JOGO 2 – Roubai-vos uns aos outros x A anatomia de Amanda

JOGO 2

Roubai-vos uns aos outros,
de Antônio Carlos Resende (L&PM / 2009)
x
A anatomia de Amanda,
de Hilda Simões Lopes (Juruá / 2009)

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 JUIZ
Alexandre Rodrigues
Nascido no Rio de Janeiro, em 1967, é autor de Veja se você responde essa pergunta, livro vice-campeão do Gauchão de Literatura de 2010. Também é jornalista, tendo trabalhado como repórter policial durante anos, e escreve atualmente para revistas como Galileu, Super Interessante e Aventuras na História, além de ter sido o responsável pela programação da Campus Party 2011. Mora em Porto Alegre desde 1997, é vascaíno e detesta cebola.

O JOGO

É automático olhar o enredo de duas obras – livros, filmes, etc. – e simpatizar com o menos convencional. Anos de treinamento, uma lista meio extensa de autores, ampliaram e desmentiram os limites do que entendia por ficção até o dia em que estava completamente estragado. Já são difíceis cinco páginas sem um crime, uma morte, uma pessoa voando pela sala, uma risada ou um zumbi. No futebol, ocorreu o mesmo. Prefiro os times que jogam no ataque. Cautela demais, ainda que vitoriosa, não consigo respeitar.

O que me faz simpatizar com Roubai-vos uns aos outros, romance do veterano Antônio Carlos Resende, escritor de 82 anos que publicou o primeiro livro de ficção apenas aos 48. Lançado pela L&PM em 2009, dois anos após A obra-prima de seu corpo, oferece a trama mais animada: a jornada melancólica e meio desesperada de Heleno, funcionário público aposentado, um idoso solitário e endividado pelas mesas do submundo do jogo em Porto Alegre. Publicado no mesmo 2009 pela Juruá Editora, de Curitiba, A anatomia de Amanda é o terceiro livro de ficção de Hilda Simões Lopes. Viaja de Porto Alegre a Paris e Rio de Janeiro numa trama comportada: os significados e respostas para a ida que Amanda encontra em A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector.

Ambos os livros prestam reverência aos dois autores mais influentes da literatura brasileira dos últimos 50 anos. Cada um com a própria mística e seguidores, Clarice Lispector e Rubem Fonseca deram os modelos nos quais autores ainda buscam inspiração. O livro de Resende é ficção policial à brasileira: submundo, anti-heróis, um bando de fracassados, bandidos de caricatura e uma mulher. A anatomia de Amanda vai direto à fonte, recorrendo à própria obra de Clarice como personagem.

O jogo começa.

A despeito da prometer ousadia, o problema em Roubai-vos uns aos outros, primeiro a ser lido, não está no universo escolhido – o mesmo que rendeu a obra-prima O jogador, de Dostoiévski, e o simpático A música do acaso, de Paul Auster. É a pobreza de escolhas.

Há algumas semanas, Zero Hora publicou uma série sobre viciados em jogo em Porto Alegre. No caso mais notável, uma mulher carregava uma faca na bolsa e feria a si mesma a cada fracasso em parar de jogar. Mesmo respeitada a regra de não comparar realidade com ficção, é um tipo de desespero que se espera em um livro cujo tema é um vício.

Há uma diferença gritante entre ser alguém que não consegue parar de jogar e alguém que, por uma conveniência qualquer, não para de jogar. Viciados estão no primeiro grupo. Jogadores profissionais e especuladores veteranos do mercado financeiro no segundo. A trama não vê a diferença. Mesmo que Heleno reafirme o tempo todo que “se parar de jogar, morre”, seu desespero é racional. É uma fala, não um sentimento.

Um ponto alto: o autor se sai razoavelmente bem em injetar tensão da narrativa – com a ressalva de que, no plano geral, a tensão é pouca. A decadência física e mental do personagem, assim como seu acerto de contas com a vida, poderia ser o ponto alto do livro, mas recebe um tratamento burocrático. Incomoda, sobretudo, o recurso para introduzir na trama o título do livro, a frase repetida gratuitamente pelo médico Ricardo, o amigo correto do personagem principal. A certa altura, não dá mais para se importar com o destino de Heleno.

A anatomia de Amanda faz a aposta contrária. Em uma historinha convencional, aplica camadas. Só vai ser plenamente desfrutado por um tipo de leitor: fãs de Clarice Lispector que acreditam que A paixão segundo G.H. é um livro tão bom a ponto de sair mudando a vida dos outros. Há ainda uma segunda premissa, dirigida agora, de maneira mais ampla, aos iniciados em literatura: o que um livro é capaz de fazer pela vida de quem o lê? Tudo, quer acreditar Amanda, que  fala de A paixão segundo G.H., discute-o, apresenta-o à empregada, reflete sobre baratas e até torna-o tema de seu doutorado, sempre tentando encontrar significados.

Dois sérios problemas que saltam aos olhos:

1 – A ideia de que as pessoas precisam ler mais Clarice Lispector. Não. Já há gente demais lendo Clarice Lispector. Gerações inteiras foram arruinadas por Clarice Lispector. É uma sombra – não é culpa dela, escrevia bem, eu sei. Quando finalmente uma geração se libertou de Clarice Lispector, permitindo uma safra de boas autoras e que a própria obra da autora de A paixão segundo G.H. seja lida e analisada com mais perspectiva, Hilda já sente falta dela. Deus, não.

2 – A escolha de alguns autores pela criação de livros sobre livros tem levado a críticas sobre o impasse criativo da literatura atual. Escolhendo o próprio ofício como tema, escritores estariam capitulando diante de uma espécie de irrelevância da literatura, o que fez Will Self, este ano, recomendar aos aspirantes: “Viva e escreva sobre a vida. Já há livros demais sobre livros”. A real é que qualquer tema ou recurso é inesgotável, dependendo das escolhas do autor. A anatomia de Amanda se conforma em ser mais um  livro sobre um livro, mas de Clarice Lispector.

Mesmo assim tem o que interessa: é um livro bem executado. Sensível demais, piegas, com personagens irritantes e ainda assim um livro honesto de ficção. Hilda tem a escrita firme, apostando em poucas, mas certeiras, ousadias narrativas. A mais chamativa é abrir o livro com uma longa carta. Acerta.

São os dois gols que definem o placar e fazem de A anatomia de Amanda o livro vencedor.

PLACAR
Roubai-vos uns aos outros 0 x 2 A anatomia de Amanda

VENCEDOR
A anatomia de Amanda
, de Hilda Simões Lopes

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12 respostas para JOGO 2 – Roubai-vos uns aos outros x A anatomia de Amanda

  1. Alguém vai me surrar e apedrejar e me amarrar em uma árvore e me passar o relho se eu disser que acho Clarice Lispector um PORRE mesmo tendo lido apenas um de seus livros, e se eu concluir afirmando que não pretendo ler NENHUM outro dos livros dela e nem nada que seja parecido, e isso inclui A Anatomia de Amanda?
    Vai um punhado de cascalho pra jogar em mim aí? =)

    • Claudia disse:

      Tens todo o direito de pensar assim. Que bom sermos todos diferentes.
      Resolvi te responder para sugerir que leia a anatomia de Amanda, na realidade a personagem nos da uma amostra da Clarice ( a paixão segundo GH ) , e a interferencia que teve na vida dela naquele momento. Náo precisa ler Clarice, nem mudar teu conceito a respeito dela. Como ler quando Nietzsche chorou sem gostar do Nietzsche. Recomendo

  2. Lu Thomé disse:

    Eu discordo! E acho que não é sobre isso que o Alexandre fala na resenha. Clarice Lispector é importante para a literatura brasileira. Comecei minhas leituras com os livros dela, aos 16 anos. Pode odiar, Fabian, claro. Mas o que a resenha fala é que deve-se ir além da idolatria e da adoração cega (ou do ódio, no caso) e exclusiva a um autor. Eu acho que consegui fazer isso. É preciso diversificar as leituras, e discutir sobre livros com mais do que “odiei”, “porre”, “maravilhoso”, “emocionante”. Não?

    • QUEM quer saber de discutir sobre livros, sobre literatura? Nem Kafka queria discutir literatura, como ele mesmo disse. Já discutir sobre “odiei”, “porre”, “maravilhoso”, “emocionante”…
      Lembra do Chacrinha? Eu também só tou aqui pra confundir. =)

      • Lu Thomé disse:

        Ninguém quer saber? Ninguém?!? Pena. Por que diabos fomos inventar o Gauchão de Literatura? 😦

        • Ora, pra xingar a arbitragem também enquanto lemos, é óbvio! 😉

          • Desculpem a demora na leitura. Só agora estou conseguindo botar em dia as resenhas do Gauchão.

            Não sei qual livro da Clarice você leu, Fabian, mas acho complicado julgar um(a) autor(a) tão importante tendo lido apenas um de seus livros. A Clarice não faz parte das minhas leituras prediletas. Não li toda sua obra. Mesmo assim, os romances que li me desagradam. Já os livros de contos são ótimos, normalmente. Dá uma chance.

            Mas a gente tá aqui pra comentar Rubem e Clarice ou o Resende e o Simões Lopes? Afinal, o Sport Club Literatura ocorre uma vez por mês, ao vivo, no Studio Clio… Rsrsrs…

  3. Athos Ronaldo Miralha da Cunha disse:

    Nesse jogo 2 eu também li, apenas, um dos competidores. “Roubai-vos uns aos outros”. Nesse jogo eu me considero duplamente suspeito. Admiro a maneira de Antonio Carlos Resende narrar uma história e faço o estilo “não li e não gostei de Clarice” o que obviamente não quer dizer que não goste do “A anatomia de Amanda”.
    No entanto, estou adorando a maneira que os árbitros estão “dissecando” as obras. Mais uma vez parabéns ao juiz.
    A propósito: sou Internacional. E adoro cebola.

  4. Olá
    Da mesma forma como um torcedor durante um jogo de futebol pode chamar o juiz de filho da puta, ou de viado, ou de canalha, ou de ladrão, um sujeito que ler a resenha crítica aqui do gauchão de literatura pode escrever nos comentários a besteira que quiser. Trata-se apenas de uma medida da urbanidade ou da falta de urbanidade deste sujeito. Assim como a maioria das pessoas que vai a estádios de futebol ou assiste jogos pela televisão sabe encontrar um limite a seus destemperos quando assiste aos jogos, acredito que a grande maioria das pessoas que acessa esta página desfruta-a genuinamente, mas jamais vai se expor a deixar um comentário, por conta desta minoria que sempre escreverá coisas do tipo “não pretendo ler NENHUM outro dos livros dela e nem nada que seja parecido” e todos os desdobramentos paranóides que brotam desta frase. É assim no mundo real e também no mundo da literatura.
    Os livros têm que se defender sozinhos do mal humor de seus leitores.
    As resenhas do gauchão têm a função de escolher um livro entre dois. Só isto. Um outro juiz, em um outro dia, poderia decidir de outra forma.
    Talvez os comentários pobres, assim como os xingamentos nos estádios, devam ser simplesmente ignorados. Estes comentários tolos, assim como grãos semeados em um mar de lágrimas, não têm como germinar. Há uma eficácia efêmera na falta de educação.
    Bom divertimento a todos.
    Aguinaldo Severino

  5. Dos dois, infelizmente só li o Roubai-vos, e confesso que vi mérito em pelo menos tentar escavar um pouco essa realidade subterrânea que anda um pouco ausente do que tenho lido (ou, quando presente, prejudicada por uma certa artificialidade). Sobre a resenha em si, não tenho como não comentar que até o final da resenha achei que Roubai-vos seria vencedor dadas as cacetadas desferidas pelo árbitro no livro de Hilda Simões Lopes.

  6. Sobre Clarice Lispector, transcrevo aqui um tweet recebido nesta semana do Benjamin Moser, autor de um livro sobre a escritora pelo qual ando apaixonado: “Com Clarice às vezes não gostamos necessariamente, mas o esforço de entendê-la, mesmo não gostando de tudo, sempre vale a pena.” Faço minhas as palavras dele.

  7. Claudia disse:

    O livro ANATOMIA DE AMANDA aborda a influencia que o livro PAIXÄO SEGUNDO GH exerceu na personagem. Independente de gostar ou náo da Clarice, de entender que ela saturou num determinado momento, náo podemos negar o poder que tem a literatura de influenciar na vida do leitor. BALZAC e a costureirinha chinesa é um exemplo que me agrada.
    Schopenhauer me acompanha no dia a dia, náo diria que ele mudou minha vida, mas com certeza contribuiu para o fortalecimento de muitos conceitos.
    Quanto a escritora Hilda Simões Lopes, li mais de um livro da autora , me agrada muito a capacidade de ser sofisticada e simples. Talvez sofisticada náo seja o adjetivo ideal, o que quero dizer é que ela demonstra através da linguagem, de imagens , metáforas, o grande conhecimento que tem da língua portuguesa e da literatura. E simples por ser uma leitura que flui, náo tendo necessidade de parar, pensar, ter certeza que entendeu. Ela busca as palavras certas que ao se conectarem produzem um som bom de ser ouvido no nosso interior. Náo tem frases que trancam. Um livro que a tudo isso soma o espirito inquieto e aventureiro da personagem nos fazendo parceiros dela pelas ruas de Paris, e compactuando das suas ansiedades e questionamentos . Gostei muito de ler a ANATOMIA DE AMANDA.
    Quanto ao ROUBAI – VOS UNS AOS OUTROS, náo li, portanto náo posso opinar.

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