floral, familiar a suas narinas. A respiração forte se aproxima de seu ouvido. Sente o ar quente. A mão fina e pálida lhe toca as costas, o peito. Percorre seu abdômen, desliza como uma serpente sorrateira. Chegam às suas coxas num vício faminto. A língua quente lhe degusta a orelha, a nuca. O calor da respiração. Escuta o sussuro: – Negro! Safado! Se me disser que vais embora outra vez… Zacarias abre os olhos. Gira o pescoço para o lado esquerdo e diz: – Não, sinhá. Nunca mais. Depois seu corpo amolece, sua face volta-se ao chão de terra vermelha e palha seca num silêncio profundo no labirinto de sua vida.”

No gogó da ema!

A falta de pão e liberdade sempre redundaram em morte e crueldade, e a história do RS confirma isso. Barbarismos, assassinatos, violentos embates de toda espécie traçam quase toda a trajetória da história gaúcha. O negro cativo, ou de escassa liberdade, viveu momentos trágicos e participou de todas as campanhas militares em terras gaúchas. Contra a cultura negra houve extrema violência física e espiritual, e ainda há (mais branda, é verdade).

Estamos todos (não importa a etnia) marcados por essa história. Ela está na corrente sanguínea da nossa cultura, e é preciso conhecê-la melhor, cada vez mais e sempre.

É de se destacar, também por isso, o mérito de um livro como este Guerrilha e solidão.

Rola o melão, novamente.

Fernando Mantelli escolheu dois dos temas mais explorados pela ficção brasileira contemporânea, principalmente por contistas: a violência urbana e os dramas dos relacionamentos. Raiva nos raios de sol é seu segundo livro. O primeiro, também de contos, Feliz fim do mundo, de 2001, ganhou o Prêmio Açorianos de Literatura, categoria revelação. Com Raiva nos raios de sol, Samir Machado de Machado levou também o Prêmio Açorianos, em 2009, pela autoria da capa. Samir – craque no design e competentíssimo autor de capas para publicações da Não Editora – captou parte da atmosfera do livro e provoca a curiosidade do provável leitor, que, ao deparar-se com o livro numa livraria, olha a imagem da capa e seu tratamento gráfico e fica imediatamente instigado a manusear o livro. Também o projeto gráfico de Guilherme Smee é notável e merece elogio.

Balançou o véu da noiva!

Encerrada a leitura de Raiva nos raios de sol, me vem à memória um verso de Cazuza: nos dias de frio é melhor nem nascer, nos de calor se escolhe, é matar ou morrer. Esse verso me lembra o trecho do Estrangeiro, de Albert Camus, no qual Meursault, personagem principal, em um delírio induzido pelo calor e luz forte do sol, atira num conhecido seu, matando-o e depois dando outros quatro tiros no corpo já assassinado. Por que digo isso? Os personagens do livro tem o mesmo alheamento do estrangeiro de Camus e o fatalismo do matar ou morrer. Eles não querem o se lhes apresenta, mas não podem agir de outra maneira.

Mantelli reuniu vinte narrativas cuja característica central é construir universos fechados, becos sem saída mesmo, e colocar aí os seus personagens coabitando e vivendo sob o signo do sol a pino. Esse signo do sol a pino apresenta-se nos dramas e impossibilidades de relacionamento, com os quais se debatem os personagens, e que, na maioria das vezes, resultam em mortes trágicas, grotescas formas de trocas de afeto e muita violência, física e psicológica. (A frase bíblica não há nada de novo embaixo do céu poderia ser reelaborada, no caso desse livro, para: só há fúria e crueldade embaixo do céu/sol).

A fúria, ou raiva como escreve o autor, é a motivadora das ações dos personagens na grande maioria dos contos. Como se não houvesse alternativa, há um fatalismo sempre presente: personagens subjugados pela fúria (e que cultivam essa fúria) reagindo de forma violenta e cruel, sem laivos de culpa moral ou possibilidade de refletirem sobre o inferno em que vivem.

O autor conduz as tramas dos contos de modo ágil e seguro, com linguagem direta e habilidade na construção dos diálogos. Seus personagens, na maioria das vezes não são nomeados (é “a loirinha”, “ele”, “o pai”, o “garoto”), são bem construídos e verossímeis – embora em um dos contos (Cão branco) a trama pareça absolutamente inverossímil. (Quê que eu vou dizer lá em casa, Datena?).

Contos curtos e ásperos, que possuem aqui e ali algum humor absurdo e trabalham o grotesto – à Ionesco ou Dalton Trevisan – e que me deixaram a seguinte dúvida: não teria Mantelli escrito um livro de histórias de amor? Não seria esse sol a pino uma desassossegada e fatal condição em que seus personagens estão circunscritos, cegos ou inconscientes, numa rotina constante de busca de afeto – ainda que afeto travestido de raiva?

Olho no lance…

O conto O pino do verão – um dos melhores do volume junto com Faca na garganta (Um bambu de cima do coreto!) – encerra o livro de forma um tanto lírica. O tom do conto é poético: na beira da praia, mãe, pai e filho tentam esquecer o outro filho (“o bebê”) que morreu – “Pai e filho se abraçam e choram. Vem uma onda e estoura sobre eles, mas Mário abraça o filho com firmeza e não deixa que a força da água os mova. Sob a sombra aguda do guarda-sol, Sofia os observa. E se entrassem no mar, os três abraçados, e o repuxo os carregasse e os levasse para o fundo? Seria o fim daquele verão, de todos os verões. Ela sai da sombra e vai até eles. Também quer companhia para chorar. É o pino e há raiva nos raios de sol. E, lá embaixo, estão eles, abraçados, esperando a chegada do próximo verão.”

É um fechamento surpreendente. E coerente com a proposta do livro.

Desconfio que Temor e tremor, de Søren Kierkegaard, tenha sido leitura inquietante para Mantelli. Para mim foi, e esse Raiva nos raios de sol também o foi. Angústia de tremor e raiva é o que espera os leitores desse livro.

Recomendo vivamente a leitura do Guerrilha e do Raiva e defino o placar de 2 x 2.

PLACAR
Guerrilha e solidão 2 x 2 Raiva nos raios de sol

EMPATE
Guerrilha e solidão, de Valdomiro Martins e Raiva nos raios de sol, de Fernando Mantelli

Søren
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12 respostas para JOGO 7 – Guerrilha e solidão x Raiva nos raios de sol

  1. Izze Odelli disse:

    RÁ, estão aparecendo livros bons, não?

    Dos dois competidores, só li Raiva nos Raios de Sol, que adorei (estava na lista de impedimentos, huhuhu). E gostei muito dessa resenha (grande Silvio Luiz!), sem falar que passou muito bem as características de cada um. Feliz pelo empate, enfim. =]

  2. Outro jogaço! Confesso que minhas pernas começam a tremer, pois esses dois fortes concorrentes são companheiros de grupo do meu Trocando em miúdos. Parabéns, Fernando Ramos, pela minuciosa resenha e pelo estilo saboroso. Foi um presente de véspera de jogo da Copa. Eu nem gostava de futebol, mas acho que comecei a gostar com o Gauchão. Efeito colateral, suponho eu.

  3. JLM disse:

    até q enfim um jogo q dá pra torcer tto pra 1 time qto pra outro. e q ñ foi narrado pelo galvão…

  4. Tenório disse:

    Bah, Fernando, você fez uma bela arbitragem. A resenha está muito bem escrita. Dá vontade de ler mesmo os dois livros. Parabéns!

  5. Xerxenesky disse:

    Das muitas coisas legais dessa resenha, merece especial destaque o fato de que sentimos o juiz lendo com prazer os livros.

  6. Que revelação, o Fernando Ramos rasgando o silêncio de editor e produtor cultural. O destaque dado aos contos Lábios na escuridão, de Martins, e O pino do verão, de Mantelli, dá a qualquer um vontade de ler os dois livros. Bem legal, também, a inserção dos bordões de Silvio Luiz. Acompanho, li todas as resenhas. Parabéns aos organizadores.

  7. Robertson Frizero disse:

    “Guerrilha e solidão” é, de fato, precioso e surpreendente para um primeiro livro.

  8. Fernando disse:

    A resenha foi ótima, expões trechos dos livros, o que é interessante, entretanto acho que estão se importando demais com a capa do livro (em que um uniforme influencia numa partida de futebol?). Pois é, Guerrilha e solidão não possui nenhum comentário negativo sobre contos ou frases, apenas um comentário inicial a respeito da capa. Ao contrário de “Fúria nos raios de sol” que teve algumas passagens contestadas. Acho que não poderia terminar empatado, pois desde quando uniforme é quesito de pontuação, comparamos a competição ao jogo de futebol e não ao concurso de moda ou escola de samba.

  9. Sensacional resenha. Porém, ao contrário do Fernando, acho bastante pertinente a preocupação que alguns resenhistas têm dado aos projetos gráficos do livro: são embalagens que ajudam no processo de interesse pelo mesmo, no primeiro impacto. E se uma das maiores intenções do Gauchão é chamar atenção para livros que – alguns – nunca viram o sol de uma resenha, penso que destacar a necessidade do cuidado de boas capas contribui para isto.

    Um livro que pareceu tão interessante quanto “Guerrilha e Solidão” pode passar incólume a olhos afeitos ao impacto visual, não traduzindo a possível qualidade de seu conteúdo.

    • Fernando disse:

      Meu caro Alessandro, o que eu quis dizer é que parece que o projeto gráfico é tão importante quanto a criação literária. A capa é mais propaganda, estratégia sem falar que nas inúmeras vezes não foi o escritor que a projetou. Falamos de criação literária se funciona ou não, por isso que existem prêmios para isso. A capa, o miolo e outros detalhes são trabalhos que cabem ao editor. Se levarmos isso em consideração, o escritor limitado em condições financeiras e que teve um livro publicado precariamente e cujo texto seja magnífico será desvalorizado frente ao um livro que não tem nada de original e por sua vez possui uma embalagem estilo “Código Da vinci”. Texto é texto, trabalho gráfico etc… deixemos para outra categoria.

  10. Fernando, não acho que os comentários acerca das capas, aqui no Gauchão, sejam tão demasiados que faça parecer que o projeto gráfico é tão importante quanto a criação literária. Só acho que, realmente, os resenhistas acertam quando chamam a atenção para capas que o leitor médio poderá ignorar solenemente em uma livraria. No mínimo, é uma benfeitoria que o Gauchão faz para que editores/escritores se atentem a isto e saibam da importância disto.

    Você mesmo reconhece a importância de um belo projeto gráfico, quando diz que “o escritor limitado em condições financeiras e que teve um livro publicado precariamente e cujo texto seja magnífico será desvalorizado frente ao um livro que não tem nada de original e por sua vez possui uma embalagem estilo “Código Da vinci””. Infelizmente, sim, o livro poderá ser desvalorizado no ponto de venda por um livro cuja embalagem seja “estilo Código Da Vinci”.

  11. jornalvaia disse:

    Obrigado a todos que comentaram e curtiram a minha leitura de Guerrilha e Raiva. Os dois livros são realmente bons, só apontei a bola fora da capa do Guerilha e um fiz um senão a um conto do Raiva (que me pareceu inverossímil, mas, óbvio, posso estar redondamente enganado e ter lido de forma equivocada ou não entendido o conto). Uma capa não põe um livro a “perder” ou a “ganhar”, mas pode evitar/instigar um provável leitor a (não) se sentir atraído por determinado livro. E um conto apenas num total de 20 contos não põe a “perder” o livro. Descontando uma e outra bola fora do Guerrilha e do Raiva, o resultado só poderia ser empate.
    Obrigado à equipe organizadora do CGL.
    Fernando Ramos

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