JOGO 46 – Entre facas x Fora do lugar

JOGO 46
(2º jogo do Grupo 16)

Entre facas,
de Liziane Guazina (Nova Prova / 2009)
x
Fora do lugar,
de Rodrigo Rosp (Não Editora / 2009)

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JUIZ
Leandro Sarmatz –
Nasceu em Porto Alegre e vive em São Paulo desde 2001. Jornalista e mestre em Letras pela PUC-RS. Autor dos livros Mães & sogras (teatro, IEL), Logocausto (poemas, Editora da Casa) e Uma fome (contos, Record). Trabalhou em Zero Hora, Superinteressante, Editora Ática e, atualmente, é redator-chefe de Vida Simples.

TIME 1: Entre Facas, de Liziane Guazina

UNIFORME: Capa dura, edição cuidadosa. Ilustrações dispensáveis.

ESQUEMA DE JOGO: 22 contos breves enfeixados em três seções (Canivete, Punhal, Navalha).

GOL DE PLACA: os contos Léo e Lia e As coisas últimas.

BOLA FORA: Especialmente desafinado é o conto Sonho e segredo (parece crônica ruim para suplemento dominical de algum periódico). Além disso, espera-se, a partir do título do livro, que os contos sejam cortantes, afiados, sem um pingo de sentimentalismo. Não é o que acontece.

TIME 2: Fora do Lugar, de Rodrigo Rosp

UNIFORME: Sou um apreciador da arte de Samir Machado – as capas que ele produziu para Raiva nos raios de sol e para seu próprio O professor de botânica são ousadas, ásperas e muito bem realizadas. Não é o caso da embalagem de Fora do lugar. Esta aqui parece ter sido feita para um daqueles media cards distribuídos em bares e centros culturais. Toma o título ao pé da letra (aquele sofá de grão-fino no meio do deserto do Papa-Léguas), o que é sempre limitador. Uma pena. O miolo exibe o costumeiro esmero da Não com tipologia, papel, etc.

ESQUEMA DE JOGO: 13 contos que tematizam a inadequação.

GOL DE PLACA: Engolidora de espadas.

BOLA FORA: O fantástico infanto-juvenil de Sala de espera.

O JOGO

É um daqueles clichês quase incontornáveis da crítica, ao falar da obra de João Cabral de Melo Neto, relacionar poemas como Uma faca só lâmina com uma suposta secura, nota antirromântica e total ausência de lirismo na obra do poeta pernambucano. Balela, claro. Uma coisa é o programa do autor (neste caso, mais de gerações inteiras de críticos teleguiados), outra é a realização. Certo que João Cabral não era nenhum J.G. de Araújo Jorge – mas também a propalada agudeza de sua obra tem muito mais a ver com sua aproximação antissentimental do objeto lírico do que propriamente com a temática ou o escamoteamento da emoção na poesia. Poemas como Tecendo a manhã e A Joaquim Cardoso são tudo menos cortantes, pelo menos no sentido corriqueiro que damos ao conceito.

Daí que o mínimo que se espera em um livro intitulado Entre facas é que ele ao menos ostente algumas dessas características: que sejam afiados e agudos. Nada mais distante da realidade. Aqui, ao contrário de João Cabral, o programa é sempre da autora, nunca do leitor. Neste punhado de contos breves, em que situações cotidianas são desfiadas com linguagem mais coloquial do que propriamente descarnada, os amores, as dúvidas, a memória – ou seja, as engrenagens que habitualmente fazem mover a infinita máquina do lirismo e da sentimentalidade – estão expostos de maneira quase didática. Um conto evocativo de uma cena infantil como Um dia, que tenta transmitir lá pelo seu final uma ruptura com a inocência por meio da descoberta do interdito, chafurda justamente por não saber distinguir a evocação da nostalgia barata (de novo é perceptível a marca da crônica domingueira), a revelação genuína da surpresa pré-fabricada e do efeitismo.

Paradoxalmente, é graças a essa linguagem até certo ponto escorreita (e descendente da crônica) que a autora consegue obter uma realização satisfatória na construção de um – como direi? – “clima” em bons momentos como os já citados Léo e Lia e As coisas últimas, além de A espera, este último com o único defeito de ser mais breve do que deveria. Neste caso particular é possível compreender (com algum veneno) o título do livro e sua estrutura em seções que aludem a armas brancas: a autora cortou mais do que deveria, tranquilamente A espera é um daqueles contos que mereceriam mais detalhamento, poderia ter sido escrito com mais fôlego e até ambição. A autora procurou esconder tanto a “segunda história” (cf. Piglia) que chegou a um ponto em que mais ninguém consegue encontrar essa outra história subterrânea, trabalhada a contrapelo e que seria fundamental para a totalidade de um conto como A espera.

No caso de Entre facas, portanto, os cortes, a busca algo desesperada pela produção de elipses foram tão profundos que escamotearam (provavelmente para todo o sempre) a riqueza que porventura suas histórias escondiam.

Problemas e outras cavilações com estratégias de ocultamento, aliás, não parecem fazer parte do horizonte de Fora do lugar. Este é um livro engraçadinho (a epígrafe de Woody Allen é apenas um abre-alas). E a comédia, para funcionar, precisa mostrar tudo ou quase tudo, mesmo correndo o risco de apelar para golpes mais baixos, como o trocadilho barato. E especialmente este último está em quase todos os lugares nesta obra. Em apenas um conto, e justamente o que abre o volume, é possível ler “frutas da estação rodoviária”, “aspirinas que aspiram ser tomadas” e aquela sacadinha esperta que faria a glória do autor no Twitter que é “No parapeito da janela, três livros de autoajuda estão prestes a cometer suicídio. Não tento impedir.” (100 caracteres).

Calada e redundante, o segundo conto, esquema “Gilfriend in a coma” (cf. The Smiths), uma história de culpa e espera, é arruinada por uma mecânica final digna de anedota. É este o traço que mais incomoda no livro. A despeito de seus méritos (sobretudo a linguagem despachada e o consistente desenho de personagens), há uma verdadeira compulsão anedótica, pelo rasgado efeito final que reorienta o eixo da narrativa, mas a um valor talvez muito alto: o preço da desconsideração (eu arriscaria até desrespeito) pela história que vinha sendo montada previamente. Nas boas narrativas do livro, como Funeral dos relógios, Estranho espelho meu e Engolidora de espadas, a eventual surpresa da última porção da história é obra de uma construção cuidadosa em busca de algum estranhamento, não de uma reviravolta anedótica.

Até agora não li – me recusei, detesto entrar armado no saloon (aka bolicho) – o prefácio de Jacobsen, mas consigo quase enxergar o que ele deve ter dito a respeito de Fora do lugar. O estranho. O humor grotesco. A presença do fantástico. Confere? (Honestidade: do prefácio eu só li o título.) Bem, batendo ou não com minha adivinhação matreira, penso que realmente o autor deste livro foi mais ambicioso no atacado do que a autora de Entre facas, que ostenta todo um ar de crônica. Só por esse motivo eu desempataria o jogo e daria um golzinho chorado para Fora do lugar, pois.

PLACAR
Entre facas 0 x 1 Fora do lugar

VENCEDOR
Fora do lugar
, de Rodrigo Rosp

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