JOGO 15 – Entre facas x Tempos frágeis

JOGO 15
(2º jogo do Grupo 6)

Entre facas,
de Liziane Guazina (Nova Prova / 2009)
x
Tempos frágeis,
de Marilice Costi (Movimento / 2009)

———————–

JUÍZA
Amanda Zampieri
– Estudante do curso de bacharelado em letras (habilitação tradutor do inglês) pela UFRGS. Aspirante a tradutora, readaholic e apaixonada por literatura (principalmente por literatura em língua inglesa). Atualmente, escreve no blogue http://thesunsets.wordpress.com.

Time 1: Entre facas, de Liziane Guazina
Edição: GUAZINA, Liziane. Entre facas e mais alguns contos. Porto Alegre: Nova Prova, 2009.
Dividido em três partes, Entre facas segue o movimento crescendo: toma de assalto seus leitores com a tirada de um Canivete de dentro do bolso, emociona pela dramaticidade contida no uso de um Punhal e, por fim, encerra com o corte afiadíssimo da Navalha sobre a linha tênue da loucura e da sanidade. Não é à toa que as cores presentes na edição são o branco, o preto e o vermelho: representando a carne, os pelos, os fluidos corporais e, claro, o sangue.

Entre facas possui um projeto editorial impecável: a edição, em capa dura, conta com as belíssimas ilustrações de Helena Jansen, que também ilustra cada um dos contos com desenhos de corpos nus sobre o papel (impecavelmente) branco, quase imaculado, em posições insinuantes, como se dissessem aos leitores “venha e corte minha carne com sua lâmina favorita.”

A introdução (que, misteriosamente, encontra-se antes da epígrafe e do índice) fica por conta de Sérgio Capparelli, que associa Entre facas à história de Pao Ding, o açougueiro imperial do Liang da China, pois este era um minucioso expert na arte de… cortar carne! A diferença, talvez, esteja no fato de que Liziane Guazina em determinados momentos perfura seus leitores até expor suas vísceras, como acontece no conto Um dia (Canivete), em que o ambiente doméstico da família numerosa reunida na casa dos avós se mistura com a tensão provocada por um incidente de agressão doméstica entre o tio e a tia no banheiro da casa – descritos pelo olhar da criança narradora.

Também no conto O incidente (Canivete) há o choque, no ambiente doméstico, do mundo infantil com o incompreensível mundo dos adultos: a narradora, também criança, flagra o pai se masturbando no escuro do banheiro da casa. A menina, assustada, corre para o quarto, volta para debaixo dos lençóis e, tremendo de medo com a cena que acabara de presenciar e sem conseguir se conter, faz xixi na cama.

Na parte dedicada ao Punhal, os contos têm um apelo dramático (a menarca e as primeiras experiências com a TPM, as complicadas relações familiares, o sexo em troca de trocados, a morte por atropelamento e o assassinato do cônjuge) como deve ser todo aquele que porta (ou é ferido) pela arma branca carregada de simbologia através dos tempos e da literatura. Como é o caso de As coisas últimas, que retrata a atmosfera em um lar cujo pai abandona as filhas e a esposa por não suportar mais o ambiente doméstico. A presença do pai na mesa (que havia retornado momentaneamente) é solene e a tensão presente é digna de uma visita papal. No entanto, a tensão é dissolvida quando as duas irmãs passam a brigar novamente na presença do pai.

Por fim, Navalha brinca, enquanto corta sua vítima, com a tênue linha entre a insanidade, a lucidez e a morte. O avô que corta as orelhas, o alcoólatra que põe a culpa do vício em sua condição de filho bastardo, a dona de casa que sofre dos nervos, o velho jogador de futebol aposentado e solitário, o escritor que escreve a morte, a avó que marca uma cruz com faca nas costas da neta, o pai que penetra a filha… seria tudo um sonho?

O elenco é formado por todo tipo de personagens desde mães, pais, tios, tias, avôs e avós de família até catadores de papelão, bêbados, loucos, prostitutas, maridos e esposas infiéis, caminhoneiros, transeuntes e motoristas distraídos, escritores, entre outros que atuam no palco principal do ambiente doméstico, retratando suas mazelas.

Bola na trave: Não há informações sobre a ilustradora Helena Jansen, seu nome é apenas citado na capa e na ficha catalográfica. Poderia ter sido colocada uma nota biográfica junto da nota da autora. Por fim, aquilo que, na minha opinião, constituiu uma falta: a extensão dos contos não permitiu uma análise psicológica mais aprofundada de suas personagens.
Bola dentro: O uniforme do time! Quase comprei este exemplar, há cerca de dois meses, quando me deparei com o mesmo na estante da livraria. Folheei inúmeras vezes, impressionada com a qualidade da edição e, é claro, das ilustrações.
Contos responsáveis pelo golaço: Cores à brasileira (Canivete): retrato de dois catadores de papelão quando um deles furta o celular de uma menina de classe média alta de dentro de uma Kombi escolar; As coisas últimas (Punhal): o pai que não suporta mais viver em uma família complicada, vê as filhas brigando e a esposa flertando com o garçom em uma festa, decide ir embora; Entre facas (Navalha): a personagem não consegue se livrar da lembrança da avó riscando, à faca, uma cruz em suas costas e do pai, que, assim como a faca, havia penetrado sua carne certa vez.

PS: Acabei, sem querer, cortando meu dedo quando lia o livro pela primeira vez. Quem sabe em um possível segundo volume, Liziane Guazina não acrescente mais uma superfície cortante: o papel?

***

Time 2: Tempos frágeis, de Marilice Costi
Edição: COSTI, Marilice. Tempos frágeis. Porto Alegre: Movimento, 2009.
Em primeiro lugar, preciso confessar que subestimei a edição de Tempos frágeis e, querendo ou não, antes mesmo de ler os contos já havia julgado (mal) o livro pela capa. A diagramação é extremamente simples, seguindo o padrão “Times New Roman no fundo branco” sem mais rebuscamentos e/ou ilustrações de qualquer tipo. O papel é aquele branco mais comum (os olhos doem!) e que ainda causa estranhamento em leitores acostumados com o papel-jornal das edições em inglês ou com o tom levemente amarelado daquelas renomadas publicações nacionais. Sem contar que a distribuição do texto nas páginas demonstra uma tentativa de aproveitamento total do espaço juntamente com a escolha de uma fonte que, na minha opinião, poderia ter sido um pouco maior (essas coisas de gente míope e que lê demais).

Com relação ao uniforme, o time acertou feio na trave, causando indignação dos torcedores. Fundo preto, fontes brancas e pretas e uma fotografia em tons de azul que não consegui identificar o que se trata (eu chutaria: o vidro quebrado de uma janela que dá para uma calçada) compõem a estranha vestimenta do time.

Porém, ao iniciar a leitura, percebo que o time acerta com relação à temática, que se assemelha à do Entre facas, por lidar com situações enganosamente banais do cotidiano e relações interpessoais narradas pelo viés feminino.

Uma seleção composta por Janes, Claritas, Rosarias, Jaciaras, Carmelas, Lúcias, Camilas, Zélias, Amélias, Isabéis, Larissas, Janines, Marianas, Dulces, Enis, Genis, Caróis, Matildes e tantas outras mães, tias, donas de casa, filhas, irmãs, esposas, professoras, empregadas, e arquitetas compõem esta reunião de contos empenhada na abordagem de situações vivenciadas pelo mosaico de mulheres vivamente caracterizado por Marilice Costi.

Cada movimento é calculado de maneira a incitar um mergulho profundo no íntimo do leitor e da leitora, como quando Jane, a empregada doméstica de De boas referências, grávida do antigo patrão, decide procurar uma maloca na vila para extirpar o filho bastardo que ainda não nascera. Ou então, quando a professora de arquitetura de Perdendo o chão? segura as lágrimas para não chorar diante do aviso de sua demissão. Ou então, quando se descobre, pela voz do bando de rapazes da vizinhança, que Teófilo de Marques, 48 anos, viúvo, professor e personagem principal do conto Abuso, assedia sexualmente sua filha de 15, deficiente mental. Ou então, quando a arquiteta do conto Uma viagem pouco comum relata os pormenores da viagem de quatro horas até a cidade em que mora seu neto. Embora seja uma viagem fatigante, a narradora se diverte elencando os personagens que viajam no mesmo ônibus e as situações presenciadas pelos passageiros.

Quem não se emociona com o relato de uma Porto Alegre de anos já há muito passados, pelo olhar da narradora que relembra dos tempos em que viajava para a Capital para se consultar (juntamente com a mãe e as irmãs) com o ginecologista na época de sua adolescência?:

Que importância ir à Capital! Roupas bem arrumadinhas com capricho maternal, perfumadas, nas malas. Iam para a casa da tia, esposa do irmão de seu pai. (…) Dormiam ao som dos bondes da Avenida Alberto Bins e o cheiro dos gases expelidos pelos automóveis lhe era agradável. Cheiro de capital. Manhã cedo (…). Exame feito, um lanche: torradas nas Lojas Americanas. A escada rolante, aquele monte de gente e de produtos à venda a encantavam. Sua mãe ia à Casa Louro onde comprava roupas para o Natal. Na Paquetá, sapatos para as filhas. Na Sloper, uma lembrancinha para os que ficam. Voltando à casa da tia, almoçavam e à tarde se preparavam para ir ao consultório. (COSTI, 2009: 61-62)

Bolas na trave: O uniforme, sem sombra de dúvida, e a introdução do escritor Deonísio da Silva, que afirma logo no primeiro parágrafo “O conto, que já viveu seu esplendor como gênero, foi abandonado por todos, mas quão delicioso é descobrir quem saiba contar direito uma história curta.” Concordo com você, Deonísio, Marilice Costi é uma contista de primeira, porém, dizer que o conto foi abandonado? Ora, se o gênero está tão por fora assim, por que é que o Campeonato Gaúcho de Literatura conta com 27 livros de contos escolhidos apenas no Rio Grande do Sul em um período relativamente curto de tempo?
Bola dentro: Todo o resto.
Contos responsáveis pelo golaço!: Perdendo o chão?, Convite para missa de sétimo dia, e Uma viagem pouco comum.

O JOGO

Impressionada com o número de livros disputando a taça do Campeonato Gaúcho de Literatura, posso dizer que fiquei honrada com o convite para a arbitragem de dois livros muito bons, escritos por duas escritoras gaúchas até então desconhecidas por mim. Ambas demonstraram maturidade e destreza com a escrita e abordagem das temáticas em seus contos. Logo, diria que este jogo constituiu-se em uma disputa acirradíssima. As temáticas são semelhantes, porém, a estrutura dos contos é bem diferente, o que tornou difícil um julgamento “justo”, deixando a decisão nas mãos do gosto pessoal.

Enquanto Marilice Costi se ocupa em desdobrar o drama individual de suas personagens utilizando, para isso, de quatro a seis páginas, em média, Liziane Guazina vai talhando os (possíveis) excessos narrativos até condensar seus contos em, no máximo, três páginas.

O estilo de Liziane Guazina é sagaz, é afiado, é cortante, ao passo que o de Marilice Costi é pulsante. Ambas tratam de temáticas situadas em um tempo mais do que contemporâneo e relacionadas, principalmente, às relações interpessoais. A diferença recai na abordagem que cada uma faz das mesmas: Entre facas dá a ideia ora de uma punhalada certeira no estômago, ora de precisão cirúrgica conseguida com o desenrolar dos seus microcontos. Tempos frágeis, de uma narrativa que acompanha o pulsar do sangue em todo o corpo.

O projeto editorial (arte gráfica, diagramação, ilustrações presentes no interior da edição) de Entre facas é impecável e a leitura é absurdamente prazerosa. No entanto, não há aprofundamento psicológico em Entre facas por este agrupar contos de um determinado gênero cuja estrutura não permite a construção de um perfil dos personagens, o microconto, como ocorre em Tempos frágeis – cujas situações evidenciam uma série de restrições sociais ainda sofridas pelo sujeito feminino na contemporaneidade.

Os contos presentes em Entre facas não são apenas bons, são ótimos! No entanto, achei aqueles presentes em Tempos frágeis bem melhores. Neste aspecto, preciso concordar com Deonísio Silva: poucos conseguem o efeito que Marilice Costi provocou com sua escrita. O caráter imediato que grande parte dos elementos presentes em nosso cotidiano adquiriu nos últimos tempos faz com que a leitura de Entre facas pareça mais agradável e muito mais “adequada” ao nosso estilo de vida. Porém, Tempos frágeis preenche a necessidade de leitoras, como eu, de encontrar a sensibilidade literária de autoras que ainda saibam falar sobre o nosso universo.

Resumindo, justifico o placar dizendo que Entre facas fez o primeiro golaço (digno de replay) da partida ao primar pela qualidade da edição. O segundo, também de Entre facas, fica em função dos contos Cores à brasileira, As coisas últimas e Entre facas. Quando Tempos frágeis entrou de vez em campo, chutou feio na trave (com direito a “UUUH” e mãos na cabeça da torcida) com o projeto editorial “sem gracinha”, mas conseguiu recuperar durante o jogo, empatando com os contos Perdendo o chão?, Convite para missa de sétimo dia e Uma viagem pouco comum. Por fim, aos 44 minutos do segundo tempo, Tempos frágeis mostrou que veio para ganhar! Como? Por meio de um “gol de várias pernas” (se é que isso é possível, mais de um jogador chutar e marcar gol…) das várias mulheres reunidas (e adentrando um terreno tipicamente masculino) que compõem os 18 belíssimos contos desta edição.

PLACAR
Entre facas 2 x 3 Tempos frágeis

VENCEDOR
Tempos frágeis, de Marilice Costi

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8 respostas para JOGO 15 – Entre facas x Tempos frágeis

  1. Rafael Bán Jacobsen disse:

    Que bom é ver que alguns juízes estão, de fato, apreciando os livros que lhes caem em mãos! Gostei muito da resenha, que me deixou com vontade de ler ambas as obras (o que tem sido raro aqui no Gauchão).

    Culpa dos concorrentes? Culpa dos juízes? Dos dois? Quem sabe?…

    Mas chamo a atenção para como, de fato, uma resenha pode influenciar bastante. No outro jogo do qual participou o “Entre facas”, saí sem a menor vontade de lê-lo; agora, depois dessa partida, parece-me uma leitura bastante promissora, talvez pela juíza que apitou a partida ter se estendido mais, dado o tempo e o espaço que uma análise literária merece.

    E chamo a atenção para, como sempre, no final das contas, tudo é um questão muito pessoal de gosto: o projeto gráfico de “Entre facas”, que encantou a juíza Amanda Zampieri e para o qual ela foi capaz de encontrar vários significados, foi considerado, pela juíza Cássia Zanon, como dotado de “ilustrações que por vezes parecem fora de lugar”, como algo parecido com ” livros infantis editados nos anos 80″, além de ter um “formato que dificulta a leitura”.

    Estou curiosíssimo para ter o “Entre facas” nas mãos e extrair minhas próprias conclusões (tomarei cuidado para não cortar o dedo no papel). Ah! E aproveitarei para ler também.

    • Sergio disse:

      Interessante é que o Entre Facas ganhou o primeiro jogo e perdeu o segundo.
      A resenha que deu a vitória não te deixou com vontade de ler o livro; a que deu a derrota, sim.
      Curioso isso.

  2. Não conhecia a Amanda Zampieri e me impressionou a delicadeza dela na abordagem dos livros. Creio que ambas as autoras devem estar felizes com o desempenho de seus times no jogo, independentemente do placar final.

  3. taizze disse:

    Verdade! A resenha deu muita vontade de ler os dois livros. Não acho que os outros juízes tenham sido “rabugentos” em suas resenhas, mas vai bem mesmo do que cada um prefere ler, do que cada um considera “bom”.

  4. Djegovsky disse:

    Pois o que eu mais gosto nas resenhas do CGL é justamente a ironia, o sarcasmo, a polêmica, a maldade, o veneno… E, para meu desespero, não vi nada disso hoje.

    • Rafael Bán Jacobsen disse:

      Confesso que também gosto de tudo isso: a ironia, o sarcasmo, a polêmica, a maldade, o veneno… Mas também gostei (por motivos bem diferentes) de saber que tem livros bons no campeonato e que tem juízes curtindo as leituras…

  5. dilamar disse:

    Amanda Zampieri, Liziane Guazina, Marilice Costi. Jogo perfeito.Não interessa quem ganhou.Ganhamos nós leitores.Também com uma juíza apitando deste jeito!Maravilha,maravilha!!

  6. Amanda disse:

    Obrigada a todos pelos elogios! Fico muito feliz que vocês tenham apreciado.
    Felizmente, recebi livros que considerei muito bons, caso contrário, não teria poupado a análise de “ironia, sarcasmo, polêmica, maldade, veneno” etc.

    Continuem acompanhando o Gauchão! Os próximos confrontos prometem!! 🙂

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