JOGO 21 – Play x Pó de parede

JOGO 21
(3º jogo do Grupo 3)

Play,
de Ricardo Silvestrin (Record / 2008)
x
Pó de parede,
de Carol Bensimon (Não Editora / 2008)

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JUIZ
Renata Wolff
– Porto-alegrense, servidora pública, escritora, aluna da oficina literária do escritor Charles Kiefer, autora de contos publicados no Jornal da Capital e nas coletâneas 103 que contam e Outras mulheres.

OS TIMES

1) Pó de Parede, de Carol Bensimon (Não Editora, 2008)

UNIFORME: O projeto gráfico, de Guilherme Smee, e a capa, de Ieve Holthausen, acertam em cheio. Tudo muito evocativo, bonito e adequado ao espírito e ao estilo da narrativa. Uma boa sacada foi usar imagens de peças do Banco Imobiliário (ou, como é chamado agora também no Brasil, Monopoly; pausa para um suspiro saudosista) para apresentar cada um dos contos.

ESQUEMA DE JOGO: São três contos longos, mais para novelas curtas. Em comum, o fato de terem como focalizador principal uma personagem feminina que observa os acontecimentos (dos quais também participa, em maior ou menor grau) com um olhar bem particular.

GOL DE PLACA: 122 páginas e nem sinal de clichês de linguagem. Além disso, todo o conto A caixa é digno de nota. Divertido e triste, denso e enxuto, essencialmente humano. Ótimas personagens, enredo bem construído, linguagem primorosa. Aliás, a linguagem é tão bem-acabada que…

BOLA FORA: …falhas pequenas, mas importantes, acabam se agigantando. Num conto tão bem escrito como A caixa, dói ler ouço a música saindo para fora. E, em Falta céu, o segundo conto, outra pontada de dor: todo aquele trabalhão para entrar ali dentro. Sair para fora? Entrar dentro? Mais um problema: embora muito bons, os contos Falta céu e Capitão Capivara perdem-se em alguns momentos. Falta céu tem uma cena que se desvia do focalizador, introduz personagens e subplots que são descartados tão subitamente quanto apareceram no enredo, e nada acrescenta ao conflito principal. E Capitão Capivara derrapa num final bizarro que fica aquém do que as personagens e a narrativa mereceriam.

2) Play, de Ricardo Silvestrin (Record, 2008)

UNIFORME: A capa, de Luis Giudice, tende ao minimalismo, o que, junto com a fonte escolhida e a utilização do símbolo de play, harmoniza-se com o aspecto tecnológico do título. Porém, as cores predominantes poderiam contrastar um pouco mais.

ESQUEMA E JOGO: Os contos de Play trazem personagens em situações inusitadas, frequentemente extremas, às vezes apocalípticas. Em geral, a ação ou a atmosfera do conto sobrepõe-se às personagens, tanto que são raras as personagens que sequer recebem nome.

GOL DE PLACA: Em todo o livro, excelente domínio da linguagem. Quanto aos contos em si, O filme, primeiro do livro, e Gaiolas são as narrativas mais sutis e também as melhores. Conseguem, em um enredo curto, adentrar a psique do protagonista, e comovem ao fazê-lo.

BOLA FORA: Há alguns problemas de sintaxe (redundâncias, regência verbal). E, mais importante: há contos – Urubus talvez seja o que melhor ilustra isso – em que se tem uma cena apenas, sem um conflito que mova a narrativa. Por bem executada que seja a descrição da cena e do clima, como sempre é o caso em Play, não há como ignorar a ausência do plot.

O JOGO

Com dois concorrentes de muita qualidade, o jogo é difícil. Disputado. Muito equilibrado e, por isso, será decidido no detalhe. E o detalhe, nesta partida, é o estilo de arbitragem. Desde logo, esta juíza deixa claro que, no seu ponto de vista, aprendido com um grande escritor, literatura é personagem. Na boa literatura, a personagem – com sua psique, seu caráter, seu conflito interno – move o enredo.

E reside aí o contraste entre os competidores. Luiz Antonio de Assis Brasil apresenta Play dizendo, entre outras coisas, que “…as personagens de Ricardo Silvestrin parecem estar ali, mudas e estáticas, à espera de que o escritor as acione. E quando as aciona, liberta-as para um mundo já dado, estranho, múltiplo, perigoso, frequentemente absurdo”. Por mais bem construídos que sejam, como de fato são, os mundos e os acontecimentos dos contos de Play, a impressão que se tem ao ler a maioria dos textos é de que as ações e os cenários descritos prevalecem sobre as personagens, dominando-as; os protagonistas, muito frequentemente, estão à mercê das circunstâncias e são por elas conduzidos. Boa parte dos contos tem o seu enredo movido por uma sequência de ações que ocorrem à revelia da personagem, e, em vários deles, a narrativa é curta, os fatos precipitam-se sem tempo para uma compreensão do caráter do protagonista. Como já mencionado, pouquíssimos protagonistas recebem nome, o que contribui para a sensação de que o que está sendo narrado poderia acontecer com qualquer outro protagonista. Os conflitos, em Play, são, com algumas exceções, impostos às personagens; são raras – mas, quando existentes, muito bem executadas – as imersões na alma das personagens.

De outra parte, em Pó de parede, os conflitos externos são apenas circunstâncias que espelham ou revelam o interior de seus protagonistas, e na força da construção do caráter desses protagonistas – e também das personagens secundárias que, por vezes, também são focalizadores da narrativa – encontra-se a força de cada conto. Os narradores de Pó de parede, ora em primeira pessoa, ora em terceira, acompanham e observam as personagens com delicadeza ao longo do enredo, fornecendo ao leitor, tanto nos grandes eventos da narrativa quanto nas pequenas ações e emoções cotidianas, os elementos para compreender a humanidade dessas personagens, o que é de fato o ponto central da narrativa. O conto A caixa, por exemplo, embora contenha elementos já um tanto familiares – a adolescente outsider, filha de pais excêntricos e alvo de gozações no ônibus da escola; seu vizinho, amigo de infância, tímido interesse romântico; a colega loira, bonita, rica, com uma vida perfeita na superfície, e nem tão perfeita no fim das contas –, tece muito bem o emaranhado de relações entre as personagens e delineia suas personalidades com esmero, aos poucos, construindo o enredo de tal forma que este só poderia acontecer com aquelas pessoas, pois elas são a origem do conflito principal e, como tal, dão sentido e movimento à ação. Em Play, como já visto, muitas vezes ocorre o exato oposto.

As personagens de Play existem para servir ao que é narrado, enquanto as de Pó de parede são o que é narrado; permanecem no leitor, ressoam para além do corte narrativo. Pó de parede adquire vantagem em função da maestria com que trata seus personagens, e é o que acaba por lhe conferir superioridade neste jogo, em que ambas as equipes demonstram enorme competência.

PLACAR
Play 2 x 3 Pó de parede

VENCEDOR
Pó de parede, de Carol Bensimon

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7 respostas para JOGO 21 – Play x Pó de parede

  1. marcelo spalding disse:

    Estäo aí dois belos livros.

  2. JLM disse:

    “Capitão Capivara derrapa num final bizarro que fica aquém do que as personagens e a narrativa mereceriam”

    engraçado q ñ vi isso. vai ver q é pq considerei q o conto termina propriamente na cena do quarto (encerrando um dos anseios da protagonista), sendo o restante uma espécie de epílogo. e em epílogos vc pode escrever oq quiser, até pq os créditos já estão subindo na tela…

  3. Grande jogo! Não li muitos dos livros que estão competindo no Gauchão, e nenhum dos dois que disputaram essa partida. A arbitragem de Renata Wolff despertou minha curiosidade. Muito bem argumentada, e para isso não precisou ser longa. Nas entrelinhas ela conseguiu me dizer com muita clareza o que eu vou encontrar e, principalmente, o que poderei eventulmente desgostar em cada um das obras. Em suma, uma arbitragem rica em sutilezas.

  4. Rodrigo Lattuada disse:

    Não conheço o Silvestrin, mas já tive os livros da Bensimon nas mãos (tanto este quanto o Sinuca embaixo d’água), e este Pó de parede eu só li aos pedaços. A prosa dela me agrada (acho o início do Sinuca, por exemplo, belíssimo, embora umas páginas depois eu tenha sentido aquela sensação estranha de estar sendo sutilmente enganado, que eu não saberia explicar), mas não li inteiro nenhum dos contos, portanto me falta a ideia de como funcionam na íntegra (é, pretendo voltar aos textos dela depois; tive os livros comigo na casa de uma amiga).

    Sobre a partida, não posso dizer que concordo com a visão da autora de que literatura é personagem; pra mim, parece mote de escritor limitado. Mas achei bacana ela ter definido um critério pra explicar o resultado final. Acho que se enquadra bem na proposta do campeonato.

  5. JLM disse:

    engraçado o ponto de vista pessoal de cada juiz como leitor. na 1ª disputa, nóia kern viu as casas como a ligação (óbvia) entre os contos de pó de parede. agora, renata wolff traz como ligação o ponto de vista feminino (outra obviedade, apesar de no 1º conto começar com um narrador masculino). mas só? ninguém percebeu outras ligações menos superficiais? eu mesmo vi várias, e estou aguardando alguém comentar (juiz principalmente), mas parece q ando lendo mta coisa sozinho nos mesmos livros q outros ñ leem.

    estou notando q talvez ñ seja este o espaço para se discutir profundamente cada obra, e espero estar errado, mas apenas mostrar o óbvio do livro ou a sensação pessoal do juiz, e espero estar errado.

  6. Luciano Sky disse:

    Em tempos de Gauchão de Literatura, vejam que interessante este post de hoje narrando um Grenal imaginário entre os dois bicampeões da América:

    http://globoesporte.globo.com/platb/olhotatico/2010/08/20/jogo-dos-sonhos-internacional-2010-x-gremio-1995/

  7. Laura Assis disse:

    Não gosto muito de “Falta céu”, mas acho “Capitão Capivara” MUITO bom, o final inclusive. Talvez principalmente o final.

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