JOGO 47 – Pó de parede x Um guarda-sol na noite

JOGO 47
(3º jogo do Grupo 15)

Pó de parede,
de Carol Bensimon (Não Editora / 2008)
x
Um guarda-sol na noite,
de Luiz Filipe Varella (Dublinense / 2009)

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JUIZ
Ronald Augusto
Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de valha (1992), Confissões aplicadas (2004) e No assoalho duro (2007). Despacha no blogue www.poesia-pau.blogspot.com.

O JOGO

Pó de parede / Carol Bensimon

A capa do livro me parece convencional e demasiadamente ilustrativa do clima que a autora pretende para a sua prosa, isto é, um enviesamento cult, seja no tratamento do texto, seja na cenografia onde se projeta a matéria narrada. Exceto pela capa, o projeto gráfico e a editoração são competentes.

Carol Bensimon faz parte daquele time de prosadores que estão mais atentos ao como narrar do que ao que deve ser narrado. Não é por outra razão que na orelha do livro Paulo Scott chama a atenção do leitor para as idiossincrasias do olhar de Alice, personagem de um dos três contos que compõem o volume. As sutilezas e os pequenos estranhamentos psicológicos se depositam na escrita.

Destaco a utilização insistente da conjunção aditiva “e” que retarda, detém o ritmo da narrativa. Ao mesmo tempo, me parece a simulação de uma recuperação do fio do que é contato, por meio de uma brevíssima tomada de fôlego, um estratagema que o narrador-personagem lança mão para dar continuação ao escorrer da memória: “E como o dois-cinco-um estava no topo (…)”; “Aquela casa sempre fora a mais estranha e a mais polêmica de todo o bairro, e Tomás sorriu lembrando (…)”; “E bem no meio desse cubo (…)”; “…e daí os muitos verdes das plantas (…)”; “E então um táxi apareceu distante e varrendo a rua…”, etc.

Com função similar, o advérbio “então” aparece no início de muitos parágrafos, como se a narrativa subisse ou descesse por um plano inclinado através de lances que nos sugerem repousos, escapes rítmicos no decurso da narração. Formulações correlatas: “E enquanto o piso estalava…”; “E de repente lá perto das casas…”; “Quando eu aparecia, Edgar já havia…”, etc.

Esse recurso expressivo conquistado em função de uma consciência de linguagem me parece um “gol de placa”.

A “bola fora” é que de repente nos damos conta de que as três histórias se apoiam essencialmente nesse recurso. Acho pouco.

Um guarda-sol na noite / Luiz Filipe Varella

Acho uma boa capa pelo que tem de sugestiva; limpa e quase na linha do desenho, gesto de calígrafo. Miolo: projeto gráfico ruim; a fonte escolhida é decorativa e o nome do autor nas páginas pares e o título da obra nas ímpares desequilibram a diagramação e ficam no limite de corte da folha, péssimo.

O livro é uma seleta de contos que não ultrapassam o provincianamente tolerável. Mais um contista que aceita com satisfação o imperativo e/ou a impostura do coloquial. Os personagens desses contos se espojam num naturalismo linguístico que reina, por exemplo, nas telenovelas. Um mau gosto típico da cultura pop subjaz à escrita de Luiz Filipe Varella que, naturalmente, não parece dar a mínima importância para isso.

No conto da página 35, Do jeito que eu gosto (e basta só esse exemplo), a promessa da perversão erótica e herética esbarra, é interrompida pela contenção carola de um lirismo de ginecologista da linguagem, ou seja, o necrófilo se lança sobre o corpo mexendo os dedos, “procurando o púbis que (…) conhecia tão bem” (grifo meu). O uso do substantivo “púbis” soa kitsch. O livro se perde numa falsa ironia relax.

Luiz Filipe Varella almeja fazer pastiches inteligentes a partir das referências da cultura do senso comum e da moral de rebanho, mas o que ele de fato consegue é uma pasta sem liga; uma prosa sem discrepâncias, efêmera feito a visualidade sem fundo da televisão.

Não encontrei um “gol de placa” sequer.

“Bola fora”: um livro que se lê só porque está à venda.

PLACAR
Pó de parede 2 x 1 Um guarda-sol na noite

VENCEDOR
Pó de parede
, de Carol Bensimon

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7 respostas para JOGO 47 – Pó de parede x Um guarda-sol na noite

  1. Carolina Xavier disse:

    Impressão minha ou isso tudo é uma panelinha?? Olha as editoras que estão ganhando…

    • Lu Thomé disse:

      Impressão, Carolina. Do Gauchão, posso garantir: o perfil mais variado possível de juízes/resenhistas foi convidado. Inclusive com pessoas de fora do Estado. Mas, claro: o mundo é uma panelinha. Não precisa só olhar para o Gauchão: Feira do Livro, Passo Fundo e outros projetos literários. Todo mundo acaba se conhecendo. E eu não acho isso pejorativo. Não chamaria de panelinha, inclusive. Chamo de integração e de estar familizarizado com o trabalho de alguém que atua na mesma área que eu. Pelo menos a minha preocupação sempre foi essa.
      Valeu o contato!

  2. Rafael Bán Jacobsen disse:

    É impressão minha ou o Ronald deu um “fatality” em dois dos concorrentes mais bem quistos do Gauchão? Jejeje…

  3. nem era preciso responder ao comentário infantil da carolina, mas vá lá: nunca os vi mais gordos ou mais brancos a ambos os escritores. não tenho nada contra nem a favor em relação a eles.

    abraços.

  4. João Kowacs Castro disse:

    jacobsen brilha muito no curintias

  5. Dani Langer disse:

    Não li o Guarda-Sol, então não posso falar nada sobre ele. Sobre o Pó, concordo que as histórias se valem muito mais em como são contadas. De repente me veio essa ideia, de que a linguagem da Carol, nesse livro, é que é a grande personagem. Se isso é bom ou não, acho que tenho que pensar mais a respeito.
    Agora, Ronald, eu não entendi uma coisa. De onde veio o gol do Guarda-sol? Foi contra? Desculpa, mas é que pela tua resenha não encontrei nem um gol de “chiripa”. hehehe

  6. o gol de Um guarda-sol na noite foi pela capa.

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