JOGO 39 – As grades do céu x Flores da cor da terra

JOGO 39
(3º jogo do Grupo 11)

As grades do céu,
de Susana Vernieri (Casa Verde / 2009)
x
Flores da cor da terra,
de Lívia Petry (Nova Prova / 2009)

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JUIZ
Delfin – Editor, escritor, jornalista e designer gráfico. É um dos fundadores das Edições K. Também um dos colaboradores originais do Portal Overmundo. Já editou obras como as trilogias Fundação (de Isaac Asimov) e Sprawl (de William Gibson, que inclui o romance Neuromancer). Atualmente comanda o Studio DelRey, especializado em produção gráfica e editorial, e edita a revista Machado. É um dos signatários do Manifesto Silvestre, que defende a literatura nacional de entretenimento.

OS TIMES

Dois escretes que chegam a esta fase do Gauchão credenciados por sua classificação na fase anterior da contenda. Então, não se pode desprezar nenhum. As grades do céu entra de uniforme roxo e cinza, chamando a atenção de todos pela estatura de seus comandados: cada um de seus contos é sintético o suficiente para ser acomodado nas pequenas dimensões do livro. Cada conto veste as cores do escrete, o que é digno de nota. No entanto, o time roxo-e-gris possui um trunfo adicional, que promete incomodar o adversário ainda mais: o scudetto que sinaliza seu triunfo no Prêmio Açorianos de 2009. Não ficou bem no uniforme, é verdade, mas é preciso se ressaltar que o vestuário do time já não era mesmo muito marcante: uma mistura de cores num padrão de xadrez que só faz sentido se a intenção é confundir aqueles que ousarem enfrentá-lo.

De cores também pouco marcantes e confusas, o uniforme de Flores da cor da terra ao menos brilha mais que o do adversário, por conta do escudo em tom metálico. Mas o tricolor acobreado já mostrou que possui estrutura e tática muito bem definidas, contando com narrativas que fazem uma defesa aguerrida, um meio-campo bem ensaiado e um ataque de ares mui tradicionais. Não tem nenhum campeonato vencido até aqui, mas possui força e confiança para seguir em frente na competição.

Os times, em comum, possuem duas técnicas que pretendem mostrar que as mulheres também têm vez no Gauchão. A técnica do Grades, Susana Vernieri, possui mais experiência que sua contendora, Lívia Petry (técnica do Flores), e as duas claramente representam crenças narrativas diferentes que, neste verdadeiro combate de hoje, terão suas características ressaltadas.

O juiz as chama para o centro do gramado e, inusitado, com elas faz o famoso cara ou coroa. O time roxo leva a melhor e escolhe iniciar a disputa. Agora, o trabalho é todo do juizão, que está acostumado a partidas difíceis e não pretende se apequenar. Que vença o melhor!

A PARTIDA

Jogo que aparentava ser uma peleja muito difícil no começo. O livro de Susana, editado pela Libretos, vinha respaldado pelo tradicional Prêmio Açorianos. Fora isso, era um completo desconhecido, como também o era o de Lívia – que, faça-se justiça, lista também as glórias individuais de seus contos na primeira orelha de seu volume, que saiu pela Nova Prova.

Comecei a ler primeiramente As grades do céu. A primeira coisa que chamou a atenção, claro, é o tamanho da edição, de bolso, algo que é do meu agrado desde os primeiros livros que editei, ainda pelas Edições K. Apesar de acreditar que as cores não funcionaram na capa, estas foram bem distribuídas pelo restante da edição e, em cores chapadas, possuem um grande efeito. Não gosto da guarda interna, em papel vergé, mas compreendo que ela está ali mais por uma questão de sustentação da edição do que estética: isso se deve à baixa gramatura do papel do miolo, que muitas vezes atrapalhou a experiência da leitura. Mas não foi o único fator a atrapalhar esta experiência.

A escolha tipográfica de Clô Barcellos, responsável pelo design da edição, também comprometeu, de modo decisivo, a leitura dos pequenos contos contidos nas oitenta páginas do volume. Isso merece um destaque à parte, ainda que sua influência não tenha sido definitiva para o placar.

A escolha de apenas uma fonte, sem qualquer variação de pesos (ou seja, sem itálicos ou negritos, por exemplo), prejudica um projeto unificado por ser monoespaçada, o que significa dizer que, entre cada letra contida no livro, não existem variações, como em tipos metálicos numa máquina de escrever. Aliada ao alinhamento justificado dos textos, que praticamente exige hifenização e ajustes finos de espaçamentos, não se mostrou uma escolha eficaz. Mas a coisa se complica quando, por conta do tamanho dos textos da autora, a opção de design é aumentar o corpo da tipologia escolhida. Aí é matemática: quanto maior o corpo de uma fonte, menos letras cabem em uma linha e, quanto menos letras, mais complicado fica o ajuste de espaçamentos dentro de cada uma dessas linhas. Com fontes monoespaçadas, o problema se acentua: os espaçamentos ampliados que fatalmente acontecem soam forçados e, por mais que o leitor não tenha nenhuma noção do que eu discorri neste parágrafo, ele sente que a leitura não flui como deveria. Esses são os principais motivos, verdadeira falha que deu de cara um gol pro adversário.

Os contos curtos, certamente, foram o motivo que levou às escolhas de design de As grades do céu, para que houvesse um ganho no número de páginas final.

O que mais influencia no resultado do jogo, para o livro de Susana Vernieri, é a qualidade de seus contos. E falo isso com certo receio: afinal, o livro venceu um dos principais prêmios da literatura gaúcha, senão o principal. O receio vem do fato de que os contos são fracos. Sim, você não ouviu errado, é o que pensei à medida que terminava cada um dos textos desse livro. Muitos são pequenas egotrips, típicas de um autor iniciante e não-publicado, o que não é o caso de Susana.

Deixo claro que não é a qualidade do texto que prejudica As grades. É a narrativa de Susana, que se pretende subjetiva, mas na verdade parece incapaz de sustentar uma boa história, que afinal é a base de um bom conto. Ela apresenta soluções ineficazes para situações até banais e, a cada conto que eu lia, pensava que isso ia passar. No conto A boia, pensei que era um julgamento precipitado: o final da página 25 tornava o conto perfeito em si. Quando virei a página e vi que ainda havia linhas a serem vencidas para o final da narrativa, capitulei. Foi uma impressão que ficou até o fim da leitura, em especial nos contos O unicórnio, Paradoxo e, principalmente, em Na estante. O melhor é A mulher do próximo, que se destaca dos demais.

A vitória, no entanto, não seria assim fácil para Flores da cor da terra. Eu poderia ter uma surpresa negativa à frente. Tive que vencer a capa, que achei fraca, e superar vinte páginas de introduções para chegar ao que me interessava. E, aí sim, encontrei narrativas, acolhidas num projeto gráfico simples e até conservador, mas que não comprometeu o conteúdo.

Ao contrário do livro anterior, Flores possui estrutura muito definida. Dividido em três partes, cada uma delas contempla uma temática diferente. A primeira, Desmundo, abriga uma temática mais violenta, ainda que não necessariamente urbana; a segunda, Coração selvagem, é invadida pelo sentimento; a última, que tem o nome do livro, contém narrativas ligadas à tradição gauchesca.

Não são narrativas brilhantes, as de Lívia. Muito me incomodaram algumas palavras que quebravam o registro narrativo durante a leitura – me lembro especialmente de certas “cortinas de voal” (no conto Giselda). E a revisão do livro poderia ter sido melhor cuidada. Não é bacana se deparar com Truffault e outros pequenos deslizes. Mas, ainda assim, são histórias corretas, todas elas, com começo, meio e fim coerentes. Apesar de ter pelo menos um conto que, de tão trágico, me arrancou risadas, o que não foi nada bom: Viagem a Itapuã, em que um dos personagens revela ter AIDS à protagonista, de um jeito ultradramático.

É necessário dizer, no entanto, que a linguagem utilizada por Lívia é arrastada e, muitas vezes, cansa. Demorei muitos dias para vencer o livro, ele não é daqueles cuja leitura flui. As grades, por outro lado, é um livro desses em que o vernáculo utilizado faz com que o leitor vença o livro sem dificuldade alguma (eu mesmo o reli duas vezes, para ter certeza do meu julgamento, algo que não consegui fazer com Flores). Certamente, a experiência jornalística de Susana foi fundamental nesse quesito.

Porém, a fluência de Susana foi pouco para reverter o resultado que se anunciava a cada conto lido em Flores.

PLACAR
As grades do céu 0 x 3 Flores da cor da terra

Num jogo não muito complicado de definir, As grades não resistiu a um juiz que observou a narrativa acima do estilo. Nesse caso, não havia muito o que fazer: pelos contos, por evitar alguns erros e por conta de uma falha imperdoável do goleiro adversário em um dos tentos, vitória até inesperada de Flores, com alguma vantagem.

VENCEDOR
Flores da cor da terra, de Lívia Petry

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3 respostas para JOGO 39 – As grades do céu x Flores da cor da terra

  1. Samir disse:

    Curioso o resultado. No final das contas, com tantas pontos negativos apontados em ambos os livros, por questão de coerência devia ter ficado no zero a zero (ou colocar um gol-contra) – não que eu esteja concordando ou discordando com a avaliação dos livros, já que não li nenhum dos dois.

    • Delfin disse:

      Então, Samir, na verdade há pontos negativos muito mais contundentes no livro derrotado, se você reparar. Mas foi um páreo duro e, sim, rolou um gol contra (a favor de quem ganhou). E às vezes um futebol arroz-com-feijão, sem qualquer jogada brilhante, produz resultados inesperados, dependo do adversário. Foi o caso.

  2. A elegância dos organizadores não alardeou a notícia, mas o Campeonato faz história, indicado ao prêmio Fato Literário 2010. Há uns dois meses, o jornal Rascunho, de Curitiba, também repercutiu o nosso certame. De resenhas como essa, ele é feito. Parabéns à Lívia, à Susana e ao juiz (embora eu tenha sentido alguma discrepância entre o o texto e o placar final). E em especial aos organizadores e participantes.

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