JOGO 3 – Cisão x A culpa é dos teus pais

JOGO 3

Cisão,
de Lívia Sganzerla Jappe (7Letras / 2009)
x
A culpa é dos teus pais,
de Maristela Scheuer Deves (AGE / 2010)

—————
—————

 JUÍZA
Taize Odelli
Catarinense de 21 anos (quase 22), estuda Jornalismo na Unisinos, em São Leopoldo, e escreve resenhas para o Meia Palavra, o Amálgama, e o seu blog pessoal, o rizzenhas.com. Pelo menos é isso o que faz de relevante quando não está dormindo. Dá pra encontrar ela no Twitter: @TaIzze.

Para o Gauchão deste ano, caíram em minhas mãos duas estreias de romances escritos por duas jornalistas, autoras de um nome e dois sobrenomes, mas, que, apesar dessas semelhanças, trazem temas bem diferentes em seus livros. Cisão, de Lívia Sganzerla Jappe, aparece reluzindo com uma faixinha indicando que foi finalista na categoria “Melhor livro do Ano” de autor estreante no Prêmio São Paulo de Literatura de 2010. A culpa é dos teus pais, de Maristela Scheuer Deves, não chega com todo esse charme e bagagem, é até escandaloso demais, com suas páginas brancas que refletem a luz – e faz os olhos doerem – e a textura jeans da capa, com um crachá manchado de sangue. Logo, a escolha de Cisão para abrir a resenha para esse Gauchão não foi difícil, tanto pelo tamanho do volume – 60 e poucas páginas – quanto pela aparência, como se fosse a vencedora de um concurso de miss que deve ser apreciada primeiro.

Boa escolha, já que a leitura dos parágrafos, inteiramente trabalhados com as mais rebuscadas palavras que a língua portuguesa permite usar, fluiu bem mais rápido do que a de A culpa é dos teus pais, que, pelo gênero, eu esperava que fosse no mínimo divertido. Lívia não usa uma fala retrógrada, que foi comum há anos, mas sim palavras dificilmente utilizadas em uma conversa de bar – naqueles em que torcedores se reúnem para ver o Gre-Nal, sabe-se lá como se fala em um bar de literatos, nunca fui a um. São palavras estranhas demais para serem compreendidas em uma conversinha casual.

Lívia cria dois personagens que discordam sobre seus sentimentos e usam a linguagem milimetricamente pensada para travar embates intelectuais – mais intelectuais até que um campeonato que coloca livros para duelarem. Inácia é jovem, impulsiva e vive dramas existenciais que compartilha com Theodoro. Ele é velho, um psicólogo em viagem à Grécia que trava diálogos com Inácia e desperta certa atração na jovem, que ambos discutem ser amor ou não. Filósofos, pensadores e escritores são citados pelas personagens para comporem os diálogos que muitas vezes ocupam inteiramente os curtos capítulos desse livro. As personagens se conversam seja em análise, em carta ou pensamento, dirigindo tanto ao remetente quanto ao leitor suas reflexões sobre a natureza do amor e a condição humana – termo constante nas falas de Inácia e Theodoro.

Já Maristela aposta na simplicidade das palavras e na rapidez do romance policial ao apresentar Guisela, uma jovem jornalista que encontra em uma série de assassinatos a chance de se firmar como repórter respeitada. O envolvimento da protagonista com o caso vai além da simples apuração dos fatos. Os crimes cometidos contra pessoas aleatórias de formas diferentes são ligados apenas por um bilhete que diz: “a culpa é dos teus pais”. A escritora trabalha com uma heroína por acidente, fascinada pelos crimes, procurando pela solução desse mistério como se fosse uma policial. Se Cisão ameaçava ser lento na narrativa – uma exigência do próprio tema que trata em seu livro, mais reflexivo –, Maristela apresenta os aspectos de seu romance com rapidez em demasia. Ela tenta colocar nesse ritmo corrido as reflexões da protagonista, porém se perde em repetir exageradamente os pensamentos de Guisela.

Comparar o clichê romance policial com o romance-cabeça não é lá muito fácil: são estilos diferentes e adequados apenas em determinados momentos. O romance-cabeça para os dias reflexivos, lentos, o thriller “eletrizante” para quando a intenção é apenas se divertir com uma história, só que usando um livro ao invés de uma novela. Para esses dois momentos diferentes, Cisão e A culpa é dos teus pais não têm os ingredientes necessários para que sejam considerados leituras deliciosas, reveladoras, ou que deem um bom entretenimento para o leitor. Mas Lívia pelo menos consegue instigar com a linguagem, que exige mais atenção e deixa certa curiosidade sobre como irá encerrar sua história. Por isso, seu livro tem vantagens ao ser comparado com o romance de Maristela, em que falta empolgação para que o leitor se sinta envolvido pelos dramas de sua protagonista. Onde deveria haver curiosidade para impulsionar a leitura, há enfado pela falta de mistério, característica que a autora não conseguiu conferir ao seu livro.

A relação entre Theodoro e Inácia consegue ser mais misteriosa e atraente do que as investigações da “foca” Guisela. Lívia também finaliza o romance de forma mais interessante, enquanto as soluções propostas por Maristela não convencem, parecem bobas, como se autora estivesse mais preocupada em montar o perfil de sua protagonista do que em criar um bom motivo para as ações de seu assassino.

Cisão ganha pontos pela estrutura, montada em cima de diálogos ou monólogos que não necessitam de muita narração para revelar as personagens. A própria erudição na linguagem utilizada por Lívia conta como ponto positivo por levar o leitor a reler as frases, saborear as palavras, ou pelo menos aprender expressões novas, rá! Por isso, o livro de Lívia ganha do de Maristela por 2 a 0. Dos livros para momentos distintos, Lívia foi quem mais conseguiu se aproximar do seu propósito.

PLACAR
Cisão 2 x 0 A culpa é dos teus pais

VENCEDOR
Cisão
, de Lívia Sganzerla Jappe

Anúncios
Esse post foi publicado em Jogo e marcado , , , . Guardar link permanente.

6 respostas para JOGO 3 – Cisão x A culpa é dos teus pais

  1. Pingback: r.izze.nhas » Apitando o Gauchão

  2. Salvatierra disse:

    Puxa vida, eu li esse “Cisão” e achei a linguagem muito artificial, empolada, exibicionista. Parecia que estava lá para mascarar a completa ausência de trama. Não gostei… (mas não senti vontade de ler o derrotado tampouco, enfim).

  3. Não tenho objeções ao resultado em si, mas queria levantar um desconforto que me bateu ao ler a resenha. Talvez nem tenha sido a intenção da autora, mas, do modo como ficou no texto, achei falha a definição do romance policial como um estilo voltado ao puro e simples entretenimento equiparável a uma novela (quero crer que a referência era a telenovelas). Há, claro, romances policiais bem fraquinhos, mas temos visto nos últimos anos a multiplicação de histórias de crime que fogem do simples enigma ou do retrato da violência para fazer panoramas acurados do universo que retratam, como o fazem Denis Lehane, James Ellroy, Ian Rankin. Também há bons exemplos de policiais que fazem do delineamento da psicologia de um personagem o centro em vez da trama de crime, sem que por isso os romances percam em qualidade.

    • Taize Odelli disse:

      Oi, Carlos!
      Então, quando fiz a referência com uma telenovela e coloquei o romance policial dentro da caixa “coisas que lemos para nos divertir”, não pensei nos romances que vão além do simples mistério (crime+investigação= final feliz). E no caso de A culpa… vi que o livro não se propunha em momento algum a se aprofundar em dramas psicológicos ou qualquer outro assunto que complementasse mais o enredo. É quase como se eu separasse o romance policial em duas categorias: o legalzinho pra ler de vez enquanto (assim como assisto novela de vez enquanto) e o “fodão” pra quebrar a cabeça (aí entra os autores que tu citou). Nesse caso, só falei do “legalzinho”, mas deveria ter me explicado melhor mesmo. =D

  4. Nada, ou tudo, a ver com o assunto, mas curto a Coleção Negra de autores policiais contemporâneos. Queria ler todos. Sem falar no, pra mim, DEMOLIDOR Simenon, um cara que ia bem além do policial num romance policial, sem mistérios, suspense ou clichês do gênero. Parece simples, mas não é, e aí que rola a genialidade do cara. Já fiz minha propaganda do Simenon. Os bons a gente sempre faz publicidade.

  5. Tenho acompanhado aqui a discussão, que a meu ver é sempre oportuna, sobre o gênero policial e o fato de muitos ainda o considerarem injustamente um primo pobre da grande literatura. Essa reflexão inspirou minha coluna na Band News dos próximos dois sábados, que vai ao ar na FM 99.3, entre 9 e 10 da matina.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s