JOGO 12 – A raiz dos louros x Pó de parede

JOGO 12
(2º jogo do Grupo 3)

A raiz dos louros,
de Faustino Machado (7Letras / 2009)
x
Pó de parede,
de Carol Bensimon (Não Editora / 2008)

—————————-

JUÍZA
Nóia Kern
– Nos últimos 30 anos, atuou na área da cultura como coordenadora de eventos ligados ao livro, literatura e leitura, em instituições como Secretaria de Estado da Cultura do RS; Câmara Rio-Grandense do Livro e prefeituras municipais do RS. Jurada em vários concursos literários, tem atuação como leitora na avaliação crítica de originais e é palestrante em seminários, fóruns, encontros e cursos.

OS TIMES

TIME 1: PÓ DE PAREDE

UNIFORME: Capa e projeto gráfico de bom gosto. Dá prazer em olhar e revirar o livro para ver seus detalhes. Destaques: para capa que provoca a imaginação do leitor e logomarca da editora que também é desafiadora.
ESQUEMA DE JOGO: Três histórias que seduzem o leitor de imediato pelo inusitado da narrativa que flui espontânea, poética e provocativa. A escritora não subestima o leitor, ela o surpreende com uma linguagem aparentemente simples. Fica a dúvida: são três contos longos ou três novelas curtas? Enfim, são narrativas onde a “casa” – como habitação – tem um lugar específico e o pó de parede que subjaz nela dá a cor e o calor aos personagens, tendo vivido nela ou que estejam à procura dela. Os personagens são comuns, mas a maneira como eles são descritos interagindo, se relacionando e dialogando os torna absolutamente fascinantes em sua mesmice.Por ser o primeiro livro da escritora, fica-se a desejar ler os seguintes, pois Carol Bensimon não começa como principiante, e sim como alguém que domina a técnica literária – e mais que isso: é criativa, deixa de lado o lugar-comum, relata o cotidiano como se fosse a coisa mais importante do universo e surpreende o leitor a todo instante narrativo. Ainda: domina as palavras, sabendo usá-las para relatar o imponderável camuflado no dia-a-dia. Ainda mais: a surpresa pela presença de um bem-dosado senso de humor perpassando várias situações.
GOL DE PLACA: A narrativa Capitão Capivara
BOLA FORA: Não há bola fora.

TIME 2: A raiz dos louros
UNIFORME: A capa, projeto gráfico e título são comuns, talvez comuns demais, e não desafiam o leitor a descobrir o conteúdo do livro.
ESQUEMA DE JOGO: O livro A raiz dos louros é composto por 20 contos, e se sobressai a mesma linha de narrativa: os enredos são fracos e o fio condutor mostra uma sequência de fatos e ações banais. Mais uma vez (vide uniforme), o leitor não é desafiado, pois tudo o que acontece, acontece a todo momento na vida comum, e não vale a pena fazer dele literatura. Faltou o inusitado, a surpresa. A linguagem é cuidada, mas não apresenta nada de novo. Os diálogos são fracos e o encadeamento de episódios não chega a tecer uma teia interessante.
GOL DE PLACA: Não há gol de placa. O livro é uniforme, nenhum conto surpreende ou encanta.
BOLA FORA: Também não há bola fora. Todos os contos se parecem, segue-se uma linha direta de leitura do começo ao fim.

O JOGO

O jogo é totalmente favorável ao Time 1 pelas qualidades que apresenta. Por isso, o placar tão desigual. Pó de parede consegue enredar o leitor por várias características, mas o que se sobressai é o uso cuidadoso, exato e inteligente das palavras, a construção frasal, a linguagem escorreita, metafórica e simples. Deixa o leitor respirar, mas, ao mesmo tempo, o segura pela ânsia de ver a frase seguinte. O que nos prende, portanto, não é o enredo, é a linguagem. A construção dos personagens se faz à medida que eles vão falando ou pensando ou observando a vida e seus semelhantes.

Já no Time 2, nada nos surpreende, apesar da boa vontade do escritor em relatar fatos e ações, e aí está o problema: nada que é narrado é novo, tudo aquilo o leitor já viu, já pensou ou já tentou escrever. Os diálogos são fracos e os personagens, muitas vezes, são caricaturescos. Os finais, que poderiam nos surpreender nesse tipo de construção literária, também são falhos, pois a sensação que fica é o que o escritor não sabia como acabar a narrativa.

PLACAR
A raiz dos louros 1 x 5 Pó de parede

VENCEDOR
Pó de parede, de Carol Bensimon

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46 respostas para JOGO 12 – A raiz dos louros x Pó de parede

  1. Me orgulho de dizer que acompanho o trabalho da Carol Bensimon antes mesmo de ela publicar o primeiro livro. Ainda não li Pó de parede, mas ouvi sobre ele excelentes comentários — e de gente que respeito muito. Agora, da Nóia Kern, uma das melhores leitoras que conheço. O placar foi arrasador — 5X1 –, a primeira goleada do Gauchão. Acho que Carol merece. Ela veio para fazer diferença. Parabéns!

  2. JLM disse:

    olha o chocolate aí, gente!

    confesso q os embates contra o livro da carol são os q mais aguardei na expectativa. se há q se falar em torcida, estou com ela. mas nem esperava tto, puxa! 5×1? só acho q faltou a juíza explicitar um pouco os gols, por ex. pq do único gol do raízes. ou ela usou o critério de gol como indicativo de nota, tipo de 1 a 5? iria ser a 1ª a fazer isso aqui no cgl.

  3. Pena Cabreira disse:

    Taí uma boa oportunidade para ler a Carol, vou nessa.

  4. Rodrigo Rosp disse:

    Ahá!
    Finalmente alguém concorda comigo que CAPITÃO CAPIVARA é o melhor texto do livro!
    🙂
    Parabéns à Carol pela ótima apresentação!
    Abz.

  5. JLM disse:

    é impressão minha ou o pó de parede tá esgotado nas lojas online?

  6. Noia Kern disse:

    JLM,
    atendendo seu pedido explico o porquê do gol, um único, mas válido: não significa nota, mas meu respeito àqueles que têm coragem de escrever e publicar. Acho que quem consegue ir até ao fim de uma empreitada literária está no jogo, portanto, faz gol.
    Aproveito pra pedir desculpas por não ser discursiva, parece que os assistentes da copa gostam dos prolixos e eu, infelizmente, sou sintética. Deixo ao possíveis leitores o prazer de outras descobertas.

    • Cássia disse:

      Noia, acho que passaste teu recado. Eu também apanhei pela síntese. É que sou das que prefere ler os livros às resenhas… fazer o quê? 😉

  7. Cristina Moreira disse:

    Que exagero. Eu achei o Pó de Parede extremamente decepcionante pra alguém em torno de quem se faz tanto barulho como sendo um expoente da nova geração da literatura.
    Não posso falar do outro livro, porque não o li, mas ainda assim não consigo imaginar o Pó de Parede ganhando com 5 gols contra qualquer outro livro.
    (ok, bem, não posso dizer qualquer outro livro, porque sempre pode ser pior… mas, ah, vocês entenderam).

    • Samir disse:

      Oi Cristina,

      Não li o outro livro, mas digo o contrário: não consigo imaginar que o Pó de Parede não ganhasse de qualquer outro livro com que concorresse. Claro, gosto não se discute (se lamenta, diz um amigo meu), e diz-se que toda unanimidade é burra (então fico feliz que tu tenha uma opinião tão negativa sobre o livro, pra que não se acuse a Carol de ser uma unanimidade) mas, sinceramente, me custa a entender que alguém não consiga perceber a sensibilidade e a meticulosidade da prosa da Carol, que estão, sim, muito acima da média.

  8. Débora disse:

    A juíza disse, literalmente, que o que prende em Pó de Parede é a linguagem e não o enredo. Com razão, a linguagem é bela, e não se percebe trama ou história. Isto é, não há a mínima empolgação. Ao final do badalado livro fiquei indiferente, sem gosto algum, achando melhor não ter perdido meu tempo. Um exagero o placar.

  9. Fernando disse:

    Concordo com Cristina e Débora. Li as primeiras páginas e não me envolveu, se a linguagem é bela e não temos enredo está mais para o lirico que para a narrativa. A leitura não me conduziu nem me predeu. Tudo bem, como foi dito, gosto é gosto, porém acho que o Samir exagerou dizendo”não consigo imaginar que o Pó de Parede não ganhasse de qualquer outro livro com que concorresse.” Será? Pois é, gosto é gosto. Mas aviso: issa idolatria me cheira a kaka e Cristiano Ronaldo, mais marketing que talento.

  10. Noia Kern disse:

    Com respeito às opiniões quero “redizer” o que já disse, de outra forma, mas buscando o mesmo raciocínio: Carol é , a meu ver, é uma artista da palavra, pois ela a domina e faz uso da palavra, narrando as coisas simplórias da vida, descrevendo os mais desinteressantes personagens de forma tão inusitada e perfeita que a banalidade vira lirismo. Esse, pra mim, é o bom escritor. Fazer mágica com as palavras, com a liguagem. Os outros escritores podem criar histórias maravilhosas com personagens incríveis, mas de uma forma que qualquer pessoa com boa leitura, imaginação criadora e domínio da gramática poderia fazer: contar uma história, só!

  11. JLM disse:

    gosto pessoal ñ é sinônimo d bom gosto. acredito q os leitores evoluem com o tempo. a medida em q vão se familiarizando com as construções e técnicas literárias tendem a se deleitarem + com a forma q com o conteúdo. as gdes massas tendem a gostar d boas histórias, independente se bem escritas ou ñ, e estão os best-sellers aí para provar isto. mas quem já ñ viu um gde escritor criar uma obra-prima em cima d um evento banal: um fds de um adolescente (apanhador no campo de centeio), uma pescaria (o velho e o mar), e ttos outros q ñ me lembro no momento? por isso, oq uns valorizam em um livro está intimamente ligado ao seu momento pessoal como leitor. é claro q ñ estou generalizando radicalmente, ñ há q ser 8 ou 80, mas a tendência é sempre vc puxar + para o conteúdo em detrimento da forma, ou vice-versa.

  12. Fernando disse:

    Pois bem, minha cara Noia, ao meu ver esse “trabalhalho” da palavra, essa “profissão de fé” como disse Olavo Bilac, “mágica com as palavras” como você disse, são bons para poesia lírica. Desconheço obra literária no gênero em prosa que a personagem e seu drama, conflito, história etc tenham ficado em segundo plano. O trabalho com a palavra é estilo, trato, fio condutor por entre as vias da narrativa. Agora dizer que “qualquer pessoa com boa leitura, imaginação criadora e domínio da gramática poderia fazer: contar uma história, só!” acho que é forçar a barra.

  13. Claudio disse:

    Que me desculpem os admiradores de Pó de Parede, mas há muito exagero em torno da estreia de Carol Bensimon. Não li o seguinte, portanto não sei se e o quanto evoluiu, mas, a julgar o rebento inicial, não há razão para estardalhaço. Não é ruim, está longe disso, mas é banal, comum, não decola. Acho que as coisas tem que ser devidamente nomeadas, e boa parte da literatura gaúcha contemporânea não vale o papel em que é impressa. Não acho que seja o caso dela, de alguns outros da nova safra (ou nem tão nova asim…), de Galera a Xerxenesky. Mas que distância de um Coetzee ou Auster!

  14. Fernando disse:

    Acho que o JLM deu um conceito correto e convincente. Pegar assuntos banais desmembrá-los num subtexto, um ângulo cujo leitor difícilmente imaginaria, isso é uma boa narrativa. Quanto a linguagem, ela tem que ser flexível, como o JLM disse, não pode ser 8 ou 80, diga-se então uma obra na medida certa: narrativa e linguagem e perfeita harmonia.

  15. Lu Thomé disse:

    Eu estou controlando os meus dedos há horas. Talvez eu seja uma das comentaristas mais empolgadas do Gauchão. Mas, levando em conta a minha condição de organizadora e editora do site, controlo meus ímpetos de incendiar ainda mais a discussão.

    Mas vamos lá. Eu acredito no Pó de parede. E sempre acreditei. Ainda não fazia parte do grupo de editores da Não quando ele foi lançado. Assim, posso ter uma visão mais distanciada desse projeto editorial. Li o Pó no avião, voltando de uma viagem a São Paulo. De uma sentada. Lendo e relendo. E me impressionei pelo modo como a Carol traduzia uma situação comum/banal/cotidiana em literatura. Com propriedade de linguagem, excelência narrativa e história.

    Na realidade, o que eu quero falar é que essa discussão de forma e conteúdo é tão conservadora, e leva a literatura a uma questão de ponta de faca. Dos 8 ou 80 que o JLM falava. Onde ficam os autores contemporâneos? Acho que temos que relaxar com essa questão. E o Pó de Parede tem história. Pode não ser num modelo convencional. Acho que isso tem que ser considerado.

    E, Claudio, sobre o barulho do Pó? Fernando, sobre o marketing? Eu acho que hoje podemos acreditar na literatura de raiz, no escritor sozinho em sua casa, escrevendo, no calor ou no frio, e sendo reconhecido pelo público leitor. Agora, com a Internet, com as mídias à disposição e sabendo encontrar um caminho, o autor não se divulga se não quiser. Um dos méritos da Carol Bensimon foi saber se divulgar. E muito. Na realidade, acho que o livro dela pode ser contestado pelo leitor que assim julgar. Mas criticar o “barulho” sempre me parece ranzinza e retrógrado demais.

    Sei que isso é um ponto frágil. Mas como tenho falado inclusive em público sobre o assunto, achei que poderia me manifestar aqui.

  16. Lu Thomé disse:

    Ah, sim, voltarei agora para a minha condição de editora do site.

    Adeus. 🙂

  17. Claudio disse:

    Cara Lu, talvez não tenha sido claro o suficiente. O “estardalhaço” a que me referi não foi o de uma possível autodivulgação (que nem sei se houve). Autor tem que fazer o que pode para se colocar, e deve. É um mercado competitivo, e o que ele puder fazer para conquistar espaço e reconhecimento, beleza. Acho que ela foi incensada em demasia, talvez por ter conquistado uma bolsa importante, talvez pelo doutorado em Paris. para mim, pouco importa. Meu ponto é o da qualidade. Não sustentei que ela fosse uma fraude. Não é, acho que concordamos todos. É como elogiar Mario de Andrade pelas ideias que teve e não conseguiu realizar plenamente. Ideias são ideias, realizações são realizações. Acho que falta muito para que se considere Pó de Parede isso tudo.

    • Lu Thomé disse:

      Entendo, Claudio.

      Mas acho que este “estardalhaço” é uma mistura de muitas coisas também. Analisando mais racionalmente: a Carol trouxe uma onda do novo, do jovem na literatura. Foi apoiada e lançada por uma editora com perfil jovem, com projetos diferentes. Tudo isso acabou sendo ressaltado pela imprensa durante quase um ano. Bastante ressaltado.

      E o impulso projetou muito a Carol. Acho que não se pode reduzir o livro pela repercussão que ele teve. Porque são coisas separadas. A mídia escolhe o que vende, o que vai render. E os leitores também. Podemos levar séculos debatendo esse quesito em Paulo Coelho e Dan Brown, por exemplo. Larsson eu não deixo falar, porque gosto muito (hehehehe).

      Do ponto editorial, é um projeto de sucesso. E o retorno que ele tem dos leitores é muito bom. Rendeu inclusive sua nova publicação pela Cia das Letras. Minimizar um livro por “tudo isso” que aconteceu com ele é igual a ignorar um outro livro, mesmo potencialmente bom, simplesmente porque ele não saiu em nenhum lugar. Acho que é isso que estamos tentando burlar, divulgando muitos livros por aqui.

      Agora, estamos acostumados a ver uma ampla divulgação de livros ruins. E, claro, sem esquecer de amplas tiragens e vendas dos mesmos livros. No meu caso, eu fico feliz que, neste cenário, um livro como o Pó rompeu um pouco essa barreira e recebeu todo este “estardalhaço”. Mesmo que não seja unanimidade entre os leitores. Mas, hey, isso é muito normal. 🙂

  18. Claudio disse:

    Minha discordância, Lu, se refere ao tal “novo”. Não acho. Literatura, para mim, é boa ou ruim. E não acho que a dela seja assim tão indiscutivelmente boa. Nisso discordamos. Tudo bem. Nem acho a editora tão boa assim. Não quero ofender, não me entenda rápido demais! Mas acho que, fora Carol e Xerxenesky, não há nada de novo sob o sol. As coletâneas são fracas, outros livros não apresentam nada de muito original… e nem precisariam, para se impor. Ser um Erico Verissimo – fazer uma ficção quadrada, previsível, mas bem feita, correta – já estaria ótimo. Não acho que seja o caso. Há pouco disso na literatura gaúcha, apesar de muito visível no cenário nacional.
    Todo mundo ou quase é publicado pela Record, mas quem, excetuado Altair Martins, Cintia Moscovich e alguns outros que posso contar nos dedos de fato são bons? Pode discordar de mim, podem, mas o que acho que é importante é uma discussão que trate de qualidade. Não é só gosto pessoal que vale. Há maneiras de se aferir qualidade. Mas derivo para outros assuntos, mais amplos. Outro ponto, para encerrar: ser publicada pela Companhia das Letras, no caso de Carol Bensimon, engloba mais do que isso. Ela ganhou uma bolsa, Funarte, o que faz dela alguém mais visível no meio do monte de feno. Vou repetir: nunca sustentei que fosse ruim. E não li Sinuca. Acho só que nã é tudo isso, como acho que o Galera de Dentes Guardados não era (depois, sim). E a discussão – diálogo, pontos de vista conflitantes – é sempre saudável.

    • Sergio disse:

      Oi, Claudio.

      Se tem uma coisa que concordo com você é isso da supervalorização do “novo”. Na minha visão de literatura, é melhor ser bom que ser original. Aliás sempre achei que inventar demais (em termos de forma) pode servir para mascarar a falta de conteúdo (não que isso seja uma regra, apenas uma tendência).

      Se tem uma coisa que discordo, é que a produção de literatura gaúcha não tenha qualidade. Só para citar os livros da Não Editora, temos os contos do Alexandre Rodrigues (Veja se você responde essa pergunta) e do Rodrigo Rosp (Fora do lugar), que têm uma mistura interessante entre qualidade e criatividade. Isso sem falar na prosa consistente do Rafael Bán Jacobsen. Uma leve simetria é um texto que impressiona pelo talento e pela maturidade. Se você ainda não conhece estes livros, faça isto.

    • André disse:

      “Literatura, para mim, é boa ou ruim.”

      Ah, vocês gaúchos e esse hábito de polarizar (e simplificar) tudo em dois extremos.

  19. Lu Thomé disse:

    Ok, Claudio.

    Opinião defendida. Agora, tirarei o meu “time” de campo. Porque, embora não tenha me sentido ofendida, bateu uma sensação de que talvez eu esteja dialogando com um espelho… e falando só do lado que eu conheço, do lado que eu vivencio. Porque sequer posso trazer exemplos da tua experiência (como leitor? Como escritor, talvez?), porque não sei com quem falo. :-/

    Valeu por alguns comentários. Mas sempre preferi de outro jeito. No entanto respeitarei a tua privacidade.

  20. Paula disse:

    Ainda não tive a oportunidade de ler os livros da Bensimon, mas achei interessante que, assim que alguém se atreveu a escrever que não gostou do livro, várias outras pessoas acabaram trazendo outros “problemas” (ou ” outras problemáticas”, não sei o que ficaria melhor aqui) que talvez fossem mais latentes do que se notava. E acho que não por ser o livro da Carol, mas porque em algum momento isso se tornaria uma discussão, inevitavelmente. Acho que acabou sendo no livro da Carol pelo resultado ser tão “chamativo” (que goleada!), mas também pela mídia (seja a “auto-mídia” ou a mídia de editora) mais forte nas coisas que ela escreve. A Carol tá mais na chuva que os outros, me parece, a tendência é se molhar mais.

    Enfim, não acho que falei algo importante, mas é de se refletir que a Não Editora (que foi citada por alguém ali em cima) tenha leitores tão mais conservadores do que me parece ser a proposta da editora (nota-se que alguns comentaristas são inteirados dos autores publicados pela Não).

    • Bruno Mattos disse:

      Olá, Paula.
      Acompanhei a discussão de perto, principalmente porque este é o único grupo do qual li os três livros. Queria só entender o porquê da expressão “tão mais conservadores”, porque não achei que ela se reflita nas opiniões apresentadas aqui. Ficou parecendo que o simples fato de defender um livro do qual se gosta é um ato conservador…
      No mais, não acho que exista um estereótipo de “leitor da Não Editora”. Ontem, inclusive, estava discutindo com um amigo que, creio eu, não existe um lance de “fidelidade à editora”: as pessoas vão até livrarias e compram livros pelos quais elas se interessam, não títulos aleatórios da editora X.
      Bem, era só pra inflamar um pouco a discussão.
      Um abraço!

      • Paula disse:

        Me referia ao comentário da pessoa que falou “Ser um Erico Verissimo – fazer uma ficção quadrada, previsível, mas bem feita, correta – já estaria ótimo. “… não acho que é essa a proposta da Não Editora. Sempre me pareceu que os autores estão mais interessados em experimentar (e correr um risco maior de errar) do que fazer a “ficção quadrada (…),mas bem feita” que me parece agradar a maioria do público.

  21. Amanda disse:

    “apesar da boa vontade do escritor” ah, fala sério!

    De todos os jogos que li até agora considerei esse o menos interessante.
    Porém, agora fiquei morrendo de vontade de ler “A Raiz dos Louros”, justamente pelo fato de ter sido tão severamente criticado pela juíza. Porque, convenhamos, dizer que um livro é “fraco” não quer dizer absolutamente nada… pelo menos não para mim.

  22. Claudio disse:

    Ia encerrar minha participação, mas comentários me fizeram voltar atrás. Gostei do que Sergio escreveu, sobre a “supervalorização do novo”. Não é preciso fazer pirotecnias, embora muitos achem que sim. Debaixo de algumas experimentações se esconde, sim, falta do que dizer, em muitos casos (não é o caso de Altair Martins).
    Li Uma Leve Simetria. É um dos bons autores que não citei, por razões de espaço.
    Sobre a tal “polarização”. Tudo se dá por contraste, uma coisa é boa em comparação com outra que não é. Então está respondido.
    Lu, desculpe, mas não entendi.
    Também boiei quanto aos leitores “conservadores”.

  23. Carol Bensimon disse:

    Eu não ia me manifestar, para que as pessoas se sentissem mais livres para dar a opinião sobre os livros e sobre o confronto (ainda que elas não se sintam tão livres e muitas optem por nomes falsos, desconfio eu), mas decidi entrar na roda pra falar algumas coisinhas.
    A primeira delas é que essa discussão forma x conteúdo parece demasiadamente simplificada. Não conheço bom autor que não se preocupe com a forma.
    Se pegarmos dois grandes nomes da literatura que nada tem a ver um com o outro, Proust e Hemingway, vamos chegar à conclusão que os dois se preocupam com a forma, de maneiras distintas, ou mesmo opostas. E até um texto que aparentemente não tem preocupação com a forma – feito de um jorro, sem lapidação – tem justamente NISSO a sua proposta formal. As histórias por si só não dizem como o leitor deve se sentir; é o modo como se conta que determina isso. E quem acha que a forma é tão secundária não devia estar fazendo literatura. Até porque provavelmente essa pessoa não pensa que pra fazer um filme “é só sair filmando” e que pra gravar uma música “é só sair cantando”.
    De qualquer maneira, acho que muitos são relapsos quando falam de maneira tão raivosa à respeito dos autores que querem “inovar”. Até porque eu, sinceramente, não sei onde estão esses autores. Que eu saiba, ninguém está por aí dizendo que inventou alguma coisa, e nenhum texto contemporâneo brasileiro que eu li nos últimos tempos me pareceu inovador/
    ilegível. As pessoas estão preocupadas em fazer literatura e pronto. Se alguém discorda disso, por favor, cite nomes e trechos.
    Falando agora especificamente do Pó de parede, e do que disseram dele nos comentários: longe de mim querer que todos gostem do livro, mas algumas críticas não fazem o menor sentido. Dizer que não há nenhuma história acontecendo, por exemplo, só pode sair de quem não leu o livro. Temos um suicídio, máquinas patrolando um terreno, adultério, um escritor traído, uma jovem que se veste de bicho de pelúcia. Sinceramente, se isso não é TRAMA, eu me pergunto o que seria um livro onde “acontecem coisas”. Até porque, não custa lembrar, 90% das resenhas do gauchão apresentaram os concorrentes como sendo “um livro de contos que trata de situações do cotidiano”. COTIDIANO.
    Por último, seria bacana se alguém mostrasse onde estão as supostas invencionices formais do Pó de parede.

    • O final do comentário da Carol veio ao encontro do que me fez pensar a primeira metade dessa discussão: a resenhista e uma turma toda resolveram dizer em tom de elogio que o Pó de Parede “faz literatura do banal e do cotidiano”. Daí fiquei pensando: mas, rapaz, que vida emocionante tem estes sujeitos em que o cotidiano se faz de ir trabalhar num hotel de luxo, vestido de capivara ou se tem amigos cometendo suicídio. Confesso que em nenhum momento entendi esse tentativa do elogio da “prosa do banal”, da “literatura do cotidiano” feito ao Pó de Parede. Pode-se falar diversas coisas a respeito do livro, menos isso. E me parece que até por aí que surgiu a discussão da forma em oposição ao conteúdo. Pra exaltar a forma, resolveram dizer que o conteúdo era banal, como se uma coisa fosse excludente da outra.

      Bueno, mas tem uma coisa muito legal nessa discussão toda: são as boas perspectivas que vem pela frente pro Gauchão. Mais comentários sobre o livro e o resultado dos jogos e menos sobre o tamanho da resenha. Me parece que à medida que livros mais lidos começarem a se enfrentar, vamos começar a encontrar mais e mais discussões sobre as obras em si, o que. afinal de contas, é um dos grandes objetivos do certame.

  24. Porra, é duro ler alguém dizer que nada acontece em Pó de Parede. Não há apenas história, há conflitos bem montados também. Não há apenas história, há significados nela. É claro que há a forma, mas ela trabalha para a história, não?

    Bem, sou um admirador antigo do livro: http://miltonribeiro.opsblog.org/2008/11/25/po-de-parede-de-carol-bensimon/

    Abraços.

  25. Fernando C. disse:

    Concordo com Cristina e Débora. Ouvi falar muito sobre a Carol e acabei comprando o livro e lendo durante uma aula de Sintaxe! Não sei, o livro tem pontos positivos sim, e a linguagem é um deles. Mas no fundo, ele não deixa nada. O enredo é vazio.
    Acho o placar extremamente exagerado. Carol Bensimon é mais um exemplo de “escritores” que sairam das oficinas do Assis Brasil e viram a esperança universal da literatura contemporânea. Ridículo! Existem várias outras escritoras que deixam a Carol no chinelo, ex: Tatiana Salem Levy. Prosa fantástica, linguagem arrebatadora! Aí sim justificaria este placar…

    Enfim, o “Sinuca embaixo d’água” ainda não li, e como muitos bons escritores publicaram livros neste primeiro semestre, vai ficar para o final do ano.

  26. Claudio disse:

    Não disse que Pó de Parede trata do banal, nem que nele nada acontece. Disse que o livro, na minha modestíssima opinião, não é tanto quanto alardeiam. E não disse que era ruim. Quem gosta do livro que faça sua torcida, quem não gosta que também diga. gente, é só opinião. Que todos têm o direito de ter. É de grande civilidade o que estamos fazendo.

  27. A discussão está interessante, a meu juízo, pelo que tem de pitoresca. A dicotomia conteúdo-forma é algo prosaica. Confesso que eu mesmo sou tentado a todo instante a usá-la, com o objetivo de facilitar o que quero dizer, embora numa discussão que se quer mais consistente, simplificar nem sempre é o melhor caminho.
    No século passado, mais precisamente na década de 70, meu amigo Luís Antônio Giron e eu conversávamos sobre música quando tasquei um “conteúdo” (ou um “forma”, não importa), e ele retrucou na hora: “conteúdo da forma ou conteúdo do conteúdo?” Ok, 1 a 0 para ele. Há poucos dias — ou seja, mais de 30 anos depois –, tuitando sobre Avatar com o Antonio Xerxenesky, de novo lancei mão desse conceito ultrapassado e redudor, e ele me rebateu com igual ênfase. Meus dois interlocutores estavam certos.
    E hoje recebi pelo e-mail algumas considerações sobre arte atribuídas a Walter Benjamin. Uma delas cabe como uma luva nesta discussão: “Na obra de arte, conteúdo e forma são um só: teor.”
    My two cents, como dizem os gringos.

  28. Samir disse:

    A discussão é boa, de uma forma ou de outra. Aliás, são quase quarenta comentários até agora – recorde nesse Gauchão, até onde vi – em torno do livro da Carol. Isso com certeza é um mérito por si só.

  29. Oba, quanta discussão! Achei curiosa a sobre F & C. Numa obra de arte plenamente realizada o conteúdo está se transformando em forma a todo instante e a forma está se transformando em conteúdo igualmente a todo instante. Qualquer coisa assim escreveu há mais de 200 anos um leitor chamado Hegel. Mas quando a obra apresenta problemas, ou ainda não se desprendeu de todo de uma estética que procura superar – e não estou me referindo aos livros resenhados – a contradição entre F & C aparece e é plenamente abordável. A projeção da Carol como escritora e o número de gols recebido naturalmente dividiu as opiniões, não podia ser diferente, e penso que ela abordou bem o aspecto inovação. P. ex., meu amigo Altair Martins escreveu um romance incrível utilizando-se de vários narradores, cada um com sua linguagem, mas me surpreende que se queira tanto destacar nela a inovação como justificativa da qualidade da obra. Um exemplo? Rubem Mauro Machado, escritor gaúcho que se deu bem no centro do país, em Um fato lamentável (Jacarés ao Sol) realizou algo semelhante, de forma admirável, aqui mesmo em Porto Alegre, 1976. Em suma, quem se esforça e procura simplesmente escrever bem a sua história acaba encontrando os caminhos, o resto é pose.

  30. Claudio disse:

    Sim, Sidnei, não é preciso pirotecnia nenhuma. Rubem Mauro – que é alagoano, não gaúcho! – serve de exemplo, em A Idade da Paixão. O livro ao qual você se refere não conheço. Uma retificação: não condenei TODA a literatura gaúcha. Acho que há muita gente ruim ou superdimensionada e que não fazemos a devida triagem. Como se ser gaúcho fosse “a priori” algo a se destacar. A poesia gaúcha, para sair da prosa, é de muito bom nível – seu Quichiligangues, que passou quase batido, deveria circular mais. Dall’Alba, Santi, Paulo Becker, outros, também.
    Pouco me importa forma e conteúdo. Quero o que considero bom.

    • Cláudio, sim, A Idade da Paixão (1985), o romance que o celebrizou e lhe rendeu o Jabuti. Jacarés ao Sol (1976), seu segundo livro, no entanto, é a fonte primeva daquele tipo de narração (2ª ed., Ática, 1978). Tens razão, nasceu em Maceió, mas viveu, trabalhou e publicou por aqui. Obrigado quanto ao Quichiligangues.

  31. Meu caro Claudio,
    teus comentários foram claros, objetivos e bem fundamentados. Posso não ter concordado com todos, mas respeito — e muito — a opinião de quem sabe o que está dizendo e o que quer dizer. Creio, contudo, não ser necessário que expliques tantas vezes a tua posição. Desde o primeiro comentário, para mim ela é cristalina.
    Abraço.

  32. Claudio disse:

    Para mim foram sempre cristalinos, Luiz Paulo. Para muitos, não. Outras discussões derivaram de múltiplas interpretações que, a meu juízo, não estavam no que expressei. É bom ter um leitor como você.

  33. Lourenco Kaercher disse:

    Ta certo, admito, também não gostei muito do Pó de Parede – apesar de, já ali, ver talento não escritora.
    Mas pergunto, será que a maioria das pessoas que comentou ai em cima leu o Sinuca Embaixo D’água?
    Pergunto isso porque gostei bastante do segundo livro dela, e acho que, se a repercussão em torno da autora, pelo primeiro livro, foi um pouco exagerada, o segundo confirma, e justifica, todo o barulho em torno da Bensimon.
    Fica o convite, leiam o Sinuca e depois voltem aqui pra dizer o que acharam. Aposto que terão uma impressão diferente da que tiveram do Pó de Parede.

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