JOGO 6 – A volta x História de não acontecer

JOGO 6

A volta,
de Ítalo Ogliari (7Letras / 2010)
x
História de não acontecer,
de Reges Schwaab (Modelo de Nuvem / 2010)

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JUÍZA
Lolita Beretta
– Tem 25 anos e é licenciada em Letras – Português e Literatura de língua portuguesa – pela UFRGS. Desde 2009, é professora de francês no Instituto Roche, em Porto Alegre. Trabalhando no Projeto Unimúsica da UFRGS, escreveu textos e realizou entrevistas com importantes personagens da música brasileira contemporânea. Elaborou, em seu trabalho de conclusão de curso, a unidade didática Conversa de botequim, uma proposta para trabalhar canções de Noel Rosa na aula de língua portuguesa. É autora do livro Comida e bebida (Publifolha / 2009).

O JOGO

A volta

Numa escola pública de Porto Alegre, um adolescente deslocado passa por situações que mudam sua vida para sempre. Após ser humilhado diante dos colegas – vítima de uma brincadeira de mau gosto –, é ajudado por uma menina que lhe estende a mão. É ela quem o beija, dias depois, para nunca mais reaparecer na escola. Uma outra menina lhe dá a informação de que Marina está em São Paulo. Um dia, ele “vira a mesa”: acerta violentamente o menino por quem havia sido empurrado, sai da escola e vai até São Paulo, apenas para saber em que ambiente Marina vive.

Dele sabemos o cabelo comprido, o gosto pelo heavy metal, a falta de amigos e as mãos suadas que denotam nervosismo e timidez. Quando decide viajar, o desejo é de assassinar o seu antigo eu, humilhado e medroso. Mas ele mesmo diz: “seu antigo eu existe e sempre existirá em você. Ele está em algum lugar, guardado, esmagado, escondido. E assim nos dá uma pista do que confirmaremos mais adiante: sua obsessão por Marina continua.

Quando nos conta sua história, é já um homem feito, com esposa e dois filhos. Mas não há nele nenhuma paixão além de Marina, que ressurge com força após a descoberta de que, na realidade, ela nunca havia deixado a cidade. A verdade é que quase nada mudou, e estamos diante de um homem que não chegou a amadurecer.

O próprio narrador se desculpa: fala demais, é repetitivo e nutre algumas obsessões. Mas para o leitor fica difícil “desculpá-lo”, pois, assim como não tem força para levar sua vida, tampouco a tem para conduzir as mais de 90 páginas do romance. O narrador se repete e se vê girando em lugares-comuns: A liberdade é assustadora. A passagem do tempo é cruel. Ninguém além dele vê o quão especial é Marina. Sentiu, em determinado momento, algo superior a tudo que já havia sentido. E assim por diante.

Há um uso excessivo de adjetivos, em sua maioria, previsíveis. Não deixou de martelar, durante a leitura, o sabido conselho de Anton Tchekov: don’t tell me, show me.

Um tremor forte e catártico. Um tremor violento, agressivo e inconsequente.

Só que desta vez eu não assistia apenas encantado, maravilhado e assustado, estarrecido, como sempre.

Às vezes, acontece de parecer que o narrador é outro. Se num momento diz que não foi uma vez sequer ao cinema com sua mulher, noutro cita o amor de Riobaldo e Diadorim. Quanto à linguagem, o narrador tem seus rompantes de oralidade, como a carteira que sentava outra menina idiota de cabelos loiros que nunca aprendi o nome. Mas a língua falada surge lá e cá, entre verbos no pretérito mais-que-perfeito, o que dificilmente escutamos por aí.

Na busca por mais informações sobre o autor e seu romance, deparei-me com um clipe publicitário do livro. O texto usado é o que aparece no prólogo e que mais tarde se repete:

E lá estava eu sentado no chão daquele corredor desconhecido, aos pés de um vigia e de uma mulher desconhecida, esperando chegar alguém para me socorrer, me reconstruir, me montar novamente, me juntar os cacos, os restos.

Talvez porque, no fundo, o autor saiba que a força de seu romance poderia estar no desespero final de seu personagem, que, já adulto, corre escadas a buscar uma colega de adolescência, num mundo cheio de janelas. Mas essa história não aconteceu.

História de não acontecer

Enquanto o título nos nega o acontecer, a epígrafe logo o desmente: Aconteceu. E é assim, em meio a afirmações seguidas ou precedidas de seus contrários, que o leitor acompanha a trajetória de N.A. após a morte de sua mãe, ainda durante o parto.

N.A. é um menino desamparado por uma família que lhe concede apenas uma espécie de não existência. Embora habite a Casa da família, é num quarto superior que vive, a apagar seus rastros e a ensaiar desmaios, experimentando a saborosa sensação de não existir. Homem, Velho e Velha povoam o ambiente de hostilidade, violência e silêncios, e ao menino não é permitido lembrar que existe. É a maneira que encontram de esquecer o que aconteceu.

N.A. é revestido de uma concha. Única forma de proteção, a concha imita o acolhimento materno que nunca sentiu, depois de nascer. Se, por um lado, a concha o protege, ela também o mantém distante e excluído do resto, tornando-o diferente. É mais um personagem, entre tantos, que parece inspirado em Gregor Samsa, de Kafka, deslocado e menosprezado pelos poucos lugares em que circula.

Movido pela certeza de que só fora feliz antes de nascer, N.A. deseja reverter o tempo, caminhar no sentido anti-horário até o início, momento em que sua existência era confirmada através dos olhos de sua mãe. O Menino prepara sua volta para chegar em casa outra vez, para morrer no dia mesmo de seu aniversário, 21 do 12,  um palíndromo numérico, uma trajetória circular.

A construção narrativa se dá através de 50 capítulos breves que lembram os de Memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade. Alguns, compostos de uma única frase. Outros, chegando a três páginas, no máximo. Os capítulos alternam descrições de um animal a refazer sua trilha de gosma, que o permite de refazer sua trajetória; a narrativa da história de N.A.; algumas frases/ideias que se propõem a elaborar compreensões da história de N.A.; recapitulações do que aconteceu, confirmando, em linguagem bastante objetiva, o que se passou.

Há uma pequena brincadeira inicial, em que o autor indica a ordem de leitura, que é a própria ordem das páginas. O estranho da brincadeira é que esse não é nem um pouco o tom do livro. Parece deslocada, sem razão de ser. Se essa indicação fizesse alguma diferença para a leitura ou se o autor de fato sugerisse diversos percursos possíveis, como no livro Jogo da amarelinha, de Cortázar, talvez fizesse sentido.

Ali, há também algo que salta aos olhos: a palavra obra tem sua inicial em letra maiúscula. Tal decisão – ou será um erro de revisão? – pode ser simbólica para perceber que, ao longo da novela, o autor ainda está presente demais. Parece haver um excesso de estudo das imagens, dos símbolos que se repetem: a trajetória circular, a concha, o dia 21 do 12, o signo de sagitário, a afirmação e a negação das mesmas coisas, o caminho de volta para desfazer.

Por outro lado, há um resultado positivo. O próprio autor menciona, em blog dedicado ao livro, o uso de um estilete como a melhor forma de encaixar as partes da novela. E parece mesmo que cada frase, cada capítulo foi aparado por um estilete afiado até que se manteve apenas o essencial. Suas descrições são precisas na exata medida em que interessam à narrativa. Se não sabemos a idade de N.A. em números, sabemos que é uma idade normal, porque mais não interessa.

Há ali imagens fortes, um narrador que tem força para crescer, mas que ainda parece estar muito controlado. Se o narrador evita repetir fórmulas já conhecidas de todos, nisso também ele se repete. Ao mencionar o calor que acomete a cidade em pleno dezembro, prefere não desperdiçar adjetivos: Tudo assim, superlativo. Mas logo se utiliza do mesmo artifício: pouco adiante, há um tudo assim, em grande escala.

Dentro da própria literatura gaúcha, N.A. lembra algum personagem dos contos de Amílcar Bettega Barbosa, que já relembrava Kafka. E, já que estamos falando de temas recorrentes no universo literário, fica a pergunta: será que há, em História… , fôlego para um romance, ou mesmo uma novela? Por vezes, os personagens caricaturais e nomeados Homem, Velho e Velha não combinam com a dor profunda que gerou a situação. Pergunto-me até que ponto se sustenta um romance que a todo tempo apresenta ousadias narrativas em um formato já conhecido dos leitores de literatura a partir de outras obras consagradas.  Isso, porém, não anula os vários momentos de força poética presentes no romance.

Na comparação, História de não acontecer vence por ter presença poética e força narrativa. A volta escorrega em lugares-comuns.

PLACAR
A volta 0 x 1 História de não acontecer

VENCEDOR
História de não acontecer
, de Reges Schwaab

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4 respostas para JOGO 6 – A volta x História de não acontecer

  1. Muito boa resenha, como a anterior. Ambas claras, informativas e críticas. Mas por que os dois resenhistas atacam o uso do mais-que-perfeito? O abuso é, naturalmente e por definição, condenável, mas isso se aplica a tudo numa língua. O mais-que-perfeito permite estabelecer uma relação temporal entre ações do passado e não é um recurso exclusivo do português. Inglês, francês, espanhol, todas têm. Por que, de antemão, mutilar a língua, ou criticar um autor pelo uso (não o abuso) de um tempo verbal? “I had not thought death had undone so many.” É o T.S.Eliot in Waste Land. Apanharia por aqui, ainda que com elegância?

    • Também gostei muito da resenha, detalhada e precisa no que considero importante. Quanto ao mais-que-perfeito, também concordo com a observação do Isaías. O que a resenhista assinalou, quero crer, é o uso da forma simples do m-q-p (cantara, fizera, fora, etc.), que muitas vezes soa demasiado erudita ou mesmo pedante num diálogo informal. O problema é que o tempo verbal existe e faz falta na mais coloquial das linguagens. Todos usam o m-q-p sem se dar conta: tinha cantado, tinha feito, tinha sido. “Ele repetiu o que tinha dito antes”, por exemplo, parece demasiado culto ou pedante? Creio que não. O problema do escritor é ser sempre o mais simples e natural possível, e isso dá muito trabalho. Se o m-q-p soou empolado, o escritor não soube empregá-lo da melhor forma.

  2. Lolita Beretta disse:

    Caros Isaías e Luiz Paulo,

    obrigada pela leitura atenta da resenha. Acho a discussão de vocês importante, e gostaria apenas de esclarecer a referência ao tempo verbal que já tinha sido criticado em outra resenha.

    De nenhum modo penso que o pretérito mais-que-perfeito seja um tempo desimportante, e não o considero vilão de nada. É ele que nos possibilita a distinção clara do momento e da ordem de ações no passado, seja em sua forma simples ou composta. Não vejo nenhum pedantismo aí.

    Penso apenas que, no caso do romance A volta, a construção do narrador é um tanto atrapalhada no que diz respeito às escolhas linguísticas. Ao mesmo tempo em que flerta com a oralidade – com frases muitas vezes incorretas para a língua escrita padrão -, cria uma certa discrepância quando, na frase seguinte, o mesmo narrador utiliza os verbos pensara, acumulara, etc. Provavelmente, a forma composta não teria causado nenhum estranhamento, por ser mais disseminado na língua falada.

  3. Athos Ronaldo Miralha da Cunha disse:

    Meus caros.
    Esse CGL é um evento importante e mexe com as nossas ideias acerca da literatura. Tenho acompanhado, atentamente, as resenhas – que é avaliação de uma pessoa, lógico –, e é aí que eu quero chegar. Acabamos discutindo a resenha, se foi boa ou não e não discutimos a obra. Particularmente, não li nenhuma das obras em tela, assim, me abstenho de emitir um comentário.
    Penso que quando o campeonato for afunilando faremos melhores intervenções nos comentários sobre os romances.
    De qualquer sorte, estamos avançando no debate literário por essas plagas.

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