JOGO 20 – Cris, a fera x O girassol na ventania

JOGO 20
(3º jogo do Grupo 2)

Cris, a fera,
de David Coimbra (L&PM / 2008)
x
O girassol na ventania,
de Marco De Curtis (Dublinense / 2009)

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JUIZ
Milton Ribeiro
– Prefere apresentar-se apenas como um voraz literato, melômano e cinéfilo. Por insistência de sete leitores, mantém um blogue e outras coisas por aí. É sócio do Sport Clube Internacional e sósia de Mahmoud Ahmadinejad, além de ser daltônico, cambota e de ter os pés chatos. Tem curriculum vitae completo em seu blogue, o que torna desnecessário dar mais informações.

OS TIMES

TIME 1: Cris, a fera, de David Coimbra

UNIFORME: A camiseta de Cris, a fera é retrô, o distintivo é uma mulher parecida com Rita Hayworth descendo uma escadaria. Na mão, um cigarro. Destaque para a coxa, que fica de fora, aproveitando uma fenda do robe de chambre – para utilizar um termo antiquado como a capa do volume. Não chega a chamar atenção pela beleza ou originalidade, mas é adequado.

ESQUEMA DE JOGO: Sete histórias entre o conto e a novela. Há unidade temática sim, e como! O assunto é sexo do princípio ao fim. O estilo do autor é bem-humorado, mais para a pornografia leve, sem conseguir alçar-se ao erotismo.

GOL DE PLACA: Bandeira 2, a história de abertura, é a melhor do livro. Um conflito bem montado, com boa solução.

BOLA FORA: Cris, a fera, o conto, é previsível e de psicologia pouco profunda.

TIME 2: O girassol na ventania, de Marco De Curtis

UNIFORME: Decididamente, o uniforme não chama atenção. É mais um time listrado como tantos. É o velho e bom pôr-do-sol, neste caso sem sol, porém com o colorido das nuvens. Pode-se dizer que são histórias de Porto Alegre e que o céu de nossos entardeceres é o mais belo de todos, mas… Não, o uniforme é mesmo muito comum.

ESQUEMA DE JOGO: Por incrível que pareça, trata-se igualmente de sete histórias, sendo cinco contos e duas novelas. As histórias tratam de conflitos humanos e amores urbanos, classificação vaga que demonstra que não há estrita unidade temática.

GOL DE PLACA: Amor por um triz é uma bela e muito bem narrada história. Porém, o autor estraga o final através de uma solução simples que imita Brokeback Mountain. Explico: quando o casal – em nosso caso, heterossexual – parte para uma decisão, o roteirista mata um dos dois e finaliza a obra. Tsc, tsc, tsc.

BOLA FORA: Não há exatamente uma bola fora, mas acredito que o final de Beijos de Borboleta seja de difícil deglutição. Marco De Curtis usa de certa indulgência ao finalizar seus textos.

O JOGO

INICIADO O ESPETÁCULO, o time comandado por David Coimbra tomou logo a iniciativa e foi para cima dos intimidados atletas de Marco De Curtis. Logo, demonstrou algumas qualidades, tais como o bom humor e uma tremenda vontade de seduzir. A vontade era tanta que o treinador se esquecia das primícias. Os leitores – seres sensíveis, delicados e BALDOSOS – têm de ser tratados com jeito. Nem todos estão prontos para entrar em ação após cinco segundos e David pretendia deixá-los excitados sem emitir sinais prévios de suas reais intenções. Logo de cara, colocou em campo um vistoso plantel de mulheres. A plateia ficou interessada e vibrou com este GOL, mas, fato curioso, todas eram iguais. Notou-se que, ao longo das páginas, sua TOTALIDADE tinha 1,70 m, pernas intermináveis e fortes, abdomens malhados, seios rijos, postura sedutora e salto alto. Só variavam no cabelo. Apesar da boa e longilínea forma, as Feras não pareciam levar a sério o esporte bretão. Também se notou que por todos os lados havia referências ao emprego do autor ou a seus colegas, numa incrível sucessão de homenagens que passavam por diversos departamentos da RBS. Tomados de forte NÁUSEA CELETISTA, os leitores se retraíram e passaram a vaiar as Feras, que choraram em campo. Meu coração oprime-se ao narrar tais fatos, mas, como repórter, tenho de me comportar como se fosse o espelho do mundo, refletindo os fatos de forma a que você, querido leitor, confie e acredite. E podeis acreditar, asseguro-vos.

O técnico Marco De Curtis sentiu o gol tomado logo nos primeiros minutos da PELEJA. Foi um golpe que o deixou assustado e sem saber como finalizar o primeiro conto. Porém, o DEMIURGO ao lado do campo reorganizou sua equipe, fazendo-a adquirir o indisfarçável charme de Celso Roth, entocando-se na defesa. Como não tinha saída rápida para o ataque, perdendo-se em digressões e VERBOSIDADES dispensáveis, deixou as Feras fazendo graça pelo campo. Apesar da faceirice e da vontade de pressão do adversário, a postura de De Curtis impedia as penetrações de lado a lado. Porém, Celso Roth é Celso Roth e às vezes faz das suas, tornando-se Sexy Hot. Foi o que ocorreu com o time de De Curtis. Em três INSIDIOSAS estocadas, os Girassóis lograram marcar três gols no segundo tempo. Foram momentos de real grandiosidade e variação de jogadas proporcionadas pela equipe HELIOTROPISTA. Uma surpresa para as Feras! Afinal, o que há em comum entre cães mortos, contos surrupiados e descompassos afetivos? Foram três estranhos gols – o segundo bastante vingativo, demonstrando abissal ressentimento contra o salto alto das Feras – , feitos em sequência naquele futebol de passes curtos, mas que resolveram a partida com facilidade.

Parabéns aos Girassóis!

Entrevistados após a partida, os técnicos demonstraram visões diversas. David Coimbra, em entrevista à nossa reportagem, declarou que o placar foi injusto, pois o árbitro o prejudicou, demonstrando preconceito contra sua condição de conhecido jornalista e fauno do IAPI. Prometeu ir ao tapetão até se esgotarem todas as instâncias da Justiça Desportiva. Já Marco De Curtis irritou-se com os repórteres que insistiam em falar em futebol de resultados.

— Nossa vitória foi justa. Demos um chocolate, um banho tático, tanto que fizemos três belos gols. O que importa são os três pontos, o resto são filigranas, coisas que vocês inventam para vender jornal — garantiu.

PLACAR
Feras 1  x 3 Girassóis

VENCEDOR
O girassol na ventania, de Marco De Curtis

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16 respostas para JOGO 20 – Cris, a fera x O girassol na ventania

  1. Uau! Uma partida deliciosa, com texto bem humorado e incisivo. Uma coisa apenas não compreendi: como um gol de placa pode vir de um conto cujo final deixa a desejar (segundo a opinião do Milton Ribeiro, pois nunca li a peça em questão). Toda a estrutura do conto converge para seu final, e não conheci até hoje um bom conto que fugisse dessa premissa básica.

    • Em tese, concordo contigo, Luiz Paulo. Mas deixei-me levar pelo interessante conflito. Talvez tenha exagerado ao considerá-lo um gol de placa, pois achei o final insatisfatório mesmo.

      Abraço.

  2. JLM disse:

    me pareceu um tto verborrágica a resenha, talvez querendo exaltar + os méritos do juiz q os dos times, ou como um narrador esportivo com tiradas espirituosas em q só ele ri.

    • Críticas — mesmo ao crítico — são bem-vindas. Só não me chame de Galvão Bueno, tá?

      O ritmo da resenha foi efetivamente baseada em meus comentários futebolísticos. Sim, escrevo também sobre futebol… Fazer o quê?

      Abraço.

  3. Gostei bastante da resenha. Bem-humorada sem deixar de ser fundamentada, ainda que pelo humor. As histórias de folhetim do David realmente perdem quando unidas em um único volume porque ficam patentes as repetições de recursos utilizados pelo autor. Já o livro do De Curtis eu gostei e acho que vai por aí mesmo, uma bela estreia com potencial, embora atire para muitos lados com eficácia desigual em cada petardo.
    Só, para meu gosto de leitor, soou – ou melhor, vibrou – estranha aquela marcação de tons com palavras maiúsculas. Sei lá, efeito Cardoso – digamos que nos textos do Cardoso não soa mal, e que ele não é o proprietário do estilo, mas pareceu uma emulação mesmo sem o ser.
    Não sei se me fiz entender, mas parabéns ao juiz e aos competidores.

    • Obrigado, Carlos.

      Conheço bem o Cardoso, mas no dia em que escrevi a resenha tinha lido STERNE, com suas maiúsculas e estranhas PONTUAÇÕES. Porém, como Cardoso está vivo e Laurence não, fica a HOMENAGEM a ele.

      Abraço.

  4. Xerxenesky disse:

    Tô errado ou rolou uma HOMENAGEM ao estilo do CARDOSO no uso de CAPS LOCK nas palavras mais INAUDITAS?

  5. Xerxenesky disse:

    Opa, para constar, quando fiz o meu comentário, o do C.A.M. ainda não estava online. Parece repetição. Hahaha.

  6. Djegovsky disse:

    Pois é, essa crítica me lembrou aquele juiz conhecido como “Margarida”. De camiseta colorida, gestos exagerados, trejeitos afeminados, causava sensação em qualquer partida, inevitavelmente roubando a cena. Pode até ser divertido, mas quem veio ao estádio para ver o velho e bom futebol sai bastante decepcionado.

    O segundo parágrafo da parte “O Jogo” não diz absolutamente nada para quem, como eu, não leu os livros…

  7. Clarissa Dalloway disse:

    O Milton não costuma ser um sujeito leve. Eu o leio há muitos anos. Conheço bem.

    Se ele escolheu esse tom, certamente tinha seus motivos. Tenho certeza que não foi nada casual. Talvez ele quisesse ser gentil para dizer que o David é péssimo escritor. O outro comentarista disse exatamente o mesmo, mas pegou pesado, pesadíssimo, foi deselegante.

    Li agora novamente as duas resenhas. Na verdade, com sua crítica muito engraçada, o Milton foi muito mais destrutivo. Curioso.

    Bj.
    Cla.

  8. Amanda disse:

    Esse jogo levantou uma série de comentários. Vamos por partes:

    * Achei o uniforme do Girassol na Ventania um dos mais lindos que já vi por aqui.
    Tenho impressão de que já vi a fotografia em algum lugar, há créditos dela na edição?

    * Sobre o do David Coimbra com relação às mulheres: “sua TOTALIDADE tinha 1,70 m, pernas intermináveis e fortes, abdomens malhados, seios rijos, postura sedutora e salto alto. Só variavam no cabelo” blablabla. Tá certo que o raio narrativo dele é limitado, mas, convenhamos, que mulher vai querer ler esse romance depois dessa? Aliás, respondam: que mulher É assim? Ainda bem que não foi esse o livro que caiu em minhas mãos para resenhar, pois ficaria entediada logo no primeiro conto. But, life goes on…

    * Gostei muito da arbitragem do Milton, porém, gostaria de saber mais sobre os contos do livro do Marco De Curtis e a maneira como ele trata da cidade (está explícito que é Porto Alegre mesmo? Ou a maioria é inferência?). Ele é arquiteto, não é? De alguma forma isso pode ter influenciado a maneira como ele escreveu sobre (as) cidade(s), não é?

    * Sugestões para a Organização: poderia ser feito um encontro com todos os juízes aberto ao publico para discutirmos ao vivo os resultados dos jogos, que tals?

    Beijinhos a todos.

    • Luciano Sky disse:

      A foto de capa, de autoria de Nilton Santolin, ilustra a Porto Alegre que o arquiteto Marco de Curtis gosta de citar na sua obra. 😉

  9. Enio Roberto disse:

    Marco De Curtis é arquiteto de móveis, imóveis e frases. Grande vitória!

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