JOGO 23 – O batedor de faltas x O Ideograma Impronunciável

JOGO 23
(3º jogo do Grupo 5)

O batedor de faltas,
de Claudio Lovato Filho (Record / 2008)
x
O Ideograma Impronunciável,
de João Kowacs Castro (Dublinense / 2009)

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JUIZ
Daniel Weller
– Nascido no Rio de Janeiro em 1968. Como todo viciado em leitura e livros, confunde realidade com ficção e ficção com realidade. Mas garante que tudo é verdade: bacharel em Física (UFRJ) e mestre em Ciência da Computação (UNICAMP). Já trabalhou como marceneiro, astrofísico, foneticista, programador de sistemas multimídias e projetista de software para web. Foi professor universitário durante doze anos. Na ECA/USP, foi professor de roteiro para as novas mídias. Fez especialização em Jornalismo Literário (ABJL). Mora em Porto Alegre desde 2007. Tem duas filhas, que parecem ser de outro mundo. Atualmente, é formando do curso de Letras (UFRGS) e diz se sentir como um cariúcho: acha que o Guaíba é a sua praia, e o apartamento onde mora com sua mulher, a casa definitiva. Em 2009, foi coordenador do Livro e Literatura, da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, quando realizou mais de 60 eventos e concebeu e produziu quatro projetos de formação de leitores: a Maratona Literária, os Debates Contemporâneos, o Prefácio e o Prefacinho ao Vivo.

PRÉ-JOGO

Lá em casa, o campeonato começou em abril. Os dois times chegaram juntos e continuam assim até agora. Nesse jogo, que infelizmente os colocou como adversários, os dois livros se revezaram: muitas vezes, foi O batedor de faltas sobre O Ideograma Impronunciável. Muitas outras vezes, foi O Ideograma sobre O batedor. Foi um jogo muito disputado, e gostei de vê-los em uma dança incerta de capas, de pernas e de orelhas. Foi divertido colocá-los próximos, mesmo estando tão distantes. Muitas boas jogadas e momentos de fruição e prazer. Se a cada sublinhar ou anotação eu apitasse, como deve fazer um juiz real, meus vizinhos me internariam.

O JOGO

O jogo começou quando abri o envelope, ou melhor, quando eles entraram em campo e se colocaram em posição para as fotos. De longe, já foi possível identificar as diferenças das equipes e das estratégias: são escolas diferentes de futebol, com modos distintos de representação da realidade e do ato de contar histórias.

E a primeira impressão, do primeiro minuto, se efetivou na última jogada. Sim, porque a disputa desempatou na última jogada, no tempo de acréscimo, nas duas últimas páginas, na justificativa e explicações (?) do livro. Foi um bonito jogo: 3×2.

O batedor de faltas, com seu uniforme amarelo e preto, durante todo o jogo, deixou claro seu objetivo: histórias do mundo do futebol. A explicitação começa da composição da foto da capa, passa por cada linha, por cada passe e fecha com a foto do autor no futebol de praia de Copacabana na orelha. Cláudio Lovato Filho é um escritor sensível que, com domínio técnico e habilidade, coloca na cara do gol aqueles esquecidos pela imprensa e ludibriados pela vida, que um dia acenou com a esperança de que o futebol pudesse ser o atalho para a ascensão social. Ilusão que perpassa todos protagonistas das histórias de O batedor de faltas.

Cláudio Lovato faz um serviço muito importante: apresenta pra arquibancada o futebol brasileiro das várzeas e dos campeonatos das cidades do interior. Faz um registro de um Brasil que é muito mais amplo que o círculo babaca das celebridades e dos lugares-comuns das reportagens do futebol da primeira divisão.

Seus 17 contos colocam em campo um time de personagens e enredos que valem a compra do ingresso. Para cada narrativa, observamos jogadas que nos levam a entender as frustrações de um futuro sonhado que não vai chegar, a fragilidade do humano e a alegria fugaz do esporte e da vida.

A equipe é forte: o acerto de contas do filho do Zezo; o suicídio do atacante Virgílio; a relação do treinador Ary Santamaria com os novatos; o carrinho que quebrou o Neca; o medo do maqueiro; o triângulo amoroso entre a mulata Luciana, o zagueiro Soares e o volante Moisés; o inseguro centroavante Ramiro; o diretor de futebol Laerte Martins; a polarização entre o goleiro Rodrigo Souza (prata da casa) e o volante veterano Mariano; o gandula Zé Maria, que um dia foi mais importante que o técnico; o ex-jogador Odair e a noite de Natal que poderia ter sido e a visita ao Maracanã do garoto Diego e do alemão Helmut.

E se de um lado há uma equipe forte, do outro lado há um time tão forte quanto. O bacana da partida que tive o privilégio de apitar é que os dois livros usam estratégias diferentes. O batedor é time que atua de forma organizada e estruturada, subjacente a uma equação que conjuga uma lógica de continuidade de narrativas, com confiabilidade e verossimilhança daquilo que é retratado. Já O Ideograma pretende resolver a fórmula e marcar gols, pelo outro lado da equação, a partir da descontinuidade de tempos e espaços e por uma linguagem e narrativas opacas, que exigem uma postura ativa do leitor para construção e produção de sentidos. O torcedor precisa preencher as muitas lacunas e indeterminações das jogadas e, ao tabelar com o time de O Ideograma, passa a ser o coautor dos gols.

Talvez seja exigir demais do pessoal da arquibancada, que muitas vezes vai ao estádio para entretenimento e diversão. Mas isso não é problema d’O Ideograma, que não quer facilitar a vida do leitor e prefere trilhar um caminho complexo: um narrador sem a onisciência e a onipotência do narrador clássico, que tenta retratar instantes efêmeros na desordem de uma fase de transição caótica: da adolescência para a idade madura.

Como leitor comprometido e como juiz da partida, acompanhei as boas jogadas e logicamente fui coautor nas tabelas. O resultado final foi muito bom, mesmo que o time não tenha uma estrutura convencional de narrativa, que o caráter mimético da representação seja colocado de lado e que pouco se preocupe com a defesa. Definitivamente e literalmente, o time não joga na estratégia papai-e-mamãe e tudo leva a pensar que João Kowacs Castro acredita seriamente na máxima: “A melhor defesa é o ataque”. N’O Ideograma, até o goleiro vai pra grande área d’O batedor e é perigo de gol. O livro é todo ataque: ao que está consolidado, negando o simulacro, as certezas, a causalidade e regras pré-estabelecidas da literatura.

Talvez alguns torcedores tradicionais, acostumados com um tipo de jogo, possam achar que o projeto e a equipe d’O Ideograma são descompromissados e sem preparação técnica. É importante respeitar todos os julgamentos, mas também vale lembrar o desafio que significa tatear pelo escuro, assumindo todos os perigos e mistérios da representação do momento presente. Os guris do time d’O Ideograma estão perdidos e nos fazem refletir sobre nós mesmos. As dúvidas e as hesitações são transferidas para nós leitores. A quebra dos referenciais de tempo e espaço e a indeterminação das personagens surgem como contraponto à visão determinista de literatura. Há uma natural desestabilização do leitor, que causa um estranhamento e dificulta a recepção do texto.

No time d’O Ideograma, há movimentos que esboçam tentativas de ampliar os espaços consolidados da literatura, que nos obriga a pensar pelo avesso e aceitar o novo e aquilo que nos faz exclamar: “Como assim?”. Ao responder e refletir sobre as jogadas do João Kowacs, jogamos também no ataque e preenchemos os pontos de indeterminação do texto.

Um leitor aberto às experimentações e disposto a rever as jogadas, em câmara lenta e em leitura miúda, pode perceber um projeto bem delineado: retratos de um mundo caótico de uma gurizada que sofre e que se fode ao se adequar à realidade do mundo adulto, muitas vezes hipócrita e raso.

Não é à toa que a metáfora do prédio alto aparece nas orelhas, na foto do autor e em várias partes do livro. É o desejo de ver de longe, de se manter leve e não entrar no mundo real – seja pelo medo de cair ou de perder a inteligência que todo jovem acredita possuir ou de reproduzir as relações familiares neuróticas ou construir caminhos sem transcendências e pertinências. Não é à toa que uma ave (?) aparece, em voos loucos, para resgatar o guri e levá-lo para longe da realidade que pode chapar as percepções e os desejos. E, por fim, não é à toa que muitos dos 15 contos têm final em aberto: a vida dos protagonistas ainda a definir, como grandes pontos de interrogação. Para onde vou, o que serei, como vou sobreviver lá embaixo?

O Ideograma Impronunciável, com seu uniforme celeste e com um urubu de asas abertas, na capa e no emblema da camisa, mostrou ter o mérito de lembrar que a literatura e o futebol podem ser também uma brincadeira, mais ou menos como jogava Garrincha, a seleção brasileira de 82 ou o jovem time do Santos de 2010. No limite, há uma aproximação do livro com um jogo de montar, um jogo que surpreende, a partir de uma poética de recortes que vai deixando rastros e percursos prováveis pelo gramado. Nada melhor do que transcrever alguns dos rastros e propor uma amostra desse quebra-cabeça. Um convite para levar o livro pra casa:

“(…) mesmo que o caminho que me trouxe até aqui seja desconhecido por todos (…) há cinquenta anos, meus avós têm o mesmo cachorro (…) algo que me ocorreu há poucos minutos, então provavelmente não deve ser verdade (…) me levo tão a sério estou sozinho no topo de um prédio (…) acabo rindo da minha própria dúvida (…) brinco com a sombra de uma nuvem (…) volto os meus olhos para o infinito mais acima (…) a criatura que o salvou, pensando somente como é lindo, visto de cima, esse paraíso devastado (…) vocês sabem o que isso significa? (…) e esse jovem fala uma frase coberta de sabedoria. É uma pena que eu não entenda nada de chinês (…) o pássaro está perdido, não sabe como veio parar aqui, e eu também não tenho ideia (…) eu devo parecer bem maluco falando de tudo isso, não é? Não sei o que houve, talvez muita televisão (…) tinha mentido quando disse que não sabia andar de bicicleta. Sabia. Havia, à base de ameaças familiares, aprendido, vários anos antes, mas morria de vergonha da própria habilidade, além do óbvio medo da dor física e da humilhação envolvidas em cair (…) preciso sumir (…) minha única saída é atravessar a cidade, seguir correndo e nunca mais olhar para trás. Não vai dar certo (…) o mundo por A + B, não é são (..) DO QUE SE TRATA UM MANUSCRITO DE 24O PÁGINAS, ESCRITO HÁ 500 ANOS, EM UMA LÍNGUA DA QUAL NÃO SE CONSEGUE LER UMA PALAVRA SEQUER (…) ALGO DE TRÁGICO SE APROXIMA e EU NÃO DEVERIA ESTAR AQUI (…) preciso descobrir algum meio de ter certeza da existência de Deus. Deus? (…) Só consigo ver falta de sentido em tudo (…) O jovem está de pau de fora. O pau totalmente duro do jovem está apontando para todo esse bando de gente (…) Estava louca para dar (…) Mas será que era esse? (…) Relaxa e goza (…) A festa estava ótima (…) ligou o foda-se (…) Festa maluca pra caralho, des-tru-í-ram a casa do cara (…) Durmo para não acordar. Mas acordo com um estouro horrível e luzes no céu noturno. Escuto gritos preciso correr preciso fugir preciso.”

PÓS-JOGO

Para este juiz, após o prazer da partida, há o momento de ressaca. Justamente estas últimas linhas, quando devo deixar reforçar que a regra não é sempre clara, objetiva e unívoca. Que um gol pode balançar na rede lá de casa, mas pode ser bola fora para uma parte da arquibancada. Que uma jogada pode ser anulada, por impedimento ou falta sem bola, por uma interpretação arbitrária do juiz. Além disso, pela natureza dos livros, há uma dificuldade de avaliá-los e colocá-los em uma mesma escala comparativa. No caso, o que é certo é que, como no futebol, favoritismo não ganha jogo e a literatura é também uma caixinha de surpresas.

Mas o mais difícil foi decidir: quando é gol? Quando a bola realmente estufa a rede?

Tentando agir com transparência, no momento do cara e coroa, combinei com os times que usaria uma simples premissa para a marcação dos gols: eu estaria apitando para toda jogada que me desconcertasse e me surpreendesse. Expliquei que confirmaria o gol apenas se me lembrasse da jogada dias depois. Por isso, apitaria com bastante calma e com muitas interrupções. A dança incerta dos livros, na pilha que foi se alternando sobre minha mesa, durou meses.

Para embasar o método, exigi um pouco mais dos jogadores; li, no círculo central, um texto do psicanalista Joel Birman, que reproduzo abaixo:

“A produção do sentido implica a apropriação do texto pelo leitor, que imprime a sua singularidade na experiência da leitura (…) estas dimensões se fundam no desejo do leitor (…). Com efeito, o leitor é desconcertado pela leitura, que o desarruma nos seus sistemas de referência. Um certo livro não passa em branco para um leitor determinado, quando uma experiência desconcertante desta ordem se realiza. Somente, então, as páginas plenas de sinais gráficos passam a ser escritas com palavras ressonantes. Algo da ordem da provocação aconteceu, pois o desejo do leitor é colocado em movimento mediante um fragmento do texto.” (O sujeito na leitura. In: Birman, Joel. Por uma estilística da existência. São Paulo: editora 34, 1996, p. 54-55)

Também expliquei que ler criticamente um livro de ficção contemporânea é um trabalho arriscado. Seja pela ausência do tempo que facilita a separação do joio do trigo ou pela impossibilidade de análise de um conjunto de obras do autor, por muitas vezes, não existir uma amostra. E, por fim, com humildade, disse que avaliar esteticamente arte no calor da hora é sempre estar na corda bamba, pois depende de sensação e sentimento: exatamente os termos que explicam a palavra grega aísthesis. Dito isso, apitei o início do jogo e agora, ao final, escrevo na súmula:
O batedor de faltas 2 x 3 O Ideograma Impronunciável

PLACAR
O batedor de faltas 2 x 3 O Ideograma Impronunciável

VENCEDOR
O Ideograma Impronunciável, de João Kowacs Castro

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8 respostas para JOGO 23 – O batedor de faltas x O Ideograma Impronunciável

  1. Um dos grandes momentos do Gauchão até agora. Daniel Weller mostra ser um juiz sábio. Não se pode avaliar com justiça uma obra de forma precipitada. O critério que ele adota, tomado de empréstimo a Joel Birman, é inquestionável. A nota que fica no ar depois que a música acaba é a história que segue sendo contada depois do ponto final. Essa transcendência é o que de fato importa em arte. Parabéns às duas equipes, em especial à do Joao Kovacs Castro, e à excelente arbitragem.

  2. Rafael Bán Jacobsen disse:

    Realmente, um dos grandes momentos do Gauchão. Bom saber que mais pessoas, assim como eu, foram realmente desconcertadas pela alta carga simbólica e pela inegável beleza dos contos de “O Ideograma Impronunciável”. Grande arbitragem! O Daniel só podia ser físico mesmo!

  3. JLM disse:

    resenha bem elucidativa deveras.

  4. Não sei se cabe ao jogador julgar o juiz, tanto na vitória quanto na derrota, mas gostaria de dizer que fiquei muito feliz por ter meu trabalho valorizado (e visualizado) pela arbitragem incisiva, eloqüente e sólida de Daniel Weller.

    Muito obrigado, Faccioli e Jacobsen, pela torcida de peso e
    um grande abraço a todos !

  5. Sergio Napp disse:

    Preciso ler O Ideograma Impronuncável depois das considerações do juiz. Grande arbitragem, Daniel!

  6. Resenha elucidativa e clara, com argumentos que justificam plenamente a opção do juiz.

  7. Tenorio disse:

    Grande Arbitragem!
    Daniel é um juiz que não atrapalha o jogo. É a favor da lei da vantagem. Por isso seu texto tem fluência. É uma resenha que dá prazer quando lemos.
    Acho que o juiz está apto para fazer parte do quadro da Fifa.

  8. Luciano Sky disse:

    Grande jogo! Mais uma bela arbitragem e dois bons times que despertam a vontade de ler os livros. Parabéns!

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