JOGO 30 – Das travessias I x Entre facas

JOGO 30
(1º jogo do Grupo 12)

Das travessias I,
de Sergio Napp (WS Editor / 2008)
x
Entre facas,
de Liziane Guazina (Nova Prova / 2009)

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JUIZ
Alessandro Garcia
– Nasceu em Porto Alegre em 1979. É publicitário e escritor. Participou das coletâneas Cenas de oficina (Unidade Editorial, 2000), Ficção de polpa, vol. 1 (Fósforo, 2007; Não Editora, 2008) e Ficção de polpa, vol. 3 (Não Editora, 2009).  Publicou em revistas como Ficçōes e foi colunista do Digestivo Cultural. É colunista do Paralelos, no Globo On Line, além de manter o blogue Suburbana. Lança em breve A sordidez das pequenas coisas pela Não Editora.

O TIME 1 vem representado por Entre facas, de Liziane Guazina, que, com um belíssimo projeto gráfico, faz de seu UNIFORME embalagem que atrai e impressiona, com capa dura e ilustrações de capa e internas de Helena Jansen. No miolo, o livro prossegue em refinamento, com folha de rosto vermelho-sangue e uma bela diagramação que se amarra à sua setorização, formada de 22 contos divididos nos grupos Canivete, Punhal e Navalha. Não obstante, esta setorização não parece se justificar muito, uma vez que a primeira impressão que me deu foi de comparar os contos pertencentes a cada grupo com uma possível “intensidade” de corte dessas armas, isso não acontece. Apesar de uma evidente coesão temática geral, mostrando um ESQUEMA DE JOGO muito eficiente e maduro, os contos não parecem obedecer a um agrupamento nesse sentido. Enfim, proposta artística da autora, essa divisão, apesar de não contribuir, não impede em nada a fruição completa dos contos apresentados.

Instantâneos, registros precisos, cuja falsa simplicidade e enganadora banalidade escondem dramas em cápsulas, os contos de Liziane Guazina são curtos e secos (dizer que são “cortantes” é chover no molhado em cima de sua proposta estética, toda calcada em facas e lâminas, desde suas divisões, até o texto de apresentação de Capparelli e citação de revistas técnicas) em sua composição algo metódica (quase sempre de página e meia), mas que condensam em pouco espaço físico uma quantidade incomensurável de angústias/felicidades/infelicidades em personagens repletos de humanismo e fácil identificação. Há desde o estranhamento –muito bem aplicado a cenas cotidianas em contos como Manchas no carpete, em que a reação da esposa ao desencanto que virou o casamento é escatológica, mas tensa, angustiada, animalesca – até a quase patologia que choca, mas deslumbra, de uma peça como As orelhas.

Sendo sua estreia solo, percebe-se que a experiência adquirida nas diversas coletâneas de que participou forjou uma escritora já bastante madura, econômica em palavras e com belo domínio técnico, já que consegue alguns GOLS DE PLACA: os irrepreensíveis O sinal (I) e A tentação. O primeiro é quase uma fotografia, que, mesmo com descrição sintática, quase jornalística, consegue construir um universo imagético impressionante, incluindo ali as personagens que cercam a movimentação em torno da hora de saída da escola – a babá, os guardas de trânsito, professores e crianças – em um incidente trágico que, mesmo que se resolva fisicamente em um espaço muito restrito (o conto tem uma página), condensa em si as premissas de um belo conto, com arremate quase esférico, em que as últimas palavras remetem à primeira linha. Já A tentação é o ponto mais alto do livro. Dissimulado retrato da brejeirice em beira de estrada, onde a mesma moça que serve o pastel ao caminhoneiro no balcão o serve em sexo na cama, guarda (no vestido que a personagem anseia comprar para esperar de roupa nova o marido) desejos e medos comezinhos, mas repletos de uma pessoalidade verdadeira, nos fazendo cúmplices da “florzinha Clarisse”, que precisa se contentar com os cinco dinheiros que lhe jogam no colchão: “Ela começa a brincar com o nome dele, dividir as sílabas em sonoridades diferentes. O filho está no garimpo com o pai. Há dois anos. O vestido xadrez resplandecente continua na vitrine, na esquina perto da pastelaria. É curto, justo, de um tecido mole, cheirando a alfazema. O nome da loja. A ten-ta-ção.”

No entanto, as BOLAS FORAS existem. Em Para viver, conto que me fez sentir um completo imbecil, pois, por mais que o tenha lido e relido, não consegui entendê-lo. Não sei se há ali experimentação formal que não alcancei, trocas de focos narrativos que não compreendi ou mesmo tema que não me tocou. Também na mesma categoria está Entre facas, que, mesmo trazendo alguns fatos bastante interessantes (alguma cerimônia qualquer em que uma menina tem uma cruz marcada à faca nas costas pela avó, e uma menção muito breve ao abuso por parte do pai), não chega a se desenvolver plenamente, sobrando aqui um excesso de sutileza e não-ditos.

O TIME 2 entra em campo com Das travesssias I, de Sergio Napp.  Com UNIFORME eficiente, embora um tanto anacrônico e genérico, no seu trilho de trem em direção ao infinito. Também me incomodou a informação na orelha do livro de que “Todos os textos foram selecionados por Caio Riter, Flávio Ilha e Nóia Kern, o que qualifica ainda mais este projeto”, legitimação que um escritor e compositor do porte de Sergio Napp, seguramente, não necessita. Sua biobliografia na última página tem peso muito maior do que isso e poderia inibir inclusive o resenhista na análise dessa sua obra, se comparado à autora com quem disputa a partida. Mas encarei, levado somente pelos contos em questão, como não poderia deixar de ser. O ESQUEMA DE JOGO de Napp é repleto de lirismo. Talentoso, o autor consegue transformar até o que seria o desejo banal de uma senhora por uma tevê em um conto emotivo ao extremo, em Janine e o televisor.

Em Travessia, conto que abre a coletânea, há o manejo hábil da situação absurda do personagem que, em um primeiro momento, após a morte da companheira de mais de trinta anos, não chora, e que depois passa – primeiro só uma gota – a chorar litros e litros, mobilizando vizinhos, prefeituras, secretarias e oportunistas da cidade. Aqui, há a sucessão rápida de consequências do inusitado episódio, denunciando uma rotina burocrática, repleta de aproveitadores e todo o sensacionalismo que se estabelece em torno desse circo armado. É notório na prosa de Napp que, mesmo quando cria com ironia (como nesse conto), há a construção burilada das frases. Note aqui, mesmo travestida de rol de citações – alguns clichês –, a quantidade de significações que compreende já a segunda linha desse primeiro conto: “Isso que ela era esposa, amante, companhia de todas as horas, pau pra toda obra, cozinheira, muleta, apoio, colchão, secretária, babá e mais. Ele inerte, seco”. O livro começa muito bem, o segundo conto, Olhos de menino, também é belíssimo, poético até a medula.

O que acontece, porém, é que, mesmo que Napp construa bons contos longos, são suas peças mais curtas que alcançam os melhores resultados, contendo em si o sugerido que quase sempre funciona melhor que alguns excessos descritivos que, por vezes, o autor comete. Sendo assim, Os velhos do andar térreo e, muito especialmente, Jogos são os GOLS DE PLACA. Incisivos, rápidos, dão muito prazer de leitura, em escolha muito acertada de cada palavra, frase a frase. A tensão é muito forte. Se no primeiro há o casal que cai pela janela, sob o escrutínio algo surpreso e algo solícito de três velhos que esperam a morte, em Jogos, quase todo construído em diálogo direto, há precisão tamanha e tanta coloquialidade na conversa, que o comparo a grandes obras de Rubem Fonseca e Marçal Aquino, em sua temática urbana, impiedosa e marginal. Os personagens se revelam sem maiores descrições, só nas falas:

“Parecemos um brinquedo de corda andando indefinidamente pelo mesmo trilho. Vamos e voltamos, pra lá e pra cá, sempre na mesma roda. Sem ligação com nada, entendes?
Acho que sim…
Não entendes nada, rapaz. Que idade tens?
Dezenove.
Ah, vejam só, e ele quer entender…”.

A BOLA FORA fica por conta de O enforcado, um tanto mal resolvido ao se datar (e vulgarizar) quando faz menção às duas bandas cujo show o menino quer assistir (“Mãe, é o Skank e o Acústicos e Valvulados, todo mundo vai, eu volto de ônibus”): essa identificação temporal gerada pela citação me remete à crônica. O conto prossegue em um diálogo fraco entre mãe e filho, que ameaça se enforcar se não puder ir ao show, cria um paralelo improvável com a vizinha que se enforcara – como informa o pai – e finda em um clima dramático/cômico bem estranho.

O JOGO

Nenhuma resenha pode substituir a obra em si, o que é óbvio, mas não acho demais relembrar para trazer à tona a subjetividade que envolve cada análise. Subjetividade e, até por isso, divertimento, dado que – ao menos para mim e creio que para muitos que vêm aqui acompanhar esses embates literários – são as diferentes opiniões que conferem tanto prazer ao debate da literatura de ficção.

Também é sabido que existem certas constantes que podem ser aplicados ao conto, sejam quais forem seus estilos. A destruição (ou tentativa de) dessas constantes pode ser analisada como originalidade, contestação do cânone ou pura falta de conhecimento de seus princípios? Mas quem disse que é preciso conhecer seus princípios para se atrever a escrever contos?

Vamos considerar somente uma constante do conto, portanto. Pelo entendimento que se tem de sua limitação física, costuma-se dizer que deve compreender um “clímax”, um acontecimento significativo – como afirma Cortázar em seu Alguns aspectos do conto – “que não apenas tenham valor em si mesmos, mas que sejam capazes de funcionar no espectador ou leitor como uma espécie de abertura, de fermento que projeta a inteligência e a sensibilidade em direção a algo que chega muito mais longe do que o episódio” contido no conto.

Se um contista, em premissa, trabalha com um material que possa ser chamado de significativo, ele deve ser aplaudido quando consegue, a partir de um tema banal ou corriqueiro, construir um grande conto. Um conto que não careça de tema extraordinário, mas se produza extraordinário no tratamento que lhe é dado, sob prisma inédito, original, em forma e/ou conteúdo.

Vulgarmente, talvez, o valor de um conto possa ser medido por o que resta do conto depois de lido o conto. Logo, o que me restou depois de lidas as obras de Guazina e Napp foram sentimentos muito diferentes. Querendo me colocar no lugar de um leitor que não percebe um eixo temático mais sólido em Entre facas (mas que ainda assim o sente), o que esse livro me deixa, primeiramente, são olhares lúcidos, com técnica econômica, para aflições que me são comuns (há a violência urbana, a tragédia familiar, o casamento dilacerado, os parentes imperfeitos e mais), em narrativas com subentendidos. Em contrapartida, Das travessias I me deixa um olhar contemplativo, feito de lirismo e atenção, de lentidão e nostalgia da infância (há o marido inconsolável com a morte da esposa, o menino na praia com os tios, a primeira experiência sexual, a relação pai e filho e mais), em contos mais descritivos, alguns apoiados no fantástico (vide Travessia, Os velhos do andar térreo e O que será de nós sem você, papai?).

Dos dois restam sentimentos que permanecerão. Os dois são leituras prazerosas. Certamente, ficará também um respeito bastante grande pelo empreendimento dos dois autores, ainda que Napp se dê menos bem aqui. Quando se lê a contracapa, parece haver um eixo temático que o unificará: “O menino enredado na rede dos pescadores; o menino travesso e suas ameaças; o menino envolvido em jogos; o menino e seu olhar descobrindo o mundo”, e que o título Das travessias se justificaria (a travessia da infância?). No entanto, com sua leitura, percebe-se que esse eixo é ínfimo, quase inexistente, e que, conforme nos diz a orelha, o que temos é uma “seleção” de contos, que perdem sua força principalmente por falta de unidade e pelas outras questões acima apontadas.

É Entre facas quem ganha o jogo, portanto. Com pequena diferença de gols, mas apresentando uma proposta tão sólida e bem feita que me faz aguardar com certa ansiedade pelo que vem por aí dessa autora.

PLACAR
Entre facas 3 X 2 Das travesssias I

VENCEDOR
Entre facas, de Liziane Guazina

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