JOGO 13 – Aroma hortelã x O silêncio dos amantes

JOGO 13
(2º jogo do Grupo 4)

Aroma hortelã,
de Joselma Noal (Movimento / 2008)
x
O silêncio dos amantes,
de Lya Luft (Record / 2008)

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JUÍZA
Lu Thomé
– É jornalista e coordena projetos de assessoria de imprensa no Estúdio de Conteúdo, atendendo autores e editoras como Não Editora e Dublinense. Participou das antologias Ficção de Polpa – Volumes 1, 2 e 3 (Não Editora).

TIME 1: Aroma hortelã, de Joselma Noal
UNIFORME: De saída, a capa de Aroma hortelã remete para um certo ambiente feminino que permeia todo o livro. Pela escolha de alguns efeitos gráficos, aplicados diretamente na imagem, diria que não é a capa mais bonita do universo. Mas, ok. Sempre busco outros detalhes ao pegar o livro em minhas mãos. No meu “teste particular de livraria”, Aroma hortelã passa: o verde e os elementos em destaque chamam a atenção. Pena que o projeto gráfico não acompanhe. Achei simples e com uma mancha desproporcional. Há que se valorizar livros com grandes margens brancas.
ESQUEMA DE JOGO: Joselma Noal apresenta 58 contos. Um número significativo de textos. No entanto, sem impacto no volume do livro, pois a maioria deles possui uma ou duas páginas. Há somente um conto de três páginas. As narrativas falam sobre a condição humana, os relacionamentos. Mas partindo sempre de um ponto de vista de ruptura e mudança: a mulher que decide se separar, o sobrinho que começa a sentir atração física pela tia mais velha, a bailarina que se apaixona pelo rapaz da confeitaria, o reencontro de antigos colegas de escola, o homem apaixonado pela mendiga…
GOL DE PLACA: O conto Malditos olhos que não choram.
BOLA FORA: O conto A peruca.

TIME 2: O silêncio dos amantes, de Lya Luft
UNIFORME: A capa de O silêncio dos amantes é mais misteriosa, mais insinuante. Combina com o tema, embora ache que o “amantes” do título e os lençóis reduzam um pouco o significado de “relacionamentos” apresentado nos contos. Mas, mesmo assim, fico indiferente a uma imagem como essa. Certo, confesso: nem percebi que era um lençol na primeira vez que olhei. Falta de aptidão gráfica ou visual minha, talvez. O projeto gráfico é mais clássico, e o papel off-white deixa o livro mais bonito.
ESQUEMA DE JOGO: O esquema de jogo é similar ao do concorrente desta partida: O silêncio dos amantes também fala da condição humana e dos seus relacionamentos, com os mais diversos perfis de pessoas. Mas não traz a visão otimista e de mudança. Lya Luft apresenta, em 20 contos, a deterioração provocada pelo silêncio, pela perda e pelo arrependimento. Em quase todas as narrativas, a trajetória de dor dos personagens não tem volta. Pode-se viver muitos anos, mas a ferida não será curada ou esquecida. O filho que sumiu, o outro que é rejeitado por ser anão, o marido que se suicida, a mulher que cria asas e abandona a família.
GOL DE PLACA: O conto O menino do mar.
BOLA FORA: O conto O fruto do meu ventre.

O JOGO

A juíza apita no Gauchão de Literatura. Assim que o cronômetro dispara, a equipe auxiliar do campo carrega mesa e cadeiras e as coloca no centro do gramado. Desistam, amigos. Esta não será uma partida de futebol. Eu e as autoras tomaremos chá.

Joselma Noal entra em campo sem exibicionismos. Valoriza a louça simples, mas limpa. Comenta sobre a toalha de renda e pergunta se teremos bolo de mel ou biscoitos. Afinal, um tira-gosto sempre acompanha o chá. No fim das contas, uma única exigência: só beberá chá de hortelã, para dar um sabor verde- esperança a tudo. Lya Luft chega com mais torcida e barulho. Explica, logo de cara, que tomará seu chá em xícara de porcelana. Mas não se importa que não tenha camomila, erva cidreira ou jasmim. Funcho? Ok! Desde que nenhum chá contenha açúcar.

Você, leitor, que não gosta de livros em primeira pessoa com narração interior ou persegue com tochas o monstro chamado “literatura feminina”, feche esta janela do computador agora e vá procurar outra arquibancada. Você, outro leitor, que está curioso para saber da vida alheia, não se importa com essas classificações literárias e quer mesmo é saber de gente contando história de gente, apanhe a cadeira e sente, pois já vou servir o chá. Mas não se entusiasme. Dependendo da sua expectativa, a bebida poderá ter passado do ponto. Muito quente ou muito fria.

Aroma hortelã e O silêncio dos amantes se parecem. Ambos tratam do ser humano e de seus relacionamentos com o mundo e com as outras pessoas. Na construção do texto, os dois livros também se assimilam. Há excessos, clichês e narração em terceira pessoa focalizada no personagem por todos os lados. Razão pela qual, é bom explicar agora, decidi me ater a aspectos mais gerais das obras. Uma resenha gigantesca, recheada de deslizes narrativos (apontando isso, aquilo ou aquela outra coisa), além de trabalhosa, seria enfadonha para a torcida.

O livro de Joselma Noal traz personagens que querem se libertar. A intenção é mudar, transgredir, alterar uma rotina de vida. A autora se concentra na trajetória comum e urbana, mas não evita de fazer as mesmas classificações. As mulheres são traídas pelos maridos e apáticas e, de uma hora para outra, resolvem largar tudo, começar novamente uma vida até então apagada, morna e abandonada. O mundo assume um viés inocente (até mesmo nas descrições sexuais) e, mesmo com a tragédia e a dor, as personagens seguem com a vida e se rendem à mudança. Tudo melhora ou fica diferente. Pela concisão dos contos, a autora também economiza nas descrições e no desenrolar da história, reduzindo ações e, muitas vezes, recorrendo para o recurso de enumerações. Fica um gostinho de quero mais ou o que será que teria por trás disso.

Por exemplo, o conto Passarelas narra a visita de uma modelo à sua terra natal, durante as festas de fim de ano. A vida de Carla é apresentada para o leitor através de uma lista de itens:

A sua beleza é, e sempre fora, perceptível. Aos três anos já era modelo, manequim. Fotos, desfiles, holofotes, microfones e brilhos, sempre foi assim seu mundo.

E a festa transcorreu bem com muita bebida, comida, conversa, gritaria, troca de presentes e abraços, muitos abraços.

E como será que ela se sentia? O que ela tinha de diferente de outras modelos? Por que eu leria um conto da Carla e não da Gisele Bündchen? E o que tinha nessa festa? Como era essa casa?

Estes exemplos também servem para trazer outro aspecto de Aroma hortelã: mesmo com diferentes profissões, sendo homens ou mulheres, todos os personagens do livro se parecem. Eles não têm rosto, não têm características únicas e definidas, e se valem mais pela história/vida que querem passar. Ok, isso vale também. Mas em contos tão curtos, fica a sensação de que muita coisa poderia ser acrescentada para tornar os textos mais únicos e carregar a marca autoral de Joselma

Fica a impressão de que a autora está nos contando essa história por contar. Não acrescenta aqueles detalhes picantes ou aquele ineditismo. Ouve-se a história e se diz: “Está certo”.

Além disso, e para não me estender, um detalhe final. Em alguns dos textos, me surpreendi ao encontrar os mesmos personagens nos contos seguintes. Por exemplo, em Bailarina, Marina vai para a aula de balé, um pouco contrariada. Quer ir à confeitaria e conhecer o menino que vê de longe, no balcão. No conto que se segue, Vestido branco, Marina aparece de novo, numa metáfora sobre a morte e a aceitação. Em seguida, O balé e a confeitaria traz Marina e, finalmente, Antônio, o rapaz dos doces. E eles se apaixonam. Em outros três contos, O túnel, Palavras e A antiga estratégia da sedução gastronômica, os mesmos personagens continuam aparecendo. Com algumas lacunas de tempo, e com dicas sobre o que está acontecendo com eles. Não farei spoiler, contando o final de tudo. Mas o que vale é o seguinte: por que estes textos não estão reunidos? Por que não formam um único texto? Pensando na hipótese de que a autora prefere escrevê-los assim, por que não foi feita uma sugestão na edição, para que eles parecessem sequenciados? Não estranho a brevidade ou a continuidade dos textos. Estranhei que não foi realizado um trabalho para diferenciar textos que traziam a mesma história de outros avulsos.

O livro de Lya Luft apresenta seus personagens a partir de uma dor, de uma perda. A linguagem é mais trabalhada em O silêncio dos amantes, mas o clichê retorna de outra maneira. Na maioria dos textos, algo acontece que provoca o sofrimento e a purgação. O filho que some, a filha que ignora a mãe, a mulher que engravida misteriosamente e dá a luz a um verme, o pai que foge das águas por medo de ser sugado pelo rio. Aí acontece: a pessoa some, morre, foge… A vida continua e, mesmo depois de alguns anos, ninguém esquece nada e é atormentado pelo fato. Novo conto, e tudo novamente: acontecimento, purgação, dor, vida que segue e “nunca mais me esqueci que…”

As histórias contadas por Lya Luft doem mais. Não são tão inocentes quanto as de Joselma. Mas, se não trazem a esperança do novo, acrescentam um outro elemento que incomoda: a moral. Em alguns contos, ela cita uma conversa com terapeuta ou psicanalista. E foi essa a sensação que eu tive: parece que o narrador/personagem está sempre tentando avaliar/diagnosticar e atribuir uma moral.

Como no conto O que a gente não disse, no qual a personagem não percebe o sofrimento do marido e o seu posterior suicídio.

Porque em tantos anos, tantos acomodamentos, tantas pequenas brigas e tantas descobertas em comum, os filhos, as férias, as doenças e as alegrias, e as contas a pagar, a gente nunca falou no mais importante – que eu agora não tenho mais como saber.

No conto Adria, também achei esta característica.

Reli incontáveis vezes aquelas cartas vindas de um outro mundo, no qual talvez eu tivesse sido feliz com ele. Algumas impressas, outras à mão, dezenas delas. O homem da minha vida estava morto. Uma parte de nós fora desperdiçada, sem volta, sem remédio. Errou ele? Errei eu? Essa dúvida, pungente dádiva, foi seu último presente para mim. As cartas não eram para olhos profanos. Não interessavam a mais ninguém. Queimei tudo na lareira da sala, quando não havia ninguém em casa. Cartas em fundos de gavetas podem ser perigosas.

Conforme expliquei no início e retomo agora, não será possível julgar todos os pormenores dos dois livros. Então, como terminar este chá?

Bom, Joselma Noal soube, no conto Malditos olhos que não choram, traduzir muito bem o sentimento de luto, de ser acordado durante a noite e receber a notícia da morte de alguém. Entre pensamentos confusos e perdidos, a vida segue atordoada.

Os meus pêsames, os meus sentimentos ditos repetidas vezes se parecem ao bom-dia automático do vizinho de quem sequer ela sabe o nome. Os meus pêsames, os meus sentimentos são ladainhas do acaso e não emocionam. Sente raiva de si mesma pela frieza que a acomete. Sente vergonha da secura dos seus olhos.

Concedo um gol para Aroma hortelã por isso.

Entre contos bizarros e esquisitos, alguns com violência gratuita, um dos textos de Lya Luft me chamou a atenção. Embora não concorde com o desenvolver da história, o conto O anão é um dos que traz o maior potencial. E me fez pensar realmente naquela situação. Do sujeito “cagado, não parido”, rejeitado pelo pai, e obrigado a conviver dentro de casa como se tivesse uma estatura normal.

Foi meio de canela, batendo no corpo sem querer. Mas o equilíbrio da partida me faz dar este gol para Lya Luft.

A torcida não empolgou. A água do chá estava um pouco fria na minha opinião. E, seguindo a linha das autoras, também acabei fazendo uma resenha mais subjetiva e generalista do que técnica. Mais superficial do que apontando itens e erros. O chá de Joselma podia ter um pouco menos de hortelã e mais água. E os sabores escolhidos por Lya foram aprovados. Mas a xícara fez tudo esfriar rápido demais. O resultado não poderia ser outro que não o empate.

PLACAR
Aroma hortelã 1 x 1 O silêncio dos amantes

EMPATE
Aroma hortelã, de Joselma Noal e O silêncio dos amantes, de Lya Luft

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19 respostas para JOGO 13 – Aroma hortelã x O silêncio dos amantes

  1. Carmen Silveira disse:

    Excelente resenha. Jogo muito bem apitado. Com ou sem chá, a crítica saiu ganhando.

  2. Samir disse:

    Prevejo que não haverá polêmica dessa vez. Ambos os livros parecem um porre.

    • Joselma Noal disse:

      Oi, Samir. Te convido a ler o Aroma Hortelã, antes de traçar qualquer comentário! Um abraço, Joselma Noal

      • JLM disse:

        epa, calma lá, dona!

        restringir os comentários somente aos q leram os livros é expulsar daqui gde parte dos comentaristas. se a autora ñ curtiu o comentário de alguém q leu ou q ñ leu é uma coisa, mas ñ queira regular a liberdade de se falar oq quiser, mesmo q seja um achismo ou qq asneira, pois é direito de todos, sejam comentaristas ou escritores.

      • Samir disse:

        Oi Joselma,

        Não leve a sério o comentário mal-humorado de alguém que não leu o livro (eu, no caso).

  3. Joselma Noal disse:

    Gostei de tomar chá com a Luciana Thomé e a Lya Luft. Bacana participar do Gauchão de Literatura! Abraços, Joselma Noal

    • Lu Thomé disse:

      Oi Joselma! Fico feliz em te ver por aqui. Os autores parecem ter receio de participar ou se manifestar, salvo algumas exceções. Então, contar com a tua presença na caixa de comentários já é uma comemoração para mim. Especialmente como resenhista!

      Obrigada!

  4. Eu gostei da arbitragem. Gostei por que fiquei curiosa para ler, mesmo com o empate, e da maneira como a Lu resenhou ambas as obras, temos a sensação que vale a pena ler os livros. E uma coisa ainda: a Joselma é uma ótima jogadora. Afinal…empate não é ruim hein?

  5. Rafael Bán Jacobsen disse:

    “Aroma Hortelã” caiu nas minhas mãos meio por acaso, e eu resolvi abrir e dar uma espiada exatamente por causa da capa. Li um ou dois dos curtíssimos contos, e o livro acabou me fisgando. Li todo. E gostei (apesar de concordar com vários aspectos elencados pela Lu). É um bom livro, sim.

    A Lya eu não li.

    Mas adorei o chazinho.

    No mais, Lu Thomé é diva.

  6. LIONIRA KOMOSINSKI disse:

    Gostei dos comentários…MAS gostaria de ver um 2×1 para a Joselma. Atrás de uma aparente inocência, em seus contos há grandes denúncias de situações que falam de uma realidade que já não nos abala, não nos toca…aí vem a escritora que, com palavras simples, rápidas, nos diz: ACORDA!

  7. JLM disse:

    se alguém estiver interessado em + detalhes sobre o livro aroma hortelã e sua escritora recomendo a entrevista q ela deu ano passado p/ o assis brasil. em 3 partes no youtube.

  8. Partida finíssima, que virou um agradabilíssimo chá em meio ao gramado. Resenha de muito bom gosto e com considerações ponderadas e, me pareceram, bastante sensatas. Mesmo que não-técnicos, os apontamentos dão uma noção muito clara das propostas. Bela juíza e anfitriã é a Lu.

  9. marceloj disse:

    gostei dos comentários da lu, mas esperava mais gols, muitos gols, e mais faltas, escanteios e outras jogadas que nem sei o nome porque não gosto de futebol. mas de literatura, sim, e de literatura gaúcha, ainda mais.
    nessa partida, pelo visto a melhor atuação foi da juíza. parabéns aí, lu! e aos ‘times’, tb.

  10. Débora disse:

    Que coisa boa foi tomar esse chá com a Lu e as autoras. Volte nas próximas fases Lu Thomé! Hoje vou comprar os dois livros resenhados.

  11. taizze disse:

    Misturar literatura com futebol, pra mim, já foi estranho. Adicionar chá nisso foi mais estranho ainda! Mas como gosto de misturas estranhas (olá feijão frito com açúcar), adorei essa resenha. =D
    Nunca li nada da Lya Luft e nem li a Joselma. Se cair em mãos, certamente vou ler. Mesmo com esse placar de poucos gols onde nenhum dos livros se sobressaiu, acabei me interessando pelo que cada um deles se propõe a contar.
    E claro, parabéns Lu pelo texto.

  12. Djegovsky disse:

    Acho que foi a primeira partida em que me deu uma extrema vontade de NÃO ler qualquer um dos livros…

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