JOGO 35 – Das travessias I x O batedor de faltas

JOGO 35
(2º jogo do Grupo 12)

Das travessias I,
de Sergio Napp (WS Editor / 2008)
x
O batedor de faltas,
de Claudio Lovato Filho (Record / 2008)

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JUÍZA:
Marianna Teixeira Soares – Carioca, jornalista por formação e editora de livros por paixão. Há quase uma década trabalha editando, produzindo, avaliando e publicando livros. Leitora de inglês, francês e italiano, é casada com um gaúcho, adora churrasco, mas odeia chimarrão. E como em casa futebol é religião, tornou-se torcedora de um time gaúcho campeão mundial para preservar o casamento e não se arrepende.

OS TIMES

TIME 1: Das travessias I, de Sergio Napp, WS Editor (2008)

UNIFORME: O uniforme do time é composto por uma bela foto na primeira capa. No entanto, o projeto como um todo parece ser mais rebuscado do que o necessário. Muitos elementos desviam a atenção para a escolha acertada da imagem.

NOS VESTIÁRIOS ou PRELEÇÃO: O texto da primeira orelha apresenta uma sinopse pobre e vaga de informação sobre a seleção de textos, e também consta a biografia de autor que deveria estar na segunda orelha. Além disso, o agradecimento aos que selecionaram os textos estaria mais adequado na abertura do livro ou mesmo num prefácio por eles assinado. A informação da segunda orelha deveria entrar ainda no miolo junto com a biobibliografia – que, poderia chamar-se simplesmente “livros publicados”. No lugar disso, o tradicional “sobre o autor”. Aliás, por que biografias do autor em tantos lugares diferentes? A quarta capa sem apelo não instiga o leitor a conhecer o conteúdo do livro.

ESQUEMA DE JOGO: O livro apresenta 14 narrativas curtas que tratam de relações humanas e investigam os sentimentos em situações cotidianas diversas.

DESEMPENHO DURANTE A PARTIDA: Fugindo de clichês e apresentando uma indiscutível qualidade literária, Sergio Napp narra histórias com personagens construídos com delicadeza, que despertam a empatia do leitor. A escrita é precisa, as imagens são belas e as histórias se desenvolvem e se concluem de modo consistente, qualidade muitas vezes rara nas formas mais breves de expressão escrita.

BOLA DIVIDIDA: É difícil estabelecer uma conexão entre todos os contos. Naturalmente, alguns deles dialogam maravilhosamente entre si, no conceito: como o excelente Travessia – que flerta com um certo realismo fantástico, presente também em Os velhos do andar térreo e O que será de nós sem você, papai?. E também em seus temas transversos: como a questão da solidão em Olhos de menino e Janine e o televisor. Outros destoam e se põem deslocados como O enforcado, evidenciando a dúvida acerca de um critério melhor estabelecido para a reunião dos mesmos.

GOL DE PLACA: Potro ferido – em menos de três páginas, Sergio Napp constrói a relação entre pai e filho e, de forma brutal, descortina os sentimentos causados pela ausência: mágoa, dor e violência. Inesperado, surpreendente e perturbador.

BOLA FORA: O enforcado é um conto em que a delicadeza é substituída pelo exagero, em que há uma pitada de humor ácido, que não se apresenta como deveria.

TIME 2: O batedor de faltas, de Claudio Lovato Filho, Editora Record (2008)

UNIFORME: Bonita capa com uma composição interessante e limpa, em que elementos do campo de futebol (bola, gramado) se apresentam de forma elegante num ângulo pouco óbvio. Foto do autor numa trave na segunda orelha do livro desperta a empatia do leitor e dialoga diretamente com o conteúdo.

NOS VESTIÁRIOS ou PRELEÇÃO: O excelente texto de orelha, adequado e muito elucidativo, desperta a curiosidade do leitor para o livro.  O trecho selecionado para a quarta capa também é muito acertado: uma parte do conto que dá origem ao título, bastante representativo da qualidade do texto e com dose certa de emoção.

ESQUEMA DE JOGO: O livro reúne 17 contos que têm o futebol como pano de fundo, relatando dramas e emoções de jogadores e torcedores que fazem parte do espetáculo dos gramados.

DESEMPENHO DURANTE A PARTIDA: O diretor de futebol, o goleiro, o zagueiro, o gandula, o maqueiro, o veterano e o aspirante a jogador – todos estão lá revelando as diversas faces e emoções que envolvem a prática do esporte. Claudio Lovato explora o universo do futebol e seus paralelos com a vida, aproximando o tema do leitor comum.

BOLA DIVIDIDA: O tema exaustivamente explorado e uma linguagem que muitas vezes beira a reportagem comprometem O batedor de faltas, que tem como sua maior qualidade amplificar o mundo do futebol e apresentar ao leitor um tema enfronhado em muitos recantos do Brasil e suas nuances.

GOL DE PLACA: O diálogo sincero entre pai e filho sobre sexo, em Arquibancada, apresenta o futebol como tema de aproximação entre pai e filho e também de convergência entre gerações.

BOLA FORA: O excesso de citações de jogadores e partidas de Em noite em claro compromete o ritmo da leitura e a força da relação do jogador com o avô, o componente humano e lírico do conto.

PLACAR

Das travessias se anuncia como um volume 1 de contos tão indefinidos que não se sabe o que esperar do volume 2. É um caso de talentos individuais (se considerarmos cada conto um jogador) num esquema tático que deixa a desejar por não priorizar o conjunto. Muitos bons chutes a gol num resultado que fica aquém da qualidade excepcional da grande maioria de contos isoladamente.

O batedor de faltas traz uma seleção de textos bem amarrada conceitualmente, uma linha condutora que se apresenta como um jogo de futebol, seus protagonistas, lances e emoções até o fim do jogo – e os que já não vivem essa emoção tão de perto como viveram.  Por outro lado, os textos muitas vezes confirmam alguns clichês, além de ser estruturalmente parecidos com fórmulas convencionais, que não surpreendem o leitor. Muita técnica para pouco brilho.

Uma análise mais apurada e atenta dá vitória a Das travessias. Tentando deixar um pouco de lado o papel de editora de livros, percebo como leitora que Das travessias supera O batedor de faltas em qualidade literária. Na verdade, deixa o leitor ansioso por mais uma partida.

RESULTADO DA PARTIDA:
Das travessias I 3 x 2 O batedor de faltas

VENCEDOR
Das travessias I, de Sergio Napp

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Uma resposta para JOGO 35 – Das travessias I x O batedor de faltas

  1. Um jogo sucinto e interessante. Parabéns ao Sergio Napp! E estou cada vez mais curioso em relação a O batedor de faltas.

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