JOGO 31 – Trocando em miúdos x Veja se você responde essa pergunta

JOGO 31
(1º jogo do Grupo 13)

Trocando em miúdos,
de Luiz Paulo Faccioli (Record / 2008)
x
Veja se você responde essa pergunta,
de Alexandre Rodrigues (Não Editora / 2009)

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JUIZ
Felipe Polydoro
– Jornalista, mestre em comunicação pela PUCRS. Editor das revistas Aplauso e Amanhã.

PRELIMINAR

Grande satisfação quando dei a primeira olhada nestes dois livros avaliados pro Gauchão. Vi direto tratarem-se de obras com vírgulas no lugar certo, escrita bem trabalhada, edições cuidadosas e autores cientes do que fazem. Em resumo, coisa de profissional. Porque alguns escritores publicados recentemente ainda não estão prontos para uma avaliação mais criteriosa, são juniores recém-alçados ao time principal. Aí o jogo fica meio sem graça. O vencedor ganha porque o outro perde. O desempenho notável dos dois adversários na primeira fase deste Gauchão, à parte o subjetivismo dos julgamentos, indica a superioridade das obras. Para o bem da literatura local, o autor gaúcho deve ser lido e criticado como se fosse polonês ou sul-africano (criticado = observado de maneira neutra e distanciada).

Dito isso, saliente-se a extremada dessemelhança entre Trocando em miúdos, de Luiz Paulo Faccioli, e Veja se você responde essa pergunta, de Alexandre Rodrigues. São livros-antípodas. Disparidade perceptível não só no estilo, no ritmo narrativo, na temática. Há toda uma visão de mundo a separá-los. Parecem ter sido escritos em tempos históricos diferentes. Escrete da Copa de 50 enfrenta uma seleção pós-anos 2000.

Bastante em função de sua proposta – contos inspirados em músicas antigas do Chico Buarque –, Faccioli fala sobre o passado situado neste mesmo passado. Já Rodrigues é pós-moderno tanto na dimensão estética quanto na filosófica.

OS UNIFORMES

Publicado por uma das maiores editoras do país, a Record, Trocando em miúdos é um volume correto. No quesito visual, o leitor ficará especialmente faceiro de contemplar a belíssima foto de capa (embora eu não tenha decifrado o vínculo da imagem da fronte com os contos de dentro, a não ser, forçando um pouco, a estética moderna do retrato, um troço bem anos 50, e aí há alinhamento com a prosa). No mais, edição e editoração profis, fonte grande e página amarelada, prioridade à leitura.

A capa de Veja se você responde essa pergunta, imitação de uma prova de colégio, já anuncia a pretensão de entregar o inusitado. Exige descrição mais extensa. No topo, igualzinho aos tempos colegiais, a palavra “nome” aparece seguida de dois pontos e um espaço sublinhado, sobre o qual o nome Alexandre Rodrigues surge escrito em fonte que mimetiza o manuscrito. Logo abaixo, o desenho de um professor a apontar o quadro cheio de fórmulas; abaixo, em letras miúdas, questiona-se: qual dos personagens desenhados a seguir será a primeira vítima de um maníaco psicótico dotado de uma metralhadora Uzi? Um menino vestido de Robin, uma moça segurando um produto de limpeza ou uma senhora ao telefone, todos aparentemente tirados de anúncios impressos dos primórdios da publicidade (a imagem do professor supracitado também é retrô pra mais de metro). O saladão de referências imagéticas e de elementos visuais acomodados em espaço diminuto prejudica um pouco a harmonia, mas é inegável o estranhamento provocado. Literatos ávidos pelo novo e ratos de bienais quedarão ansiosos para averiguar o conteúdo; literatos céticos quanto ao novo e admiradores de romances de aventura agarrarão o exemplar com cautela redobrada. Internamente, chama a atenção a abertura dos contos, uma página inteira de papel quadriculado apenas com o título e uma epígrafe. Destaque negativo: o tamanho reduzido da letra.

AS OBRAS

Faccioli produziu 15 contos “livremente inspirados em músicas de Chico Buarque”, como informa o próprio escritor ao final da obra – dado que bem poderia ser exposto em um prefácio, para ajudar o leitor que ignora orelhas e contracapa e parte reto para a leitura. Dos 15 relatos, cinco são minicontos e dez têm mais fôlego, sete dos quais somam mais de dez páginas. Alguns repetem o nome das músicas, outros ganham novo título. O tema-base é o amor; quase todos, amores difíceis, tais quais os das canções buarqueanas a inspirar as narrativas de Trocando em miúdos.

Veja se você responde essa pergunta marca a estreia de Alexandre Rodrigues em livro impresso de ficção (complicado tachar de estreia em literatura, pois, segundo a orelha, o moço veicula sua produção na internet há bastante tempo). Rodrigues nos oferece 14 contos. Há uma unidade temática: retrato da falta de sentido da vida contemporânea. Niilismo que, segundo alguns luminares, domina a sociedade pós-moderna, quando todos os ideais modernos foram pro saco, entre eles o maior dos valores, a Razão, que numa fase pós-industrial vira um racionalismo nonsense – transformação que Rodrigues já denuncia na capa, em vários de seus contos e que os editores expõem didaticamente na contracapa.

O JOGO

O primeiro conto de Trocando em miúdos, Depois que ele chegou, joga de saída o livro lá pra cima: narrativa de cunho evocativo, densa, intrigante, sensível. Homem criado por uma tia escreve, sabe-se lá em que fase da vida, para mulher que foi paixão de infância, ela também cria de tias solteironas. O pudor das tias – algo rodrigueanas, só que mansas – e da linguagem fecham com o enredo.

A seguir, o miniconto Mar e lua, sobre um amor de duas mulheres, destoa do anterior pela temática e surpreende pelo desfecho. Mantém elevada a qualidade da obra. O linguajar recatado, neste caso, contrasta com o formato ultradinâmico e alcança potente efeito de surpresa.

Nos contos seguintes, o estilo passa a incomodar. Em certos trechos, paira um moralismo ultrapassado e ingênuo, combinado com um vocabulário anacrônico. E o que em outros contos soava como recurso estilístico conectado com a história começa a ganhar ar de coisa antiquada. Em Um dia depois de outro dia, homem se apaixona e cata prostituta com a qual se depara em um “pedaço de rua (que) sempre fizera parte do meu passeio noturno diário”. Não sem antes disparar todo o preconceito contra esse tipo de “praga”. “Algumas vão se tornando mais afoitas à medida que a noite avança, atacando sem cerimônia quem lhes cruza a frente. (…) Quanto maior a insistência, tanto maior meu desprezo”. Em Suburbano coração II – envolvente conto sobre mulher reprimida até os ossos –, a personagem trabalha em “repartição”, “demora preguiçosa em sua toalete”, e “sonha indecências”.

Há, então, um inevitável efeito de flashback que contamina os bem-sucedidos contos iniciais. Lembramos de ter lido, já na primeira página (é sobre uma tia solteirona e, tudo indica, virgem): “Ligeiro ela se aprumava e a saia descia para cobrir de novo a barra de anágua que, na mesma brevidade do toque, ficara exposta à malícia de algum olhar escondido”. Ou, logo depois: “A casa das quatro solteironas, almas castas e piedosas como as santas que inspiraram seus nomes”. Importante: não se acha aquele tom irônico que inevitavelmente dá ares de imortalidade a qualquer produção artística. As tias são de fato castas e piedosas (nada de perversão a portas fechadas ou desejo reprimido ameaçando explodir).

Mas aí lembramos do quarto texto, o libertino miniconto Suburbano coração I, no qual Guilhermina, já “sem vergonha de se tocar, goza ali mesmo, na frente de todo mundo”, despudor que aparecerá em doses mínimas no restante do livro.

O negócio é ir em frente. E os contos seguintes reforçam o talento narrativo do autor, um controle ferrenho do andamento de tramas que avançam sem sobras e sem precipitações. Grita a aptidão de envolver o leitor em movimento retilíneo e tensão crescente, sem desvios desnecessários ou brusca aceleração. A palavra mágica aqui é fluidez, tão valorizada quanto dura de obter.

Em À francesa, uma representante do país europeu que se bandeou para o Brasil com o marido diplomata se entrega a um nativo. A visão estereotipada a princípio incomoda, mas revela-se preciosa para a ambiguidade do relato – meu cutuque é de que o encanto da protagonista pelo trabalhador negro tem pouco a ver com o maravilhamento diante do exótico (tipo Vera Fisher em Riacho doce) e, no fundo, resume-se à retaliação pelo descaso do marido. É conto que prende durante 18 páginas.

Sobre todas as coisas, amor desencontrado de dois homens, sustenta a atenção firme por outras 18. Os já citados Depois que ele chegou e Um dia depois de outro dia – apesar do final Deus ex-Machina deste último – são tramas de mais fôlego também encadeadas com habilidade.

E assim segue a ficção de Faccioli: narrativa fluída, densa; texto seguro e intensamente trabalhado, exato no tamanho e preciso na linguagem. Mas, volta e meia, acometido de um moralismo exacerbado, vocabulário anacrônico, recato geralmente injustificado, retrato de um mundo que já não existe, feito a partir de uma perspectiva e dotado de uma linguagem que desapareceram com este mundo. Esta frase do conto Suburbano coração II ilustra bem esse mix de visão datada com riqueza textual: “A dona, sempre tão ciosa da casa e da vida que nunca se atrevera a pôr alguém dentro de uma ou de outra, agora entrava sem vacilar num território misterioso”. O curioso é que a obra está povoada de tipos malditos (prostitutas, gays de ambos os sexos) e de cenas fortes (assassinato, sexo).

O melhor e o pior do livro estão em momentos nos quais Faccioli se libera do pudor. No fraco Biscate, sai malfadada a tentativa do escritor de imitar a voz de personagens de baixa renda. Não funciona e joga por terra o truque formal que divide o texto em dois, lado a lado, cada qual com a fala de um dos personagens. Outro momento problemático está em O homem dos meus sonhos, narrativa fragmentada, parte linear, parte fluxo de consciência. Conto confuso e mal resolvido – embora seja aquele em que o autor se solta pra valer, permitindo-se obscenidades como “veadinho arrumadinho” e “empina tetas”.

Os minicontos, em geral, são muito bons (ótima referência para quem anda se arriscando neste difícil formato). Entre as narrativas mais longas, o melancólico Outra noite encerra a obra em grande estilo. Ganha uma medalha de prata.

O melhor conto do livro é o enigmático Eu te amo. É literatura de grande densidade. Na primeira leitura, passei meio batido, não atinei para a riqueza do texto. Encarei uma segunda e aí foi: li umas sete vezes e, a cada uma, percebia uma nova nuance. É um relato sutil, aparentemente pouco ambicioso, que deixa o final no ar. Ocorre que as hipóteses para o desenlace são arrepiantes. É arrebatador como a música homônima que o inspira, uma das melhores letras do Chico.

Um último comentário sobre a relação entre os contos e as músicas que os inspiram. Confesso que matutei um tanto até formular uma opinião a respeito. No momento em que um escritor declara ter-se inspirado no melhor letrista da música brasileira, há uma inevitável – porém complexa – comparação. De maneira geral, é uma relação bem resolvida. A música serve de referência, mas não condiciona ou, pior, aprisiona o conto. Complicado seria se o autor se aferrasse em demasia à letra, tentasse preencher as lacunas que Chico deixa em aberto. Os contos funcionam sem as músicas (assim deve ser e, por isso, só mencionei a obra do compositor aqui). Confrontados às canções, os relatos enriquecem em significados. Pode-se argumentar que o vocabulário e as situações antiquadas vêm das letras. De fato, Chico aborda temas imortais, só que algumas composições falam de personagens já sumidos com perspectivas ultrapassadas. Mas o faz com ironia e certa crítica de costumes, coloca-se na fronteira entre duas eras e isso em um momento da história – anos 60 e 70 – marcado por uma revolução comportamental, quando a liberação generalizada de desejo ainda arrepiava (e se chocava violentamente com o regime autoritário). Em muitos pontos, os relatos de Trocando em miúdos parecem fazer o contrário: ao invés de cantar o confronto entre o novo e o velho, retornam a um paradigma anterior, seja na linguagem, seja na moral.

Quando Faccioli consegue atualizar esses signos e, de certa forma, retrata um mundo cuja liberação sexual já virou o fio, no qual a nostalgia chega a níveis epidêmicos – tudo isso somado à invejável fluidez e à profundidade da prosa –, aí o resultado é excelente.

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Os primeiros lances de Veja se você responde essa pergunta decepcionam. Não se encontra em Foi então com Bárbara que surgiu algo diferente, talvez só no título criativo, a inventividade anunciada pela capa incomum. O fato de o conto elencar informações no formato de múltipla escolha e o narrador descrever gráficos para representar as oscilações na frequencia sexual do protagonista não constitui exatamente uma renovação formal, tampouco livram o relato do traço estereotipado e do enredo batido (homem zanza por diversos relacionamentos fracassados, nos quais trata as mulheres como objetos sexuais, até que com Bárbara surge algo diferente).

O segundo conto, que nomeia o livro, também não anima. É neste que o maníaco munido de uma metralhadora Uzi, aquele da capa, entra em uma cafeteria e pensa em quem vai atirar primeiro. Violência anódina e sem substância. O terceiro já fica mais interessante, humor despretensioso e sem sentido (embora lembre um pouco alguns textos do Luis Fernando Verissimo e de Woody Allen, tem um ar de coisa nova).

Em Nicola Tessla, Rodrigues desponta. Há uma estranheza, uma indefinição intrigante. Soa absurdo, mas pode muito bem se tratar de uma narrativa linear ligeiramente esquisita: homem submete-se a choques cada vez mais fortes, mas não sente dor. A força do conto está nessa ambiguidade, no limite entre realidade e absurdo, que sustenta diferentes interpretações – entre elas, a mais óbvia: alegoria de uma sociedade da repetição desenfreada, dominada pelo banal e pela insensibilidade.

Aquarela do Brasil é outro ponto alto. História curta, passada em um necrotério, literatura abaixo de zero. Pensamos que o centro está no calejado Fabiano, “filha-da-puta com alma de pedra” que supostamente fez autópsia no próprio filho. Já estamos impactados pela secura e a frieza dos personagens, a assustadora indiferença diante de cadáveres assépticos. O ato final do narrador subverte a lógica do enredo. O desfecho põe em parafuso o estilo distanciado e neutro e obriga a uma revisão interminável. Ou será que a atitude do personagem é apenas mais um movimento operatório e sem sentido?

Autoflagelação é o gol de placa. E já aviso: não serão poucos a odiar esse conto. Sujeito de vivência pacata, funcionário público de algum instituto de identificação, outro entre tantos Sísifos concebidos por Rodrigues, lá pelas tantas se tranca no banheiro e, inesperadamente, agride-se. O trecho diz bastante sobre a literatura do escritor:

“Apanhando em seguida o vidro, observo o líquido branco que vai de um lado ao outro. Em seguida, atiro o vidro com força no chão. Apanho o maior caco de vidro, pingando tinta branca, e enfio na perna direita. Primeiro, rasga o tecido do jeans. Penetra depois a carne, rompendo pele e músculos. Mordo os lábios por causa da dor. Confundem-me os números sobre quanto de sangue o ser humano pode perder antes da morte”. Cá pra nós, este sujeito parece sentir dor? Na verdade, não sente nada – nem dor, nem emoção, nem desejo, nem compaixão; não tem projetos, paixões ou plano de carreira. Não se trata de uma resignação diante de um mundo em que o acaso se sobrepõe ao intencional, de aceitação da insignificância da vida, do caráter contingencial do universo. Isso seria sabedoria budista ou cristã. Só o que parece haver neste conto é vazio – violência sem sangue, ferimento sem dor, ações sem propósito. Seja lá o que servia de motor para a vida, que dava sentido e sabor às coisas, já não existe mais.

É o tal de niilismo, onipresente nos contos de Rodrigues. Os atos dos personagens e as situações descritas: nada tem sentido ou razão de ser. Como explica a contracapa do livro, é uma lógica maquinal. Em algum momento, a mesma Razão científica do progresso, da tecnologia e do conhecimento transforma a existência em uma sucessão repetitiva, insípida e inodora. Todos os atos tornam-se robóticos, ao mesmo tempo programados e aleatórios. Em vários trechos, o escritor inclui cálculos, números e gráficos que escancaram uma racionalidade sem alma (o personagem do conto Autoflagelação informa que, “em um ano, produz dez mil carteiras de identidade. Em dez anos, centro e quatro mil. Até a aposentadoria, serão mais de trezentos e doze mil”).

O estilo distante e seco das narrativas condiz com as tramas e o destino (ou a falta dele) dos personagens. O texto é de uma frieza absoluta, enquadra-se no grau zero da escritura de que fala Roland Barthes – a neutralidade do burocrata quando digita documentos públicos. É uma linguagem com tradição na literatura, começando por O estrangeiro, de Albert Camus, a partir do qual Barthes elaborou o conceito. A estética do absurdo também não nasceu ontem. E o fato é que tanto um como outro, a postura neutra e o tema do absurdo, estão associados a uma visão de mundo niilista, que não vê qualquer sentido no cotidiano ou grandes ideais aos quais se agarrar.

Encaixado nesta tradição, Rodrigues consegue produzir estranhamento e, por vezes, aquele arrepio do novo. Essa linguagem gelada e distanciada desfavorece o envolvimento do leitor, que, mesmo interessado no argumento, vai se sentir a alguns palmos da história. É uma literatura que se posta a quilômetros da realidade, na contramão das estéticas realistas, cada vez mais empenhadas em atingir o âmago do real (compulsão mais escancarada na produção audiovisual, sedenta por documentários e reality shows, mas visível também na literatura, vide O filho eterno, de Cristóvão Tezza, um dos grandes acontecimentos literários dos últimos anos, e Cordilheira, de Daniel Galera, a discutir – criticar, a bem da verdade – a insistência em se misturar realidade e ficção).

Rodrigues vai por caminho diverso, o de uma fabulação que remete a outras obras literárias (artísticas, cinematográficas) e não diretamente ao real, num estilo que funciona melhor em narrativas mais longas – aliás, eu ficaria bastante satisfeito de saber que o escritor prepara uma novela ou romance.

Entusiasmam menos os contos que partem de uma sacada, de uma ideia rasa e sem grande autonomia de voo e, por isso, esgotam-se em dois toques. Caso dos dispensáveis Fetiche idílico e Pessoas que seguem pessoas e do razoável Beijo de 82 (neste, um interessante jogo metalinguístico salva o final). Engraçadinhos e descartáveis, destoam dos demais.

Nos melhores contos, fica a impressão de que algo, talvez o essencial, não está sendo dito e que, apesar da aspereza e da sensação de vazio, da (em alguns casos) ausência de lógica, há conteúdo escondido. Em Autoflagelação, a escalada autodestrutiva do protagonista não faz sentido. Mas, ao final, conclusões como “o personagem é maluco” ou “nada mais do que o retrato de uma existência banal” não dão conta da história. É nessa estranha densidade do vácuo que está a maior riqueza deste livro inicial de Rodrigues.

MINUTOS FINAIS

A verdade é que os dois livros, vistos como oponentes, têm desempenho parelho. As propostas são radicalmente diferentes. A separação entre as visões de mundo, abissal. Em Trocando em miúdos, a fluidez dos relatos colide com a linguagem antiga e o retrato anacrônico do passado. Nesses trechos, faltam recursos narrativos e linguísticos que atualizem essas músicas do Chico Buarque, alcancem algum tipo de ressignificação de forma que os contos reflitam o espírito do tempo (mantendo, é claro, aquilo que é essencial e atemporal). Porém, é inegável a profundidade dessa literatura, que resulta da competente escrita de Faccioli e, também, do tema, o passado, que sempre fornece substância.

Pois a ausência de substância é o maior risco da poética de Alexandre Rodrigues. Nos piores contos, é disso mesmo que se trata: criatividade superficial. Mesmo nos bem-sucedidos, a dureza, a secura, a neutralidade afastam. Muita gente vai abandonar a obra lá pelo quinto conto. Não apenas pelo pessimismo. É um estilo que demora a envolver. Leva algum tempo para que se perceba o valor dessa literatura que diz tanto sobre o presente, ainda que o leitor não compactue da visão niilista do autor. Mas repito: a força não está no vazio e na ausência completa de sentido, mas no manejo narrativo que, contraditoriamente, ainda abre a brecha para o não-dito.

Dada a qualidade das obras, o jogo termina com placar dilatado, com vitória mínima de Veja se você responde essa pergunta, livro que diz mais sobre o seu tempo e provoca mais frequentemente efeitos de ineditismo e estranhamento.

PLACAR
Trocando em miúdos 2 x 3 Veja se você responde essa pergunta

VENCEDOR
Veja se você responde essa pergunta, de Alexandre Rodrigues

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3 respostas para JOGO 31 – Trocando em miúdos x Veja se você responde essa pergunta

  1. Confirmando o que eu já havia previsto, foi de fato um belo jogo. Há um abismo de diferença entre as duas propostas, muito bem assinalado pelo árbitro, o que garantiu a emoção do jogo. Excelente arbitragem, minuciosa e bastante severa. Parabéns ao Alexandre Rodrigues pela merecida vitória. Gostaria, naturalmente, de estar no lugar dele. Mas não considero uma derrota perder para um livro bem realizado.

  2. Grande arbitragem – minuciosa e criteriosa, bastante rica em suas interpretações. Embora até o último parágrafo eu tenha ficado com a impressão de que o juiz daria a vitória ao “Trocando em Miúdos”.

  3. Carlos disse:

    Placar surpresa. Até o último minuto do segundo tempo a vitória era de “Trocando”, afinal a maior parte dos elogios foi para esse livro.

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