JOGO 36 – Play x Veja se você responde essa pergunta

Devido a problemas técnicos, não publicaremos hoje o Jogo 35. A data da partida de Das travessias I x O batedor de faltas será confirmada em breve. Obrigado pela compreensão.

JOGO 36
(2º jogo do Grupo 13)

Play,
de Ricardo Silvestrin (Record / 2008)
x
Veja se você responde essa pergunta,
de Alexandre Rodrigues (Não Editora / 2009)

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JUIZ
Eric Novello – Tradutor, escritor e roteirista; em sua fase solar, Eric Novello cuida de um gato imaginário e da coleção de vinis de blues que ainda não começou. Adoraria ter o que fazer nas horas vagas, mas antes precisa descobrir como consegui-las. É autor dos romances Neon azul (2010, Ed. Draco), Histórias da noite carioca (2005) e Dante (2004), e tem contos publicados em diversas coletâneas.

O JOGO

O leitor de cristal líquido preso ao pulso indicava que esse seria um jogo equilibrado. Havia correlacionado estatísticas oficiais, informações do narrador esportivo e previsões futuristas que andavam aparecendo no visor desde sua queda em uma panela de fondue de chocolate. Confiante no que ele me dizia, entrei em campo esperando uma partida sem atropelos e faltas graves, dessas em que os lances não acontecem aos quarenta e cinco do segundo tempo, mas o dia me reservava surpresas.

De um lado do estádio, entraram os gladiadores inquisitivos de Alexandre Rodrigues e seu Veja se você responde essa pergunta, trajando um uniforme bonito de se ver de longe, mas sobrecarregado de informações com a proximidade. Minha atenção se voltou para um sortudo gato preto que desfilava entre as caneleiras metálicas, uma espécie de mascote.  Do outro lado, surgiram os guerreiros futuristas de Ricardo Silvestrin. Minimalistas, exibiam seu uniforme azul fechado de uma ponta a outra, com um visor preto e um Play em relevo sobre a barriga. Por dentro, nenhum detalhe além da força das palavras.

A onda azulada seguiu para o centro do campo e encarou os gladiadores. Era hora de fazer a bola magnética girar no ar.

Com um dedo, ativei o aviso sonoro e a partida teve início. Em cima de meu disco levitador, me peguei pensando em como os juízes do antigo futebol aguentavam correr para lá e para cá durante noventa minutos. Hoje em dia, era preciso usar de artimanhas para acompanhar o ritmo das partidas, as inovações e ideias de cada treinador. Times novos pipocavam todos os dias no mercado. Se não fosse o levitador, não teria nem visto a arrancada do time de Silvestrin em seus uniformes otimizados. Com total domínio de ritmo e linguagem, é o estilo de Silvestrin a goma que mantém o time unido, sua voz o melhor personagem, a inquietude o que o faz arrancar pelo campo sem dó nem piedade. Trabalha com diferentes cotidianos que às vezes lhe são mais palpáveis e às vezes lhe escapam dos dedos, mas de modo geral sabe moldar o material que tem em mãos. E foi assim que seu time correu o campo, costurando o adversário, zunindo contemporaneidade até a boca do gol, marcando com O filme o primeiro ponto da partida. Jogada limpa e precisa que sabia de onde partia e aonde iria chegar. Não tinha como dar errado.

Apesar do susto, o time de Rodrigues não se deixou desanimar. Pelo contrário, bom humor era o que não faltava naquele grupo, sempre procurando na experimentação do riso – mesmo que o riso de nervoso – o ponto central de suas jogadas. O problema é que as armaduras pesavam, os gladiadores pareciam se proteger não só do time adversário, mas também do público, escondendo demais a verdadeira força da equipe. E assim correram desajeitados, tropeçando no gramado sintético, usando de encontrões para neutralizar o balé de linguagem que ameaçava tirá-los do campeonato.

Fim de primeiro tempo, hora de descansar e conversar com os treinadores. Os minimalistas de Silvestrin, apesar da correria, parecem não ter derramado uma gota de suor. Anoto a informação no leitor em meu pulso para futura divagação. Já os gladiadores de Rodrigues, esses estão exaustos. Refletem o porquê de não conseguirem armar uma boa jogada ao chegar ao meio-campo. Desanimados, precisam de uma palavra de consolo do treinador que, após um discurso inspirado, manda que se livrem das armaduras. Chega de se proteger, é hora de se expor ao leitor, ele fala, e se segue um arremesso de peças metálicas no vestiário que faz o estádio tremer.

No retorno, o humor se transforma num algo mais. O time de Rodrigues parece animado, sente que é possível virar o jogo. O time de Silvestrin não sabe bem o que fazer. Domina a técnica, treinou com precisão os passes, mas não tem o elemento surpresa que o ajudaria diante do imponderável. Aproveitando esse momento de distração filosófica, o time de Rodrigues mostra que é bom de personagens e, num lance inusitado, faz a rede do adversário balançar ao som de Aquarela do Brasil.

O humor dos gladiadores se refina, fica sutil, arrisca-se a novas profundidades, eles acreditam que podem chegar lá. O domínio de linguagem dos minimalistas se intensifica, uma parede sólida para impedir o adversário, mas que não consegue armar uma jogada que devolva o ritmo ao time. Eles se retraem para conter os ataques, mas com isso perdem a magia do meio-campo, um espaço precioso.

Meu leitor enche a tela de estatísticas como quem diz: “eu avisei”, acredita no empate. Eu também. Entretanto, nos segundos finais, naquele instante em que rezo a Zeus que nada mais aconteça, os gladiadores de Rodrigues mostram que a descontração é uma arma importante, bem melhor do que os truques matemáticos do vestibular, e marcam o último gol, levando a partida.

PLACAR
Play
1 x 2 Veja se você responde essa pergunta

VENCEDOR
Veja se você responde essa pergunta
, de Alexandre Rodrigues


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4 respostas para JOGO 36 – Play x Veja se você responde essa pergunta

  1. Ai, meu Padim Pádi Cícero! A única saída para o meu time agora é um honroso melhor segundo lugar! Mas parabéns aos competidores, em especial ao vencedor!

  2. trezentos disse:

    Problemas técnicos = o juiz não entregou?
    Abraço.

  3. Pingback: Gauchão de Literatura | Eric Novello

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