JOGO 43 – Trocando em miúdos x Um guarda-sol na noite

JOGO 43
(1º jogo do Grupo 15)

Trocando em miúdos,
de Luiz Paulo Faccioli (Record / 2008)
x
Um guarda-sol na noite,
de Luiz Filipe Varella (Dublinense / 2009)

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JUIZ
Marcelo Frizon
– Professor de Literatura formado pela UFRGS, onde também cursou mestrado em Literatura Brasileira e onde, atualmente, cursa o doutorado na mesma área. Já foi professor substituto de Literatura Brasileira na UFRGS e trabalhou em vários colégios particulares de Porto Alegre. Atualmente, é professor do Colégio Rainha do Brasil. Em 2001, cursou a Oficina de Criação Literária de Luiz Antonio de Assis Brasil na PUCRS. Criou e mantém o site www.surdina.com, dedicado à crítica literária, onde também tem um blogue. É gremista não-praticante e reconhece não entender nada de futebol.

TIME 1: Um guarda-sol na noite e outros contos, de Luiz Felipe Varella

UNIFORME: Como a maioria dos livros da editora Dublinense, o livro em questão tem um projeto gráfico muito bonito: a capa apresenta uma foto, em preto-e-branco, de uma cerca de troncos de madeira no meio da areia de uma praia deserta. O título, em letras maiúsculas vermelhas, contrasta muito bem com a imagem (embora possa ser um problema para um daltônico). O papel e a fonte utilizados no livro contribuem para uma leitura agradável. O único detalhe que incomoda no uniforme é a apresentação do autor: ficamos sabendo sua profissão e data e local de nascimento. Até aí, tudo bem, mas em seguida somos informados de que o autor é casado e tem dois filhos (com os nomes da esposa e dos garotos apresentados também). Quando li, lembrei-me imediatamente daquela passagem da crítica de Machado de Assis a’O Primo Basílio: “Ignoro inteiramente a razão fisiológica ou psicológica desta precaução de ternura conjugal”. Em que isso contribui para seu currículo literário?

ESQUEMA DE JOGO: O livro reúne vinte e três contos curtos que não estão divididos em seções. Claro, não precisavam estar, mas essa falta de divisão aumenta a impressão de que o autor ainda não encontrou seu caminho, porque os contos, vistos em conjunto, não apresentam uma unidade. Para um leitor conservador, que gosta de uma história com início, meio e fim, com personagens bem construídos e com um desenvolvimento organizado, o livro pode incomodar, porque o maior conto tem apenas seis páginas (num livro com formato pequeno, quase de bolso). A maioria dos contos tem entre duas e três páginas, os personagens são apresentados de maneira rasteira (quando são apresentados) e cada conto dá a impressão de que poderia ter mais umas dez páginas pelo menos. Um leitor mais liberal poderia defender que se trata de uma busca de concisão, de uma tentativa de dizer mais com menos, o que é interessante. No entanto, a maioria dos contos acabará esquecida em poucos dias após a leitura.

GOL DE PLACA: Contra-ataque. O conto mais longo do livro é um diálogo entre um dirigente de um clube de futebol interiorano e um goleiro (também de clube pequeno) que está em sua melhor forma física. No início do conto, pode-se sentir falta de um retorno ao passado que explicasse melhor como foi a relação entre os dois personagens na época em que o goleiro jogava no time do dirigente. À medida que o conto avança, no entanto, percebe-se que a intenção do autor era criar uma tensão que fosse aumentando de maneira gradativa até chegar ao final surpreendente.

BOLA FORA: O retorno de Alberto Garcia. O conto tem uma trama muito chamativa que merecia um tratamento diferente. Não é o conto menos interessante do livro. No entanto, incomoda a estratégia adotada para contar uma história que renderia mais. O tal Alberto Garcia saiu para procurar uma filha desaparecida, Margarete. Enquanto isso, sua outra filha, Angelina, falece. Ao final do conto, temos uma mudança de foco narrativo: ficamos sabendo que um fotógrafo foi encarregado, pela esposa do protagonista, de registrar numa fotografia a filha morta no caixão, visto que Alberto Garcia só ficou sabendo da morte da moça depois que ela já estava enterrada. Por que a alternância do foco? Por que não escolher um dos pontos de vista? Especialmente, por que não narrar todo conto do ponto de vista do fotógrafo? Certamente, o conto ganharia em dramaticidade.

TIME 2: Trocando em miúdos, de Luiz Paulo Faccioli

UNIFORME: O livro de Faccioli também tem uma capa muito bonita, com uma foto, em tom amarelado, tirada do alto de um edifício, de um homem caminhando no meio de uma rua deserta. É importante registrar essa qualidade em se tratando de um livro de uma editora de grande porte. Quando uma editora publica muito, a qualidade também varia muito (tanto nas capas quanto nos textos, logicamente). E o livro também tem papel bom, fonte boa, ou seja, leitura agradável.

ESQUEMA DE JOGO: Alternando alguns contos curtos, de apenas uma página, com outros mais longos, que chegam a cerca de vinte páginas, o livro é composto por quinze tramas livremente inspiradas em canções de Chico Buarque. Essa inspiração dá unidade ao livro, que explora histórias de amor, traição, conflitos e tristezas. As canções que inspiraram cada conto não são óbvias, não são as mais conhecidas do repertório buarqueano. Alguns contos já haviam sido publicados em antologias, portanto o livro não é constituído de jogadores desconhecidos até o início do campeonato.

GOLS DE PLACA: Depois que ele chegou, conto inspirado em Maninha, que abre o livro, é muito bem construído. A partir do olhar de Mário já adulto, vamos acompanhando as lembranças de quando ele era o pequeno Mário. O conto Sobre todas as coisas, inspirado em canção homônima, tem condução impecável e história contada com delicada firmeza, para usar uma expressão retirada do livro.

BOLA FORA: Dos cinco microcontos, apenas um chamou a atenção deste juiz: Bem-querer. O último conto, Outra noite, inspirado em canção de mesmo nome, tem uma história bem construída, que dialoga com A imitação da rosa, de Clarice Lispector, de onde o autor retirou a sua epígrafe. No entanto, é um conto de qualidade inferior em relação aos anteriores. Por ser um livro muito bem pensado, merecia um fechamento mais interessante. Ou, talvez, esse conto pudesse ser cortado do livro, que terminaria com a história inspirada em A história de Lily Braun, O homem dos meus sonhos, com uma trama muito mais provocativa.

O JOGO

As diferenças entre os contos dos dois livros são evidentes e ficam mais claras se compararmos os contos que abrem cada volume. Depois que ele chegou, em Trocando em miúdos, arrebata o leitor de cara e deixa qualquer torcedor querendo mais. Um guarda-sol na noite, conto que abre o livro homônimo, não tem força narrativa, porque se baseia essencialmente na descrição.

É possível perceber que os técnicos têm experiências completamente diferentes. Faccioli já publicou contos em várias antologias e revistas literárias. Trocando em miúdos é seu segundo livro de contos e o quarto de sua carreira, composta de uma novela adulta e uma infanto-juvenil. Além disso, Faccioli também é músico e, graças à rápida apresentação de Lya Luft na contracapa do livro, podemos ter certeza absoluta de que ele não é um mero apreciador das composições de Chico Buarque.

Um guarda-sol na noite e outros contos é o segundo livro de contos de Luiz Filipe Varella. Não li o primeiro, chamado Tinha um telefunken preto-e-branco na sala, mas com uma pesquisa pela internet descobri que esse volume tinha apenas 67 páginas (pode ser que o número esteja errado, porque são poucos os sites que possuem informações sobre o livro). Esse Um guarda-sol na noite é mais longo, o que poderia indicar um amadurecimento, mas ainda aqui estamos diante de contos curtíssimos, que deixam o leitor frustrado com a falta de detalhes, de aprofundamento, tanto das tramas quanto dos personagens.

Faccioli demonstra um domínio literário que falta a seu adversário. Um belo exemplo encontra-se na descrição da cena de sexo do conto Suburbano coração II: sem descambar para a vulgaridade, a narração, toda construída do ponto de vista de uma mulher tímida e recatada, é apresentada com tal realismo que qualquer leitor pode imaginar-se no lugar daqueles dois corpos abraçando-se e beijando-se:

“Ele não controlou o ímpeto ao puxá-la, e logo ela sentia o corpo sendo explorado numa disposição meio embrutecida que lhe enxovalhava o vestido, borrava o batom, desfazia o penteado e o capricho todo que usara ao se arrumar. Mas isso não mais importava. Logo os beijos ficaram pequenos para suportar o arroubo, eles foram virando no sofá, o sofá virou cama, e a sala assistiu atordoada à confusão de roupas que ele se encarregava de despir aos trancos, a nudez dele revelando o exato vigor que a roupa mal escondia, a dela, uma opulência que nunca ninguém havia suposto. Nem mesmo ele, que a percorria num ânimo crescente, ela entregue mas ainda contida, o pudor tolhendo ousadias, e dele outra vez a iniciativa, agora a de tirá-la da passividade para exigir afagos. Rápido ela teve de se acostumar ao que havia pouco não passava de intuição, e também vergonha daquelas imundices que antes só existiam dentro dela e só para agredi-la. Sujeitava-se mansa ao que sempre se empenhara em esconder guiada agora pelo desejo dele, enquanto descobria ser esse no fundo o sempre insuportável desejo dela.”

O conto Um fruto, de Varella, também nos apresenta uma cena de sexo, também sem descambar para vulgaridade, mas aqui faltam detalhes que nos iluminem por que aquela transa foi tão intensa. Quem leu o conto pode questionar que a intenção é outra, e é verdade: mostrar ao leitor como uma transa aparentemente sem expectativa acabou gerando um filho, mas fico com a sensação de que poderíamos ter tido mais informações, tanto a respeito dos personagens quanto na descrição da cena. Afinal, por que eles não saberiam o que fazer com o filho, como sugerem as últimas linhas da história?

Ressalve-se que a partida não é desleal porque Varella não é um amador. Acredito que sua literatura ainda precise amadurecer, ganhar vigor e técnica, mas histórias para contar ele tem, como seu livro nos mostra. Para provar isso, basta lembrar dois exemplos de tramas que poderiam ter sido mais bem elaboradas, de maneiras diferentes porque têm problemas diferentes. Ponto de vista, a história de um amor juvenil abortado por falta de coragem e experiência, tem um belo parágrafo final, mas os personagens são superficiais, apresentados de maneira rasa. Furtos de mim empolga com uma trama surreal. O irmão do narrador começou a contar histórias como se fossem suas, como se tivesse vivido cada experiência recentemente, mas que, segundo o narrador, tinham acontecido com ele (o narrador) muitos anos antes. O problema desse conto é o final. A morte é um subterfúgio literário que poucos conseguem utilizar de maneira original. Talvez o conto ficasse mais interessante se tivesse terminado uma página ou, no mínimo, dois parágrafos antes.

Com Sobre todas as coisas, Faccioli faz fácil mais um gol. O desencontro amoroso entre dois homens é construído numa trama original. O pensamento do católico Pedro põe de pé um personagem verossímil, ainda que, nos dias de hoje, cada vez mais raro. No entanto, suas intervenções são lúcidas para uma pessoa com suas convicções, que acabam abaladas pela revelação de Gustavo. A reviravolta que se dá na vida dos dois personagens provoca no leitor sensação oposta e, ao mesmo tempo, semelhante a que Caio Fernando Abreu provocou com Aqueles dois, de seu livro Morangos mofados. Oposta, porque são tramas completamente diferentes, que terminam com finais opostos; semelhante, porque estamos também diante de uma narrativa que nos prova que a vida pode mudar rapidamente, basta que aceitemos a mudança.

REPERCUSSÃO

Só agora, depois de terminar a resenha, resolvi dar uma olhada no que já tinham escrito sobre cada um dos livros. Minhas observações sobre Um guarda-sol na noite se assemelham às do Antonio Xerxenesky, mas diferem bastante das de outros juízes. Fico aqui pensando se isso não ocorreu por causa dos adversários que o livro enfrentou antes ou se foi realmente a impressão que tive ao ler o livro. Li Um guarda-sol na noite antes do Trocando em miúdos, por isso minha tendência é acreditar na segunda opção. Mesmo assim, acredito que Trocando em miúdos é um livro superior a Um guarda-sol na noite. E devo registrar que concordo com Diego Grando, que escreveu que Faccioli assumiu um risco altíssimo ao trabalhar contos inspirados em canções de Chico Buarque. No entanto, com experiência, autocrítica e consciência de seus limites, Faccioli nos brinda com algumas ótimas histórias.

PLACAR
Trocando em miúdos 4 x 1 Um guarda-sol na noite e outros contos

VENCEDOR
Trocando em miúdos
, de Luiz Paulo Faccioli

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4 respostas para JOGO 43 – Trocando em miúdos x Um guarda-sol na noite

  1. Luiz Paulo Faccioli disse:

    Estou na Malásia, não sabia que meu time entraria em campo ontem. Fiquei surpreso e, é claro, vibrei com o resultado. Gracias ao Marcelo Frizon pela arbitragem cuidadosa, que faz jus ao que tentei realizar com meu livro.

  2. Ligia Rodrigues Velasco disse:

    Eu nunca vi nada igual!!! O que é esse crítico??? Não se preocupou apenas em criticar o livro “Guarda-sol na noite”, criticou também os “árbitros” dos jogos anteriores desse livro, criticou até o livro anterior do autor sem ter lido o livro!! Criticou até a biografia do autor!!! O livro do Faccioli é sim melhor do que o outro, mas essa arbitragem eu não agüentei. Li todas as partidas e li quase todos os livros que estão concorrendo e estava quieta até agora, mas sinto-me envergonhada pelos autores.

  3. Faccioli,
    não é necessário agradecer. Acho que todas as leituras precisam ser cuidadosas. Depois que terminei o texto e o enviei pra organização publicá-lo, fiquei pensando se não deveria ter comentado mais contos de cada livro, mas acho que consegui passar a mensagem do que cada leitura representou para mim. Parabéns pelo belo livro!

    Ligia,
    acho que há um problema com o significado da palavra “crítica” no seu comentário. Crítica não é algo necessariamente negativo. Crítica é análise, resenha, comentário. Eu não fiz uma crítica do que os outros juízes escreveram a respeito de cada livro, nem critiquei o outro livro do Varella e, muito menos, critiquei a biografia do autor. O que fiz foi comentar rapidamente o que escreveram sobre os livros anteriormente, comentar que o primeiro livro do Varella também é um livro de contos, porém ainda menor que este, o que reforça um dos argumentos que expus em minha crítica (aí, sim, foi crítica): os contos dele não têm fôlego. Acredito que ele pode amadurecer sua literatura, porque, como escrevi, ele tem histórias pra contar, ótimas histórias, mas que estão mal contadas, a meu ver, porque precisariam de mais desenvolvimento; dito de maneira mais simples, precisariam de mais calma. Quanto à biografia do autor, não entendi qual a relevância de saber o nome da esposa e dos filhos para a leitura do livro. Você acha isso normal? Eu acharia estranho se o Chico Buarque se apresentasse como filho do Sergio Buarque, mas pelo menos aí teria algum sentido a lembrança, porque demonstraria uma relação estreita da família com a cultura e a sociedade brasileiras. Agora, o que a esposa e os filhos do Varella podem indicar sobre sua literatura? Quando os juízes são convidados a participar deste campeonato, recebem uma carta com instruções sobre como organizar sua crítica. Segui as instruções, embora não tenha seguido uma das sugestões, que era a de utilizar elementos futebolísticos na construção do texto. E não segui porque, como registrei na minha apresentação, não entendo nada de futebol. Mas a carta sugere que podemos analisar todos os elementos do livro, inclusive a apresentação do autor. Isso foi um ponto que me chamou a atenção, que me incomodou. Por que não incluí-lo no texto? Afinal, toda crítica é livre. De qualquer forma, obrigado pelo comentário e pela possibilidade de fazer esses esclarecimentos!

  4. Ah, sim, peço desculpas pela demora na resposta. Estive ocupado com o final do letivo e, por isso, não pude responder antes.

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