JOGO 37 – Fora do lugar x O girassol na ventania

JOGO 37
(2º jogo do Grupo 14)

Fora do lugar,
de Rodrigo Rosp (Não Editora / 2009)
x
O girassol na ventania,
de Marco De Curtis (Dublinense / 2009)

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JUIZ
Flávio Ilha – O juiz não integra os quadros da FIFA, mas mesmo assim tem alguma respeitabilidade no mercado da bola literária. Como editor da revista Aplauso, fez resenhas e críticas literárias de vários autores – gaúchos ou não. Também é escritor, tendo publicado contos em antologias e na internet. É jornalista profissional desde 1986, com atuação em jornais e revistas como Folha de S. Paulo, Zero Hora, Correio Braziliense, Aplauso e Veja.

APRESENTAÇÃO

OS TIMES

Os dois times se apresentam impecavelmente fardados – aliás, uma constante no atual panorama da literatura brasileira. As embalagens são vistosas, as capas trazem imagens atraentes e títulos sugestivos, além de alguma carga de informação sobre os autores. Tudo muito bom. Se depender dos uniformes, podemos esperar um grande jogo.

Mas literatura, como se sabe, não é apenas uma camiseta bem feita nem um distintivo bem costurado. Os problemas começam já nas escalações e no esquema de jogo adotado por cada um dos autores. Marco De Curtis alinha seu O girassol na ventania de forma acadêmica, quase clássica. Os personagens de Curtis não discordam, “objetam”; não se encostam no parapeito ou em uma grade de proteção, mas na “balaustrada”. Não conversam ou paqueram, mas apresentam teses. Os diálogos, e são muitos nos sete contos do livro, em geral soam artificiais, como se os personagens não pensassem, mas lessem um roteiro pré-estabelecido. Sendo assim, é natural que o jogo jogado por ele se revele arrastado e pretensioso. Como se impusesse ao futebol veloz e competitivo do século XXI a forma de jogar cadenciada dos primórdios do ludopédio.

Erro que Rodrigo Rosp não comete em seu Fora do lugar. Ele aposta na velocidade e nas tabelinhas rápidas para cativar o leitor, mas também escorrega quando escala personagens que não se decidem entre ser atacantes ou defensores, alas ou meio-campistas. Explico: como seus contos são rápidos e objetivos demais, quase parábolas (embora sem conteúdo moral), não há espaço para tratar de personagens, de suas características – psicológicas ou físicas. O time de Rosp, leve e rápido, não consegue impor um futebol consistente e vistoso. Uma pena.

O JOGO

Com equipes tão díspares, era natural que o jogo demorasse a engrenar. De um lado, o time lento de Curtis não consegue estocar seu adversário, apesar da troca de passes, da posse de bola, de uma certa tentativa de se impor pela camiseta, e não pela qualidade da literatura. De outro, o jogo rápido de Rosp também se mostra ineficaz: apesar da troca rápida de passes, dos deslocamentos frenéticos, da forma moderna de expor sua narrativa, falta acabamento ao último passe, falta o toque qualificado, a jogada capaz de deixar o centroavante na cara do goleiro. Será um jogo, é possível prever, de poucos gols.

Curtis ensaia algumas jogadas de classe, especialmente no conto que dá nome ao volume. O girassol na ventania começa com uma boa troca de passes, mas a jogada perde o fôlego pela absoluta falta de objetividade do relato – há espaço até para uma desnecessária e enfadonha fábula sexual. O acidente que se anuncia no início do relato demora para chegar e, quando chega, se mostra incapaz de provocar contentamento: o pai punitivo é um arremedo de autoridade, os irmãos – ainda que adultos – são incapazes de contestar a decisão esdrúxula e, no final, a ausência de um conflito dramático de peso se revela fatal. A bola chutada a gol passa longe da meta.

Aliás, Curtis parece ter uma predileção especial por fábulas. Em Irreversível, uma briga de amor termina com a narração de um conflito oriental em torno de um vaso muito bem ornamentado que tem um defeito não-aparente. O relato é tão cru, tão desprovido de qualidades que custa a acreditar faça parte de uma seleção de contos. A mesma sensação advém da leitura de outros tantos trechos, igualmente comprometedores – especialmente em Beijo de borboleta, com seu “sol tragado pelo horizonte” e suas lágrimas a turvar a visão como gotas de chuva. Além do mais, as constantes explicações sobre nomes de ruas e parques de Porto Alegre, onde as ações se passam, tornam a leitura ainda mais enfadonha, como se fosse necessário lembrar que no Parcão havia um hipódromo ou que, na zona leste, há um cemitério “extremamente arborizado”. Paul Auster não explica Nova Iorque a seus leitores.

Nesse sentido, o futebol levemente “inconsequente” de Rosp leva uma pequena vantagem sobre o academicismo e o excesso de formalidade literária nas jogadas propostas por Curtis. Mais incisivo, todo tempo mais disposto a chegar na cara do gol, o autor nem sempre consegue transformar seus passes rápidos em tramas de ataque. Embora chute muito a gol, e de todas as partes do campo, Rosp não tem boa pontaria; a bola em geral se perde em alguma firula inútil, se arrasta vagamente à linha lateral sem que alguém venha socorrê-la. Jogadores jovens demais, diria um comentarista mais sisudo. A mim, parece que de fato falta um certo amadurecimento ao jogo de Rosp. Mas não tenho certeza se um dia ele conseguirá formar um bom time.

Ideia ideal passa rente ao travessão, embora a piada final seja um tanto quanto apenas isso: uma piada. Coração da noite também tira tinta da trave – apenas o jogo inconsequente do protagonista poderia ter um desfecho um pouco mais inspirado. Parece que o gol está amadurecendo, pois Linguista também revela um autor original, ainda que o trocadilho que constrói o conto seja pouco mais que infame. O poeteiro faz uso igualmente de um joguinho de palavras – e só. Agora, a dor se foi, que encerra o volume, não repete os bons momentos anteriores e a morte do autor, na fila de autógrafos, é mais um desabafo sarcástico do que propriamente uma narrativa. Está certo, há todo um conteúdo iconoclasta que perpassa os contos de Fora do lugar, ainda que o autor se volte mais para seus próprios objetos – a literatura, a língua, a autoria – do que para o contexto social em que essas ações de inserem. Como se estivesse no campeonato para desmascará-lo – e fizesse isso jogando um futebol vistoso, mas sem colocar a bola para dentro do gol.

No final do jogo, o time escalado por Rosp consegue a vantagem mínima sobre seu oponente. O 1 x 0 é resultado de um jogo sem grandes emoções, com algumas pitadas de inspiração e muita, mas muita transpiração para produzir um resultado tão magro. Transpiração, inclusive, da parte deste juiz.

PLACAR
Fora do lugar 1 x 0 O girassol na ventania

VENCEDOR
Fora do lugar, de Rodrigo Rosp

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