JOGO 26 – Das travessias I x Veja se você responde essa pergunta

JOGO 26
(3º jogo do Grupo 8 )

Das travessias I,
de Sergio Napp (WS Editor / 2008)
x
Veja se você responde essa pergunta,
de Alexandre Rodrigues (Não Editora / 2009)

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JUIZ
Jeferson Tenório
– Nasceu no Rio de Janeiro, em março de 1977. É professor estadual de Literatura e Língua Portuguesa e também estudante de Letras da UFRGS.  Em 2007, foi destaque no prêmio Palco Habitasul, com o conto A beleza e a tristeza. Em 2008 e 2009, teve o conto adaptado para uma peça teatral, com estreia no Theatro São Pedro. Em 2008, foi menção honrosa no concurso de contos Paulo Leminski, com o texto Cavalos não choram.

O JOGO

Comecemos pelos uniformes:

A capa de Das Travessias pareceu-me uma escolha bastante acertada, já que a imagem de trilhos tendo a neblina como paisagem lembra um trajeto misterioso, um percurso insólito, enfim, uma travessia. É uma capa bastante sedutora.

No entanto, a primeira bola fora está na orelha do livro, pois creio que seja desnecessário dizer que “Todos os textos foram selecionados por Caio Riter, Flávio Ilha e Nóia Kern, o que qualifica ainda mais este projeto”. Pegou mal, porque independente de quem faz a seleção, a qualidade de um texto deve ser comprovada nele mesmo. Se os textos foram selecionados anteriormente, não é necessário que isso seja destacado. Sei que se trata de uma estratégia comercial, mas fica parecendo que os textos precisam de uma legitimação para ter mais valor. Talvez um prefácio bem escrito resolvesse o caso.

A capa de Veja se você responde essa pergunta foi bem bolada, pois simula uma questão que dá uma vontade de responder (aliás, eu marcaria a letra A), além disso, todo o projeto gráfico do livro é muito bem acabado e bastante sofisticado. A composição do sumário é criativa, com aquelas folhas de papéis rasgados, assim como o início de cada capítulo, que imita folhas pautadas de cálculos e gráficos.

Nesse quesito, o livro não tem bola fora.

Mas acontece que só camisa não ganha jogo. Então, vamos à partida.

Muito bem, sabe aquele gol marcado logo no início? Pois é, foi o que aconteceu no livro de Sergio Napp. O primeiro conto começa assim: “Amaram-se durante mais de trinta anos e quando ela morreu ele não chorou”. É um belo começo para um conto. Devo confessar que tenho uma queda por histórias tristes, histórias que suscitem sentimentos difíceis. É o caso de Travessia, o conto que dá título ao livro. A história gira em torno de um homem que fica viúvo, mas não chora. A atitude causa estranheza, já que a sua mulher havia sido “amante, companhia de todas as horas, pau pra toda hora, cozinheira, muleta”. Sem a presença do pranto, só restara ao viúvo a companhia da empregada Mercedes. É aí que se dá beleza desse conto, pois certo dia Mercedes percebe que o homem começa a inchar, sem parar. Até que “Numa manhã, ao trazer-lhe o café, percebeu, em seu olho esquerdo, uma gota de água”. Era o início do choro. A dor da perda começava a ser externada. Daí por diante, Mercedes tem muito trabalho para manter travesseiros e lençóis secos, pois o homem não para mais. O choro inundou a casa e logo chamou a atenção de vizinhos, médicos, religiosos, todo o tipo de gente tentando dar uma explicação para aquele fenômeno. O conto mostra o descaso com o sofrimento alheio. Todos da cidade querem tirar proveito daquele fenômeno, desde os vizinhos, passando pelo presidente da Associação de Amigos do Bairro, comerciantes, até chegar ao prefeito. A história do homem que chorava ganha notícia na tevê e no rádio. Temos aí, portanto, o grande absurdo: a comercialização da dor. A exploração midiática da dor dos outros. Trata-se de um conto triste, um conto sobre a perda.

Sobre a travessia da perda.

O segundo conto também não deixa por menos. Olhos de menino conta a história de um guri que vai à praia no mês de abril, tempo em que “a temporada do veraneio se encerrou e as festas da semana santa concluíram-se”. Sergio Napp cria uma atmosfera de solitude e abandono (e vamos combinar que as praias do Rio grande do Sul são sempre tristes em abril). O cenário é muito bem construído. Há momentos bastante poéticos: “O cão, que ficara na praia, late como se tentasse despertá-lo. O menino, sentado no alpendre, balança as pernas e olha o mar”. É a singeleza da cena que o torna poético. O menino e o seu cão. A sensação de abandono e desamparo que só uma praia deserta pode suscitar. Ora, como não lembrar aquele baita poema do Drummond, Consolo na praia: “Vamos, não chores / A infância está perdida / A mocidade está perdida / Mas a vida não se perdeu / (…) / perdeste o melhor amigo / não tentaste qualquer viagem / não possuis casa, navio, terra / mas tens um cão”. Creio que o conto alcança a mesma densidade poética desse poema. Bom, a partir daí, o livro parece perder sua unidade estética, digo, sua direção enquanto projeto literário de um livro, já que os outros contos versam sobre diversos temas. Como, por exemplo, nos contos Prazeres do sexo, Enforcado e Potro ferido, que versam sobre a difícil relação entre pai e filho. Aliás, esse último com uma bela cena: “O pai é aquele homem enorme, mãos grandes, olhos escuros e atentos, voz pausada e grave, gestos preciosos como só ele consegue, aquelas passadas seguras, aquele ar de quem sabe o que faz e o que quer. O pai é aquele mundo onde o menino não consegue entrar, aquele mistério para o qual ele não tem resposta, a caixa que não se deixa abrir”. Bonito, não? Agora, um quase gol contra é o conto Uma chance para Deus, achei um tanto quanto panfletário. É um outro conto triste, sobre a miséria, sobre a fome de uma família, mas poderia ser mais sutil. Até porque escrever é isso: um jogo de sutilezas, de habilidades.

O time de Sergio Napp logo se recupera com o conto Jogo. É um texto duro, seco, enxuto, com diálogos bem estruturados e ágeis. Não há desperdício. Percebe-se um trabalho consciente com a linguagem, em que “andaimes” não aparecem.

Ao fim da leitura do livro Das travessias, entrei num clima de “já ganhou”, pois ainda não havia lido Veja se você responde essa pergunta. A capa do livro do Alexandre Rodrigues me suscitou o seguinte pensamento: “Hum, lá vem um daqueles livros pós-moderninhos que a gente lê e não entende nada”. Iniciei a leitura pelo meio do livro. No entanto, a primeira coisa que posso dizer é que fui abduzido por ele, li numa tocada só. Comecei pelo Fetiche idílico. E devo confessar que também tenho uma queda por histórias de humor mais refinado e com um certo tom de fantástico. Outro mérito do autor é a economia na linguagem. Admiro quem consiga ser mais exato. Dizer muito em poucas palavras, que na verdade é a virtude de um bom contista: a síntese. Mas voltando ao Fetiche idílico, quando um sujeito chamado Ivan começa a chorar em pleno horário de trabalho de um escritório – e não para mais –, a pergunta é: “Por que um homem adulto chora desse jeito e logo publicamente?”. E um homem chorando num escritório não fica bem mesmo. Acontece que Ivan é um funcionário quase invisível, pois “trabalha no mesmo canto há três anos e meio, e ninguém à sua volta se lembra de nada relevante a seu respeito. A maioria sequer sabe qual a sua função”, ou seja, o pobre coitado é quase aquele sujeito do conto Arquivo, do Victor Giudice, em que o cara passa a vida inteira num escritório e depois vira um arquivo. O fato é que Ivan não diz o porquê do seu choro, ou se recusa a dizer, o que nos remete também a um outro personagem: Bartebly, de Herman Melville, pois se Bartebly “prefere não fazer”, Ivan “prefere não dizer” o motivo do choro. Mas não é preciso dizer, porque o pranto de Ivan tem a ver com a atmosfera opressiva da vida burocrática, tem a ver com a falta de sentido da vida moderna que massifica os homens. É um choro do absurdo. Um pranto existencial.

O ciclo se fecha e um novo choro recomeça “quando Rogério desiste de ligar o computador e, olhando de relance para mesa vazia de Ivan, esconde o rosto entre as mãos. Sem razão aparente, começa a chorar”.

Mas o empate da partida se deu no conto a seguir: Pessoas que seguem pessoas. A epígrafe do pessoal do Dresden Dolls cai bem quando relacionamos com o foco narrativo. É um conto em que os narradores se alternam na questão de gênero. É um conto bem estruturado. Mérito pela boa “costura” entre os narradores, uma boa linha de passe até o gol. O conto começa com uma mulher seguindo um homem de terno azul, depois o homem de terno azul assume a narrativa, depois é a vez do amigo do homem de terno, o Lindomar, e assim por diante. Mas o que é mais apavorante é que essa coisa de ser seguido ou seguir pessoas na rua não é absurda, não está no campo do improvável. Temos, portanto, a psicopatia do mundo contemporâneo sendo exposta. Vale a pena conferir o foco narrativo do detetive particular: “Sigo esse senhor a pedido da mulher dele, que, há três dias, foi ao meu escritório e, em prantos, disse: ‘Ele me traiu, é um ordinário’. Eu respondi: ‘É melhor a senhora esquecer tudo e voltar para casa. É coisa mais normal do mundo alguém trair. Todo mundo trai hoje em dia. Quem sabe a senhora não arruma um amante também e vocês ficam quites?’. Ela me olhou com raiva, sem querer saber minha sugestão. Sabe como são algumas pessoas. Preferem o sofrimento. Pessoalmente, se querem saber, eu prefiro a mentira”. Muito bom, né? É a esse humor refinado que me referi antes.

Os personagens paranoicos passeiam pelo livro de Alexandre, como no conto O beijo de 82, quando um cara vai cobrar um beijo vinte e tanto anos depois. E a moça nega. O final do conto é bastante perturbador. Mas, no fundo, trata-se de uma história sobre o esvaziamento do amor. Sobre a falta de tempo para troca de afeto. Novamente, o autor nos coloca dentro de mais um ambiente cheios de burocratas: um banco. As neuroses desses personagens são os sintomas da violência oriunda da vida moderna que anula o sujeito e põe em cheque sua sanidade. A saída é a loucura? O livro não traz resposta, mas pergunta a todo o momento, pois, tal qual a capa do livro, a vida é um problema matemático sem resposta. E talvez seja por aí que o livro de Alexandre se sobressai, porque cada conto são enigmas existenciais. O livro equilibra bem o humor com a trágica vida cotidiana, tediosa e triste de seus protagonistas.

Então, vamos lá, para a definição: o livro do Sergio Napp é muito bom, mas perde na questão da unidade estética. Está mais para uma coletânea de contos, além disso, o título Das travessias é bastante genérico, o que dificulta sua unidade – diferentemente do livro Veja se você responde essa pergunta, onde se percebe um projeto literário, porque não tem cara de coletânea. Há uma preocupação com a estrutura geral do livro. Bom, por isso, gol nos acréscimos para Veja se você responde essa pergunta.

PLACAR
Das travessias 1 X 2 Veja se você responde essa pergunta

VENCEDOR
Veja se você responde essa pergunta, de Alexandre Rodrigues

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2 respostas para JOGO 26 – Das travessias I x Veja se você responde essa pergunta

  1. Belo jogo! Parabéns aos dois times, em especial ao vencedor, e à excelente arbitragem.

  2. Os contos destacados nos dois livros agudizaram minha curiosidade, parecem ser realmente bons. Bela resenha, Jeferson. Se Napp possui larga trajetória, Alexandre surge com boa expectativa: parabéns aos dois. Fiquei com uma pergunta: Travessias, organizado por tais e quais escritores, antes de estar “mais para uma coletânea de contos”, não seria exatamente isso?

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