JOGO 29 – Flores da cor da terra x Pó de parede

JOGO 29
(1º jogo do Grupo 11)

Flores da cor da terra,
de Lívia Petry (Nova Prova / 2009)
x
Pó de parede,
de Carol Bensimon (Não Editora / 2008)

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JUÍZA
Tatiana Tavares
– Jornalista formada pela PUC-RS em 1999, trabalha no Segundo Caderno de Zero Hora. Editora de tevê do jornal, também dá suas pisadelas no terreno da literatura, desde que começou a cursar letras, com ênfase em literatura, na UFRGS. Quando perguntada se canta, dança ou sapateia, diz que já cantou, já dançou, já sapateou e até já plantou uma árvore. Falta agora escrever um livro.

EM CAMPO

Jogadores entrando em campo, hinos tocados logo depois e chega a hora da moedinha no cara ou coroa. Pó de parede e Flores da cor da terra disputam quem começa a jogar, e a melhor fica com Pó de parede, que dá início à partida.

Pó de Parede, de Carol Bensimon (Não Editora)

Carol Bensimon optou por não adotar o estilo Dunga, deixando de lado essa tendência de estilistas ditando moda para os técnicos. Como UNIFORME, preferiu pernas de fora e meias soquetes. Assim, temos simplicidade e bom gosto na bela imagem de capa de Pó de parede. Folheando suas primeiras páginas, percebemos que esse estilo permeia todo o livro, inclusive na dedicatória.

Com seu estilo conciso e certeiro, em seu ESQUEMA DE JOGO, Carol Bensimon decidiu colocar seus melhores jogadores atuando na frente. Assim, A caixa, novela que abre a obra, já pega o torcedor de jeito. O fio entre as três novelas que compõem o livro é o inadiável crescimento diante da vida.

A sensibilidade ao tratar temas densos fez de A caixa o GOL DE PLACA da atacante Carol Bensimon. Encantadora novela de formação, a história de Alice, Tomás e Laura nos faz pensar sobre o amadurecimento e o adolescer (e todas as dores envolvidas nesses processos – algumas, intransponíveis).

Se houve alguma BOLA FORA cometida pelo time de Carol é a quase superficialidade de Capitão Capivara – as relações entre as personagens poderiam ter sido mais bem exploradas –, apesar de seu final muito original.

Flores da cor da terra, de Lívia Petry (Nova Prova)

O time comandado por Lívia Petry, Flores da cor da terra, começa acanhado, sem ritmo em campo – leva-se quatro páginas para a jogada realmente começar (antes, temos epígrafe, dedicatória e agradecimentos). Soma-se a essa demora na arrancada o UNIFORME nada discreto – além das flores da capa, temos flores também junto ao números das páginas e ao título de cada conto.

O ESQUEMA DE JOGO de Lívia é colocar muitos jogadores em campo, fazer substituições sempre que necessário sem dar muito tempo para que cada atleta mostre o seu jogo. São 26 contos curtos (média de três páginas cada um), divididos em três grupos – Desmundo, Coração selvagem e Flores da cor da terra.

Quase saiu um GOL DE PLACA, mas não foi dessa vez. O conto Nenhum rosto perdeu fôlego muito cedo. Comedida, a autora parece ter terminado a jogada antes do tempo. Nenhum rosto parte de uma excelente ideia, mas que precisava de mais de três páginas para ser bem executada.

Futebol-arte exige jogadas surpreendentes, e a BOLA FORA deste time foi fazer pouco uso delas, preferindo temas muito batidos, como a violência nas grandes cidades – quando se faz uso de assuntos já muito falados é preciso fazê-lo com profundidade e verossimilhança, e nisso o time ficou devendo.

O JOGO

Jogadores na concentração, e a juíza começa a avaliar os times e as dificuldades que enfrentará ao apitar a partida. Nesta pré-jornada, a hora é de avaliar os uniformes e as apresentações dos times. Discreto e com roupas sóbrias, Pó de parede sai na frente na avaliação da juíza. Afinal, o menos pode ser mais, e o exagero de flores e de introduções na edição de Flores da cor da terra desvia um pouco a atenção do que realmente deve ser a estrela da jogada: os contos.

Com o mando da bola, Pó de parede faz sua primeira jogada e, com A caixa, já impressiona os olheiros de plantão – ah, os olheiros, eles estão sempre atentos a novos e promissores jogadores. Novela de formação que mostra o adolescer de três jovens vizinhos – Alice, com sua família diferente que insiste em morar numa “caixa” e dançar pela sala; Laura, com seu cotidiano e pais que não saem da linha do tradicional; e Tomás, o observador da trajetória dessas duas meninas, aquele que está sempre à espera delas e das suas atitudes. Com final denso e ao mesmo tempo delicado, a primeira novela de Pó de parede impacta o leitor que está entrando no mundo de Carol Bensimon.

Do outro lado do campo, chega o time adversário, Flores da cor da terra. Na primeira arrancada, o time não avança muito mais do que o meio de campo e fica devendo verossimilhança, profundidade e originalidade com seu conto de abertura, Dois irmãos. Em apenas duas páginas, a autora tenta contar a história de dois homens que mais funcionam como uma dupla de extermínio, matando meninos de rua. Poderia ser a história da chacina da Candelária, no Rio, se contasse com um maior número de páginas e com um mergulho mais profundo naquela realidade. Mas um bom tema nem sempre evolui para uma boa história, principalmente quando falta fôlego à narrativa.

Chutes a gol de um lado, boas defesas do outro, e o primeiro tempo termina com 1 X 0 para Pó de parede.

Na hora do intervalo, Flores da cor da terra só pensa em se recuperar, e na conversa entre técnica e jogadores a mensagem que fica é: é preciso buscar a originalidade. Nada de tentar reinventar receitas já utilizadas. Mesmo que sejam homenagens a Guimarães Rosa, Milton Hatoum e Clarice Lispector, as referências a esses autores, respectivamente, nos contos Manuelzão, Dois irmãos e Coração selvagem não funcionam bem, parecem forçadas. Essa busca por inspiração do time Flores da cor da terra e a consequente ida a lugares que o time não domina pode ter um preço alto: a falta de verossimilhança. Erro fatal para a equipe que está perdendo.

Na segunda parte do livro – Coração selvagem –, Flores tenta se recuperar, adotando discussões internas, como em Irmão sol, irmã lua – talvez por serem temas mais contemporâneos, mais próximos da realidade da autora, tenham resultados melhores. Mas quando parece que Flores está demonstrando recuperação, Pó de parede chega, rouba a bola e faz mais um gol. Com Falta céu, Carol Bensimon ensaia agora falar sobre o amadurecimento do jovem diante do mundo (imenso) ao seu redor, através da história do desenvolvimento de “uma cidade bem pequena, entre duas mais ou menos grandes”. Ela demonstra que esse amadurecimento (de pessoas, de cidades) é encantador logo de cara, mas cruel como uma retroescavadeira logo depois.

E é nesse ritmo de retroescavadeira que a juíza aponta o meio de campo, e o placar final é fechado com 2 x 0 para Pó de parede.

PLACAR
Flores da cor da terra 0 x 2 Pó de parede

VENCEDOR
Pó de parede, de Carol Bensimon

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22 respostas para JOGO 29 – Flores da cor da terra x Pó de parede

  1. Beleza de jogo! O fato de uma mulher apitar usando todas essas metáforas futebolísticas deu muito charme à partida. Aliás, só mulheres participaram do jogo. Parabéns à arbitragem e aos dois times, em especial ao vencedor! A Carol veio com tudo neste Gauchão!

  2. Carlos André disse:

    Gostei do texto, gostei bastante da arbitragem.

    Mas eu trabalho na Zero Hora e sou colega da Tatiana, então vocês podem desconfiar da minha opinião, na boa.

  3. Carol Bensimon disse:

    Feliz da vida com a arbitragem. 🙂

  4. Gostei do texto, gostei bastante da arbitragem.

    Mas eu fui professor da Tatiana, então vocês também podem desconfiar da minha opinião, na boa.

  5. Lívia disse:

    Metáforas futebolísticas são boas no futebol,mas empobrecem a literatura. Tatiana parece ter plagiado seu colega, Pedro Gonzaga ao escrever sobre o livro “Flores da Cor da Terra”. A crítica ficou devendo um aprofundamento nas questões do livro. Mas já que a moça em questão é bixo da Letras, aí vai uma dica: ler com calma e atenção os livros “Educação pela Noite” de Antonio Cândido e “Ao Vencedor as Batatas” de Roberto Schwarcz. Ambos, fazem parte do time de grandes críticos literários brasileiros pela profundidade com que abordam os livros alheios e pelo excelente arcabouço teórico que embasa aquilo que escrevem. A boa crítica Tatiana, não é aquela que faz elogios, mas aquela que consegue olhar com profundidade uma obra e dizer o que ficou faltando, o que sobrou, e o por que. Dizer que um conto fez gol ou então que não emplacou, não diz nada a autor algum. Mas tratar de questões como foco narrativo, verossimilhança, construção de personagens, é o que vai indicar um caminho ao autor que recebeu a crítica. De minha parte, fiquei boiando com o que escreveste. Se fosse escrever tudo de novo, não saberia o que evitar, que erro, afinal, foi cometido. Espero que da próxima vez possas fazer uma crítica com mais profundidade e objetividade. A propósito, tens um colega no Gauchão, que pode te dar uma luz sobre o que é uma boa crítica, bem estruturada e com conteúdo. Falo do Sidnei Schneider, também formado em Letras pela UFRGS e um excelente poeta e crítico literário. Dá uma lida no que ele escreveu e terás uma base de como escrever no futuro. Boa leitura!

  6. Tatiana Tavares disse:

    Carol, soube que você já voltou de Paris e imagino que esteja preparando um novo romance. Quero ler, pois gostei muito do seu estilo. Obrigada pelo comentário.

    Lívia, acho que fui bastante clara na crítica que fiz aos dois livros analisados. Metáforas futebolísticas são para poucos. Por isso, peço desculpas. Infelizmente, a minha crítica a “Flores da Cor da Terra” se encerrou com o texto publicado. Não tenho tempo – visto que sou bixo da Letras e jornalista 24 horas por dia – para prestar uma consultoria a jovens escritores. As únicas dicas que teria para lhe dar estão acima, mas enfatizaria que suas próximas obras deveriam buscar profundidade (em todos os aspectos). É dela que vive a literatura.
    Obrigada pelas indicações de leitura. Também gosto muito de Antonio Candido (sem acento) e de Roberto Schwarz (sem “c”). Tanto que fiz uma reportagem acompanhada de entrevista com Candido, publicada em 24 de outubro do ano passado, no caderno Cultura de Zero Hora. O propósito era a comemoração dos 50 anos da FLB. Se tiveres interesse, me mande seu email, e eu lhe envio a matéria.

  7. Carlos André Moreira disse:

    Oi, Lívia, tudo bem?

    Confesso que estranhei o tom desta tua manifestação. E o da anterior, também, a bem dizer. “Flores da Cor da Terra” disputou três partidas neste Gauchão, e nas três os juízes usaram a metáfora do futebol (como, aliás, a maioria dos juízes do certame, incluindo eu. Pode-se, talvez, discutir se é o melhor caminho e se as resenhas não deveriam se afastar um pouco disso, mas acho que é um modelo que é sugerido naturalmente pelo fato de estarmos falando de um torneio organizado como seu similar futebolístico). O que estranho é que na arbitragem de Marcelo Spalding, que concedeu a vitória ao teu livro, e que provocou uma bela e ainda mais profícua discussão sobre a relação entre o teor do livro e o seu material extratextual, não disseste nada. Quando o teu livro foi derrotado, resolveste evocar a metáfora futebolística como um defeito para desqualificar os textos críticos – e neste último caso, chegaste a, deselegantemente, atacar a própria jurada, um argumento personalista que não contribui com a discussão.
    Assim como não creio na obrigatoriedade de ditames pétreos para que se produza um texto literário (só em primeira pessoa, só com descrições, só com diálogos, sem diálogo algum), cabendo isso à decisão do autor e de sua maneira de abordar o tema, assim também crer que a crítica só é válida se “apontar os erros” do livro analisado (até porque considero essa postura admnoitória ostensiva de uma arrogância tremenda ). O crítico deveria ser capaz de oferecer uma leitura da obra, e isso os três juízes fizeram. Posso estar errado, claro, mas considero que a leitura da obra já publicada tem mais a ver com a produção de novos sentidos depois que o livro já foi lançado ao mundo do que com a orientação pedagógica do autor (até porque isso é tarefa ou da vida ou dos leitores de confiança do autor ou dos professores de oficina literária).
    Ah, sim, e terminei todo o comentário sem fazer nenhuma metáfora futebolística (como a de que ficar berrando que o juiz é ladrão quando o time perde e quietinho quando ganha é coisa que não dá mais certo nem pro Felipão, por exemplo).
    Abraço.

    • Lívia disse:

      Carlos André: Compreendo tua posição e digo-te que para mim pelo menos, os críticos não fizeram “uma leitura da obra” , mas simplesmente opinaram de forma subjetiva. Tu que estás no Mestrado em Literatura da UFRGS já deverias saber disso, que há diferença entre uma crítica feita com base em análise literária, objetividade e clareza de ideías e uma critica feita em cima de opiniões de caráter subjetivo e pessoal, que soam rasteiras e arrogantes ao serem envolvidas em metáforas futebolísticas do tipo: ” o time não emplacou”. Sim, e daí? Isso diz o que sobre um livro? Simplesmente que o crítico não gostou! E gosto é pessoal e não se discute. Não vou discutir aqui subjetividades, mas vou reiterar o que disse antes: faltou à tua colega e amiga da Zero Hora, profundidade e conteúdo ao escrever a crítica. Eu jamais fiz comentário algum ao Marcelo Spalding, não pelo elogio, até porque ele não me elogiou o tempo todo,mas disse coisas muito pertinentes. Um exemplo? Que eu estava em busca de uma dicção própria. Bingo! Acertou em cheio! E desde quando isso é elogio? Mas é uma crítica bem feita e que me levou a refletir sobre o meu processo de escrita. Tem profundidade e tem conteúdo. É pena que tu como jornalista, faças uma espécie de “panelinha” defendendo tua colega mesmo quando ela peca pela fraqueza e pela superficialidade em seus comentários. Mas não vou fazer nenhuma metáfora futebolística aqui, do tipo “os cartolas do clube resolveram se unir”. Abraços

      • Carlos André disse:

        Olha, Lívia, vamos começar pelo princípio para ser sucinto (só vi esta tua resposta hoje, não vinha aqui desde quinta).

        Primeiro: não fiz panelinha alguma. Apenas apontei uma circunstância que não apenas foi comprovada no teu comentário seguinte como reiterada neste: tua falta absoluta de elegância para ter teu livro submetido a uma leitura – algo que já havia me incomodado na primeira manifestação mas que eu não havia comentado porque preferi, otimista que sou quanto ao caráter humano em geral, atribuir apenas a um mau momento. Quando o mau momento se revela hábito, aí é outra história. A Tatiana é minha colega na ZH, circunstância que eu deixei bem clara da primeira vez que comentei para que qualquer um pusesse seu grão de sal no que eu tinha a dizer (algo que está valendo ainda agora), mas não é particularmente minha amiga. É uma colega de trabalho. Assim como tu foste minha colega de mestrado. São relações amistosas que a vida nos estabelece. Amigáveis, até, mas há um longo caminho para que se possam considerar “de amizade”.
        Segundo: sei usar recursos retóricos tanto quanto tu, e por isso vou ser um pouco mais direto ao responder ao teu comentário aqui: “Tu que estás no Mestrado em Literatura da UFRGS já deverias saber disso”
        Foram frases como essa que motivaram o meu comentário em resposta: esse duplipensar que atribui arrogância ao outro e ao mesmo tempo tem a arrogância de apontar o que os outros deveriam saber, fazer ou ler. Não é a toa que “deveria” e suas variações/conjugações é uma das palavras mais usadas tuas mensagens. Acho que foste arrogante ao querer empurrar uma leitura goela abaixo a todos os juízes que se aproximam do teu livro – e partir para a briga ao ver que a leitura deles não se ajusta com a tua. E tua justificativa para teu silêncio perante o jogo que venceste não me soou convincente, desculpe, porque na resenha acima a Tatiana teceu várias considerações sobre a brevidade de tratamento dos teus temas – e isso preferiste ignorar e partir para o enfrentamento. Isso é deselegante. Devolvo tua frase, melhor ajustada: “Tu, que já teve aulas nas oficinas do professor Kiefer já deverias saber disso”.
        Gosto do debate, torno a dizer. E confesso que gostei do teu livro, mas lamento que estejas (ó, mais uma metáfora futebolística) dando uma de zagueiro argentino, cercando o juiz na marcação de uma falta para ver se lá adiante ele deixa passar outra sem puxar o cartão.

  8. Cara Lívia,

    a sensação que tive, ao ler seu comentário, é que você não entendeu a proposta do Gauchão de Literatura. O Pedro Gonzaga e a Tatiana Tavares fizeram uma crítica semelhante à da maioria dos juízes das outras partidas porque essa é a proposta. Se você não queria que seu livro fosse criticado dessa forma, com metáforas futebolísticas, deveria ter pedido à organização do campeonato que retirasse seu livro da disputa. Aliás, a proposta que os juízes estão recebendo, junto dos livros que deverão avaliar, explica que a crítica é livre, embora sugira o uso de metáforas futebolísticas. Por que não pede uma cópia dessa proposta à organização?

    Talvez, assim, você pare de atacar os críticos e passe a atacar a organização, mas, mesmo que seu foco se altere com essa informação, nada vai eliminar o fato de que seu livro foi rejeitado pela maioria dos juízes, o que quer dizer que seu livro não é tão bom quanto você parece achar que é. Pelo que entendi da crítica da Tatiana, a Carol Bensimon escreveu um bom livro, mas não é um livro excelente, porque tem alguns pontos fracos, que foram apontados. Se o livro dela (que, repito, não é excelente) teve ótimos desempenhos na primeira fase do campeonato, repetindo o sucesso neste início de segunda fase, ainda que com um placar tímido se comparado aos anteriores (placar tímido porque estava diante de um adversário fraco), está demonstrado que a literatura gaúcha talvez não seja tão boa quanto seus autores acreditam. Mas não quero desviar o foco do meu comentário.

    Voltando ao seu livro: a Tatiana apontou problemas no projeto gráfico (que é kitsch) e na organização inicial, com epígrafe, dedicatória e agradecimentos. Por que não colocar epígrafe e dedicatória numa mesma página, logo antes do primeiro conto, e deixar os agradecimentos pro fim? Assim, o leitor iria mais rapidamente ao que interessa, ou seja, sua literatura.

    No entanto, ao chegar aos contos, a Tatiana nos informa que eles terminam antes de começar. Isso quer dizer que eles poderiam ser mais longos, melhor trabalhados. Em geral, novos autores têm dificuldade para desenvolver suas narrativas, é um processo normal que precisa ser enfrentado por qualquer um que se aventure literariamente.

    A Tatiana também escreveu que seus contos pecam pela falta de verossimilhança, um dos itens que você citou no seu comentário que deveria ser abordado pela crítica com o objetivo de mostrar um caminho ao autor. No entanto, “questões como foco narrativo, verossimilhança, construção de personagens” são exploradas em oficinas literárias. Seria ridículo um crítico utilizar a fórmula das oficinas para construir seus textos. Quem deve se preocupar com isso é o autor ou o ministrante da oficina, não o crítico. Se você esperava que algum juiz desse campeonato fizesse o que seu oficineiro faz, acho que você ainda não pode se considerar uma escritora, porque, depois que um escritor publicou um livro, ele deixa de ter controle sobre o que escreveu. E você, que cursou Letras na UFRGS, sabe bem disso.

    Mas o que mais me incomodou no seu comentário foi a referência a Antonio Candido e Roberto Schwarz. Antes de citá-los, você recomenda que a Tatiana leia um livro de cada um porque é bixo no curso de Letras. A verdade é que ela não é exatamente bixo, porque já está no segundo ano de curso, mas ela é formada em jornalismo, tem curso de especialização nessa área e trabalha na editoria do Segundo Caderno do jornal Zero Hora. Quer dizer, ela não é uma menina inexperiente. Alguns juízes desse campeonato não têm a formação que ela tem. Alguns, inclusive, nem concluíram um curso superior. E acho que está certo assim, porque as críticas são variadas, demonstrando a experiência de vida e a formação intelectual de cada um, o que só enriquece a discussão sobre a literatura.

    Mas voltando a Candido e Schwarz. Ora, a crítica deles é voltada, basicamente, para grandes autores, exemplarmente Machado de Assis. Schwarz, seguindo os passos de Candido, mostrou como Machado conseguiu construir uma literatura de alto nível que focalizava a vida na sociedade fluminense do século XIX, demonstrando como o Brasil era um país cheio de contradições tendo de encarar transformações sociais sem estar preparado para isso. Você acha mesmo que algum crítico conseguiria fazer uma análise de seu livro da mesma forma como Candido e Schwarz fazem? Afinal, eles escreveram o que escreveram porque as obras que analisaram davam essa abertura. Além disso, a crítica literária vive um impasse atualmente, e você sabe disso, porque é mestranda na UFRGS. O impasse? Simples: o que é crítica literária hoje em dia? É aquela feita na academia, que ninguém lê, ou aquela publicada nos jornais, que costuma ser superficial? É bom lembrar que quando Candido começou sua carreira de crítico as coisas eram diferentes. Numa entrevista a Luiz Carlos Jackson, ele explica que não utiliza uma teoria para analisar o texto literário. Ele lê o texto e se pergunta “qual a melhor forma de explicar esse livro?” É isso que a crítica deve fazer, seja acadêmica ou jornalística, e acho que a crítica da Tatiana, seguindo os moldes propostos pela organização do campeonato, atingiu plenamente o objetivo.

    • Lívia disse:

      Caro Marcelo: Sim, o projeto gráfico é Kitsch tanto quanto o Van Gogh que vai na capa do livro. E quanto ao que escreveste, não leste o livro para poder opinar, apenas repetiste o que Tatiana disse como se esta fosse uma verdade irrevogável. Quanto aos críticos citados, não há mal nenhum em lê-los antes de por-se a escrever crítica literária, seja como uma simples jornalista, que ela é, seja como árbitro num campeonato de literatura. Jamais me comparei a Machado ou outro autor qualquer, e se fosse me comparar a alguém seria à minha avó, também ela escritora, Zahyra de Albuquerque Petry. Se escrevo parecido com alguém, esse alguém é ela, evidentemente. E quanto às metáforas futebolísticas, elas esvaziam sim, a crítica e põem a nu a arrogância de quem as escreve e também sua ignorância quando o assunto é literatura. Não custa nada fazer uma crítica mais aprofundada, analítica e objetiva. E este foi o ponto fraco de Tatiana e Pedro Gonzaga, ambos jornalistas, mas não especialistas em literatura.

      • Lu Thomé disse:

        Oi Lívia! Geralmente, não gosto de me manifestar. Mas como editora do site do Gauchão e integrante da comissão organizadora acho que tenho que esclarecer alguns pontos. O Gauchão, mesmo tendo despertado o interesse em todo o Estado, não é um projeto que se propõe acadêmico. Muito menos restrito à area de letras. Portanto, não posso (e não farei) exigências dos juízes no sentido de críticas literárias “aprofundadas”, como disseste. O que nos propomos, e isso atingimos a meta, é conseguir bons LEITORES, e que esses leitores ofereçam a sua opinião sobre os livros em questão. Claro: é subjetivo.

        Não queria mais alongar o debate, mas o conteúdo “futebolístico” é orientado pela comissão, pois, sim, faz parte da “brincadeira”. Acho que com a divulgação que atingimos, ficará mais fácil para, no ano que vem, os autores terem uma verdadeira ideia do projeto do qual participarão.

        Pode ser até uma visão simplista minha, mas literatura é mais do que academia. E podes até dizer que isso tirar o mérito do Gauchão (o que eu não concordo). Mas espero, pelo menos, que algumas pessoas concordem comigo: estamos tentando deixar a literatura e as indicações de livros mais próximos do verdadeiro público leitor. E, mesmo com toda a polêmica, as conversas e debates estão focando dois nobres tópicos: livros e autores. Bingo!

        🙂

        Abraço!

  9. Salvatierra disse:

    Gente, que papelão! Onde já se viu escritor inseguro passando recibo de tudo quanto é crítica? Eu tinha até vontade de ler a Lívia Petry, mas depois dessa perdi toda vontade.

  10. Fui o primeiro a comentar a partida, ocasião em que parabenizei a arbitragem e os dois times concorrentes. Mantenho dois dos parabéns e retiro aquele que fiz, apenas por uma questão de elegância, ao time perdedor. Ora, não vejo sentido em ser elegante com quem desconhece tal conceito. Não li nem nunca lerei o livro em questão. Não há nada mais detestável do que presenciar esses arroubos de arrogância de quem recebe uma crítica, e sem acertar sequer o português em sua patética manifestação.

  11. Claudio disse:

    Gente, papelão mesmo. Nunca vi autor se manifestar. E a resposta da crítica, para o meu gosto, passou recibo também. Sejam elegantes!
    A questão, para mim, é que, como disse uma vez Edward Albee em entrevista, um escritor espera de um crítico que ele o elogie. Se o fizer, é bom; se não o fizer, é limitado. Só que se se pode fazer elogios, é necessário também que seja possível ter reservas.

  12. Lívia, me parece que ninguém mais vai se pronunciar sobre o seu caso, porque todos devem estar sentindo que não adianta discutir contigo. Eu sou diferente, prefiro que os outros desistam de discutir comigo. Por isso, darei prosseguimento a minhas considerações. Inclusive, comprei seu livro ontem na Saraiva. Fiquei surpreso ao encontrá-lo numa ilha, ou seja, estava bem exposto. Normalmente colocam livros que vendem muito nessas ilhas, o que não deve ser o caso do seu (e não estou sendo irônico nem querendo te ofender com isso, só estou comentando um fato, afinal as livrarias preferem expor Paulo Coelho, Chico Xavier, Dan Brown, etc). Mas o que está em questão aqui não é mais a qualidade do seu livro, e sim a qualidade da crítica que ele recebeu, tanto do Pedro Gonzaga quanto da Tatiana Tavares. E, por isso, eu posso opinar sem ter lido o livro (ainda, assim como não li o da Carol ainda, embora tenha comprado o dela há alguns meses, já), porque estou opinando sobre as críticas e as posições que você apresentou com relação às mesmas.

    Quanto ao projeto gráfico, eu não disse que a reprodução do Van Gogh na capa é kitsch. O projeto gráfico do livro como um todo é kitsch. As flores que acompanham os números das páginas e as aberturas de cada uma das três partes, acompanhadas daquela fonte horrorosa que também está na capa do livro, são de mau gosto, a meu ver. Se compararmos com o livro da Carol Bensimon, seu livro fica parecendo aqueles livros de autores do interior do estado, que publicam sem editora. O da Carol, apesar de ter sido publicado pela Não, que é uma editora local, pequena, independente, tem um projeto gráfico que se assemelha aos projetos de boas e grandes editoras, como CosacNaify e Companhia das Letras (que, inclusive, publicou o segundo livro da Carol, com um projeto gráfico inferior a este primeiro, a meu ver, mas enfim).

    Quanto a ler crítica e, acrescento, teoria da literatura, concordo contigo, acho fundamental que um jornalista que trabalha com crítica literária leia autores consagrados dessas áreas, o que é o caso da Tatiana, do Pedro, do Carlos André e também do Marcelo Spalding (embora nem o Pedro nem o Spalding atuem com jornalismo como a Tatiana e o Carlos André). A Tatiana, como ela mesma te disse, publicou ano passado uma belíssima matéria sobre o Candido acompanhada de uma entrevista interessantíssima. Se ela não conhecesse o Candido, não teria escrito o que escreveu. Antes de sair atacando, você poderia ter procurado o nome da Tatiana pelo Google e descobriria essa entrevista e não teria escrito a bobagem que escreveu. O Claudio aí em cima acha que a Tatiana também passou recibo na resposta a você. Claro que sim, afinal ela precisava deixar claro que não é uma ingênua que não sabe quem é Antonio Candido ou Roberto Schwarz e, por isso, corrigiu a grafia dos nomes dos dois, que você errou.

    Mas voltando: você escreveu que a Tatiana e o Pedro são jornalistas, mas não especialistas em literatura. A Tatiana sabe disso, por isso entrou no curso de Letras e pretende entrar no mestrado. Ela está se especializando, mas já sabe muito mais que muitos jornalistas por aí. Quanto ao Pedro, fiquei incomodado com seu comentário. O Pedro tem mestrado em Literatura Brasileira pela UFRGS. O Pedro entrou em 1º lugar no doutorado em Literatura Portuguesa em 2009, na UFRGS também. O Pedro tem dois livros de contos publicados e coordena com a Jane Tutikian uma oficina literária que tem bastante procura. O Pedro não é especialista em Literatura? Se não é, mesmo, eu não sei por que ele faz tudo isso. Não estou dizendo que ele é um grande autor, como Machado (pra ficar com o exemplo citado anteriormente), nem um grande oficineiro, como o Assis Brasil, mas ele não é um ingênuo. Se você não sabia de nada disso a respeito do Pedro, eu entendo que você não tenha incluído aí o Spalding. Se você sabia, significa que o problema é a graduação em jornalismo. Então, por que não incluir o Spalding na sua lista? Por que ele te elogiou (sim, porque, mesmo que ele tenha feito restrições, ele te elogia a maior parte do tempo)? Só é especialista em Literatura quem cursa Letras ou faz mestrado ou doutorado em Literatura? O Candido e o Schwarz são formados em Sociologia! É por isso que todos ficaram com a impressão de que, na realidade, você não sabe lidar com crítica negativa a respeito da sua obra. Que você não entendeu a proposta do Gauchão de Literatura já tinha ficado claro no seu comentário ao texto do Pedro e é pena que você não tenha reconhecido isso ainda, porque a maior parte das suas restrições às críticas do Pedro e da Tatiana são restrições, na realidade, contra o campeonato.

    Quanto ao Carlos André estar defendendo a colega, acho que você está equivocada. Eu não tenho intimidade com ele, mas sei que ele não faria isso se não tivesse concordado com ela. O Faccioli é uma das poucas pessoas que leu todos os textos deste Gauchão, porque ele postou comentários em quase todos e, quando necessário, reconheceu que não leu algum livro do Gauchão, mas que pretendia ler. Quando o Faccioli comentou que estava retirando o parabéns a você e que jamais leria o seu livro (ou seja, você perdeu um leitor), eu achei que você perceberia que pegou pesado e se retrataria ou, no mínimo, não responderia nenhum comentário. A sensação que tenho é que você está se queimando e nenhum amigo seu tem coragem de lhe dizer isso. Eu não sou seu amigo, mas estou dizendo: você está se queimando.

    Quanto ao seu livro, não li ainda, mas pretendo ler durante a semana. Assim que terminar eu posto lá no meu blog uma crítica. Acho que aqui não é o espaço pra isso, porque ficaria parecendo julgamento do Superior Tribunal de Justiça Desportiva… Ah, desculpa, não pude evitar a metáfora futebolística. Veja bem, não que eu me sinta superior aos juízes das partidas deste campeonato, como o STJD é em relação aos juízes esportivos. Foi só uma ironia, tá?

  13. Não costumo escrever resenhas, preferi me intitular “palpiteiro” no texto do Campeonato, e busco aprender com o Tailor Diniz, o Faccioli e outros. Não creio que o mais indicado para o escritor seja bater boca com os seus críticos, pelo menos na imensa e maior parte dos casos, ficando como exceção uma declaradíssima má fé, o que de longe não é o caso. O escritor dispõe de uma série de canais, se julgar necessário, para discutir o conteúdo de uma crítica, sem precisar se confrontar com a pessoa que, com maior ou menor acuidade, fez uma leitura de sua obra. Livros bem construídos, além de tudo, atravessam a barreira do fogo: Machado o diga. Aqui, cada um emitiu seu discernimento, no entanto julguei esforço excessivo a escrita de dois bifões, pelo colega Frizon, contra a inconformada autora. Repetitivos, beiram a tentativa de massacre, clima inapropriado a este evento. O Cláudio defendeu a elegância no trato, estou plenamente de acordo. Perdoem o atraso na manifestação, compromissos e viagens me ocuparam. Garanto que li todas as resenhas.

  14. Caro Sidnei,

    se escrevi tanto é porque julguei necessário, visto que a autora não estava percebendo os equívocos que estava proferindo contra juízes, comentaristas e contra a própria organização do campeonato. Não creio que eu tenha perdido a elegância em minhas apreciações, porque não ofendi ninguém. E sinto que esse seu discurso se aproxima do da própria autora, já que aponta como devem ser feitos os comentários aqui (confere a resposta do Carlos André pra Lívia que você saberá do que estou falando). Até onde entendi, apenas comentários agressivos e ofensivos são censurados e, provavelmente, algumas pessoas já postaram comentários desse tipo neste campeonato (não necessariamente neste jogo).

    Meu objetivo não é massacrar ninguém. Se meus comentários tinham essa aparência, o seu também poderia dar a impressão de que foi escrito para agradecer o elogio que a Lívia fez à crítica que você escreveu no campeonato. Mas eu não estou dizendo que li seu comentário dessa forma. Só estou tentando mostrar que não é massacre o que estou fazendo. Apenas gosto de uma boa discussão. Ainda não terminei de ler o livro dela, mas se eu por acaso fizesse algum tipo de massacre seria na crítica que escreverei ao livro no meu blog, como prometi. Mesmo assim, não é esse meu objetivo. Estou lendo os contos e detectando muitos problemas e algumas poucas felicidades que pretendo apenas apontar. Se eu quisesse massacrá-la, não seria difícil, mas quem deveria fazer isso é o professor de oficina dela, não eu. O problema é que pessoas próximas demais não conseguem ser sinceras o suficiente e nem sempre possuem a intimidade necessária para fazer uma crítica, no mínimo, razoável. Enfim…

  15. marlon de almeida disse:

    Só li agora os comentários sobre a manifestação da Lívia.
    Não vou entrar na discussão, vou ficar com um breve comentário:
    a Lívia e a literatura dela são iguais na delicadeza e sensibilidade.
    Houve um momento de atrapalhação/deselegância no tom da cobrança que ela fez, só isso, como acontece com as pessoas, comigo, com o senhor e com a senhora.
    Mais leveza, gente!
    E aproveito para dar os parabéns a Lu e colaboradores pela iniciativa do gauchão de literatura, que, tomara, contemple também a poesia na próxima edição, aproveitando o número razoável de bons autores do gênero por aqui.

  16. Pingback: ::unhas::roídas | Marcelo Frizon » Blog Archive » Jogo extra-oficial do Gauchão de Literatura

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