JOGO 25 – Raiva nos raios de sol x Trocando em miúdos

JOGO 25
(3º jogo do Grupo 7)

Raiva nos raios de sol,
de Fernando Mantelli (Não Editora / 2008)
x
Trocando em miúdos,
de Luiz Paulo Faccioli (Record / 2008)

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JUIZ
Pedro Mandagará
– É bacharel em filosofia pela UFRGS e mestre em letras (literatura) pela PUCRS, onde agora faz doutorado na mesma área.

OS TIMES

TIME 1: Raiva nos raios de sol, de Fernando Mantelli
UNIFORME: Livro de apenas 88 páginas, que o excelente projeto gráfico faz parecer maior. A orelha esquerda, presumivelmente escrita pelos editores, e o excerto destacado na contracapa não ajudam.
ESQUEMA DE JOGO: Vinte contos curtos explorando temáticas relacionadas à violência.
GOL DE PLACA: Projeto gráfico.
BOLA FORA: Difícil escolher, mas talvez o conto O rinoceronte seja o mais emblemático: apenas uma página, porém repleta de misoginia, violência irrefletida e mau uso de metáforas (na relação do título com o texto).

TIME 2: Trocando em miúdos, de Luiz Paulo Faccioli
UNIFORME: Capa e projeto gráfico bem-feitos, dentro do padrão estabelecido pelas grandes editoras. O mesmo padrão, porém, pode fazer o livro perder destaque quando exposto em livrarias. Falta na capa a indicação do mote do livro (canções de Chico Buarque). Na contracapa, falta indicar a fonte da citação de Lya Luft que se encontra em destaque.
ESQUEMA DE JOGO: Dez contos e cinco microcontos inspirados em canções de Chico Buarque.
GOL DE PLACA: O primeiro conto, Depois que ele chegou, inspirado na canção Maninha, de Chico. O conto é estruturado por diversas perguntas, que seguem a estrutura “se lembra das fogueiras, se lembra dos balões” (dois primeiros versos da canção). As respostas às perguntas fazem correr a ação, concentrada na organização e realização de uma festa junina num passado de infância algo idílica. Em meio a isso, o narrador se lembra de sua primeira desilusão amorosa.
BOLA FORA: Os cinco microcontos (o que não é um problema do autor, mas do gênero).

O JOGO

Segundo a orelha do livro, Raiva nos raios de sol “conduz o leitor a uma realidade crua, dolorosa, que avassala sonhos, vidas, projetos” e “estraçalha o charme da pornografia ao colocar erótico e grotesco na mesma forma”. As duas frases descrevem mais um projeto do que sua execução: o livro de Mantelli conduz a um mito, não a qualquer realidade – e, mais que desconstruir a pornografia, repete sua estrutura no que há de mais banal.

A intenção naturalista do livro pode ser vista em Sheila e os ratos, que, com sete páginas, está entre os contos mais longos da coletânea. Na primeira parte do conto, o empregado de uma gráfica aceita o convite do patrão para passar um fim de semana em Torres e acaba se envolvendo com a filha do patrão, Sheila, de treze anos. Dois dias depois, o pai flagra os dois na gráfica e, seguindo uma altercação, ele apanha. Na segunda parte, o protagonista é torturado numa delegacia, onde descobre que Sheila foi morta. Mesmo assinando a confissão, continua sendo torturado.

Muitas coisas são denunciadas no conto – o abuso de Sheila pelo pai, a misoginia do narrador, a truculência policial. Nada disso, porém, passa da simples exposição da violência. O conto se estrutura em cima de descrições sumárias de personagens (o senhor Lomes, gordo, sua esposa, “um nada ao cubo”, a filha mais velha Michele, “típica putinha adolescente”), seguidas por apenas três cenas: um primeiro contato com Sheila, o segundo contato, onde o pai os flagra, e a tortura policial. A “realidade crua e dolorosa” do conto, portanto, está concentrada nos momentos de violência – não existe qualquer sonho, vida ou projeto “avassalado”, pois nenhum é mostrado: as vidas se resumem a descrições sumárias (inclusive a do narrador, de quem só sabemos que, antes do narrado, era casado e tinha emprego – não sabemos com quem era casado ou por que sua esposa não foi junto na viagem a Torres). A estrutura do conto segue a dos filmes pornográficos, e a fusão do erótico com o grotesco em nada a desconstrói. Essa fusão, afinal, já foi realizada há séculos na literatura erótica (Sade) e pode ser vista na “pornografia da violência” presente em filmes como o (péssimo) Ichi the killer, de Takashi Miike. Concentrando-se nesses momentos extremos, o conto reproduz o mito de que são eles o que importa na vida, de que são onde a vida chega ao seu cerne e se torna visceral. Assim, chegamos ao fundo místico, moralista e banal, que perpassa Raiva nos raios de sol – e um sem-número de escritores e cineastas atuais.

Trocando em miúdos não cai nessa armadilha: mesmo quando flerta com a temática sexo/violência, caso de Um dia depois de outro dia (inspirado em As vitrines), o discurso narrativo se desenvolve de maneira a aumentar a complexidade do relato. Reflexões, descrições e aparentes banalidades fazem parte do texto dos contos, que ganham em riqueza narrativa, se afastando do simples esquema.

O que não quer dizer que os contos não tenham problemas. Aparecem alguns estereótipos, caso do malandro do conto Biscate, do choque entre a estrangeira fria e o desejo tropical em À francesa e do religioso que se descobre homossexual em Sobre todas as coisas. Além disso, como já indiquei acima, os cinco microcontos formam um corpo estranho no livro. Nem tão pequenos como os menores do gênero, os microcontos de Faccioli ainda assim se limitam ao humor e ao moralismo, ou os dois combinados (como em Mar e lua). Esse não é um problema próprio do autor, mas perpassa todas as coletâneas de microcontos que já examinei (e pode ser que seja uma limitação estrutural do gênero – fica a dica de projeto de tese em teoria literária). Minha sugestão é, caso o autor faça uma edição revisada do livro: ou cortar fora os microcontos (só se perdem cinco páginas!), ou reelaborá-los em forma mais longa, aproximando-os da complexidade do restante de Trocando em miúdos.

Chegando ao momento da comparação, percebo que faltaram as metáforas futebolísticas. Então vai: comparar Raiva nos raios de sol e Trocando em miúdos é como comparar uma equipe sub-17 com uma profissional – como comparar a adolescência com a vida adulta. São duas concepções completamente diversas de literatura, ambas com suas limitações e problemas. Em apenas uma, no entanto, a narrativa consegue reencenar uma vivência, se afastando do esquematismo.

PLACAR
Raiva nos raios de sol 0 x 2 Trocando em miúdos

VENCEDOR
Trocando em miúdos, de Luiz Paulo Faccioli

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2 respostas para JOGO 25 – Raiva nos raios de sol x Trocando em miúdos

  1. Estou orgulhoso do meu time. Ele sobreviveu com galhardia à severidade da avaliação do Pedro Mandagará, que demonstra competência, não se deixa ludibriar e apita todas as faltas. Apesar da sova, outra vez o time sai de campo maior do que entrou. Quanto aos microcontos, duas observações: 1) gostei de vê-los enquadrados no subgênero que julgo correto — para mim não são efetivamente minicontos, como os precursores escritos por Kafka, mas microcontos; 2) tenho sobre eles a mesmíssima opinião, que aliás coincide com a do Diego Grando. Estão incluídos no livro porque foi com eles que comecei a experimentar o diálogo com a obra do Chico e depois não consegui dispensá-los da coletânea. É claro que alguém sempre poderá ter uma opinião diferente da nossa, minha e dos dois árbitros.

  2. Li a resenha pensando que dois jogos, duas confrontações para cada livro, realmente nos dão uma visão variegada do que ele contém, o que me dá uma sensação boa em relação aos propósitos do Campeonato. Sobreviver à crítica, e também aos elogios, durante o balanço permanente que se faz da própria obra, faz parte do metiê. Ao resenhista-juiz, aos dois times, e especialmente ao autor do livro já classificado, meus parabéns.

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