JOGO 34 – As grades do céu x Pó de parede

JOGO 34
(2º jogo do Grupo 11)

As grades do céu,
de Susana Vernieri (Libretos / 2009)
x
Pó de parede,
de Carol Bensimon (Não Editora / 2008)

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JUIZ
Marlon de Almeida – É doutor em letras pela UFRGS com tese sobre a poesia de Guilhermino César. Autor de seis livros de poesia: Histórias de um domingo qualquer (1994), Domingo desde a esquina (1997), Domingo de futebol (1997), Domingo de chuva (2000), Malabares ou clube dos incomparáveis (2003) – indicado ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira – e Prosa do mar (7Letras/2008), vencedor do prêmio da Associação Gaúcha de Escritores. Além de escritor, Marlon é professor do Colégio de Aplicação da UFRGS.

O JOGO

Quando olhei a máscara
ela tocou meu corpo
embruteci
quebrei a porcelana fina
e até hoje junto os cacos
daquilo que não vi

Com este petardo, sem dar tempo ao adversário, As grades do céu abre o placar do embate, no primeiro minuto de jogo, depois de envolvente tabela entre o eu-lírico – versos de efeito e rimas riquíssimas – e o narrador, quebrando a porcelana fina cara a cara com o goleiro de Pó de parede.

Localizado entre a prosa e a poesia, no interior de nosso estado poético, As grades do céu já na entrada de campo prometia surpresas com seu uniforme de bolso alvililás, de folhas acartonadas e coloridas, números imodestos, marcando páginas e expectativas.

E foi bem assim que se houve: gol feito, o conjunto continua agregado, forte na marcação das metáforas, rápido e afiado em cada linha do campo, arrematando contra o goleiro e o leitor na arquibancada, sempre a perigo de alguma bolada na cara: perdi minha cabeça ao andar na beira das fronteiras do sim e do não. Minha mente foi amputada e tive que buscá-la com olhos cegos.

Pó de parede pisa o gramado – um verdadeiro carpete, reparemos bem – com suas meias soquetes sobre pernas arqueadas e ameaçadoras ao senhor inimigo: a foto do time propõe-se ao enigma da capa: onde os sorrisos e o pó?

Surpreendido com gol tão cedo, Pó de parede não pode parar. E não para, pois mostra atenção aos detalhes, preparando o cenário ao contra-ataque. O movimento das personagens do jogo é envolvente, cinematográfico às vezes, como nessa tabela:

Oi, Alice.
Oi.
Quer dar uma volta?
(gira os pedais para trás para que a correia ressoe a pergunta)
Eu não tenho bicicleta.
Tudo bem, posso deixar a minha aqui?

Pouco ainda para o gol. Mas eis que, às 34 páginas do primeiro conto, A caixa, o lance: estamos em uma reunião dançante, e os meninos do time estão dançando de acordo com o ritmo da música que estiver tocando, enquanto as meninas continuarão estáticas com as suas conversas em voz baixa, porque se sentem desconfortáveis para sair pelo atalho da infância.

O juiz e a plateia demoram um pouco a perceber: bola baixa, sorrateira, bate na trave, atravessa a linha do gol… a beleza da revelação na zona morta entre duas infâncias jogadas na pequena  área do desejo de meninos e meninas.

Bem, agora o juiz não tem dúvidas e apita para o centro do campo. É gol. Partida empatada.

Enquanto isso, As grades do céu recua e começa a perder terreno. Os contos ainda permanecem protagonizando bons lances, mas sem o brilho das grandes jogadas.

Na página 68, já próximo ao fim do jogo, a linha de passe entre o meio-campo e o ataque não funciona, e, tentando a firula, o narrador tropeça feio nas palavras, perdendo a elegância:

Ana está plana.

Recupera-se na frase seguinte com uma jogada de efeito:

É um avião sem motor pousando num céu de areia.

Mas sai com bola e tudo pela linha de fundo:

quieto a observar o infinito.

Não teria ficado melhor assim (?):

Ana é um planador pousado em um céu de areia.

Seja como for, esse é apenas um exemplo de algumas construções de ataque sem bom termo. Além do mais, os jogadores parecem não mais se entender, com diálogos confusos e costuras de enredo sem pé nem cabeça.

E aí já vimos: sem pé nem cabeça não se joga futebol.

Enquanto isso, Pó de parede aproveita o momento e vira o jogo.

Com um movimento rápido das personagens e uma boa trama de espaço, tempo e enredo, passes firmes, jogando redondo, o 2 a 1 é consequência natural de quem dribla o goleiro e acorrenta o fantasma da derrota. Tempo? 58 páginas do primeiro conto:

E para que os balanços soltos no vento da madrugada não a assombrassem,seria preciso enroscar suas correntes. Seria preciso imobilizá-los e esperar pela paz das não-lembranças.

Sim, é verdade, no segundo conto, seu título parece prever o porvir: Falta céu para Pó de parece, e o time não decola (apesar de manter o elegante estilo de jogo), parece conformado com seu grande momento no primeiro texto. Foi preciso mudar o esquema tático e chamar o comando: estamos falando do Capitão Capivara, que entrou de sola no jogo, mas na bola, criando jogadas de belíssimo efeito, como esta em que a personagem está em uma entrevista de emprego, entre a mordacidade e o humour:

E ele dizia você sabe que temos um plano de carreira por aqui, e me olhou por cima dos óculos. Você pode vencer. Achei que vencer era uma coisa um tanto exagerada, porque era só um emprego para cuidar de crianças, mas entendi que ele tinha lido muito sobre marketing na sua vida, e disse, fingindo, É o que mais quero, senhor, que era verdadeiramente a resposta certa para essas coisas.(…) Reparei daí que pelas paredes havia uma porção daqueles diplomas emoldurados, e nas lombadas dos livros que vi na estante, entre dois troféus pela melhor gestão do ano tal ou uma enganação dessas, consegui ler títulos do tipo Como manter os pés no chão e Os olhos no horizonte e A Síndrome do Macho Alfa. Em vez de vomitar, achei que seria melhor continuar com as pernas lindamente cruzadas e um sorriso discreto de submissão.

Jogando firme, com personagens convincentes e cenas dramaticamente cômicas, esse último conto nos conduz por dentro dos bastidores de um hotel como pano de fundo para o que interessa mesmo: os bastidores humanos, o que não está dito nos sorrisos e nas frases cordiais das relações de trabalho que, enfim, são sempre as relações das gentes.

A reparar apenas os últimos minutos do conto: até ali, havia um flanar entre o minimamente dito e o implícito, linha mágica a conduzir o leitor pelo melhor que a literatura pode proporcionar: a sensação de estranhamento justamente por seu poder de abordar o conhecido, de gerar identificação e empatia. Quero dizer, o final, até se entende, é bola pro mato que é jogo de campeonato, há botinada onde havia dribles, há chutões onde havia passes.

O resultado? 2 a 1 para Pó de parede. E a sensação de que ambos os times poderiam um pouquinho mais justamente pela capacidade inquestionável de seus técnicos de montar bons esquemas de jogo e de fazer seu exército de palavras mandar bem.

PLACAR
As grades do céu 1 x 2 Pó de parede

VENCEDOR
Pó de parede, de Carol Bensimon

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9 respostas para JOGO 34 – As grades do céu x Pó de parede

  1. Gostei muito desta partida, e muito do encanto se deve à arbitragem sensível e nada condescendente com as falhas dos competidores. Parabéns!

  2. Carlos disse:

    Momento feio do jogo:
    O juiz sugerindo substituição de frases do autor.
    É como um árbitro de futebol que, cansado do anonimato, quer também chutar a gol.
    Feio isso.

    • marlon de almeida disse:

      É perfeitamente comum árbitros de comissões julgadoras (do Miss Armazém de Pindorama ao Jabuti de Literatura) e de competições esportivas comentarem, sim, para o bem ou para o mal, como teria sido melhor um ou outro lance de algum competidor.
      O arbítrio do julgamento não se limita à interpretação da letra fria da lei.
      Por isso é arbítrio.
      Abraço a todos!

  3. Carlos André disse:

    Gostei da arbitragem. Conseguiu sintetizar sua opinião sobre os dois livros apoiando-se bastante nos trechos em um texto que não foi prolixo e conseguiu manter-se conciso e elegante. Foi claro e eficiente em mostrar o que o impressionou em cada um dos livros.

    Só não é arbitragem digna de figurar no quadro da Fifa por um detalhte. Eu não seria tão veemente quanto o outro meu xará que já comentou, mas confesso que também achei estranho o juiz sugerir uma nova frase no lugar da que a autora usou. Não seria meu estilo de arbitragem. Mas é claro que isso não anula os grande méritos do juiz. Parabéns a ele e às duas competidoras.

  4. Uma boa arbitragem do Marlon, o jargão futebolístico conseguiu não ser chato (p.ex., a marcação do tempo através do número da página), sintetizando o trabalho das autoras. Parabéns a elas e ao juiz, em especial à vencedora. Depois de algum tempo atarefado, hoje atualizei as leituras: novamente em dia com o Campeonato, tendo lido todas resenhas.

  5. Magali Lippert disse:

    Quando fui coordenadora da área de Literatura do SESC acompanhei muitas oficinas, é absolutamente comum o oficineiro mostrar alternativas de como ficaria melhor uma frase, um texto… enfim… Sendo assim, não entendo o motivo de estranheza quanto a arbitragem e as alternativas que o Marlon dá (aliás excelentes!).

    • Carlos disse:

      Magali, a situação em uma oficina é totalmente diferente. O objetivo é justamente ajudar na construção do texto, eliminando erros e sugerindo possibilidades. O crítico tem (ou deveria ter) função diferente.

      Marlon comentou que é comum comissões julgadoras de concursos de misses sugerirem mudanças. Mas uma coisa é o juiz achar que a candidata seria mais bonita se tivesse um nariz menor, outra é subir ao palco com o bisturi na mão, como tentou fazer Marlon na sua crítica.

  6. Gostei da arbitragem, mas achei pouco conveniente o árbitro sugerir jogadas.

    Sugestão em oficinas, okay, é trabalho ainda em execução. Sugestão quando o livro já foi publicado…

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