JOGO 9 – O homem perplexo x Um guarda-sol na noite

JOGO 9
(1º jogo do Grupo 9)

O homem perplexo,
de Edgar Aristimunho (Dom Quixote / 2008)
x
Um guarda-sol na noite,
de Luiz Filipe Varella (Dublinense / 2009)

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JUIZ
Antônio Xerxenesky – É autor do romance Areia nos dentes (Não Editora, 2008). Um dos criadores da Não Editora, é responsável pela revista de crítica literária Cadernos de Não-Ficção.

TIME 1: Um guarda-sol na noite, de Luiz Filipe Varella
UNIFORME: Que belo uniforme preto e branco! Quando fui convidado a formar parte do time de juízes do Gauchão, me pediram para marcar os livros que me sentia impedido a julgar – por amizade, inimizade, etc. Claro que o critério não correspondia à capa, então talvez algum chato apareça para dizer que estou elogiando esse livro porque a capa foi feita pelo meu amigo Samir. Não, não, não. A capa de Um guarda-sol na noite me encantou desde o primeiro momento que a vi. Mínima, marcante. É uma capa elegante. A foto é do próprio autor – boa foto. Por dentro, o livro segue a estética limpinha e mínima. Funciona.
ESQUEMA DE JOGO: Qual seria a unidade do livro? Não sei, até agora não sei. A impressão que passa é que o volume coleta “os melhores contos escritos” pelo autor, e não segue um esquema unificador. O mesmo posso dizer do estilo, que varia radicalmente de texto para texto. Varella chamou para o campo os jogadores em que confiava, mas sem se preocupar com o entrosamento entre eles.
GOL DE PLACA: O conto Assustando-a.
BOLA FORA: Os contos Deus seja louvado e Tio Vanderlei.

TIME 2: O homem perplexo, de Edgar Aristimunho
UNIFORME: Até tocar no livro, nunca tinha ouvido falar da editora Dom Quixote. A edição de O homem perplexo tem seus acertos e seus erros. O principal erro, para mim, está na escolha de fonte da capa, que sofre nas mãos de um photoshopismo grotesco. Na quarta capa, uma fonte burocrática que destoa de todo o resto. O miolo do livro, porém, compensa: traz desenhos de bom gosto que colaboram com os contos. Antes de cada “seção”, há manuscritos rabiscados, escancarando o processo de escritura dos contos. Massa.
ESQUEMA DE JOGO: Não “uma” unidade temática, mas várias: cada seção do livro traz um fio condutor. O mais marcante, no entanto, é a voz do técnico do time. Aristimunho tem voz própria, e cada conto apresenta o estilo bastante marcado do autor.
GOL DE PLACA: O conto Lajeado.
BOLA FORA: O conto O encontro.

O JOGO

Se alguém me perguntar do que se trata Um guarda-sol na noite, vou ter que responder que não sei. Ué, mas tu não leu o livro? Li, li. Então, qual é o problema, é mal escrito? Não. Vou tentar explicar.

Os textos que compõem o livro de Varella são “bem escritos”, no sentido de que não apresentam marcas de amadorismo. É um sujeito econômico, conciso na linguagem. Seus textos são devidamente trabalhados, e nenhum passa a sensação de que foi impresso sem ter recebido uma série de releituras.

A primeira coisa a se salientar na leitura de Um guarda-sol na noite é a total falta de unidade temática e estilística. O autor alterna entre textos de humor, textos macabros, textos dramáticos, textos nonsense como quem troca de cuecas. Há até um conto dedicado a Sergio Faraco (O retorno de Alberto Garcia), que busca uma veia mais regionalista. Este último passa a sincera impressão de ser um “exercício de oficina literária”, do tipo “escrevam um conto regionalista, para experimentar”. Falta a Um guarda-sol na noite um fio condutor que ligue todos esses exercícios de narrativa. Embora haja contos que mereçam destaque individualmente, no conjunto saem perdendo. É o caso de Promessa, conto brevíssimo e interessante que é eclipsado pelos “vizinhos” mais longos, que atiram para lados diferentes, senão contrários.

Pior do que a falta de uma unidade temática, talvez, seja a falta de um projeto estético. Não são só os temas que variam de forma indiscriminada, mas a maneira de contar. Isso quer dizer que todo livro de contos deve ser encaixotado em um projeto específico, em um só jeito de narrar? Não, de modo algum. O problema é a ausência de uma voz própria e forte do autor que dê substância às palavras. Parece que existem três escritores diferentes no livro e nenhum deles com uma personalidade marcante, distinta.

E, falando em substância, aí entramos em outra coisa que me incomodou na leitura: muitos relatos não passam do anedótico. As histórias são contadas sem maiores voos de linguagem ou pensamento e terminam num repente. Falta corpo ao texto. Quando começamos a conhecer um personagem, a história termina de forma brusca, às vezes com um final anticlimático (Alessandra e eu). Ao terminar um conto, parece que não havia muito o que pensar mais acerca do mesmo. Era aquilo que eu tinha lido e só, como uma cerveja aguada e sem o chamado “retrogosto”. Uma Polar, em resumo.

Ricardo Piglia, nas suas teses sobre o conto, define o gênero como um espaço textual onde sempre existem duas histórias, uma aparente e uma escondida. Hemingway era mestre disso (a famosa “teoria do iceberg”) e quase todos os contistas que admiro (Robert Walser, Roberto Bolaño, e outros) parecem seguir essa lógica pigliana à risca. Não tive a mesma sensação com Varella. Tio Vanderlei, que termina com um absurdo rompante de violência, por exemplo, parece ficar no puramente anedótico. O que podemos pensar sobre aquele conto?

Um guarda-sol na noite, como boa parte dos livros de contos que existem nesse mundinho, parte de situações do cotidiano para, daí, buscar uma sorte de transcendência. Até aí, tudo bem, é o mesmo mote de Dublinenses (curiosamente, o nome da editora), do Joyce. Os contos de Um guarda-sol não alçam voos, eles ficam no pedestre, no terreno. O conto Assustando-a representa uma rara exceção, com um desfecho que recheia o texto de estranheza.

Graças ao domínio técnico de Varella, Um guarda-sol não chega a fazer gol contra. Mas também não marca unzinho no time adversário. Um time morno, sem empolgação.

O homem perplexo, livro de estreia de Edgar Aristimunho, a princípio, segue um mote parecido ao também buscar uma intensa vida íntima de seus personagens no meio de ações cotidianas. As semelhanças não vão muito além. Dividido em cinco seções, o livro apresenta vários fios temáticos. A seção A escrita, que abre o livro, traz narrativas cheias de metalinguagem; em As taras atarantadas há uma recorrência do tema do desejo libidinoso. Tá certo, as coisas não são tão marcadas assim, as divisões se mostram bastante abstratas às vezes. Não obstante, passa a impressão de que houve um projeto ao conceber o livro, de que não é um amontoado de contos de oficina. Ironicamente, na biografia do escritor ao final do livro, consta que a obra seria, sim, uma coletânea de fragmentos. Não interessa. Interessa que O homem perplexo parece um livro planejado, e, mesmo se não fosse, a voz própria do autor (e isso todos os donos de oficina tentam ensinar – “encontre sua voz!”) tem força o suficiente para ligar fios soltos.

A escolha da seção A escrita para inaugurar a obra foi muito feliz. Nela, entrevemos o processo de criação do autor, o que, de certo modo, propõe uma estratégia de leitura para o resto do livro. O homem que cavouca uma lembrança no conto Lajeado (primeira narrativa do volume) para tentar escrever uma história e é levado pelos sentimentos para paisagens muito distantes representa uma estrutura recorrente dos contos de Aristimunho.

A escolha de epígrafes de O homem perplexo sinaliza muito do estilo que Aristimunho persegue. Clarice Lispector, Hilda Hilst e António Lobo Antunes. Dos três, pessoalmente, sou entusiasta apenas do último. De qualquer forma, na hora de ler um livro, tento abstrair preferências pessoais (ainda que a imparcialidade seja impossível e objetividade um sonho inalcançável). Trago isso à tona, porém, para constatar que Aristimunho digeriu bem essas “afiliações” que ele mesmo sinaliza. O livro não parece cópia malfeita, não. Pelo contrário: parece diálogo com esses autores e muitos outros não-citados, coisa que não senti na leitura de Um guarda-sol na noite, com a exceção de um breve aceno a Poe nos contos macabros.

Claro, nem tudo são flores. Transcrevo, para fins didáticos, o final de O encontro, conto que trata de uma mulher em busca do túmulo do falecido marido e que acaba se deparando com aquela que, fica sugerido, era a amante dele.

“Parada em frente a um túmulo simples, anônimo, desprovido de qualquer tipo de adorno ou inscrição, Ana deposita as flores amarrotadas, natureza morta, desmaiada e incerta, como suas mãos, como seus pensamentos.”

Então. Em minha opinião (agora escancaradamente parcial e subjetiva), o estilo de Aristimunho derrapa às vezes no sentimentalismo excessivo. Não só nesse trecho, em vários, vários outros. Entendo que faz parte do tipo de literatura que ele parece gostar, mas, para mim, falta comedimento, sobriedade. Os sentimentos estão muito à mostra, muito expostos. Falta Hemingway, em resumo. Ocultar os sentimentos dos personagens, demonstrá-los através das ações deles. Algumas tentativas poéticas também se mostram forçadas, como, por exemplo, a metáfora “olhos de quem ouvia feito cintilações do mar” presente no conto A cobrança. Ler uma coisa dessas logo na segunda linha dá vontade de dizer: “menos, menos!”

De qualquer forma, são, em geral, coisas pontuais, que não tiram a fruição de ler esse livro. Contos como Papai Noel trazem finais deliciosamente ambíguos, e um bom desfecho é essencial para o gênero do conto. A prosa de Aristimunho traz ressonância emocional, e quando funciona, funciona. Isso que importa no final das contas. E por esse motivo que O homem perplexo ganha essa partida.

PLACAR
O homem perplexo 1 x 0 Um guarda-sol na noite

VENCEDOR
O homem perplexo, de Edgar Aristimunho

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5 respostas para JOGO 9 – O homem perplexo x Um guarda-sol na noite

  1. Beleza de resenha, minuciosa, original e muito bem escrita. Compara as duas obras, cita outras, tira conclusões interessantes. Em relação a Um guarda sol na noite, concordo integralmente com as observações do Xerxenesky. Saber o quanto contar e o quanto esconder é para mim o maior desafio do escritor. Infelizmente ainda não li O homem perplexo, mas me interessei por ele a partir da resenha. Lindo jogo, parabéns!

  2. Rafael Bán Jacobsen disse:

    Comentários ao acaso e sem conexão alguma:

    1) Achei excelente a resenha do Antônio. Ele está de parabéns!

    2) Antônio escreveu: “um bom desfecho é essencial para o gênero do conto.” Eu tenho sido muito xingado, ultimamente, por advogar também aforismas como esse. Quando digo algo do tipo, costumo ser chamado de anacrônico, dizem-me que essas ideias são “tão Poe, tão ‘teoria do efeito’, tão século XIX!”.

    3) Antônio escreveu: “A escolha de epígrafes de O homem perplexo sinaliza muito do estilo que Aristimunho persegue. Clarice Lispector, Hilda Hilst e António Lobo Antunes” e ainda “Aristimunho derrapa às vezes no sentimentalismo excessivo. Os sentimentos estão muito à mostra, muito expostos. Falta Hemingway, em resumo.” Não li “O homem perplexo”, mas os 3 autores citados como prováveis “fontes de inspiração” são dos meus favoritos; logo, penso que vale a pena investir na leitura. De qualquer modo, aquilo que Antônio também apontou como “defeito”, o fato de “faltar Hemingway”, para mim, que compartilho de um certo excesso de sentimentalismo, soa como uma tremenda qualidade – e confesso esse hediondo pecado literário: acho Hemingway absolutamente intragável!… Peço aos nobres colegas letrados que me perdoem por isso jejeje!

    • Lu Thomé disse:

      Jacobsen,

      Concordo muito com o item 3 do teu comentário. O apontamento sobre as epígrafes e a resenha do Xerxenesky despertaram o meu interesse no livro do Aristimunho. Tirando, é claro, qualquer possibilidade de sentimentalismo exagerado. Eu gosto muito de Clarice Lispector, por exemplo, mas na dose certa. E levando em conta que ganhou o jogo, acho que O homem perplexo será uma boa aposta de leitura!

      • O que talvez esteja faltando nesta discussão: ninguém até agora lembrou que o resenhista tem seus próprios valores e verdades em relação à literatura, e é com isso que ele trabalha quando analisa a obra alheia. Por outro lado, o fato de não se gostar de Clarice, Hemingway, Poe não significa subtrair desses autores a importância que eles têm para a literatura. Se estamos aqui, todos nós devemos um pouco a eles. Até mesmo àqueles que a gente odeia.

  3. JLM disse:

    é, tô achando q todo escritor, novato ou ñ, q publique novo livro, deveria ter um xerxenesky no kit de primeiros-socorros, para ser usado nos casos de “onde foi q errei?” e “tem solução, doutor?”.

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