JOGO 27 – Escuro, claro x Um guarda-sol na noite

JOGO 27
(3º jogo do Grupo 9)

Escuro, claro,
de Luís Augusto Fischer (L&PM / 2009)
x
Um guarda-sol na noite,
de Luiz Filipe Varella (Dublinense / 2009)

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JUIZ
Diego Petrarca
– É formado em Letras pela Uniritter e mestre em Teoria Literária – Eixo Escrita Criativa – pela PUCRS. É professor de literatura e redação. Publicou três livros independentes (poesia, crônicas) e integrou diversas antologias por editora convencional. Publicou poemas em jornais, revistas e sites literários. Premiado em alguns concursos de criação poética. Jurado de concursos literários, entre eles o Prêmio Açorianos de Literatura, em 2008. Integra eventos literários em Porto Alegre. Ministra oficinas de criação poética em espaços culturais. www.ladodoentro.blogspot.com.br.

O JOGO

Escreve o árbitro, começa o jogo. Dois livros de contos.

De um lado, Escuro, claro, de Luís Augusto Fischer, professor pensador de literatura, provavelmente também seria cotado para apitar qualquer uma dessas partidas literárias. Fã confesso de Machado de Assis, autor que com certeza lhe ensinou as melhores coreografias escritas que Fischer, como exímio jogador, soube aplicar em seus passes, dribles e janelinhas verbais na arte de conceber um conto.

Escuro, claro está vestido de preto e branco, tal qual o uniforme corintiano. No preto, que ocupa metade da capa, está impressa a palavra Escuro, do título, e, na outra metade, o fundo branco traz a palavra Claro, em relevo. Uma bela sofisticação gráfica que corresponde à ambiguidade do título.

O autor de Escuro, claro abre o livro com uma espécie de prefácio, nota de explicação do autor, em que considera a dificuldade em dar uma unidade a um livro de histórias escritas em épocas diferentes de sua vida. O autor menciona também a dificuldade em nomear o livro, como pensar o título se nem ao menos a unidade é sugerida?

O livro é uma compilação de contos que o autor foi reunindo ao longo dos anos, alguns já saíram publicados em livros anteriores e estes estão datados, talvez para enfatizar que, dentro de uma compilação de contos inéditos, alguns já tinham vida impressa. Desses, destaco de cara O cerco, de 1996, e Acaba o estágio, de 2002. Duas belas formas de narrador-personagem. Uma linguagem da fala permeia esses dois contos, a história sai toda da boca do personagem.

Acaba o estágio fala sobre uma declaração de amor que fica entalada e depois vem a surpresa de que a personagem, tratada no conto como Ela, acaba se casando com Gilberto, um cara que aparentemente Ela não tem nada muito sério, deixando no ar a certeza de maior envolvimento. Mas isso é apenas imaginado pelo narrador, como um consolo criativo. A confirmação vem no final do conto, com o personagem tendo que aceitar o incômodo convite de padrinho daquele casamento inesperado, de Ela com Gilberto.

A forma que Fischer conduz o conto roça um curta-metragem, pela habilidade em deixar no discurso do diálogo toda a história. Como um gol de placa logo no início do livro, abrindo o placar:

“(…) Eu te convidei para conversar porque eu quero te perguntar uma, duas, três ou quatro coisas. Posso?
Ela: – Essa é a primeira?
Eu: – Sim, eu calculei tudo.
Ela: – Sim.
Eu: – Eu queria saber uma coisa só, eu acho, pelo menos é a primeira: tu namoras o Gilberto?(…)”.

O conto O cerco é dividido em quatro partes e também adota o esquema tático narrador-personagem/primeira pessoa, assim como a temática amorosa e seus conflitos. Passes líricos que não driblam o leitor pelo conteúdo, mas pela sutileza da conversa com a precisão da fala cotidiana:

“(…) tô te telefonando, acho que tô forçando um pouco a barra, não tô?
– …
– Pois é.
-…
– Tá, mas tu não acha que… tu acha que não faz nenhum sentido o que eu falei?(…)”

Vale lembrar que Escuro, claro é dividido em partes: O império de Eros, em que está o mel do melhor do livro e onde estão inseridos os contos mencionados. Depois, A força de tânatos, uma série de contos, em sua maioria curtos, concisos, instantâneos, princípios simpáticos ao conto. O auge do desempenho do autor nessa partida. Temas cotidianos, a árdua tarefa de conciliar a imposição da riqueza material na vida de todo dia. Destaque para o conto Jogar o jogo, sobre um adolescente jogador de basquete que é descartado do time para resolver uma partida decisiva.

As outras duas partes, As estratégias de Clio e A bênção de Machado de Assis, talvez sejam o ponto fraco do livro, tendo aqui o livro como livro de contos.

A bola bate na trave e, pela performance da jogada, é tão louvável quanto um gol de placa, é quando o autor acerta na escolha do título, homônimo a um dos contos da série Eros: uma precisão absurda, um drible que entorta zagueiros e laterais e comove e silencia até a torcida adversária. Na página 57, Escuro, claro, uma história de pouco mais que meia página pode ser lida como prosa poética quando o narrador, sempre personagem, quando está ligado a Eros, compara a claridade ao sol, tatuado? (fica aquela brecha de possibilidades típicas de toda boa poesia) no corpo de Clarinha, uma musa do momento. É quando esse sol ilumina Clarinha que se estabelece o contraponto, a escuridão, que era a sombra na vida do personagem. “Eras para ser o sol, só podia ser tu, que tens um no corpo (…)”

Uma sequência de belos passes e dribles verbais incomparáveis:

“Sombra é quase só o que eu tinha, a minha velha vida (…). Aí aparece tu, sol puro, luz dura (…) (nem te falei, mas lembrei daquele lance renascentista: chiaroscuro. Claro-escuro. Um só existe porque tem o outro (…) Luz dentro do olhos, eu dentro da luz.(…) Mas o problema é a noite, esta noite interminável quando tu não estás por perto” (…).

Nesse caso, o gol é desnecessário, interessa mais o desempenho em campo, ou no campo da página, a arte de jogar/escrever, a letra/bola que vem e vai, num ritmo único, embalando, cativando o leitor/torcedor. Se todos os contos fossem como Escuro, claro, o léxico literário migraria para o léxico futebolístico sem maiores impasses intelectuais, pois o placar já estaria definido: goleada! Nem seria preciso que o conto fosse impresso em versos: a poesia já estava insinuada, tal qual o gol se insinua diante do pênalti.

As outras duas partes, As estratégias de Clio e A bênção de Machado de Assis, talvez sejam o momento em que o jogador se confunde com o juiz, isto é, o autor se confunde com o professor, e a informação literária assim como sua formação de leitor é mais nítida do que contar uma boa história, como está mais que claro na parte que menciona Eros, por exemplo. Ficou mais um ar didático nos textos metaliterários e nas homenagens ao autor amado Machado de Assis que uma dicção mais perceptível de autoria própria, descolado das referências, sem estar apoiada de forma tão evidente em bases literárias.

Talvez a proposta do autor fosse justamente não esconder esse diálogo com suas referências e deixar prevalecer mais o tom ensaístico que literário, embora ainda o objetivo fosse o conto. Uma exibição de quem se sabe mestre da bola que rola em palavra, bem-vinda para o jogo, mas não para concluir o gol, que sempre é o que fará ganhar a partida.

Do outro lado, está Um guarda-sol na noite, de Luiz Filipe Varella. Curiosamente, o título menciona um contraponto tal qual está em Escuro, claro. Uma sintonia de ideias, de jogadas? Mesmo estilo de chutar a bola em direção ao título? Enquanto o sol do conto Claro, escuro está no corpo de Clarinha, que é a luz total, e o escuro é aquela sombra vinda do prédio que barra o sol e, ao mesmo tempo, é a analogia para a situação do personagem que narra a história, em Varella é necessário uma sombra (guarda-sol) para conter a noite, mãe de todas as sombras.

Interessante destacar essa coincidência imagética, metafórica, nos títulos, diferentemente do esquema tático de jogo. O aproveitamento literário da claridade e a sombra estão presentes nos dois autores, nos dois títulos, inclusive. Dribles iguais, chutes diferentes. Movido por essas relações e coincidências, até me lembrei do verso: “Tudo claro, tudo claro. A noite assim que é bom”.

Luiz Filipe Varella também não é autor estreante, já passou por cursos de criação, já treinou bastante em grandes clubes, como a oficina literária do Assis Brasil, uma fábrica de craques.

O uniforme do livro é discreto, um cercado de madeira com fundo branco, fundo claro, ainda sem guarda-sol. Uma edição elegante, um formato fora do convencional 14×21, uma editora sofisticada e nova no mercado. Um sopro de vida de linha editorial, de novos autores. A torcida vibra.

Um guarda-sol na noite são 23 contos curtos, quase todos brevíssimos, uma potência em termos de forma, de essencialidade, de enxugamento. Precisão e velocidade de imagem ao mesmo tempo.

Os contos de Varella são para fora, pintam ou filmam com a palavra. O conto é o pretexto para fotografar alguma coisa. Outro aspecto são as epígrafes presentes nos contos: vão de Allan Poe a Bob Dylan, a cultura pop convivendo com o cânone literário, o que mostra uma influência variada, arejada. Bob Dylan também sabia contar uma boa história. Destaco ainda a referência ao poeta Jim Morrison, que abre o livro de Varella com uma de suas letras: “You know the day destroys the night”.

É difícil burilar um texto sem deixar de conter o importante para a história, cortar coisas pode contribuir para o ritmo e a fluidez do texto, mas também pode deixar espaços incompletos para a compreensão do texto, é preciso ter uma habilidade que não apenas comprove domínio da técnica, mas também sensibilidade e controle do que se quer narrar. Nesse sentido, o conto Do jeito que eu gosto acerta o ângulo exato e sacode as redes, golaço. Sem alarde, poucos toques na bola – e no teclado –, um conto de meia página contendo só o essencial, se tirasse uma vírgula, a bola ia para fora, longe da trave. Trata-se da descrição de uma bela mulher, nua na cama, bunda exposta, tudo pronto para o deleite, mas a mulher está morta, a pedido do personagem, exatamente como ele gostava: nua e de “bunda pra cima”. Num parágrafo, o que seria uma descrição lírica torna-se um crime doentio, nos mesmos detalhes da descrição de quando a desejava.

Outro exemplo dessa capacidade de mostrar/contar com o mínimo, com a síntese que fortalece o texto, é o conto Um fruto, que compõe de forma intocável os preceitos consagrados do bom conto: imagem, concisão, estranheza, descartando o que veio antes e o que virá depois, o instante congelado, fotografia, pintura, como são os belos dribles, passes, presentes nos curtos períodos, pois o ritmo é música da pausa. A ação contínua das frases, o movimento da bola entre as pernas do adversário.

“(…) Ela ergueu a cabeça com o susto, uma mecha dos cabelos caiu sobre a testa, a boca abriu-se vermelha para um grito que não veio e se transformou em sorriso.(…)”. Ou ainda: “(…) E estava ali, em cremes, em espelho, em nudez, subindo o maiô pelas pernas muitos retas, quando abriram a porta (…)”.

Reconheço em Varella um eco formal de Dalton Trevisan, brevidade e densidade aliados a imagens escritas. O conto Contra-ataque, todo armado em diálogo, sem nenhuma interferência narrativa, mostra um reencontro, através de um telefonema, entre um jogador de futebol (goleiro) e seu médico, que faz uma chantagem para o goleiro boicotar uma partida. A história cresce e muda de direção apenas pelo uso do diálogo, e o que seria um reencontro de amigos passa a ser uma conversa inesperada.

Um guarda-sol na noite conseguiu, em seus passes contidos e precisos, sem se embaralhar em referências ou em táticas metaliterárias que falam mais que a própria história, chegar duas vezes ao caminho do gol.

Portanto, o placar finaliza no seguinte resultado, enquanto a partida já estava entendida como empatada:

PLACAR
Escuro, claro 1 x 2 Um guarda-sol na noite

VENCEDOR
Um guarda-sol na noite, de Luiz Filipe Varella

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Uma resposta para JOGO 27 – Escuro, claro x Um guarda-sol na noite

  1. mkalves disse:

    Só lamento não conseguir ler todos esses livros no mesmo ritmo em que seguem os “jogos” para ter minha própria percepção e poder torcer ou reclamar da arbitragem, como gosto de fazer no brasileirão. risos

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