JOGO 33 – Atalhos x Um guarda-sol na noite

JOGO 33
(2º jogo do Grupo 10)

Atalhos,
de Luís Dill (WS Editor / 2008)
x
Um guarda-sol na noite,
de Luiz Filipe Varella (Dublinense / 2009)

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JUIZ
Guilherme Montana
– Estudou jornalismo e direito. Hoje, faz letras. Desde 1999, é requisitado como ghost-writer para todos os fins. É colunista da revista Digestivo Cultural.

OS TIMES

Atalhos [cenas brasileiras], de Luís Dill e Um guarda-sol na noite, de Luiz Filipe Varella. Atalhos versus Guarda-sol. Os times se alinham à beira do gramado para o hino rio-grandense (Como a aurora precursora do farol da divindade…). Todos alinhados, a diferença entre uniformes causa constrangimentos à tribuna de honra. O minimalismo elegante da equipe Guarda-sol em intenso contraste com o tradicionalismo utilitarista da equipe Atalhos. Vitórias são conquistadas nos noventa minutos, ainda bem, não na apresentação dos times. Embora, o cronista deve confessar, a questão estética não seja descartável: a leitura do jogo teria sido melhor se todos os lances da equipe Atalhos fossem vistos sobre páginas de papel pólen bold, que ajudam muito a leitura noturna à luz de refletores.

(Povo que não tem virtude acaba por ser escravo!). Os jogadores se despedem do hino emocionados e se distribuem sobre o tapete relvado. A expectativa é grande. O cronista está ansioso. Este jogo promete muitas emoções. Estas equipes não poderiam ser mais diferentes.

O esquema de jogo da equipe Guarda-sol segue poucas variações formais: contos, microcontos e os inevitáveis, e improfícuos, exercícios de linguagem. São narrativas cheias de personagens mergulhados na própria introspecção, distantes do mundo, às vezes frios. Alguns carregam consigo uma semente que, se bem regada, poderia crescer numa formidável psicopatia à Edgar Allan Poe – este, uma grande influência sobre o técnico Varella.

As 23 narrativas em Um guarda-sol na noite são literárias. É estranho e óbvio este comentário? Bem, dizer isso das 23 narrativas da equipe Guarda-sol não é tão estranho assim, porque, em comparação, o esquema de jogo da equipe Atalhos não segue a mesma uniformidade.

Em Atalhos [cenas brasileiras] há 20… textos. Contos, diálogos, monólogos, evangelhos, depoimentos, e-mails, roteiros, peças, quebra-cabeças, micronarrativas, entrevistas e até conversas via SMS. Unidade formal não há. Há momentos de puro exercício de linguagem. Alguns bem-sucedidos, enquanto inventivos. Já os personagens, ao mesmo tempo em que o cronista poderia materializá-los à sua frente, por prometerem ser tão verossímeis, as palavras e os diálogos afetados que o técnico lhes põe à boca arruínam toda a sede de expor a dita realidade, sem cortes, à frente do leitor (uma vontade obsessiva do técnico). Influências? Os cadernos policiais do jornalismo e, de forma muito pontual e breve, Julio Cortázar e algum Bolaño.

O JOGO

O primeiro conto de cada equipe é o perfeito cartão de visitas: todas as demais narrativas seguem o mesmo DNA temático. Começo com uma comparação direta.

Um guarda-sol na noite é o conto titular da equipe Guarda-sol. Narra como “ela”, que “cometera seu crime há mais de duas horas”, encontra um guarda-sol tão solitário quanto ela, depois de caminhar todo esse tempo na praia deserta, no meio da noite, sob o qual ela se sente protegida. “Porque encontrara ali seu ocaso e seu destino”.

O charme do conto está em dois elementos: 1) a combinação, numa assassina, de desamparo em relação ao mundo, mais indiferença em relação ao próprio crime, algo paradoxal à primeira vista, mas que faz todo o sentido; e 2) o mistério que é o próprio crime cometido. O leitor jamais saberá. Pode até nem ser um crime de fato. O primeiro elemento depende do segundo, e o segundo é uma incógnita. Pouco elã, como diria Nelson Rodrigues; mas puro charme, uma boa leitura.

A equipe Atalhos se inseriu na partida com um carrinho por trás – e nem havia bola no lance. Mas era isso mesmo o que a equipe queria. Curriculum é o nome do primeiro conto. Delegacia caindo aos pedaços, delegado e inspetor calejados e sardônicos. Eles leem a ficha corrida de um malfeitor. Estupro, roubo, assalto, arrombamento, prostituição, desordem, latrocínio. O latrocínio foi por causa de um boné. A folha chegava a três metros. O delegado quer ouvir o marginal. O marginal sorri, e diz que é “de menor.”

O cheiro de vida real está aí no conto, pungente, mas sem atrativos. É pouco literário. A equipe Atalhos levou um cartão amarelo por isso.

Nos contos/textos seguintes, ambas as equipes repetiriam os mesmos equívocos. Guarda-sol pecaria pela falta de garra, Atalhos, pela falta de técnica. O curioso é que os gols da partida sairiam quando uma equipe emulasse a outra: Guarda-sol menos introspectiva, e Atalhos mais sutil.

29:98, ou o eclipse, Um fruto, A primeira vez, Promessa, O leito do rio, O retorno de Alberto Garcia, Lívia, Ponto de vista, Assustando-a (história divertida), Sessão de gala, Furtos de mim, Deus seja louvado. São 12 contos da equipe Guarda-sol que não comprometem. Não fazem faltas graves, nem chutam a gol. Eles são passes, trabalham a posse de bola, sem dúvida uma virtude futebolística, que aqui, nesta partida, se traduz da seguinte forma: fazendo literatura.

Nem todos esses passes saem redondo, no entanto. O retorno de Alberto Garcia, Deus seja louvado, Sessão de gala, O leito do rio, Furtos de mim prometem. E ficam na promessa. Round about midnight é só um exercício de estilo estéril. Mas a bola não se perde na linha lateral.

Entre mortes sangrentas (Frutos de mim), estupros (O leito do rio), tragédias familiares (O retorno de Alberto Garcia), assassinato e necrofilia (Ponto de vista), edipismos (Sessão de gala) e uma incipiente comercialização do sexo (Deus seja louvado), a equipe Guarda-sol brinda a torcida com jogadas ternas e, por isso mesmo, insólitas: A primeira vez e Um fruto. Historietas bonitinhas, até ingênuas. São passes bem feitos, mas não em direção ao gol.

Alessandra e eu, Dejetos e desejos e A campeã também são passes bonitos. Nem todos são ternos, contudo. Dejetos e desejos é a história de um estupro premeditado. Alessandra e eu e A campeã seguem a estratégia anômala (jogada ensaiada?) da blandícia. A campeã, deste trio, é a melhor história: uma senhora senil desperta o instinto de solidariedade, e de heroísmo, num rapaz propenso a ilusões. Entre eles todos, o melhor passe em direção ao gol.

Durante a partida, a equipe Guarda-sol fez a alegria da torcida adversária com dois lances dignos de futebol de várzea: Tio Vanderlei e Contra-ataque. Na primeira história, tio Vanderlei quer dormir, está bêbado. Os sobrinhos fazem barulho demais, estão brincando com o cachorrinho (que o tio Vanderlei odeia). Tio Vanderlei tem explosões homéricas de ira quando bêbado. A tia Amélia alerta os garotos do perigo. Eles continuam brincando, fazendo barulho. Tio Vanderlei acorda e explode os miolos do cachorro. Ponto.

Em Contra-ataque, um diálogo telefônico, o dirigente de um time amador de futebol tenta comprar o goleiro da equipe adversária. Ameaça o goleiro, dizendo que se “tu não tomares no mínimo dois gols no domingo, talvez tu não vejas mais o teu menino”. Depois de alguma enrolação de ambos os lados, o goleiro profere a última fala da conversa: “Doutor Camargo, cuidado. Eu também seu onde sua filha estuda.” Ponto.

Pelo menos a do cachorro desmiolado é divertida.

Pequena história de uma completa vingança, Justa causa e Sincronia são os gols da equipe Guarda-sol. Antes deles, vejamos o volume de jogo da equipe Atalhos.

Depois do pontapé (chute de caratê, não do ludopédio) inicial da equipe Atalhos com Curriculum, vieram Evangelho, história de um órfão parricida – matou os pais adotivos – contada de forma bíblica, com capítulos e versículos; Festa, linchamento intraônibus de um assaltante caucasiano, monólogo afetado do assaltante; Papo, um diálogo realista e carinhoso de um casal enquanto fazem o teste de gravidez; Planta, monólogo de uma empregada doméstica, expondo toda a hipocrisia noticiada da classe média e cheio das especificações técnicas que a equipe Atalhos adora (“Cada quarto tem seu próprio banheiro de 2,75 por 3,40”); Delete, gol de pênalti!; Haicais, narrativa metalinguística, ninguém na tribuna de honra entendeu a jogada; Roleta, roteiro de um curta-metragem: dois jovens bebem sozinhos num apartamento, negociam uma arma de fogo, iniciam uma roleta-russa e um deles morre, com um disparo, mas não do jeito como se espera; Porta-malas, gol!

Tem mais: Entrevista, menina de rua grávida é entrevistada; Capas, biografia de estrela mirim que vira atriz de sucesso e morre de overdose aos 19 anos contada, de forma interessante, por meio de capas de revista: manchetes mais leads (“VALÉRIA E MATHEUS ROMPEM NOIVADO – Incompatibilidade de agendas teria sido a causa do rompimento. Valéria nega que tenha flagrado Matheus com outra.”). Marcha, monólogo de uma sem-terra; Documentário, depoimentos de jovens para um suposto documentário sobre a morte misteriosa de um rapaz da comunidade que sofria de distúrbios mentais, poderia ser menos afetado, mas a ideia do formato é interessante (Bolaño?); Conteúdo, mosaico minimalista de cenas do cotidiano, muito floreio, pouca efetividade; Torpedos, enquanto professor de português exalta a beleza da egrégia língua lusitana, alunos, via SMS, marcam festinha regada a drogas (“bi kd vc? tua ksa ta ok né”).

Ainda há mais: Encontro, diálogo entre duas amigas sobre as vantagens, quase exclusivamente financeiras, do relacionamento afetivo com homens mais velhos – é uma minipeça, o cenário é uma praça, onde elas conversam sentadas no banco, uma delas a espera do namorado; Brasilianas, dez “cenas” cotidianas, desconexas e, relembrando a batida metáfora de Julio Cortázar, sem poder de nocaute (exceto pela cena VII); Consulta, diálogo telefônico entre mãe e filha médio-classistas enquanto a filha leva uma amiga a uma clínica de aborto; Atalho, quebra-cabeça, cujas peças montam um acidente automobilístico envolvendo jovens e diversão temerária.

Por fim, Bilhete. Uma adolescente escreve um bilhete de despedida para o pai morto. A equipe Atalhos termina o jogo com uma história de amor. Depois de tantos clichês jornalísticos e pouco literários mostrados durante a partida, a equipe conseguiu contar uma história de amor de forma sincera e não-afetada. Assim como nos textos anteriores havia o fator denúncia explícito (menos, curiosamente, nos gols da equipe), aqui, em Bilhete, até pela posição da história no livro, há a mensagem do otimismo. Mesmo que o pai da garota tenha morrido, este cronista precisa dizer que essa foi a única morte natural proporcionada pela equipe Atalhos. O propósito é claro.

Uma equipe comparada à outra, temos Guarda-sol técnica e tímida e Atalhos aguerrida e bronca. Guarda-sol soube trabalhar a posse de bola, fez um jogo tradicional, nos limites formais da literatura. Atalhos chutou para todas as direções. Fez todo tipo de jogada – jogadas até de outros esportes (roteiros, peças). Mas, mesmo assim, com tantas bolas pela linha de fundo e pela lateral, a vitória da equipe Guarda-sol foi por apenas um gol. Vamos aos gols.

OS GOLS

Equipe Guarda-Sol sai na frente com Pequena história de uma completa vingança. O conto tem sabor de Poe. Mas, ao contrário do homicida Montresor, n’O barril de amontillado, o “esperto” da Pequena história… é um covarde. É frio, impassível, secretamente homicida e covarde.

“Esperto”, duas décadas atrás, era o goleiro reserva do time na 7ª série. O time venceu o campeonato da escola. “Esperto” não participou da vitória, não só por ser reserva, mas por ter se ausentado dos jogos para socorrer seu cachorrinho Parafuso. Manfredini, o professor de educação física, que tratava a todos por “esperto”, vetou a medalha de campeão a “Esperto”: “Tu nem estava aí à tarde, chegou agora, então pra ti não tem medalha não, esperto”. “Esperto” não soube lidar com isso. Duas décadas depois, “Esperto”, já homem casado, vê Manfredini à beira da estrada. Carro quebrado. Oferece ajuda, Manfredini aceita e não o reconhece. “Esperto” para ao lado do carro do Manfredini, que não entende a coisa. “Esperto” manda Manfredini “tomar no rabo”, cospe no carro dele (não nele) e sai em arrancada. “Talvez nunca tenha sentido uma felicidade igual”, diz “Esperto”. Na manhã seguinte, sua felicidade atinge píncaros de realização pessoal quando lê, no jornal, que seu antigo professor de educação física fora morto por assaltantes.

Tudo o que “Esperto” fez foi parecer ridículo, pois Manfredini nem sabia mais quem ele era, mas exultou ao se vingar, pateticamente, com um cuspe indireto e regozijou-se ainda mais com a morte do professor. “Esperto” tem consciência do próprio instinto homicida, mas é totalmente ignorante quanto à própria insignificância no evento. Golaço. 1 x 0 Guarda-sol.

Atalhos empata com Delete.

Roberto chega em casa depois de uma noitada etílica. Pisa no jornal do dia no tapete. Mãe, pai e irmã estão dormindo. Eram 6h da manhã. Vai conferir e-mails. Seis novas mensagens. Lendo essas mensagens, descobre que é um recém-homicida: atropelou uma mulher grávida. A sexta mensagem é escrita pela própria defunta, pedindo que entregue ao agora viúvo, por correio, a correntinha que ela usava, de muito de valor sentimental, que agora está presa “na grade da frente [do carro do Roberto], perto da estrela de três pontas”.

O realismo fantástico aqui é trivializado por Roberto. Sua primeira reação ao ler a mensagem vinda do além é ir pegar o jornal para que sua família não veja a manchete – e não o descubra homicida. Gol. 1 x 1. Por que esse gol é de pênalti? Porque a editoração do uniforme da equipe é pobre, como foi dito, noutras palavras, no primeiro parágrafo. No conto, há seis mensagens de e-mail parcamente formatadas como tais. Uma boa editoração seria, neste caso, um requinte necessário.

Virada no placar! Porta-malas é o segundo gol da eclética equipe Atalhos. Desta vez, não são e-mails, nem peças, nem depoimentos. São mensagens de voz deixadas num celular indisponível. Um monólogo picotado? Talvez…

A dona do celular inativo é Dorinha. Quem deixa as mensagens é seu ex-namorado. Também são seis mensagens. (Superstição do técnico Dill?). Ele está dirigindo o carro do pai há horas, desde a madrugada. Dirigindo sem destino. Aliás, ele é menor e o pai é muito zeloso com o carro. Na terceira mensagem: “Sou eu de novo, Dorinha. É, vou continuar tentando até tu ligar o celular e falar comigo”. Eles estão brigados. Ele perdeu a cabeça por ter sido traído por ela. Ele viu a traição. A terceira mensagem termina assim: “Liga o celular, Dorinha!”

Na quarta mensagem, ele continua se queixando (como fez nas duas primeiras) de estar enjoado e de sentir um fedor. Na quinta mensagem, ele se queixa: “Tu não vai ligar mesmo o celular? Sacanagem”. Assume que ficou nervoso quando ela lhe disse que jamais voltaria para ele porque o odiava. “Quem é que ia gostar de ouvir uma coisa dessas, Dorinha?”

Na sexta mensagem: “…enquanto tu não atender e não falar comigo, eu vou ficar achando que esse cheiro que tá aqui dentro do carro… Meu pai vai me matar”. Golaço. O leitor acompanha intimamente todo o processo de negação do assassino acidental. A escolha das mensagens de voz foi muito inteligente: o celular desligado (morto…) alimenta a ilusão do assassino de que Dorinha está viva e só não quer falar com ele. Ele, instintivamente, prefere que ela o negue, que não atenda ao telefone, porque assim a existência dela continua verossímil – ela não mais se importava com ele mesmo, o traía e tudo, logo, seria normal ela não querer falar com ele. Belíssimo gol. Além do mais, o formato é minimamente diferente e não comprometedor. Atalhos 2 x 1 Guarda-Sol .

A partir daí, a equipe Atalhos começaria seu festival de chutões, carrinhos, jogadas perigosas e afins que a fariam perder o jogo. É importante notar que bastou a equipe do técnico Dill se concentrar um pouco mais em literatura para fazer seus gols e ficar à frente no placar.

O empate veio com Justa causa.

Manoel trabalha num supermercado. Duas coisas estão mexendo com os nervos dele, para o bem: a moreninha do caixa 12 e o jogo, no dia seguinte, no time juvenil do clube. É sua primeira vez no time, desde que saiu da casa correcional. Mal vê a hora de convidar a moreninha do caixa 12 para vê-lo jogar e, depois do jogo, tomar sorvete.

Manoel, já perto do fim do expediente, ajuda uma mulher com suas compras. Ele as leva ao carro. Ela está falando ao celular enquanto ele vai guardando as compras. Ela deixa a carteira cair e não percebe. Era tudo o que não podia acontecer, ele pensa. Fica sem reação. Chuta a carteira para baixo do carro vizinho e fica em silêncio. A mulher vai embora. Ele mete a carteira dela no bolso e volta ao supermercado. Aquelas eram as últimas compras do dia, é o que Manoel responde ao guarda. Vê a moreninha do caixa 12, sorridente, cochichando com outras meninas. Falam dele, ele sabe. Seu coração dispara em alegria. De tão alegre, não percebe o carro da cliente “que ressurge no estacionamento (…), os faróis altos, buzinando em direção à porta do supermercado”. O carro freia bruscamente, “assustando Manoel, surpreendendo o guarda, fazendo parar o bando de meninas”. Aí Manoel “sabe que tudo vai se repetir outra vez. Mas não faz nada, não pode fazer. Só fica triste porque não teve tempo de convidar a moreninha do caixa 12 para ir vê-lo jogar”.

É assim, de forma técnica, que a equipe Guarda-sol empata o jogo. Uma história bem costurada. Uma jogada de equipe muito bem executada. Gol. 2 x 2.

Sincronia: o pai sente falta do filho morto e a maneira mais tangível de tê-lo por perto é ouvir sua voz, e repetir suas falas, em simulacros de pessoas: o filho era dublador. Muito competente, ele “sempre inventava uma fórmula para acertar as palavras com o movimento dos lábios dos atores”. “Sincronia, papai, ele dizia; sincronia”.

Ele é um homem simples. Seu filho está morto. Repetir as palavras vivas do filho invisível é uma maneira de estar com ele, de comungar com ele. O amor do pai, aqui, tem um caráter espiritual que o próprio pai desconhece. Falando junto com o filho, ele o ressuscita e assim, por meio da sincronia, ambos entram em sintonia.

É gol. Técnica e singela, a equipe Guarda-sol vira o jogo e vence a partida.

PLACAR
Atalhos [cenas brasileiras] 2 x 3 Um guarda-sol na noite

VENCEDOR
Um guarda-sol na noite, de Luiz Filipe Varella

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3 respostas para JOGO 33 – Atalhos x Um guarda-sol na noite

  1. enio roberto disse:

    Eu tou falando que o Guarda-sol na noite veio pra incomodar…

  2. Carlos André disse:

    Bom jogo. E uma prova de que realmente as arbitragens são muito subjetivas. Concordei com a apreciação do juiz quanto a “Porta-malas” ser um golaço, mas considerei “Delete” uma das mais fracas desse conjunto, afetada e apelando para um “realismo fantástico” que eu particularmente considero desgastado (e que o recurso do “e-mail” inserido como elemento de modernização apenas tornou, para mim, ainda mais desgastado.
    Ah, sim, e uma provocação para fazer o debate andar: o juiz aponta que o personagem “trivializa” o Realismo Fantástico apresentado no conto. Mas eu pergunto: a chave de praticamente toda a literatura do realismo fantástico não é justamente a “trivialização” de elementos absurdos , que irrompem mas não são tratados como absurdos pelo autor da história?

  3. Ótima observação, Carlos.

    Este árbitro sentiu o seguinte ao ler o Delete e relacioná-lo, sempre subjetivamente, a outras obras do fantástico.

    Roberto trivializa o absurdo do realismo fantástico duplamente: 1) por estar imerso nesta realidade anormal e aceitá-la como ela se apresenta, a praxe desta literatura; e 2) imerso, ele não compactua com essa realidade, porque reage noutra direção, em direção à realidade não-fantástica: ele vai esconder o jornal, uma atitude de mesquinhez endógena.

    Mesmo imerso no fantástico, 1ª trivialização do absurdo, ele o descarta com uma atitude alheia ao meio e fiel à sua própria conduta errática – esta 2ª trivialização reafirma seu ego frente a esta realidade, que a reduz a um mero contratempo.

    Achei lindo.

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