JOGO 41 – Play x Trocando em miúdos

JOGO 41
(3º jogo do Grupo 13)

Play,
de Ricardo Silvestrin (Record / 2008)
x
Trocando em miúdos,
de Luiz Paulo Faccioli (Record / 2008)

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JUIZ
Paulo Tedesco – Para um discreto perna-de-pau na infância e um torcedor nervoso na adolescência, não sobraria outra posição num clássico do Gauchão da Literatura do que a de juiz. Editor e consultor gráfico por necessidade, antes de entrar nos gramados literários de uniforme preto e apito na mão, escreveu em jornais, publicou dois livros, entre eles o mais recente Contos da mais-valia & outras taxas (Dublinense), virou editor de website e também professor da sua Oficina do Livro, a mais conhecida de suas atividades. Foi no esforço maior em buscar um novo olhar sobre a literatura e o futebol que se viu escalado para uma bela partida desse nosso inédito e gaúcho campeonato. Vamos ao que interessa, portanto.

O JOGO

Uniforme: Play
Simples, direta e enigmática. A capa, com sua plastificação fosca e um relevo central, chama a atenção pela opção das cores. Sua limpeza e objetividade, reveladas nas fontes presentes em todos os convidativos e entusiasmados textos das orelhas e contracapa, assinados por Moacyr Scliar e Assis Brasil, mostram o dinamismo a que o nome do livro se propõe: tecnologia, automação e inovação. No miolo, porém, a escolha do tipo de papel e gramatura, aliadas à diagramação (talvez uma obsessão padronizadora da editora), revelam pouca criatividade e uma mesmice que podem espantar o leitor na busca detalhes para além do texto, e assim diferenciar sua relação afetiva com o instante eterno que a leitura lhe proporcionará.

Uniforme: Trocando em miúdos
A fotografia de capa e a opção de cores, talvez seguindo a opção da editora por uma limitada paleta de tons e a sempre limpeza, nivelam, nesse aspecto, as duas capas. Sendo da mesma editora, os dois livros que entram em campo revelam fraquezas e acertos similares. Nota-se, porém, um esforço na diagramação do miolo de Trocando em miúdos, uma vez que a repetição do papel e gramatura insiste em igualar as duas obras, mas peca-se enormemente ao não haver assinatura na orelha do texto do livro e também não existir qualquer imagem do autor. Nos tempos multimídia, uma imagem, por menos reveladora que seja, identifica o autor por trás do nome e das histórias, e isso faz bem ao solitário e virtual leitor.

Esquema de jogo Play
17 contos em 178 páginas espalham alguns clichês e um desejo enorme de se fazer poesia em boas histórias. Apesar da boa vontade poética, ao entrar em campo com uma sequência lógica de princípio, meio e fim, colocando o conto que dá o título no final, a desarticulação entre defesa e ataque embaralha o leitor que procurava um livro de contos e encontrou algo no meio-termo.

Esquema de jogo Trocando em miúdos
15 contos em 144 páginas, apesar do esforço em apontar a ligação das histórias com as músicas de Chico Buarque, revelando um claro traço musical do autor, e que poderia afastar aquele que deseja um livro de literatura e não de música, o posicionamento da esquadra revela apuro e maestria na condução do livro. A busca de palavras como gelosia, desgraciosa, avarandado, entre outras, dizem que o autor queria tirar mais desses contos do que as letras sobre fundo amarelecido apresentavam – e  conseguiu, ao nos introduzir uma rara sensibilidade na literatura mais recente. Luiz Paulo Faccioli mostrou a delicadeza e a poeticidade que fazem a emoção de se ler um bom livro aflorar. Isso é mérito todo dele.

Bola fora Play
O conto que dá título ao livro, longo e desencontrado, quase levou a torcida a abandonar o estádio antes do fim do livro. Que bola fora! A tentativa de inovar ao sacar-se qualquer pontuação de um texto em prosa e transformá-lo num continuum de palavras exige muito apuro técnico, o que infelizmente não se encontrou. O novo é caro e o preço que pagamos, muitas vezes, é o que se vê ao longo desse livro e, em especial, no último conto.

Bola fora Trocando em miúdos
Os minicontos, embora bons na sua maioria, trazem a sensação de que, após uma divertida viagem e suas paisagens deslumbrantes, faz-se uma parada breve para um copo de suco vindo daquelas máquinas quadradas que jateiam um líquido colorido nas suas cubas. Os mínis, portanto, talvez sejam suco e não bola fora.

Gol de placa Play
Houve tentativas, nobres, mas terminaram desencontradas e sem resultado. Houve gol, mas sem o brilhantismo que prometiam os comentários ainda na capa.

Gol de placa Trocando em miúdos
A surpresa foi ao encontrar, nos primeiros minutos, um verdadeiro golaço de Depois que ele que chegou, gol que pediu a repetição exaustiva, para nele tirar-se a lição de como se faz um gol de placa. Em seguida, um miniconto tirou um pouco o embalo, mas não impediu o segundo gol de placa de Um dia depois de outro dia, que loucura! Depois disso, a torcida ficou em pé boa parte do jogo, vendo frases bonitas e sensíveis desfilarem pelo gramado.

O JOGO

Essa partida era esperada, sim, desejada, comentada e cultivadora de emoção nas torcidas. Afinal, vestindo o uniforme de uma forte editora brasileira, as duas obras vinham assinadas por dois bons nomes presentes no cenário mais contemporâneo das letras gaúchas. Era de se esperar, por consequência, um verdadeiro clássico, com jogadas impressionantes e muita aplicação de ambos os lados.

O clássico, porém, começou com Trocando em miúdos fazendo um golaço logo no início e, em seguida, outro, com parada para suco entre eles. Enquanto isso, o time do Play mantinha-se perdido em campo. Outras jogadas sensacionais do Trocando em miúdos, e outras nem tanto, foram ocorrendo, enquanto o Play bem que se esforçava, conseguindo marcar um gol tímido em Sobe e prometendo alguma reação para logo mais.

Mas o segundo tempo continuou com o predomínio da qualidade, do arroubo de Trocando em miúdos, onde frases como “Algo na simetria de duas filas me desconcerta” tiravam o time para dançar, e a torcida mal conseguia acomodar-se na arquibancada. Play, por seu turno, seguia aplicado, mas sem trazer resultado, terminando, por fim, num melancólico e cansativo conto.

Note-se o esforço dos dois autores. Sem dúvida. Mas, onde um acertou, o outro pecou. Em Play, temos um empenho descarado em deixar a poesia muito próxima da prosa, em que fins abertos e situações desencontradas desfilam ao longo dos contos. E não é o que ocorre em Trocando em miúdos, o arredondamento das histórias, as temporalidades que jogam o leitor de um lado a outro do sonho que ali se dirige, provocam o transporte da imaginação para outro mundo. E esse é o sentido da literatura: transcendência, o que o livro alcança.

Play parte para um caminho da busca do insólito, numa experiência ousada em tempos de ousadias controladas e televisionadas, mas sua prosa carece da excelência na linguagem e da forma para que o insólito de fato se faça presente. Fica-se, infelizmente, no meio do caminho, e nenhuma arte acontece na sua plenitude quando no meio do caminho. Ou faz-se poesia ou faz-se conto, e não é uma questão de puro formalismo, mas de uma fronteira que auxilia o leitor nas suas opções. Não se condena a experimentação, em hipótese alguma, mas avisa-se que o que se faz é experimental, o que não ocorre em Play.

Trocando em miúdos paga para ver e passando pela infância, sexo, pelos sonhos, pela ausência de clichês e a presença de frases inspiradoras como “A noite passa indiferente pela estranheza de seus olhos”, do conto Outra noite, mostrou todas suas jogadas. O resultado? O resultado não poderia ser outro do que um contraste nítido entre dois livros, que, embora inteligentes e distantes de um primeiro livro escrito por estreantes, deixaram nítida a vitória folgada de Trocando em miúdos sobre Play.

Placar final

Não, não ocorreu uma goleada em pleno estádio municipal das nossas melhores letras, mas o resultado de 3 a 1 para Trocando em miúdos mostrou o que foi o jogo, fazendo justeza à aplicação e à arte do futebol-literatura mostrados pelo vencedor.

PLACAR
Play 1 x 3 Trocando em miúdos

VENCEDOR
Trocando em miúdos
, de Luiz Paulo Faccioli

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Uma resposta para JOGO 41 – Play x Trocando em miúdos

  1. Estou aqui deliciado com a arbitragem sensível e estimulante do Paulo Tedesco. Sensível, porque ele pinçou frases das quais nem me lembrava e deu a elas um tratamento que ficou entre o respeito e o carinho. Estimulante, porque são leituras como essas que me motivam a perseverar. Só tenho a agradecer pelo privilégio, mesmo que esse seja talvez o último jogo no Gauchão do meu time do coração.

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