JOGO 22 – Aroma hortelã x As grades do céu

JOGO 22
(3º jogo do Grupo 4)

Aroma hortelã,
de Joselma Noal (Movimento / 2008)
x
As grades do céu,
de Susana Vernieri (Libretos / 2009)

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JUIZ
Tailor Diniz
– É jornalista, escritor e roteirista de cinema e televisão. Possui 11 livros publicados nos gêneros crônica, conto e romance. Entre eles, O assassino usava batom, que ganhou, em 1998, destaque em narrativa longa no Prêmio Açorianos de Literatura, e Transversais do tempo (2007), melhor livro de contos também no Açorianos e no Prêmio da Associação Gaúcha de Escritores (AGEs). Na área do cinema, seu roteiro mais premiado é o curta em 16mm Terra prometida, de 2006, Kikito de melhor filme em Gramado e Candango de melhor filme no Festival de Brasília.

O JOGO

No detalhe

Uma verdade sobre a literatura brasileira contemporânea é que todo mundo está escrevendo bem. Sob o ponto de vista da própria literatura, caberia uma longa discussão sobre causas e consequências, que aqui não vem ao caso. Mas é uma verdade que não deixa de nos interessar no particular, já que estamos em pleno campeonato e há uma disputa entre livros para se saber qual deles se sobressai e colocará a faixa no peito no frigir dos ovos. Sendo assim, é obrigatória a atenção redobrada do juiz, pois acho que as decisões ocorrerão a partir do detalhe, com um gol nos acréscimos, um pênalti duvidoso, um (tomara que não!) erro do juiz que não viu um jogador dominar a bola como a mão – tipo Thierry Henry – e fazer o gol do título.

Os livros As grades do céu, de Suzana Vernieri, e Aroma hortelã, de Joselma Noal, são representativos das afirmações do parágrafo acima. Estamos diante de duas escritoras que escrevem bem, têm intimidade com a palavra e seus significados, dominam os artifícios da narrativa e suas armadilhas e – importante – conhecem a fundo o material colhido em suas observações sobre a vida, sabem como filtrar o que interessa no delicado momento de transformar em produto precioso o peso bruto de suas colheitas.

Suzana chega com um título, o Prêmio Açorianos de Literatura, categoria contos, edição de 2009. Um detalhe de peso a ser observado, mas só até começar o jogo. Se esta é uma competição na qual se cumprem as regras de um campeonato verdadeiro, é imperioso advertir que um jogo começa no zero a zero e que, ao longo dos 90 minutos de partida, tudo pode acontecer. Joselma Noal vem formada por duas conceituadas oficinas de criação literária, de Luís Augusto Fischer e Luiz Antonio de Assis Brasil. O que, não custa repetir a advertência, não determina que um jogo comece com placar diferente do zero a zero.

A temática das duas autoras se assemelha bastante. Ambas empenham-se em compreender as relações humanas, em especial entre famílias e casais, as incompreensões surgidas ao longo da convivência, os desgastes comuns de relações que se afundam no quotidiano dos dias passados, nos sonhos desfeitos, nas mágoas e ressentimentos marcados no final de uma relação. Suzana, com mais insistência e talvez de forma mais aplicada, trata daquela linha frágil entre a lucidez e a loucura, uma espécie de corda bamba na qual seus personagens se equilibram do início ao fim – tema também abordado por Joselma, mas com menor atenção.

Para firmar a convicção de que As grades do céu e Aroma hortelã estão no mesmo nível, proponho o início do jogo a partir de dois contos que se assemelham: De portos [Suzana] e A espera de Natália [Joselma]. Em De portos, uma mulher vive numa casa/ilha no meio de um rio. De sua janela, Madalena vê as luzes das cidades vizinhas, da lua, das estrelas. É uma pessoa sem posses, quase paupérrima, mas considera o lugar onde vive um porto de paz.

A Natália de Joselma vive num apartamento, no meio da cidade, que também é uma ilha. Ao contrário de Madalena, Natália é uma pessoa carregada de mágoas, capaz de se fechar em rancores com a felicidade alheia. Seu desconforto com o próprio passado é tão grande que acha que uma família de vizinhos reunida para um almoço de domingo é mera hipocrisia. Enquanto Madalena, de sua casa/ilha, sente-se em paz ao ver a luz das cidades, ao longe, Natália “foge da falsidade da janela”. São duas personagens que, numa situação física semelhante, reagem de forma totalmente diversa, cada uma com sua carga psicológica a lhes pautar reações diante de uma janela aberta.

O jogo anda, a bola rola e o placar continua fechado. As qualidades e deficiências das duas obras se equivalem, e me pergunto qual critério deve ser observado para o desempate, embora o zero a zero não esteja descartado? Vamos procurar, então, alguma saída naquilo que os dois livros deixam a desejar. Suzana Vernieri, às vezes, parece econômica em excesso. Alguns contos, alguns parágrafos poderiam render mais, não deixando ao leitor a sensação de que falta algo para se dar por completo o prazer da leitura. Textos muito enxutos às vezes tornam-se frios, secos, um pouco sem sabor, aquele sabor alcançado partir de uma mastigação completa e prolongada.

Joselma, por sua vez, peca pelo excesso. Embora os contos sejam relativamente curtos (deixando a impressão até de que podem ser fruto de uma coletânea de textos já publicados separadamente), não raro ela parece prolixa, não avança só a partir do essencial, passa a ideia de que, mesmo virando a página, estamos lendo o mesmo texto. Num nível de comparação, o cuidado com a justeza de Suzana falta em Joselma. E um pouco daquele passo a mais que Joselma dá sem beliscar o freio poderia ser útil para Suzana.

O jogo anda, o segundo tempo avança, e nada de gol. Tomamos, então, os dois melhores contos, um de cada livro. Das grades, de Suzana, e Ator mirim, de Joselma. O primeiro é uma narrativa na primeira pessoa, na qual uma pessoa internada supostamente num sanatório narra sua visão dos acontecimentos, amarrada numa cama e sendo submetida a injeções de calmante. O impressionante nessa história não são apenas os artifícios do narrador inventados para ajudá-lo a fazer o tempo andar, enquanto está acordado e precisa se distrair. Inquieta-nos a impressão de que, por trás daquela tragédia toda, a de ser amarrado a uma cama sem possibilidade de defesa, é que ali pode estar havendo algum tipo ou equívoco além do totalitarismo propriamente dito da internação.

Em Ator mirim, Joselma, também por meio da fala de um único personagem, cria uma verdadeira peça de denúncia social – aliás, uma preocupação bem viva da autora ao longo do livro. O narrador é uma dessas crianças que cruzam nosso caminho diariamente nas esquinas, nas sinaleiras, nos parques da cidade. No conto, ele se personifica e nos obriga a dar a ele a atenção sonegada nas corridas diárias do nosso quotidiano apressado. Os atores mirins existem, todos sabemos, mas muitas vezes é preciso o olhar de uma escritora sensível como Joselma para nos fazer voltar os olhos para eles.

Quarenta e sete minutos do segundo tempo, e o jogo continua zero a zero. Qual juiz daria um pênalti nos dois minutos de acréscimo, ainda mais um pênalti duvidoso, daqueles para obrigar as emissoras de televisão a repetirem várias vezes o lance na tentativa de um esclarecimento? Pois vou dar um pênalti, e explico por quê: Joselma, ao longo do texto, me pareceu um tanto maniqueísta, em especial nos contos-sequência A horta, O jardim, O fruto, Flores, Pomar e A colheita; e A espera de Natália, Uma miragem e A foto da menina no travesseiro do pai. Em ambos os conjuntos, fica a impressão de algo catártico. Ao leitor, enquanto a narrativa avança, são dados todos os indícios sobre a quem será atribuída a culpa pelas situações expostas. No final, os vilões são mesmo punidos sem piedade, mesmo diante do arrependimento.

Pelo lado de Suzana Vernieri, o pênalti a seu favor se explica pela visão – digamos – mais aberta dos finais de seus melhores contos, onde, mesmo de forma velada, há uma réstia de luz a indicar que nada está decidido. Como nessa frase, o encerramento do primeiro conto do livro: “A luz do corredor apaga-se e o dia nasce”.

Dado o pênalti, reabro o livro de Suzana, e a primeira fase do primeiro conto [o mesmo da frase citada acima] torna desnecessário seguir adiante: “Há grades que me separam do céu”. Goleiro para um lado, bola para o outro. Fim de jogo. As grades do céu 1 x 0 Aroma hortelã.

Só não xinguem a mãe do juiz. Fora isso, tudo pode.

PLACAR
Aroma hortelã 0 x 1 As grades do céu

VENCEDOR
As grades do céu, de Suzana Vernieri

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4 respostas para JOGO 22 – Aroma hortelã x As grades do céu

  1. Joselma Noal disse:

    Obrigada pela atenta leitura do Aroma Hortelã, Tailor Diniz! Sem xingamentos à mãe do juiz. Um abraço, Joselma

  2. Beleza de jogo. Um típico exemplo de futebol-arte (peço perdão pelo eventual erro quanto ao hífen; depois que os intelectuais de várzea decretaram o Desacordo Ortográfico desaprendi totalmente como usá-lo). Tailor Diniz, como bom autor e crítico que é, trata ambas as obras com o respeito que merecem. Parabéns às duas equipes. E, é claro, especialmente a Suzana Vernieri pelo primeiro lugar no grupo.

  3. Marina Volpi disse:

    Meu voto geral e irrestrito é para Aroma Hortelã. Joselma escreve muito bem, de forma simples, mas com a sensiblidade à flor da pele.

  4. Pautando sua súmula por uma tranquilidade ímpar, especialmente quando critica e faz indicações, a resenha de Tailor realiza um dos grandes jogos do campeonato, e não o digo por simples rasgação de seda, quero aprender. Infelizmente, ainda me falta ler os livros.

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