JOGO 28 – Atalhos x Minicontando

JOGO 28
(1º jogo do Grupo 10)

Atalhos,
de Luís Dill (WS Editor / 2008)
x
Minicontando,
de Ana Mello (Casa Verde / 2009)

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JUIZ
Bernardo Moraes
– Escritor, autor de Minimundo (Instituto Estadual do Livro, 2006). Doutorando em Creative Writing na University of East Anglia (Inglaterra), Mestre em Letras com ênfase em Escrita Criativa pela PUCRS. Trabalha em uma graphic novel, Homesick Blues, com o ilustrador Eduardo Medeiros.

http://bernardomoraes.wordpress.com
bernardo.words@gmail.com
@bernardomoraes

OS TIMES

TIME 1: Minicontando, de Ana Mello

UNIFORME: Talvez o ponto fraco do livro: a edição não é muito bonita. Apesar da relação clara com a ideia de computadores e internet, não há uma relação direta entre o projeto gráfico e os temas do livro.

ESQUEMA DE JOGO: Como o próprio título deixa claro, trata-se de um conjunto de minicontos, parte da série Lilliput da Casa Verde. Cada página, um miniconto, totalizando cem narrativas. Narrado com domínio do estilo: contos breves não são apenas contos de poucas palavras. É preciso condensar toda estrutura do gênero em um espaço pequeno, e fazer isso exige prática e talento, algo que a autora demonstrou possuir.

GOL DE PLACA: Fiquei dividido entre Compulsão (“Foi difícil juntar todos os pedaços das fotos rasgadas e jogadas no lixo. Limpar e colar uma por uma. Seria bom ter uma lembrança dela. Só lamentou não poder fazer o mesmo com o corpo, que jogara no rio.”) e No inferno II (“Quando cheguei, o Diabo estava de saída. Tocou no meu ombro e disse: está com você.”).

BOLA FORA: Injustiça, conto em que uma mãe joga seu filho no rio para salvá-lo do lado ruim do mundo, soa político demais, tentando chocar o leitor. Pode ser uma preferência pessoal minha, e não quero dizer que uma escritora não possa lidar com temas políticos, mas nesse caso a questão fica escancarada demais e soa panfletário.

TIME 2: Atalhos – cenas brasileiras, de Luís Dill

UNIFORME: A edição é minimalista. Capa em uma cor só, título, autor, editora. E não precisa de mais nada. Não há nada que se destaque, mas o livro é agradável de manusear.

ESQUEMA DE JOGO: Não é um livro de minicontos, mas pode-se dizer que são narrativas breves, rápidas, entre duas e quatro páginas de extensão cada, na média. O autor usa um recurso interessante – cada conto é aberto com a citação de um haikai. Uma jogada arriscada, já que cada conto, por sua brevidade, pode ser ofuscado pelos poemas. Mas isso não acontece e as citações acrescentam uma nova dimensão à leitura. Todas as histórias são inspiradas em notícias e depois transformadas em literatura. Outra jogada arriscada, já que os contos poderiam soar artificiais ou forçados. Isso só acontece mais para o final do livro, quando a repetição de temas, em especial a violência, relembra o leitor de que os contos foram criados com um objetivo específico. O autor brinca com estruturas e narradores, demonstrando habilidade no jogo literário.

GOL DE PLACA: Marcha, uma narrativa em primeira pessoa de uma retirante traz boas reflexões sobre religião, além de lembrar um monte O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger. O final é ótimo.

BOLA FORA: Brasilianas, série de cenas urbanas muito breves. Tão breves que não se afastam muito do formato jornalístico e estragam um pouco a “suspensão da descrença”, além de forçar na crítica social.

O JOGO

Os dois times têm semelhanças – o gosto pela brevidade e a crítica social. Atalhos, entretanto, sai ganhando pela experiência de seu técnico: Luís Dill demonstra um domínio maior dos mecanismos literários. As jogadas arriscadas em Atalhos permitem que Minicontando bata uma boa bola também, principalmente por ter um esquema tático mais livre. Enquanto em Atalhos estamos presos na cidade e na violência que ela gera, em Minicontando lemos histórias mais fantásticas, que se passam do inferno ao céu, com tudo que há no meio. A crítica social dos dois livros deixou o jogo um pouco parado, mas há quem aprecie tal estratégia. Em resumo, um jogo justo, com dois times jogando bem, mas a experiência de Dill permitiu um domínio de mecanismos literários um pouco maior.

Gostaria de ver mais dos dois autores. Uma variação de temas maior de Dill, mesmo considerando a ideia geral (contos inspirados na imprensa – ou será que a insistência em temas violentos e/ou chocantes é um reflexo das notícias?), e, do outro lado do mesmo argumento, gostaria de ver uma unidade temática mais coesa em Ana Mello. A variação é interessante, e é claro que sempre é possível ver escolhas características em cada autor. Como eu falei antes, Mello tem uma crítica social presente em muitos contos. Mas a escolha de Dill de limitar a inspiração (jogo perigoso, mas deu certo) poderia beneficiar o livro de Mello.

PLACAR: Atalhos 2 x 1 Minicontando. Dois gols para Atalhos, um pela erudição (manejo de estruturas, epígrafes) e outro pelo fôlego (cá entre nós, inspirar-se na imprensa é difícil). O gol de Minicontando vai pelo domínio do formato miniconto e pela variação temática. Chutes na trave: o limite entre mídia e literatura às vezes se mistura e atrapalha em Atalhos, e em Minicontando, o projeto gráfico poderia ser mais agradável e poderia haver grupos de contos semelhantes, com menos jeito de coletânea e mais de proposta fechada em uma ideia central.

VENCEDOR
Atalhos, de Luís Dill

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2 respostas para JOGO 28 – Atalhos x Minicontando

  1. Ana Mello disse:

    Nossa fiquei grandona, fiz um gol no Luis Dill! Estou adorando o Gauchão de Literatura, muitas pessoas comentam comigo, falam bem e mal dos juízes, mas o mais importante é que leem as críticas e aprendem com elas, de lambuja até compram alguns livros por curiosidade e talvez para malhar o juiz mais tarde, sabe-se lá. Sucesso para todos nós!

    • (Este comentário sai como resposta ao da Ana porque não consegui postar o meu de forma autônoma. Não sei por que não encontrei a opção. Um dos meus quatro neurônios falhou. Mas não faz mal, respondo a ela então.)
      Ana,
      acho que o Gauchão e as metáforas futebolísticas espelham muito bem a realidade de quem escreve: quando a gente entra em campo, se arrisca a tomar gols, mas também a fazê-los. Um gol no Dill é um grande feito, mesmo, pela trajetória consistente que ele tem na literatura. Mas não se trata de sorte de principiante. Entraste em campo com vibração e defendendo muito bem tua proposta. Mereceste o placar. Um grande estímulo para perseverares.
      Parabéns ao Dill e ao livro que ainda não tive a oportunidade de ler. Ele está aqui me esperando há meses.
      Gostei da arbitragem do Bernardo Moraes, curta e bem objetiva.
      Estão todos de parabéns.

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