JOGO 14 – Flores da cor da terra x O batedor de faltas

JOGO 14
(2º jogo do Grupo 5)

Flores da cor da terra,
de Lívia Petry (Nova Prova / 2009)
x
O batedor de faltas,
de Claudio Lovato Filho (Record / 2008)

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JUIZ
Pedro Gonzaga – É natural de Porto Alegre. É saxofonista, escritor e professor de latim. Tem dois livros de contos publicados, Cidade fechada (2004) e Dois andares: acima! (2007). Atualmente, ataca como cronista no Camarote TVCOM, com a Kátia Suman. No futebol, sempre jogava no gol, dado seu porte avantajado.

PRÉ-JORNADA

Sempre tive admiração por árbitros argentinos e uruguaios, que deixam a bola correr e não apitam robinhadas. Para os de não tão curta memória, havia o terrível Sávio cai-cai nos anos 1990, sempre contemplado em suas encenações pelos juízes brasileiros com faltas na boca da área. Raiva juvenil. Alegria somente ao ver os gestos que indicavam levanta, segue o jogo, carrinho não é cartão. Contaminado por esse espírito implacável, entro em campo para a partida que me cabe no Gauchão de Literatura.

As duas equipes entram em campo. De saída, pode-se ver a diferença entre os uniformes. Antes mesmo do cara-ou-coroa, salta aos olhos o poderio econômico que compra elegância de O batedor de faltas, de Cláudio Lovato Filho, em radical contraste com a humildade do acabamento da farda de Flores da cor da terra, de Lívia Petry. Mas se há uma metafísica do futebol, esta diz que não há jogo ganho antes da bola rolar.

Convoco os capitães. Não sou de sorrisos. Pulo a parte do fair play. Isto só existe no cronograma dos marqueteiros da FIFA. Lívia escolhe coroa. A pratinha em minha mão a favorece. Flores da cor da terra dará o pontapé inicial.

O JOGO

Primeiro tempo
O livro está armado em três blocos temáticos: Desmundo, Coração selvagem e Flores da cor da terra. Parece-me que tais divisões podem oferecer variações táticas interessantes. Seu adversário optou por um esquema conciso, sem surpresas, que, no entanto, não deixa de emanar uma profunda confiança.

A bola está nos pés de Dois irmãos, primeiro conto de Lívia, que avança com dificuldade depois de duas epígrafes, dedicatória, agradecimento e apresentação. O tema já desgastado da violência policial ameaça ser desarmado na intermediária. O narrador e seu irmão Damião saem à noite para espancar pivetes. O lance previsível termina com um corte fácil do zagueiro.

Cláudio Lovato Filho parte para o ataque. Seu primeiro conto, em um livro curiosamente composto de contos de futebol, chama-se Arquibancada, pai e filho assistem a um jogo e mantêm um diálogo velado sobre os gritos da mãe que o guri ouvira através da porta fechada. É um conto rápido, objetivo, que avança pela lateral direita. O time de Lívia, ainda frio, é surpreendido. Cruzamento para a área e lá está o centroavante. Cabeceada para o chão e bola na rede.

Um gol logo no início do jogo sempre modifica as coisas. Terá Flores da cor da terra capacidade de reação?

Para tentar reagir e atacar, Lívia Petry manda seus três próximos contos: Manuelzão, Gosto de terra úmida e Dia de feira, todos curtos, tentando imprimir agilidade. O grande problema é que as jogadas são manjadas. Narradores que, em tese, devem pertencer a um mundo marginal articulando palavras de professores da academia, uma dificuldade técnica tão velha quanto Simões Lopes Neto. Em Manuelzão, o narrador, que é um bandido, diz a respeito de um de seus comparsas: “[ele] levantava o sobrolho, fitava o dinheiro daquele jeito fixo: estivesse possuído pela cor, pelo cheiro, pelo farfalhar da grana.” Farfalhar é robinhada. O atleta no chão, mas mando a jogada seguir. Para sorte de Lívia, Gosto de terra úmida consegue recuperar a bola. Tenta avançar pela ponta esquerda, e o bom começo, em terceira pessoa, ajuda. Mas de súbito o ímpeto esmorece, metáforas demais, Dia de feira corre desmarcado e recebe o passe. Está a dois passos da entrada da área. Quem sabe o chute?

Tarde demais, o zagueiro corta, e o conto do jovem menino, que cata caranguejos e é apagado pela polícia, sofre – como seus outros dois companheiros – de uma inadequação entre linguagem e tema.

Cláudio Lovato recupera a bola e parte forte para o contra-ataque. Seus contos também são curtos, o que é característica do jogo desta noite, um jogo de passes rápidos. Sentença mostra um bom controle de bola, a história de um atacante condenado a se afastar dos campos por um problema cardíaco, que opta pelo suicídio para escapar de seu destino. O conto não chega a empolgar, uma vez que a trama não oferece surpresas. Conhecedor de seus limites, o que é uma vantagem, o jogador passa para Novatos, que logo lança Noite em claro. Aqui o tema é a insônia de um zagueiro chamado Wagner Luís. Sem aquele brilho necessário ao artilheiro, vemos um disparo de canhota que vai parar lá para o meio da arquibancada.

O jogo que havia começado com bastante movimento acaba se estabilizando. Tem-se a impressão que a estratégia inicial de Lívia Petry não apresenta bons resultados. O batedor de faltas, depois de um início veloz, acaba burocratizando um pouco suas soluções, perdendo o vigor da boa narração e se aproximando da crônica. Nesse meio-tempo, Lívia Petry teve um bom chute com Nenhum rosto, conto ambientado no período da Ditadura, mas a bola acabou saindo mascada e o goleiro defendeu.

Cláudio Lovato volta a controlar o meio-campo, à espera de uma oportunidade. Suas histórias de jogadores e figuras associadas ao futebol apresentam uma cadência tranquila, pouco ousada, mas evidentemente segura. É hora de Flores da cor da terra adiantar a marcação. Ainda no primeiro tempo, o esquema é alterado para o modo “Coração selvagem”, a segunda das divisões, composta de contos mais intimistas. A alteração talvez seja comprometida pela lentidão de imagens como “Escrevo. Porque desta vez deixaste fruto, caroço de abacate crescendo cá dentro. Virando abacateiro, virando flor”. A tentação do futebol-arte é um perigo. Mas por ora não há tempo para mais nada. Não dou sequer um minuto de acréscimo.

Segundo tempo
Cabe a O batedor de faltas dar a saída na segunda etapa. O time se mantém o mesmo. As alterações no esquema da adversária não parecem preocupar a equipe de Cláudio Lovato Filho. Depois de duas faltas e dois desarmes, anulando as jogadas de efeito de Lívia Petry, Cláudio resolve partir para o ataque para liquidar a partida. Começa a ficar evidente, no entanto, a falta de opções criativas de sua equipe. São todos jogadores de boa qualidade, mas não há ousadia, não há, para usar o horrendo termo da moda, o jogador diferenciado. Seria uma boa chance para Flores da cor da terra reagir, mas o cansaço da poesia em prosa domina as páginas de contos como Memórias da casa grande e Henriqueta. Não seria a hora do tudo ou nada? E aquela terceira formação?

Com Gandula, um conto um pouco mais longo e de um humor leve, cujo personagem “não aguentava mais ver seu time dar vexame”, Cláudio se mantém no ataque. Após uma investida, dispara um chute que o goleiro espalma para escanteio. Tensão na área. Empurra-empurra. Não ameaço cartões. Já disparo um amarelo para cada lado. O entrevero continua. Resolvo expulsar os amarelados, talvez o jogo ganhe em velocidade. A cobrança acaba não dando em nada.

O jogo se arrasta sem maiores emoções. O batedor de faltas dá mais dois chutes a gol, Flores da cor da terra não passa do meio-campo. Então vem do banco um sinal de mudança: Lívia Petry vai alterar o esquema, queimar suas duas últimas substituições. A terceira parte de seu livro, que dá titulo à coletânea, pode ser o último recurso para modificar um cenário que se encaminha para a derrota.

O sangue novo e a maneira de jogar mais simples dos substitutos surtem efeito. Melhor conto do livro, com um final soturno e uma linguagem bem mais econômica e direta – longe do artificialismo por vezes maçante do resto da obra –, o conto-título consegue vencer as duas linhas de quatro marcadores de O batedor de faltas e invade a área, mas na hora do chute falta um pouco de pontaria e a bola passa raspando o poste.

Cláudio acusa o golpe. O time sente que sua superioridade, antes garantida, pode ruir. É hora de mexer. E perto do final, o treinador apela para a camisa, para o lado mais sentimental de seus jogadores. Em Guardião e Feliz natal, a temática do futebol passa a um segundo plano, com um bom ganho narrativo. Apesar disso, o momento é de Lívia Petry, e seu time não desiste do ataque.

Os contos da terceira parte, mais regionais e telúricos, que num primeiro momento haviam impressionado a torcida – e a própria arbitragem –, começam a errar muitos passes. Logo estão ali o velho minuano e outras imagens gaudérias ou campeiras que acabam por possibilitar um contra-ataque fulminante ao adversário. O batedor avança com três atacantes contra dois zagueiros. O desespero que vem do banco de Lívia é evidente. A chance de empatar está para se transformar em uma derrota mais ampla. E perto dos 40 minutos!

Sonhos, a última história de boleiros, invade a área e está na frente do gol. Cabe a Gumercindo Sodré, o arqueiro de Lívia, defender, mas com “Vancê reclama nesses dias porque desconhece estórias” é difícil segurar o petardo. A bola morre no fundo das redes. Dois a zero para Cláudio Lovato Filho.

Entramos nos acréscimos. O time de Lívia Petry parte de qualquer jeito para o ataque. Mas falta alguma coisa. Assim como nos contos dos desvalidos e violentos da primeira parte, aqui na terceira, com os personagens ligados à terra, parece faltar verdade, ou ao menos aquela impressão de verdade que faz a literatura acontecer, e isso é fatal.

Olho para o relógio. Esgotam-se os três minutos convencionados. Chamo a pelota e encerro o jogo sem espalhafato.

PLACAR
Flores da cor da terra 0 x 2 O batedor de faltas

VENCEDOR
O batedor de faltas, de Claudio Lovato Filho

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7 respostas para JOGO 14 – Flores da cor da terra x O batedor de faltas

  1. Absolutamente brilhante! Parabéns, Pedro Gonzaga!

  2. tedesco disse:

    Um dos mais divertidos e bem pensados comentários sobre os livros.

  3. Carlos André disse:

    Uma resenha que consegue cumprir os difíceis requisitos de manter a vinculação com o tema futebol e apresentar os dois livros em confronto de modo a formar um panorama geral de ambos.
    Belo texto.

  4. Sergio Napp disse:

    Concordo inteiramente com a opinião do Luiz Paulo “papa” Faccioli.
    Gostei muito deste juiz. Acaba na Copa/2014.

  5. pedrogonzaga disse:

    Amigos, obrigado pelos elogios. O formato talvez prejudique um pouco a impressão sobre os livros, mas pensei antes no espetáculo. Infelizmente me disseram que o quadro FIFA já está preenchido, de modo que terei de seguir fazendo crônicas na Tvcom…

  6. Cristina Moreira disse:

    Como eu não entendo nada de futebol (mas gosto de pensar que entendo um pouquinho de literatura), só posso avaliar a partida pelo saldo de gols, e, caro árbitro Pedro Gonzaga, digo que sou cada vez mais sua fã, pela sinceridade e pela leveza das tuas palavras!

    Abraços

  7. Lívia disse:

    Escrever é uma arte. O escritor assemelha-se ao joalheiro pois faz da sua escrita, a sua ourivesaria. O escritor não nasce pronto, ele torna-se escritor. Através de muito trabalho de ajustes com a linguagem, de busca pelo personagem certo, pela palavra exata ( le mot juste) como já dizia Flaubert. O bom crítico, é assim, aquele que faz o papel do joalheiro mais experiente: ele indica ao escritor onde colocar o fecho do conto, onde fazer os ajustes para que sua história não pareça banal ou redundante. Cito aqui, três críticos que ajudaram minha escrita a crescer: Jane Tutikian, Charles Kiefer e Léa Masina. A todos esses críticos, devo a melhora da minha escrita. Porém, existem também árbitros que não sabem apitar um jogo, ou críticos que não sabem fazer uma boa crítica: usam e abusam de metáforas futebolísticas ao invés de escrever de forma clara e apontar afinal, onde está a deficiência do conto. Pecam pelo subjetivismo e fazem pouco do que se chama “análise literária”. Usam zagueiros e cartões amarelos ao invés de falarem de quesitos que realmente importam: estrutura ficicional, linguagem, foco narrativo, apenas para ficar em três. Pedro peca por isso, ao fazer sua crítica. Quando me pergunto: se fosse reescrever tal conto, por onde começar? A crítica de Pedro não me dá nenhuma resposta conclusiva ou clara. O zagueiro bateu mal, cartão amarelo e fim de jogo. Nenhum minuto para cobrança. Tudo isso é muito bonito no futebol, mas na literatura não é vantagem nenhuma. Aceito derrotas assim como me agradam as vitórias. Mas todo derrotado quer saber onde errou o gol. E isso, foi justamente o ponto que não ficou claro nesta partida. Pena, Pedro, que sendo escritor de contos como eu, não tenhas te lembrado de todas as dificuldades que um escritor passa. Nem tenhas levado em consideração que uma boa crítica construtiva pode elevar o nível da literatura de quem a recebe. Mas fica aí minha dica prum outro jogo.

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