JOGO 10 – Fora de mim x Crime na Feira do Livro

JOGO 10

Fora de mim,
de Martha Medeiros (Objetiva / 2010)
x
Crime na Feira do Livro,
de Tailor Diniz (Dublinense / 2010)

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JUIZ
Fernando Ramos – Editor do jornal de literatura Vaia há 11 anos. Desde 2008, idealiza e organiza a Festa Literária de Porto Alegre – FestiPoa Literária (www.festipoaliteraria.com.br).

O jogo 

Time: Crime na Feira do Livro 

O detetive Walter Jacquet e seu escudeiro (não apenas um interlocutor típico de detetives, mas seu amigo de infância) Joãozinho Macedônio por pouco não testemunham um crime ocorrido na Praça da Alfândega durante a Feira do Livro de Porto Alegre. A vítima Adavilson Doceiro, um conhecido garimpador/vendedor de livros raros, é assassinado por um homem mascarado que foge numa motocicleta, e o livro que Adavilson levava consigo é misteriosamente trocado por outro. Os dois amigos resolvem participar da investigação, no início, movidos pela curiosidade, mas, depois, o puro gosto pela aventura investigativa se impõe, e eles levam o caso a sério (pero, no mucho).

Narrativa ágil, que se lê em pouco mais de duas horas, dosada com humor e pontuada de breves “causos pitorescos” que dão sabor prazeroso ao fluxo da leitura, Crime na Feira do Livro é uma novela conduzida por uma linguagem simples, direta, cadenciada e a serviço do suspense da trama. Os personagens são muito bem construídos, alguns protagonizando, ora cenas perfeitamente elaboradas, ora de humor impagável – Jacquet, Macedônio, a “governanta” Inácia, que cuida de toda a vida doméstica de Macedônio, a sensual delegada Florença Flores, as um tanto bizarras figuras da Confraria do Acaso, Tio Catiampas, Fumanchu e Madame Zu Keila são todos personagens convincentes e competentemente talhados para o delineamento do enredo. Além disso, por assim dizer, a “atmosfera” da Feira do Livro e as ruas, locais e bairros de Porto Alegre colaboram para amarrar a trama e se tornam também personagens cruciais para a novela. O final é surpreendente e divertido. Não contarei aqui, não serei estraga-prazer de leituras.

Tailor Diniz domina perfeitamente as técnicas da narrativa de suspense e trabalha muito bem dois aspectos que considero imprescindíveis no gênero: agilidade narrativa e dosagem precisa de humor. De modo simples e natural. E, claro, a construção de uma trama original (e com final marcante) sempre será determinante para um suspense ou policial bem-sucedido. Crime na Feira do Livro tem esses pontos a seu favor. Garantia de prazer na leitura.

Time: Fora de mim

Martha Medeiros joga naquele time de escritores que estão menos atentos ao como narrar do que ao que deve ser narrado. Não é sua principal preocupação a busca pelas possibilidades da linguagem ou a procura por inovações estéticas. A Martha Medeiros cronista é a mesma da ficção: em tom confessional, trabalha a linguagem de forma objetiva, direta, simples, quase sempre explorando as temáticas das relações pessoais e amorosas.

De maneira direta, sem atalho nenhum, atinge a sensibilidade do leitor. Muito da sua popularidade vem dessa virtude.

Em Fora de mim, a temática é a paixão amorosa e, em decorrência, seus estragos e prazeres. Neste romance, o rigor e o cuidado – tanto na elegância da linguagem, em muitos momentos, rica em frases poéticas e diretas, quanto no ritmo ligeiro e reto da narrativa – trabalham em prol de uma trama construída para entender a paixão amorosa.

Paixão é ruína, minha filha. E custa os tubos, diz a protagonista.

A história, uma confissão (que se assemelha a uma narrativa epistolar) da personagem e única narradora, trata do fim do relacionamento amoroso, mas não da morte da paixão. Conta o sofrimento da protagonista, sua desestruturação afetiva e, por assim dizer, reconstrução. Dividida em três partes, em resumo, assim colocadas: na primeira (a mais extensa), o fim do relacionamento; o amante vai embora, a personagem/narradora fecha a porta de sua casa e começa aí o “tempo real da dor” para a protagonista; passam-se os primeiros instantes, as primeiras horas, depois o primeiro dia, o segundo, terceiro, depois outros, e mais outros e assim por diante, e a narradora vai descrevendo, investigando, revelando, em uma quase autópsia, a dor do fim, e tentando entender o “céu e o inferno no mesmo playground” vivido na relação amorosa. Na segunda parte, a narradora detém-se a contar o começo da relação, o “abalo sísmico” sofrido e os motivos por que o relacionamento não deu certo, numa espécie de investigação e reflexão dialética acerca de seus sentimentos e os do seu amante. Na parte final, são narrados os momentos vividos pela protagonista e o amante alguns anos depois da separação; o reencontro dos dois, ele casado e com filho, ela vivendo um relacionamento sério, tranquilo e organizado, mas ainda em “busca de algo que iluminasse o lado obscuro do meu amor por você: por que logo você?”.

Não há tempo cronológico, nem espaço definido ou marcando a narrativa. A autora não se deteve em construir personagens ou planejar um arcabouço para a trama. Não há caracterização de personagem. Nada está determinado. O principal personagem do livro, o tempo todo, é a paixão amorosa.

Ele era a fúria. Ela, a paixão. E no meio dos dois havia um “transtorno psíquico” que, não apenas os afastou, mas evitou o “encontro verdadeiro”. A protagonista lamenta nunca ter havido possibilidade de comunicação e entendimento intelectual entre os dois. Reconhece que não apenas ele foi o “transtornado”, mas que ela também esteve “doente” da onipotência de achar que poderia ter “a compreensão absoluta de tudo sem aceitar que a vida não vem com manual de instruções”. No desfecho, a protagonista vive outra relação “sem alicerces”, apaixona-se, então, por um junkie. E conclui que a paixão é a força motriz que justifica a sua existência, decidindo-se a não querer mais entender o sentimento, sem precisar ser conduzida a nenhuma espécie de iluminação, pois já “atravessei paredes, estou do lado de fora”.

Fora de mim tem todo o jeito de um tango argentino. Ou de uma música de Lupicínio Rodrigues. A autora é segura na construção da trama. Realiza história baseada numa temática “casca dura”, difícil de explorar. E se sai muito bem, produz um belo livro. O único senão do romance é a terceira parte. Nela, em alguns momentos, o fluxo da narrativa decai um pouco e despontam algumas frases clichês (“Eu, um tumor incurável. Você, minha bala nunca extraída”, ou “As discussões eram raras e duravam pouco, não resistiam à nossa inteligência emocional”), que não se pode deixar de apontar.

Jogo difícil de decidir. E, infelizmente, devo indicar um vencedor. O empate é proibido. Vamos lá: pela agilidade da narrativa e boa construção da trama, os dois merecem um gol cada. Fora de mim toma um gol (em cobrança de escanteio, numa confusão dentro da área) pelo uso de algumas frases clichês e por descuidar do ritmo narrativo na terceira parte. Crime na Feira do Livro faz um gol (chute certeiro da entrada da grande área) ao trabalhar muito bem com o humor no enredo e pelo desfecho marcante. O jogo termina em 3 x 1.

PLACAR
Fora de mim 1 x 3 Crime na Feira do Livro

VENCEDOR
Crime na Feira do Livro, de Tailor Diniz

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4 respostas para JOGO 10 – Fora de mim x Crime na Feira do Livro

  1. Em jogo de bola, tenho essa mania de torcer pra time pequeno. Em enfrentamento de times grandes, dependendo dos times, torço pra ninguém. Flamengo e Corínthians? Quero que caia o estádio e mate todo mundo, inclusive os times, só pra liberar espaço pra quem tá lá em baixo na tabela.

    Martha Medeiros contra Tailor Diniz. Praticamente um clássico. Jogo duro, de equipes da primeira divisão. Grandes estádios. Craques de bola. Camisas cheias de patrocínios… Um já foi. Que o outro tome uma goleada na próxima!

    Ora, sou dirigente, treinador, massagista e roupeiro de um dos times pequenos que concorre no campeonato. Você quer que eu faça o quê? Me comova com a eliminação de Martha Medeiros? Fala sério! Deixa isso pra minha acessoria de imprensa, quando eu a tiver. Tô soltando foguete (e já me preparando pra comprar a camisa – ou o livro – da Martha, assim que topar com ele). =)

  2. grande fernando ramos.
    que resenha!
    os livros se defendem sozinhos e “o crime na feira do livro” é um romance policial dos diabos de bom.
    mas tua resenha acrescenta bons comentários as leituras dos dois livros e estabelece distâncias.
    cousa boa.

  3. Parabéns, Fernando. Excelente resenha! Essa, na minha opinião, é a tarefa mais ingrata para um resenhista: decidir entre duas obras de qualidade. Um jogo assim é vencido no detalhe, como se pode bem comprovar.

  4. Athos Ronaldo Miralha da Cunha disse:

    Devo confessar que não sou um assíduo leitor de Martha Medeiros – que é uma boa escritora com uma legião de leitores –, no entanto, novamente, eu li apenas um dos competidores. Justamente o livro do Tailor.
    O “Crime” é uma aprazível leitura. A gente lê num fôlego só. Mesmo sendo um encontro entre gigantes, entendo como uma vitória merecida.
    Eu ainda lerei os dois competidores em um próximo confronto… estou me prometendo.

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