JOGO 32 – Escuro, claro x Fora do lugar

JOGO 32
(1º jogo do Grupo 14)

Escuro, claro,
de Luís Augusto Fischer (L&PM / 2009)
x
Fora do lugar,
de Rodrigo Rosp (Não Editora / 2009)

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JUIZ
Felippe Cordeiro
– O tal do Pips; paulista, formado em Comunicação Multimídia pela UMESP. Leitor assíduo de autores latino-americanos e fã incondicional do cinema de Bergman e Scorsese. Atualmente, é produtor da MTV Brasil, editor do blogue Meia Palavra e esporadicamente colabora com textos sobre cinema para o Vida Ordinária e Livros que você tem que ler para o Vá Ler um Livro.

OS TIMES

1) Fora do lugar, de Rodrigo Rosp (Não Editora, 2009)

UNIFORME: O projeto gráfico, de Guilherme Smee, e a capa, de Samir Machado de Machado, buscam destoar capa e contracapa de um subtexto normal. Provocativo e, ao mesmo tempo, simples, é o uniforme de um time campeão: evoca respeito do adversário. Ao verem esse design, temerão. E olha que é um time novo, com técnico novo também.

ESQUEMA DE JOGO: Aqui, o que importa é a magia, o limite entre o é e não é possível se confunde, transbordando aos olhos de leitor uma simples facilidade de aceitar todas as palavras e sentenças como a realidade pura. Engana-se, porém, que todo esse encanto de encher os olhos é rasa imagem. Quando menos se espera, sua mente e sua alma, se ainda estiver aí, estarão perturbados pelos abalos sísmicos que as palavras proporcionam. E quem está fora do lugar é o leitor.

GOL DE PLACA: Poeteiro é o artilheiro desse time. Quando parece que irá driblar, ele faz passe profundo. Quando parece que vai passar, ele atropela. E quando parece que sairá por cima do gol, entra direto na caixa, no ângulo e goleiro nenhum estará pronto para esse tiro à queima-roupa.

2) Escuro, claro, de Luís Augusto Fischer (L&PM, 2009)

UNIFORME: A capa, de Ivan Pinheiro Machado, conta a história desse time tricolor. Design simples até demais, pegando a ideia do próprio título e transformando em imagem. Devido a essa simplicidade, muitos não se interessarão pela qualidade do elenco, em suas 203 páginas de pura história.

ESQUEMA DE JOGO: Retranqueiro. Pode-se dizer que é um time de contra-ataque; valoriza os passos e a posse de bola. Quando menos se espera, A bênção de Machado de Assis pode ser A peste de Janice, aquela bola que faz uma curva estrondosa, vira uma Ideia de passarinho chegando aos poucos e sem deixar sobras ou mesmo tornar-se O economista de chutes curtos de dentro da banheira.

GOL DE PLACA: Entrevista: um pós-conto ou que pode ser resumido a fulminante.

O JOGO

As qualidades são inúmeras. De um lado, o experiente técnico Luís Augusto Fischer demonstra uma personalidade forte e montou um time com fluidez: “Ela era inacessível? Sim, era. Ou assim parecia. Vista a uma certa distância (ele estava reconhecidamente a uma considerável distância dela, tanto quanto um mortal está longe da Perfeição) (…)”, sim Perfeita como um conto chutou de fora da área, a bola foi rasteira e com força, sobrando para a rispidez de Muito pior que, mesmo com medo de entrar na partida, mete uma bomba (“Mas chego e tudo que faço é ter medo de esquecer”) e somou o primeiro tento para o time tricolor de Fischer.

Ainda com As fotografias, o time Escuro, claro parece superior na partida. Os passes são certeiros e a posse de bola é valorizada a cada linha. Reminiscências, lembranças, sonhos e até homenagem aos grandes que vieram antes. Fischer soube montar o time. Um time leve.

O time de Rodrigo Rosp não deixa por menos e investe na velocidade e jovialidade de seu elenco matador. “No parapeito da janela, três livros de autoajuda estão prestes a cometer suicídio. Não tento impedir”, Fora do lugar é troncudo e habilidoso, que chute fantástico para bater no travessão e entrar para o fundo do gol: “Regina, sua puta, volta para a casa”. Teve gente que esperou o replay para acreditar no que viu. Sala de espera, o monstro do time, joga no meio-campo, habilidoso, faz bons cruzamentos, mas quando precisa decidir, decide com uma bola que ninguém acredita: o fantástico e a irrealidade estão juntos nessa jogada espetacular que deixa João sem palavra ao ver um monstro de escamas adentrar no consultório.

Com a virada concretizada, o time de Fischer provavelmente usará toda sua energia economizada no primeiro tempo para liquidar com seu adversário na etapa complementar. Com a sequência rápida de A peste da Janice, Ideia de passarinho e O economista, todos eles pedindo licença para Machado de Assis, marcando um gol, em uma tabelinha tripla, e deixando tudo igual. O time de Fischer começa a se portar de maneira superior em campo.

O articulador do time de Rosp, Linguista, parte para cima tentando nos últimos minutos salvar o time antes do apito. Ele dribla, usa a força, lembra os tempos em que escrever era um ofício de prazer único, onde nem os leitores chegavam a um êxtase igual ao de quem escreveu. “Ela tornara-se ‘eu’, eu era ‘tu’; um ‘tu’ que só existia criado pelo ‘eu’.”. O goleiro deu rebote e: “Em desespero, vi Diana depositar minha língua em um vidro cheio de liquido e colocá-lo numa prateleira repleta deles. Era mais um item para sua coleção de línguas mortas”. Certeiro! Linguista liquida o gol adversário e garante a vitória ao time de Rosp, que respira aliviado no campeonato.

Apesar da tenra idade, o time mostra que aliar ironia e beleza pode gerar grandes resultados. Fora do lugar traz a emoção de ser um leitor: surpreende, assusta – mas nunca repele – e nos deixa com vontade de ler e reler. Poucos conseguem essa façanha.

PLACAR
Fora do lugar 3 x 2 Escuro, claro

VENCEDOR
Fora do lugar, de Rodrigo Rosp

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5 respostas para JOGO 32 – Escuro, claro x Fora do lugar

  1. frombartobar disse:

    Essa análise futebolística é um saco!

  2. Marcel Citro disse:

    Engraçado, o jogo 32 deu 3×2!
    Na verdade, podia tanto ter dado 3×2 para o time do técnico Fischer quanto para o time do técnico Rosp, porque ambos os livros estão ótimos. Ainda me lembro de passagens de um e de outro, apesar de tê-los lido há mais de seis meses.
    O jogo foi dureza, mas quem ganhou de goleada foi a torcida.
    Um grande abraço aos competidores, ao juiz e aos organizadores,
    Marcel Citro

  3. Enio Roberto disse:

    Sou muito fã do “Fora de lugar”. Recentemente, falei à revista Literatsi da maravilha que é o conto “Sala de espera”. Aguardo ansioso o confronto do Rosp com o Marco De Curtis, a quem também indiquei na entrevista. Aquele que passar, decerto, pegará o Luiz Felipe Varella, autor de outro conto modelar: “Assustando-a”. Vai sair lasca! Tá demais esse Gauchão!

  4. mkalves disse:

    Gente, parabéns pela indicação ao Fato Literário.
    Já registrei meu votinho!
    Abraços!

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