JOGO 8 – Das travessias I x Sinfonia às avessas

JOGO 8
(1º jogo do Grupo 8 )

Das travessias I,
de Sergio Napp (WS Editor / 2008)
x
Sinfonia às avessas,
de Waldomiro Manfroi (Letra & Vida / 2009)

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JUÍZA
Gabriela Silva – Nasceu em São Bernardo do Campo, SP, em 15 de agosto de 1978. Licenciada em Letras pelas Faculdades Porto Alegrenses de Educação, Ciências e Letras (2003), especialista em Literatura Brasileira pela PUCRS (2004), especialista em Leitura: Teoria e Prática pela FAPA (2005), mestre em Teoria da Literatura pela PUCRS (2009), atualmente doutoranda em Teoria da Literatura sob a orientação de Luiz Antonio de Assis Brasil. É também colunista do site Artistas Gaúchos.

TIME 1das Travessias, de Sergio Napp
UNIFORME: A capa é bem pensada, está de acordo com o nome do livro – uma estrada férrea lembrando a travessia de alguém. Limpa, tanto capa como contracapa oferecem ao leitor informações sobre o autor e sobre a obra. Internamente o livro agrada: letras de tamanho razoável, a página é bem utilizada, sem ilustrações.
ESQUEMA DE JOGO: O livro de contos não tem uma unidade temática que seja fio condutor de todas as quatorze narrativas que compõem o conjunto. Mas são contos que tratam de situações cotidianas de sofrimento, de lembranças, de relações entre indivíduos que se amam, que manipulam suas vidas em busca de respostas e soluções para solidão, carência, afeto, morte e vida.
GOL DE PLACA: Olhos de menino, segundo conto do livro é sem dúvida uma narrativa belíssima: poeticamente é contada a história de um dia na vida de um menino, sua visita à casa dos tios e a convivência com a mãe em coma e a avó, que lhe cuida. São ótimas escolhas de palavras para contar a história. Coerência, verossimilhança e um narrador em terceira pessoa são os fatores que fazem deste o conto mais significativo do volume de contos.
BOLA FORA: Potro ferido. O conto, apesar de bem escrito, causa certo mal estar no leitor, talvez pela situação das personagens ou ainda pelo final, que não fica bem claro.

TIME 2 Sinfonia às avessas, de Valdomiro Manfroi
UNIFORME: A capa é ótima: Rita Hayworth, uma excelente escolha. Quanto ao projeto gráfico completo do livro é bom, não deixando a desejar em nenhum aspecto.
ESQUEMA DE JOGO: O livro é um conjunto de contos que trazem aspectos da vida cotidiana de suas personagens: homens, mulheres, crianças, velhos, mortos e vivos. O que é recorrente em diversos contos é a visão, participação ou ainda presença de um médico. O que depois se percebe e entende-se ao ler a biografia do autor: ele é médico. O que torna muitas narrativas interessantes: é a visão de quem convive com os extremos da existência.
GOL DE PLACA: Dura lex sed lex – uma personagem precisa de uma coisa muito simples, mas passa por tanta burocracia dentro do serviço público que tem que controlar-se muito para não atacar as pessoas que lhe atendem. Engraçado e ao mesmo tempo crítico, a escolha narrativa do autor é excelente.
BOLA FORA: Alguns contos terminam de uma forma um tanto “não convincente” deixando o leitor em suspenso, curioso como se o narrador tivesse se esquecido de lhe contar alguma coisa.

O JOGO

Comecei minha leitura por Sinfonia às avessas, de Waldomiro Manfroi, da Editora Letra & Vida (Porto Alegre), publicado em 2009. O livro é uma coletânea de contos, vinte e dois ao todo, que contam diferentes histórias sob a perspectiva de diferentes narradores. São contos que relatam as diversas formas de ver o mundo, de lidar com a memória e com o cotidiano. Praia no inverno é a história de um homem que resolve ir à praia para pensar, justamente no inverno, quando está mais vazia. Lua de mel no Caribe conta sobre uma grande mentira, em que amizade e sentimentos de remorso e culpa se misturam a dúvida e desconfiança. A rua Euzébio é a rotina de um casal que nunca briga. O Rio de Janeiro continua lindo é uma narrativa contada por um morto em media res. Sinfonia às avessas, conto que dá nome à coletânea, é a vida de um homem e seu incômodo com os sons da vida moderna. Em O prefeito liberou é contada a história de uma cidade em que todas as irregularidades são liberadas pelo prefeito. Um homem que sofre de dores nos pés e não encontra um calçado que o ajude é o tema de Sapatos sob medida. Uma morta que conta sua história é o que acontece em Só um corpo. Murmúrios é a tristeza de uma personagem que está perdendo a visão. Um amor antigo que desperta novamente é o que nos conta o narrador em Naqueles fins de tarde. O melhor companheiro é sobre perdas e desconfianças da vida a dois. Um amigo que muda de aparência e talvez de escolha sexual é a questão de Bom te ver, Alfredo, um conto muito bem humorado. E quando retornamos à cidade que não visitamos há muito tempo e as pessoas que conhecemos não nos reconhecem mais? Logo a Amélia conta a história de Inácio, que deseja ser lembrado pelos antigos amigos. E que tal amores confusos, dúvidas sobre a vida e sobre a família? É o que passa a personagem Anselmo no conto Domingo no brique. Alameda Esperança é sobre um pai e um filho que poderiam se encontrar caso algumas abelhas não decidissem atrapalhar. Memórias que não são mais realidade, rios que se tornam córregos, casas que na verdade são taperas, é a história narrada em Terra natal. Dura lex sed lex é sobre a irônica burocracia do serviço público. Olhar de mãe é um texto que emociona: nenhuma mãe pode poupar seus filhos da vida. Fim dos pesadelos é sobre insônia e lembranças. Mãos felinas é sobre um objeto muito estranho retirado do estômago de uma menina… Já Partículas flutuantes é a memória de um médico, que lembra sobre os valores da profissão, das paredes da faculdade de Medicina, das fotos dos antigos mestres, toda a lembrança ainda vive ali, com as partículas flutuantes de pó.

Das travessias, de Sergio Napp, também é conjunto de contos, publicado em 2008 pela WS Editor (Porto Alegre). Um belo livro em que as histórias falam da memória, do cotidiano. São quatorze contos, sob diversas perspectivas de narradores bem construídos. São narrativas em que a poesia divide espaço com a prosa. Palavras trabalhadas, verbos bem escolhidos, sem clichês ou desalinho de ideias. Travessia é um conto belíssimo: amor e milagre, cotidiano e resignação são os temas da narrativa. Olhos de menino é a história de um garoto e todas as suas ideias em um dia na casa dos tios. Os velhos do andar térreo é uma história que se move com o inusitado: três idosos esperam por um acontecimento que quebre a rotina chata que levam. Em Moisés, o narrador fala sobre o medo que acompanha um menino, e que o incomodará pela vida afora. Os prazeres do sexo, aparentemente, é um texto engraçado, mas na medida certa se torna triste. O enforcado é sem dúvida um dos grandes momentos do livro: um menino na difícil façanha de convencer a mãe a deixá-lo ir a um show. O que será de nós sem você, papai? é sobre as nossas fugas da realidade, apegos excepcionais que temos a objetos e animais, onde escondemos nossos reais problemas. Uma chance para Deus é comovente, lida com as verdades absolutas que regem a miséria humana: a fome, a família e a urgência. A ausência do amor, a perda do companheiro, a saudade assustadora de quem parte, é assim que nos comove o narrador de Enquanto os homens não chegam. Potro ferido, por sua vez, é a história de um menino e a necessidade da atenção e do amor paterno. O morto dos olhos vivos é uma daquelas histórias que nos parecem contadas por nossos avós: um homem, uma morte e um povo que decide tê-lo por santo. Para não permitir que a vida se torne enfadonha, dois motoristas que rodam nas estradas criam maneiras de se distrair… É o que acontece em Jogos. Fábio é a personagem que dá nome ao conto: um casal de velhos e a saudade do filho, que passa um dia na companhia deles. Chega com o raiar do dia e parte durante a noite. Janine e o televisor é a história de uma mulher solitária, sem filhos ou namorado, que um dia recebe uma televisão…

O torna as obras tão próximas? São livros que reúnem histórias tão cotidianas, tão comuns, que nos passam muitas vezes sem nenhuma atenção. Memória, saudade, isolamento, solidão, amor, morte, vida, filhos, pais, irmãos, amigos… todos os substantivos abstratos e concretos que constroem a vida de qualquer indivíduo são contados com excelente destreza por ambos os escritores. A escolha de narradores, ora em primeira pessoa, ora em terceira pessoa, nos permite acreditar no que é contado. Mesmo quando a narrativa é demasiado triste ou fúnebre, remetemo-nos à humanidade que nos é inerente, adoçamos nosso olhar sobre o mundo. Ambas são obras em que as personagens passeiam por Porto Alegre, frequentam parques, ruas e lugares conhecidos.

Algumas dessas narrativas acabam de um modo confuso, às vezes deixando o leitor como que perdido entre as palavras finais, procurando por personagens que no espaço de duas ou três páginas o conquistaram. É o que ocorre em Sinfonia às avessas.

Em contraponto, os contos de Das travessias I são bem amarrados, deixam aquela sensação de que ouvimos a história e que desejamos ler o próximo conto. Música para os olhos.

PLACAR
Das travessias I 2 x 1 Sinfonia às avessas

VENCEDOR
Das travessias I, de Sergio Napp

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10 respostas para JOGO 8 – Das travessias I x Sinfonia às avessas

  1. Lu Thomé disse:

    Oi torcida!

    A Equipe do Campeonato Gaúcho de Literatura precisou mudar a ordem dos jogos do grupo 8 por motivos alheios à nossa vontade. Esperamos que o restante do Gauchão transcorra bem.

    E publicamos na seção Tabela de jogos a relação completa de partidas, juízes e datas. 🙂

  2. JLM disse:

    80% de resumo & 20% de resenha deixou a partida cansativa.

  3. Robertson Frizero disse:

    Gostei muito da arbitragem desta partida. Apresentou primeiro os contendores e justificou bem o placar final. Parabéns.

  4. Já dizia o Arnaldo, juiz bom é aquele que não aparece; da mesma forma, a boa resenha é aquela em que o resenhista não tenta aparecer mais que as obras em questão. Acho que a Gabriela conseguiu atingir esse ponto, mostrar os livros ao invés de mostrar-se.

    Gostei da arbitragem.

  5. hefestus disse:

    Eu também esperava uma resenha com um pouco mais de texto crítico e menos a enumeração do resumo. Com tanto espaço dedicado a resumir os livros, ficou me parecendo, como leitor, que a parte dedicada a embasar a decisão da arbitragem ficou superficial. Já que se teve todo o trabalho de resumir minuciosamente conto por conto, acho que a juíza poderia ter se dedicado a apresentar com mais vagar a argumentação.

    Mas ainda assim, gostei da resenha.

  6. Xerxenesky disse:

    Marcos: vou discordar completamente de ti. Não sobre a resenha da Gabriela, mas sobre resenhas de modo geral. A boa resenha é quando o juiz aparece, entendemos “de onde vem a opinião dele”, com que base ele está dizendo aquelas coisas. Toda crítica é subjetiva, então é bom entender o gosto e o raciocínio do juiz para entender como ele chegou àquela opinião. Fingir neutralidade não leva a nada. O juiz observa sempre de um ponto de vista.

    Futebol é totalmente diferente.

  7. tedesco disse:

    Achei também a crítica cansativa e enumeradora. Li como leio muita notícia de esportes e economia dos grandes jornais, aos saltos. O Xerxenesky tem razão quando diz que temos que entender o gosto do juiz para entender sua opinião de juiz, mas, se eu partir por esse ponto, o gosto de juiz é de uma brevidade de quem decididamente não gostou dos livros, logo, uma 0x0, se justificaria. De qualquer forma, a ideia está ótima, parabéns a todos pelo Gauchão. Estou usando em minhas Oficinas do Livro como web site a que o novo autor deve procurar ler antes de publicar.

  8. Buenas torcedores! Como todo juiz, técnico e time, estamos sujeitos a opiniões diversas. Considero que quis ser breve, permitindo ao leitor a visão panorâmica do livro. Não pretendia dissecar as obras. Mas sim mostrá-las ao leitor. Quanto a visão resumo x resenha. Preferi, como disse, um modo breve. Como antes, nos itens especificados eu já havia falado do que era gol de placa e o que era bola fora, achei que era repetitivo demais novamente esclarecer o que era bom ou ruim.
    Então, uma coisa não se ajusta…eu gostei dos livros, eu gostei de poder ver as diferenças entre dois autores que especificamente escolheram o gênero conto. E com bastante destreza falam de coisas do cotidiano. Achei que como juiz deveria ser mais calma e não ficar sorrindo aos jogadores…demonstrando minhas preferências. Mas valeu, é fazendo que se aprende…pelo menos minha mãe não foi xingada pela torcida!

  9. Djegovsky disse:

    Um dos jogos mais enfadonhos até aqui. Achei que fosse terminar 0 x 0

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