FINAL – Jogos 49, 50 e 51 – Pó de parede x Veja se você responde essa pergunta

FINAL

Pó de Parede,
de Carol Bensimon (Não Editora, 2008)
x
Veja se você responde essa pergunta,
de Alexandre Rodrigues (Não Editora, 2009)

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JOGO 49

JUIZ
Carlos André Moreira – Nascido em São Gabriel em 1974, jornalista por formação, diplomado pela UFRGS em 1996. Há sete anos, ocupa a função de repórter cultural e crítico literário do jornal Zero Hora. É também tradutor e escritor. Já publicou contos em antologias e o romance Tudo o que fizemos (Leitura XXI, 2009). Considera isso de escrever sobre si mesmo na terceira pessoa algo muito estranho, mas, por ser o primeiro juiz, resolveu seguir o quanto possível as sugestões dos organizadores.

Carlos André Moreira apitou o Jogo 1 do Gauchão de Literatura: Atalhos x Mar quente.

O JOGO

A essa altura do campeonato, os leitores já conhecem o bastante dos dois competidores e de dois dos juízes desta final para que possamos deixar de lado considerações extraliterárias como o projeto gráfico ou a capa de ambos os finalistas – até porque os dois são da mesma editora e se equivalem no esmero com que foram tratados. Este juiz em particular também não pretende se estender muito em suas considerações, intenção pela qual os leitores provavelmente já estão agradecendo antecipadamente.

Pó de parede reúne três narrativas de alguma extensão, fica difícil decidir se se trata de um livro de contos longos ou novelas curtas. É um volume que tenta conquistar o leitor com as armas da sedução literária. A primeira história, A caixa, é também a melhor do conjunto, oferecendo, de cara, o que a literatura de Carol Bensimon tem de melhor: o talento para criar personagens consistentes, com várias camadas que a autora escava com vagar e método. O mergulho da autora no íntimo de seus personagens é sempre pautado por uma tensão constante entre a contenção e o sentimento. O olhar de Carol é ao mesmo tempo perplexo e compassivo com o que descreve, e A caixa é uma bela narrativa de formação ao expressar com honestidade e beleza as dúvidas e as fragilidades que terminam por unir o trio principal – o fato de a personagem sem possibilidade de manifestar seu ponto de vista ser, a bem dizer, a mais importante, longe de ser um defeito é um mérito, porque consegue deixar o leitor com a mesma sensação vivida pelos personagens: a de que por mais que tenham sido amigos, algo ficou por entender, e ficará para sempre.

Se A caixa é a melhor narrativa, a dedução óbvia é que a impressão inicial vai se diluindo à medida que a leitura avança. A segunda narrativa, Falta céu, também se vale do recurso de abordar de viés seu tema, lançando um olhar às vidas afetadas pela construção de um condomínio de luxo, mas a articulação dos elementos aqui não se dá com a mesma plenitude da primeira história. E Capitão Capivara, a terceira narrativa, embora carregasse em si potencial para ser a melhor do livro, parece mais um esboço de uma história maior do que propriamente um conto plenamente desenvolvido. A impressão que resulta da leitura do conjunto, contudo, é satisfatória: a de que uma escritora de verdade estava se apresentando com aquela obra (impressão confirmada pelo romance de Carol, Sinuca embaixo d’água).

Veja se você responde essa pergunta, de Alexandre Rodrigues, segue a linha contrária: é um conjunto de 14 narrativas que buscam o entendimento intelectual do leitor, e não sua comoção emocional. Seus textos são secos, diretos, por vezes emulam a linguagem técnica de um manual de instruções na maneira descarnada como descrevem com o mesmo valor de face o quão longe e em que velocidade se projeta a bala de uma UZI, quantos documentos um burocrata emite ao longo de um ano e quantas vezes um homem se masturba em comparação com quantas vezes transa com as mulheres de sua vida. A desumanização da narrativa é a desumanização da realidade retratada por ela.

Também na forma como se apresenta ao leitor, Rodrigues caminha em uma direção oposta de seu oponente. Os primeiros contos do livro definitivamente não impressionam, em particular o primeiro, Foi então com Bárbara que surgiu algo diferente. A este juiz, pelo menos, o conto não teve impacto algum por parecer uma reescritura inferior do conto que lhe serve de epígrafe, Quero calcular quantas vezes, de Martin Amis, incluído no volume Água pesada e outros contos. À medida que o livro avança, as narrativas melhoram. Rodrigues não cria personagens, cria títeres a serem manobrados no tabuleiro de sua prosa (nesse sentido, seu tratamento dos seres que cria assemelha-se ao de Verônica Stigger, para citar outra autora contemporânea).

Embora haja claramente um projeto estético por trás do livro, sua execução é irregular. Rodrigues se sai muito melhor nas narrativas que jogam com o absurdo, que partem do inusitado, como Istambul, Nicola Tesla ou O esquerdo e o direito. Já aqueles que se valem de uma crueza documental no tratamento da violência naufragam na discrepância de tom entre o realismo dessa abordagem e o tom surreal subjacente (nem mesmo para efeitos poéticos se aceitaria a história do médico que faz a autópsia do próprio filho em Aquarela do Brasil). Também a explosão de violência que encerra o último conto do livro, O nariz – e que, portanto, encerra o próprio livro –, apresenta-se como um final gratuito e apressado para uma narrativa que até então vinha cativando o leitor com suas armadilhas, ludibriando-o mais de uma vez sobre o que, afinal, o autor pretende com o que está contando.

Toda apreciação comparativa, por mais que se pretenda “técnica” ou “isenta”, é arbitrária. Daí porque este árbitro confessa que, apesar da qualidade que reconhece no livro de Rodrigues (e que, olhe, vale um gol), prefere o tipo de literatura praticado por Carol Bensimon (que, portanto, vence, levando dois gols, um pelo conjunto e outro adicional pela qualidade de A caixa).

Uma apreciação por demais pessoal, dirão alguns, mas como nesta partida final teremos outros dois juízes para contrabalançar as idiossincrasias arbitrárias deste avaliador em particular, declaro a vitória a Pó de parede por 2 a 1.

PLACAR JOGO 49
Pó de parede 2 x 1 Veja se você responde essa pergunta

VENCEDOR JOGO 49
Pó de parede

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JOGO 50

JUIZ
Marcelo Frizon – Professor de Literatura formado pela UFRGS, onde também cursou mestrado em Literatura Brasileira e onde, atualmente, cursa o doutorado na mesma área. Já foi professor substituto de Literatura Brasileira na UFRGS e trabalhou em vários colégios particulares de Porto Alegre. Atualmente, é professor do Colégio Rainha do Brasil. Em 2001, cursou a Oficina de Criação Literária de Luiz Antonio de Assis Brasil na PUCRS. Criou e mantém o site www.surdina.com, dedicado à crítica literária, onde também tem um blogue. É gremista não-praticante e reconhece não entender nada de futebol.

Marcelo Frizon apitou o Jogo 43 do Gauchão de Literatura: Trocando em miúdos x Um guarda-sol na noite.

O JOGO

Resenhar dois livros tão diferentes e sobre os quais tanto já se escreveu neste campeonato não é tarefa fácil. Começo com essa frase banal, uma introdução tola, justamente porque não sei qual o melhor caminho para esmiuçar minhas impressões. De um lado, Carol Bensimon apresenta três narrativas muito bem construídas, com um belo trabalho de linguagem, com personagens complexos e cativantes. De outro, Alexandre Rodrigues aposta no absurdo e na provocação experimental em quatorze contos curtos.

A capa de Pó de parede é o que chama a atenção imediata do leitor. Não sei se faz sentido, mas a mim ela indicava, antes de ler suas páginas, que o livro trabalharia com uma narrativa intimista. E ela está lá, sim, mas não como eu a esperava, com aquela densidade à Clarice Lispector. A surpresa foi boa. Carol arma três histórias com propriedade, sem que possamos apontar claramente suas influências, mania que a crítica tem ao analisar jovens autores. O segundo conto, Falta céu, lembrou-me A usina atrás do morro, de J. J. Veiga, por causa da instalação de algo que ninguém sabe bem o que é e no que vai dar, mas o tratamento e as consequências da ação de cada conto são totalmente diferentes. O conto que abre o livro, A caixa, é excelente, e não deve existir um leitor que tenha vivido sua adolescência ou pré-adolescência entre os anos 70 e 90 que não se identifique com os dramas ali representados. Capitão Capivara, no fechamento, é outra ótima narrativa que explora experiências patéticas de uma aspirante a escritora. No entanto, os melhores trechos do conto são os narrados por Carlo Bueno, o escritor que serve de modelo para Carla, a Capitão Capivara que não sabe como se aproximar do ídolo. A melancolia do escritor consagrado diante de um futuro literário que lhe desagrada, porque (para fazer uma analogia com o Sr. Larsen, do primeiro conto, que toca piano para si, e não para os outros) deixou de escrever para si e passou a escrever para os outros, poderia estar em contraste maior com a vontade de Carla de escrever, publicar e ser lida. A sua ingenuidade, por outro lado, acentua a tristeza de Carlo, o que salva lindamente o conto e faz com que a trama termine de maneira sensível.

Já com Veja se você responde essa pergunta o leitor é provocado muito antes de leitura. No título, na capa (que requer alguma atenção) e na orelha, reprodução de um depoimento de Olena Kuchinchirekov a Daniel Pellizzari (!). Os livros de contos de Pellizzari, aliás, também trabalham com provocações, com narrativas experimentais em que os personagens são colocados em situações extremas, brincando com os limites do absurdo e do surreal. Faço essa ressalva porque, em vários momentos, lembrei dos contos de Ovelhas que voam se perdem no céu e O livro das cousas que acontecem. Não que Pellizzari seja uma influência direta para Rodrigues, mas ambos constroem narrativas calcados na experimentação. E é muito bom ler autores que ousam dessa forma e conseguem produzir boa literatura (alguns diriam que são escritores pós-modernos, mas isso contribui para que sejam exaltadas algumas obras de péssima qualidade, porque, segundo o pós-modernismo, tudo está valendo). Com frequência, portanto, esse tipo de ousadia acaba com um autor.

Os contos de Rodrigues, porém, têm qualidades irregulares. Alguns são realmente ótimos, como Nicola Tesla, que precisa ser lido para ser devidamente apreciado (qualquer comentário pode tirar a graça do conto, embora alguns já tenham comentado aqui). Aquarela do Brasil é chocante ao registrar os trabalhos num Instituto Médico Legal. Fetiche idílico tem um tom tão melancólico que faz com que o leitor fique condescendente da dor dos personagens. Veja se você responde essa pergunta, O esquerdo ou o direito, Pessoas que seguem pessoas e O beijo de 82 (Love #3) são contos bem humorados e, excetuando o primeiro, que dá título ao livro, são todos muito interessantes. Mas Foi então com Bárbara que surgiu algo diferente (Love #1), que abre o livro, e O nariz, que o fecha, parecem narrativas gratuitas, com cenas desnecessárias, embora algumas situações do primeiro provoquem certa reflexão. Nesses dois contos, e também em Autoflagelação, aparecem notas de rodapé, recurso relativamente inusitado, mas que dá fôlego às tramas, especialmente a esta última citada.

No entanto, por causa da escolha ruim dos contos de abertura e fechamento, por causa de alguns personagens que mereciam mais desenvolvimento, por causa de alguns contos que não chamam a atenção de forma nenhuma e não contribuem para o conjunto (como O gato e Reticências), Veja se você responde essa pergunta não consegue bater a unidade e a força narrativa de Pó de parede.

PLACAR JOGO 50
Pó de parede 2 X 1 Veja se você responde essa pergunta

VENCEDOR JOGO 50
Pó de parede

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JOGO 51

JUIZ
Luiz Gonzaga Lopes
– É jornalista cultural da editoria Arte & Agenda, do Correio do Povo. Seu envolvimento com literatura data do fim dos anos 80, com crônicas, poesias e contos. Em 2007, publicou o romance Amor sobre tela, pela Armazém Digital. O conto Na direção do nada foi selecionado na 9ª edição do Histórias do Trabalho, em 2002. Foi jurado da categoria contos do Prêmio Açorianos 2010 e da mesma categoria por duas vezes no Concurso de Contos da Fundação Cultural de Canoas.

Luiz Gonzaga Lopes é o juiz inédito da final do Gauchão de Literatura.

OS TIMES

Time 1: Veja se você responde essa pergunta, de Alexandre Rodrigues

Uniforme: A capa de Samir Machado de Machado é enigmática e propositiva, com o auxílio mais do que luxuoso do projeto gráfico de Guilherme Smee. Constrói graficamente o que será a proposta de boa parte dos contos de Alexandre Rodrigues. A ausência de uma cartela de cores denota a precariedade e os enigmas que os textos irão propor. Nesta capa, está erigida uma equação, que acaba cifrando o livro e o envolve em um certo mistério em relação a qual será a resposta à pergunta, ao problema proposto na capa e, consequentemente, no livro.

Na fronte da obra, fica decretada uma volta ao passado pela construção de um professor na acepção mais tradicional, indicando a matéria com uma régua e trabalhando com um tipo de problema que era mais comum nos bancos escolares e nos vestibulares em tempos mais remotos.

Time 2: Pó de parede, de Carol Bensimon

Uniforme: A capa de Ieve Holthausen quer propor a fragilidade, talvez a casa como Caixa do primeiro conto da autora. A insegurança, a posição das pernas da garota como se titubeasse ou estivesse em dúvida. As intenções da capista até podem perpassar pelos três contos de Carol Bensimon, mas a capa, de maneira geral, não condiz com a intensidade da escrita da contista. A capa data e rotula a obra com características ou temores que necessariamente não estão nos textos. Os destaques da criação são o domínio de luz da foto e o fato de situar uma personagem em uma casa num local bastante arborizado. Acredito que esta capa peca pelo paradoxo entre a imagem e as cenas descritas em boa parte dos contos. É bela, mas contém beleza por beleza, pois não condiz com o conteúdo do livro, ao menos na minha consideração.

O JOGO

O esquema de jogo do livro de Alexandre Rodrigues é bastante pulverizado. Contos curtos, não querendo dizer precisos ou sucintos. São 14. Um time e mais três reservas na linguagem do futebol. Trata do absurdo, muitas vezes do fantástico, em um primeiro passar dos olhos, mas o absurdo é algo difícil de conseguir. O romeno Eugène Ionesco, pai do teatro do absurdo, o fazia de uma maneira especial, bem como o irlandês Samuel Beckett. Eles desvelavam o inusitado, invertendo a lógica entre real e irreal. Rodrigues está no caminho. Os temas da obra são diversos e subjetivamente definidos como existencialistas, em algum momento, a masturbação, a doação de um olho (à maneira kafkiana), o homenzinho contrariado como companhia em Istambul. Rodrigues escreve bem, coloca as palavras nos lugares certos, é rápido e tem referências bastante explícitas, lembro-me de Kafka, de Knut Hamsun, Paul Auster e até o mestre francês do conto do século XIX, do clássico O horla, Guy de Maupassant.

O esquema de jogo de Carol Bensimon adota a escalação mais compacta com defesa, meio-campo e ataque, com apenas três contos, mas bem desenvolvidos. Os contos têm narrativas interessantes bem construídas, com ritmo preciso, com algumas fragmentações ou flashbacks, no caso do primeiro conto A caixa, que dão uma base dramática consistente à estrutura da narrativa. A autora trabalha com temas como a nostalgia, o contraste entre o antigo e o moderno e também o fantástico. A alternância de narração entre primeira e terceira pessoa garante uma dinâmica a cada um dos contos.

Para analisar o desempenho das equipes ou dos livros, como queiram, é necessário voltar ao item anterior e ver a armação das equipes. O livro de Alexandre Rodrigues nos engana um pouco com a sua proposta. Me parece que há boa literatura. O primeiro conto é Foi então com Bárbara que surgiu algo diferente. A temática do sexo deveria ser envolvente, acrescida de notas de rodapé, recurso acadêmico já utilizado de forma exaustiva em outros textos e que não acrescenta nada a este específico, nem ao ritmo, nem à história, nem ao desenvolvimento narrativo. Bom, para resumir, o conto não tem conflito, vai de lugar algum a algum lugar, que eu não consigo identificar. Muito exercício de estilo, linhas bem traçadas, para justificar que com Bárbara realmente foi diferente e com ela se dava a grande transformação. Começo mediano, mas que diabo, o cara vai melhorando ao longo do livro.

Por outro lado, Carol Bensimon, trabalha melhor a ortodoxia de sua lógica narrativa em seu primeiro conto, A caixa. A história que trata de reminiscências, contadas do ponto de vista do presente, estabelece o conflito e uma estrutura dramática desde o primeiro momento. Relembrar a infância dos personagens Alice e Tomás e aquela noite na garagem da casa de Laura, a personagem que irá cometer um ato extremo no presente-passado, cria uma bifurcação de textos e aquela alternância lembrada por Julio Cortázar e outros teóricos do conto de uma história linear e outra correndo subliminarmente, uma linha reta e outra curva, em forma de cobra. A outra história é a casa, a Caixa do título, construída pelo amigo dos seus pais, Kowalski, que é ridicularizada pelos colegas e vizinhos durante a infância e que é objeto de estudo de arquitetos na idade adulta de Alice. Uma história correta, um conto com grandes perfeições e poucas escorregadelas.

Novamente pela lógica cortazariana de que o conto vence por nocaute, mesmo que o de Carol seja longo e dividido em capítulos, quase uma novela. Ela vence com um cruzado de direita que derruba o adversário. Transpondo para a linguagem do futebol, um gol de placa para Carol, um chute de fora de área de peito de pé, no ângulo de Rodrigues, sem chance para o goleiro. É importante lembrar que o placar está 1 a 1, pois Rodrigues fez um gol de bola parada, a capa que é magistralmente melhor do que a do livro de Carol.

A partir desta narração quilométrica do início do jogo, vamos a um compacto com os principais lances, pois, caso contrário, vai parecer aqueles intermináveis jogos de tênis de cinco sets, cujo início assistimos no café da manhã e o fim presenciamos ao voltar do trabalho.

Vamos então aos gols de placa e as bolas fora, que realmente vão definir o jogo:

O(s) gol(s) de placa de Alexandre Rodrigues são dois contos redondíssimos: O esquerdo ou o direito” e Love # 2. O primeiro destes dois contos segue aquelas estruturas na linha das crônicas de Luis Fernando Verissimo, nas quais o diálogo conduz a ação, a prosa. A situação é kafkiana. Um homem recebe o telefonema para confirmar se ele é ele mesmo, a respeito do olho. O estranhamento do senhor Alexandre é que ele não sabe nada do assunto. Após algumas trocas de palavras, fica claro que houve confusão, mas não. Eles querem saber se ele vai doar o olho esquerdo ou o direito. E os argumentos acabam sendo irrefutáveis, ele não precisa dos dois olhos, pois não enxerga que a mulher o trai com vários amantes, inclusive com o maior rival dele no trabalho. Ainda por cima, pelas novas leis, ele não tem mais o direito a todos os seus órgãos, à propriedade inviolável do corpo. Quando Alexandre se revolta e tenta registrar a queixa, esbarra na burocracia, e aí temos algo bem parecido com O processo e com outras histórias ao longo da trajetória literária mundial. Alexandre tenta de todas as formas reverter o quadro, sem sucesso, e notem aí um grande recurso, pois o nome do personagem é o nome do autor. Bola dentro. O final do conto é genial, pois, depois de toda a celeuma, a burocracia engole o senhor Alexandre. Ele acaba marcando um encontro com a secretaria da repartição que cuida das doações e transplantes, mas precisa marcar a cirurgia de retirada do olho para entrar com o recurso e a pergunta que não consegue calar volta a todo vapor: “Marco o direito ou o esquerdo?”. Parabéns, Alexandre (o Rodrigues). Alexandre 2 a 1.

Carol Bensimon converte dois gols de placa neste jogo. O primeiro gol é o conto A caixa. Apesar de longo, 45 páginas, quase a estrutura de uma novela, pelo vaivém do tempo, Carol consegue, como diria o mestre Edgar Allan Poe, “a intensidade como acontecimento puro”. Senão vejamos, a casa construída pelo arquiteto Kowalski é a protagonista, é a caixa do título. Ela pontua as ações e também os dramas. Onipresente e certeira. Alice não tem tantos amigos, pois se sente pertencente ao que os vizinhos chamam de Família Caixa. Considera seus pais estranhos e tem amigos estranhos, como Tomás. A saída dessa condição esquisita é com o convite para a festa da certinha Laura, de uma casa dos sonhos, que mais tarde estará vazio, após Laura cometer o ato extremo de tirar sua vida. Alice descobre que o estranho da casa era, na verdade, o objeto de estudo de arquitetos: “Foi em noventa e seis e a partir disso que Alice poderia ter sentido orgulho da Caixa, orgulho finalmente no lugar da vergonha de infância, mas nisso já havia perdido o lar para a memória de Kowalski, para os universitários, para os especialistas que viam o que ela não podia ver”.

O parágrafo final é uma obra de arte, digna dos melhores contistas da história, ao olhar no presente a Casa-Caixa e fazer o caminho inverso, ir da casa de Laura, daquela garagem guardada para sempre na memória, das dancinhas possíveis, para a excêntrica construção, tentando imobilizar os balanços para “esperar pela paz das não-lembranças”. Nocaute. Gol por cobertura, com uma cavadinha por sobre o goleiro. Empate heroico de Carol, 2 a 2.

Bola no centro do campo e Alexandre Rodrigues já vai ao ataque com Love # 2, o seu segundo gol de placa. O conto tem novamente algo de Kafka, de Tolstói e até de Knut Hamsun, de Fome, quando o demitido Marcelo começa a sua trajetória em direção à ruína total. Deixa o local de trabalho antes de ouvir a ladainha do “período de cortes e ajustes”. Logo depois, diz barbaridades ao telefone para a ex-mulher. Após sofrer fortes cólicas vai para a emergência de um hospital e irrita-se com o volume de doentes, idosos e grávidas que passam na sua frente. Começa a protestar, e os seguranças acabam arrastando-o para fora. Briga pelo telefone com outra ex-namorada, fuma maconha no prédio em que mora, escreve palavrões na porta de madeira da única biblioteca da cidade. Vai para a sua cidade natal para as festas de fim de ano, briga com Maciel por causa de Solange, uma antiga namorada de ambos. Leva um tiro na perna desferido por Maciel. Ufa! O desfecho é fantástico, pois, antes de ser levado ao hospital pelos parentes, é fundamental falar com Cláudia, sua primeira namorada e razão da sua tristeza, de quase todas as implicações emocionais que aconteceram com ele. O que ele dirá a ela? Veja se você responde essa pergunta, Alexandre Rodrigues. Alexandre 3 a 2.

O segundo gol de placa de Carol Bensimon é o Capitão Capivara. Conto mais simples e mais linear do que A caixa, mas não menos cirúrgico, preciso. Ao contar a história de Clara, a aspirante a escritora que vai trabalhar num hotel como um boneco de pelúcia que entretém as crianças, Carol aposta na narrativa do espelhamento, pois Clara está lá e ao mesmo tempo o ideal do seu sonho, o escritor consagrado, Carlo Bueno, está lá no hotel, fazendo aquela literatura de marketing, escrevendo um romance policial que tem o hotel como cenário. Ela é aspirante e ele, bem-sucedido e entediado. A resolução do conto é eficiente, ao mesmo tempo em que deixa em suspenso o final ao abrir as portas das casas e encerrar a frase no momento em que abre a porta da terceira. O leit motiv para a fuga do desconfortável traje do Capitão Capivara é descobrir que a sua superior direta, a maquiadíssima Pati, estava transando com o escritor, logo após ter sido demitida. Tudo está no seu lugar nesse conto. Um gol de jogada trabalhada, em dois toques, com o cruzamento para o atacante concluir de perna esquerda, de sem-pulo, no ângulo esquerdo do goleiro. Empate na raça, 3 a 3.

Carol já colocou todos os seus trunfos no placar e Alexandre Rodrigues tenta jogadas geniais, com inventividade, mas a bola não entra. O conto Nicola Tesla é uma boa tentativa. A narrativa é inversa. Novamente a não-linearidade é o recurso de Rodrigues para tentar desempatar. Istambul é outra boa tentativa, ao tratar de um homenzinho contrariado que saiu de dentro de uma lâmpada e acaba sendo a única companhia na viagem tão sonhada de um corretor de imóveis para a capital turca. Carol segue na defensiva, mas às vezes ataca com a constatação de que Laura é a grande personagem do conto A caixa, apesar de não ter voz, situação esta já registrada pelo árbitro Lucas Murtinho no jogo 45. Ela também troca passes com frases precisas como: “Ia descer a rua, entrar em casa e tomar um chá no jardim, e pensou como seria bom se ainda houvesse dancinhas, se ainda houvesse dancinhas possíveis, e que vida difícil era essa que nos fazia entender as coisas só quando saíamos do lugar”, do parágrafo final de A caixa.

Como o jogo está muito parelho, vamos ver um compacto com os piores momentos, as tradicionais bolas fora.

Bola(s) fora de Alexandre Rodrigues:

Os contos Veja se você responde essa pergunta e Reticências têm a pretensão de ser ousados, modernos, contos que enunciam mais do que propriamente o conteúdo consegue lhes dar. Em Veja…, Rodrigues é preciso na descrição do cenário, das pessoas potencialmente atingíveis pelos tiros da submetralhadora que o psicótico carrega na mochila, mas a pergunta final, sobre em quem ele vai atirar primeiro, não valida todas as artimanhas pregressas do texto. A pergunta que eu não consigo responder é: isso é um conto? Pode ser, pode não ser. Para mim, não é, mas posso ser acusado de old fashion e vou acabar admitindo que é, mas realmente não preenche os requisitos necessários às minhas considerações em relação a um conto. Talvez se enquadrasse na máxima de Poe, sobre a unidade de efeito ou impressão, no que se refere à reação que causará no leitor, mas tão somente isso.

E o que falar de Reticências. É ardiloso, original, criativo, metalinguístico, mas quem disse que tudo isto sustenta um conto? As reticências do título são o menor conto do mundo (olha a pretensão!) e o que vem a seguir é a nota explicativa de por que aqueles três pontos em fileira estão ali. São a expressão de horror de Maurice D’Estaigne ao encontrar morto o seu mordomo judeu. (…) Estas reticências são a minha expressão de incredulidade quanto a esse conto ser um conto, talvez um miniconto, por que não? Aí Rodrigues explica que “fica evidente a complexa estrutura do conto, além da variedade de personagens”, dizendo que também estão ali além de Giscard e o corpo do mordomo, a Madame Guignard e o infame Gascoigne. Tá querendo me enganar, senhor Rodrigues. Gosto muito do seu texto, mas essa é uma bola fora, um chute em direção ao gol, mas que sai junto à bandeirinha de escanteio e ponto final.

Bola fora de Carol Bensimon:

Falta o conto verdadeiro em Falta céu. Há uma história, há uma boa premissa, a da construção de um condomínio numa cidade pequena. O desenvolvimento do conto é um pouco truncado e não quero dizer com isso que não haja alma, ritmo e elementos lógicos, essenciais ao conto, mas a história que se desenvolve pela narração externa, em terceira pessoa. O conto se desenvolve pela ótica do ritmo dos moradores da cidade alterado pela volta de um ex-morador, o Otávio, e da construção do Golden River Banks, que vai modificar a realidade da cidade. Há um vácuo preenchido com um romancezinho entre João e Lina, que acabam puxando o protagonismo. Também a história paralela do marido de Alzira desvia a atenção do conto propriamente dita. Enfim, a resolução é por demais simplista, com utilização de técnica natural, utilizada à exaustão, de nomear o conto com sua sentença final. A falta do céu do final do conto não sustenta e não explica toda a história, ao menos no humilde entendimento deste árbitro.

O placar, ao fim do segundo tempo, fica Pó de parede 3 x 3 Veja se você responde essa pergunta.

ACRÉSCIMOS

O jogo iria terminar empatado, mas como o livro de Alexandre Rodrigues tem duas bolas fora e o de Carol Bensimon apenas uma, o gol nos acréscimos vai para Pó de Parede por um livro mais homogêneo, uma escrita mais segura, não tão inventiva quanto a de Rodrigues, mas precisa, que se sustenta durante todo o livro, enquanto que na obra de Rodrigues, temos um toque de bola refinado, jogadas de craque em alguns momentos, mas muitos chutes para fora na cara do gol e um preciosismo na hora do acabamento das jogadas. Carol joga mais pelo regulamento do conto e o seu time é mais funcional, consegue os objetivos, joga na direção do gol, sem firulas.

PLACAR JOGO 51
Pó de parede 4 x 3 Veja se responde essa pergunta

VENCEDOR JOGO 51
Pó de parede

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VENCEDOR
GAUCHÃO DE LITERATURA 2010
Pó de parede
, de Carol Bensimon

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6 respostas para FINAL – Jogos 49, 50 e 51 – Pó de parede x Veja se você responde essa pergunta

  1. Parabéns, Carol! Foi uma belíssima vitória!

  2. E o Pó de Parede foi um dos finalistas do Prêmio da Jovem Literatura Latino-Americana, cujo vencedor, Dias de Faulkner, de Antônio Dutra, perdeu para Flores Azuis de Carola Saavedra, já no primeiro jogo da Copa da Literatura Brasileira.

  3. Relendo meu comentário, percebi que soou estranho, parece querer desprestigiar o vencedor. Pelo contrário, eu gosto muito da autora, o que já li dela me impressionou bastante (sobretudo o Sinuca…) Também não conheço muitos dos que competiram nos jogos, mas, mesmo assim, concordo com o Faccioli, foi uma belíssima vitória. Minha observação, na verdade, é sobre os prêmio literários, e sobre como tudo é relativo.

    • Lu Thomé disse:

      Oi Vera! Tinha lido teu primeiro comentário e concordado muito. A relatividade e subjetividade que ocorre neste tipo de avaliação também foi uma constante durante todo o Gauchão. Alguns livros tiveram, inclusive, avaliações totalmente opostas de juízes diferentes. E isso deve, realmente, acontecer também nos concursos e outros prêmios literários. Mas, ao mesmo tempo, foi o que tornou o Gauchão interessante aos olhos dos leitores e também dos autores concorrentes.

      • Como eu escrevi num comentário em um jogo do campeonato e como falei em público na final ao vivo no Studio Clio, é justamente essa diferença de olhar que torna tão interessante uma iniciativa como a do Gauchão. A meu ver, essa fórmula um pouco exaustiva do campeonato tem seu lado bom, aliás, ótimo, que é colocar leitores diferentes, com formações e experiências diferentes, diante de livros que, em outros concursos ou campeonatos, ganham ou perdem sem muita justificativa. A Copa de Literatura Brasileira é ótima, mas não oferece tantos olhares sobre os livros, a não ser sobre aqueles que avançam até a final. Essa variedade de leituras é que valoriza o que foi escrito, a meu ver. Pra cada escritor deve ter sido ótimo ler o que escreveram. Enfim. Sensação de dever cumprido aqui…

  4. Pingback: Carol Bensimon vence o 1º Campeonato Gaúcho de Literatura – Milton Ribeiro

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