JOGO 48 – Fora do lugar x Veja se você responde essa pergunta

JOGO 48
(3º jogo do Grupo 16)

Fora do lugar,
de Rodrigo Rosp (Não Editora / 2009)
x
Veja se você responde essa pergunta,
de Alexandre Rodrigues (Não Editora / 2009)

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JUIZ
Fábio Prikladnicki –
Jornalista, trabalha no Segundo Caderno do jornal Zero Hora e é doutorando em Literatura Comparada na UFRGS. Teve papel de destaque na brilhante campanha de sua escola na Liga Mosaica de Futebol, nos tempos de adolescência, ao permanecer no banco, dando passagem aos companheiros que de fato sabiam jogar.

CONCORRENTES

Os dois escretes se apresentam em campo com uniformes bem-cuidados, confeccionados por Samir Machado de Machado, um dos capistas mais criativos do campeonato. Jogo duro, nesse quesito.

A capa de Fora do lugar, de Rodrigo Rosp, traz uma montagem com uma poltrona no meio de uma estrada, enquanto a de Veja se você responde essa pergunta, de Alexandre Rodrigues, nem parece capa de livro de literatura: lembra as saudosas provas mimeografadas, com uma questão de múltipla escolha divertida e cruel.

Pela presença de espírito e pela execução da ideia, Veja se você responde… leva a melhor, presenteando o torcedor também com um interessante projeto gráfico (de Guilherme Smee).

Embora seja uma partida entre duas coletâneas de contos, as equipes se diferenciam no esquema tático. Fora do lugar tem histórias com qualidades individuais, mas ainda busca um sistema de jogo que dê uma cara à equipe: por vezes, lança mão do tradicional 4-4-2; em outras, do romântico 3-6-1; ou, ainda, vai ao ataque com um ousado 4-3-3.

Veja se você responde…, por sua vez, busca surpreender o adversário à maneira de um Carrossel Holandês (guardadas as proporções, logicamente): em cada conto, uma sacada narrativa diferente para tentar encantar o torcedor. Mas, como ensinou o fracasso da Holanda na Copa de 1974, esquema não ganha jogo por antecipação.

Por isso, bola no centro do gramado e um minuto de silêncio em memória do meu acervo de metáforas futebolísticas, que se esgotou nesse introito. Haja paciência.

Apita o juiz, bola rolando.

O JOGO

Estamos frente a dois escritores que começam a construir seus caminhos literários, um paralelo que dá coerência à partida. Rodrigo Rosp está em seu segundo livro de contos. Alexandre Rodrigues, jornalista, estreia na ficção.

Mas Rodrigues chega chegando, com a convicção de quem tem o esboço de um projeto literário – o de uma experimentação despretensiosa. Já no conto de abertura, Foi então com Bárbara que surgiu algo diferente (Love #1), faz uso de notas de rodapé para acrescentar observações periféricas do narrador. Em Nicola Tesla (tape os ouvidos se você não quer ter a surpresa estragada), os parágrafos são dispostos de trás para frente.

Admita-se que isso pode irritar leitores menos dados a experimentos narrativos, mas o risco parece fazer parte do jogo de Rodrigues. Há um estilo sendo lapidado. Ainda se pode ver a pedra bruta, mas o autor parece saber aonde quer chegar. É o gol que abre o placar: um a zero.

A síntese aparece em O nariz, conto que encerra o livro, uma história cheia de pequenas ciladas narrativas que fazem o leitor esfregar os olhos a cada linha para ter certeza de que leu certo. Aqui, as ferramentas parecem a serviço da literatura. O segundo tento do jogo: dois a zero.

Fora do lugar, de Rosp, é mais enxuto, tanto na lombada quanto na extensão dos contos. Mas a concisão pode ser uma virtude nesses tempos de excesso pós-tudo (quem lê tanta notícia?, já perguntava Caetano). Desde o início se nota um esforço de trabalhar a escrita com pequenos jogos de linguagem, acrescentando uma verve poética à prosa.

O recurso serve à proposta das histórias, criando uma atmosfera fora do real, como no conto Sala de espera (publicado anteriormente na coletânea de vários autores Ficção de polpa 2), em que um sujeito se entretém com uma revista de celebridades antes de uma consulta, enquanto um ser monstruoso fica à sua espreita.

Alguns dos pontos altos são dois contos que estão mais ou menos na metade do livro, nos quais os recursos figurativos servem de linha para urdir a história. Engolidora de espadas é sobre um sujeito que conhece uma mulher com a profissão do título, deflagrando uma alegoria do medo de castração. O conto seguinte, Carrasco, tem um quê de político, no sentido amplo, um certo tom ensaístico. São dois belos chutes, que passam perto do gol, para desespero da torcida.

A força narrativa dos contos de Fora do lugar, no entanto, é mais difícil de ser destacada do que a do livro adversário. São narradores ainda à procura de uma voz, parafraseando Pirandello. No lugar-comum do futebol (e da literatura), um bom time é mais do que a soma de seus jogadores. Estilo também conta: valeria a pena aparar arestas de trechos como “Bebeu porque precisava, bebeu porque era preciso” (do conto Maldito) ou “Ficou na cama. E, na cama, ficou” (Ideia ideal).

Apita o juiz, fim de jogo.

PLACAR
Veja se você responde essa pergunta 2 x 0 Fora do lugar

VENCEDOR
Veja se você responde essa pergunta
, de Alexandre Rodrigues

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Uma resposta para JOGO 48 – Fora do lugar x Veja se você responde essa pergunta

  1. mkalves disse:

    Claro que não seria honesto dizer que estou na expectativa deste campeonato tanto quanto do jogo do inter daqui uns dias, mas a comparação tem lá seu valor. Sigo acompanhando atenta e adicionando títulos na lista de futuras aquisições.

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