JOGO 11 – Três traidores e uns outros x Curva de Gauss – A sedução da matemática

JOGO 11

Três traidores e uns outros,
de Marcelo Backes (Record / 2010)
x
Curva de Gauss – A sedução da matemática,
de Isacc Sprinz (Movimento / 2009)

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JUIZ
Bruno Mattos – Nasceu em Porto Alegre em 1990 e é estudante de jornalismo na UFRGS. É co-editor da revista digital de crítica literária Cadernos de Não Ficção. Também escreve, traduz e revisa originais. No twitter, @bcmattos.

Os times 

Curva de Gauss – A sedução da matemática e Três traidores e uns outros têm em comum o fato de despertar no leitor juízos de caráter pessoal em relação a seus autores. O primeiro me provocou um olhar complacente sobre Isacc Sprinz, como o de um professor que vai rodar de ano um aluno esforçado e, por isso, procura adiar a entrega das notas. E, lendo Três traidores e uns outros, me vi pensando: “mas esse Marcelo Backes é um canalha, um filho da mãe”.

O jogo

O grande trunfo de Backes em Três traidores e uns outros é a sua capacidade de adaptar o estilo narrativo àquilo que está sendo contado. As cenas que se passam durante a velhice do personagem, situadas em uma estância nos pampas, são descritas de maneira truncada e ranzinza, com um vocabulário repleto de regionalismos. Já o período em que ele viveu na Alemanha é recheado de referências ao romantismo germânico, tanto nas citações (Wagner, Goethe) quanto no estilo (Princesa, teu castelo virou fortaleza, e o assédio da minha lança em riste encontra sempre o muro medieval da tua indiferença). O mesmo se repete, com maior ou menor grau de sucesso, ao longo de todo o livro.

Com estrutura bem encadeada e escrita em inversão cronológica (o livro inicia com um narrador senil, que rejuvenesce com o virar das páginas), a obra relata a sucessão de frustrações amorosas experimentadas por seu narrador ao longo de algumas décadas, contrapostas aos seus (autoproclamados) êxitos profissionais. Com o passar dos anos, os relacionamentos caóticos passam a afetar cada vez mais sua carreira de tradutor até que, no fim de sua vida, o personagem se vê forçado a abandoná-la. Aventuras sexuais, casamentos arruinados e picuinhas do mundo editorial dividem espaço com longas digressões a respeito de tradução, uma arte que apenas o narrador parece capaz de dominar. E o leitor, no meio disso, sente tanta raiva do velho que precisa controlar os ímpetos de rasgar algumas páginas e atirar o livro longe.

Por isso, ao terminar Três traidores e uns outros, eu já tinha redirecionado toda raiva que sentia pelo personagem para o Marcelo. Pura injustiça – não conheço ele, que, além de um escritor nada ingênuo, é bem capaz de ser gente boa. O “problema” é que o texto foi escrito de tal forma a sugerir que o que temos em mãos não é uma obra de ficção, mas um registro de memórias do autor. Assim como Marcelo, o personagem-narrador também é tradutor do alemão, nasceu no interior gaúcho, morou na Alemanha, ganhou bolsas de residência, etc. O jogo de confusão entre ficção e realidade funciona tão bem que obriga o leitor ao esforço de separar (até onde der) o que pode ou não ser verdade.

Isso não quer dizer que o livro não apresente algumas falhas. Os flertes com a psicanálise, por exemplo, acabam aparecendo sempre de forma mais ou menos gratuita, e as insinuações de que episódios da infância do narrador poderiam, de alguma forma, justificar o seu comportamento acabam provocando a impressão de um artifício literário mal utilizado.

Além disso, há alguns escorregões consideráveis no tom narrativo. Por exemplo: em determinados momentos, a inventividade linguística de Backes deságua em jogos de palavras bobinhos (Eu queria muito, mas também queria não querer, não queria querer, e não querendo querer ou querendo não querer, não queria, embora quisesse, e portanto já não soubesse mais o que queria), ou em piadas tão ruins que chegam a soar inverossímeis (um inferno distante à beira do grande rio, pra onde eu não voltaria nem que todo o rebanho bovino gaúcho tossisse simultaneamente, e em alemão).

De qualquer forma, Marcelo Backes está de parabéns. Não contente em assumir os riscos de ser mal interpretado (Canalha! Safado! etc.), ele escreveu um livro consistente e ousado na medida certa. Não é à toa que os seus (poucos) deslizes podem ser enumerados, com algum rigor, em dois parágrafos.

***

Nas entrelinhas, Curva de Gauss é uma novela sobre a vontade do seu autor de escrever um livro. Já no prefácio, Isacc Sprinz sugere isso ao discutir consigo mesmo se está à altura do desafio de escrever uma obra de ficção sobre matemática sem ser matemático. Ora, Isacc, coragem! Kafka nunca acordou transformado em um inseto, Pynchon não viveu no século XVIII e Hemingway não… Opa, mau exemplo. Mas ainda assim.

A história transcorre em um período indefinido, e o foco da narrativa é a importância que a matemática assume na vida de Júlio, o personagem principal, durante os anos que ele passa na escola. Como nos é lembrado cerca de cinquenta vezes ao longo do texto, Júlio tem uma obsessão.

“Nossa, que resenhista careta, ele não entendeu que a obsessão é citada obsessivamente para moldar o estilo a partir do conteúdo da história”. É, pode ser a intenção do autor, mas é cansativo demais ler centenas e centenas de linhas assim:

Mal aprendera as quatro operações, obsessivamente somou 1+2+3+4+5+6+7+8+9+10 igual a 55. Daí, intuiu: 1+10 = 11; 11×5 = 55. Somou de 11 a 20. Resultado: 155. Ou seja, 11+20=31 que, multiplicado por 5, é igual a 155. Cada vez mais excitado, continuou somando números consecutivos obstinadamente. Só conseguiu tranquilizar-se quando colocou o resultado de sua obsessão na seguinte igualdade: S = (N¹ +Nn)n/2.

Ou:

O quadrado de três é nove e o quadrado de dois é quatro. A diferença entre nove e quatro é cinco que é igual a três mais dois, ou igual ao dobro de três menos 1 ou igual ao dobro de dois mais 1. O quadrado de 4 é dezesseis e o de 3 é nove, a diferença entre 16 e 9 é 7 que é igual a 4 mais 3, ou igual ao dobro de 4 menos 1 ou ao dobro de três mais 1. Assim continuou até concluir que a diferença dos quadrados de dois números consecutivos é igual a soma de suas bases, ou igual ao dobro do maior menos 1, ou ainda ao dobro do menor mais 1. O quadrado de dois é 4, o quadrado de 1 é 1, a diferença é 3. O quadrado de 3 é 9, menos o quadrado de 2 é cinco. O quadrado de 4 é 16, menos o quadrado de 3 é 7. O quadrado de cinco é 25 menos o quadrado de 4 é 9.

Ou:

Em seu caderno, registrou: todo número somado ao seu inverso é igual à soma de seus algarismos repetidos se for uma dezena, ou interpostos por um zero se for centena, dois se for milhar e assim por diante. A variação entre as somas também é uma constante igual a onze se for dezena, 101 se for centena, 1001 se for milhar e assim por diante.

Ou:

E se for a soma de dois quadrados? O ciclo recomeçou. O quadrado de 2 é quatro e o quadrado de três é 9. Quatro mais nove é 13. 13 é igual 2x2x3 mais 1. O quadrado de 5 é 25 e o quadrado de quatro é 16, 25 mais 16 igual a 41. 41 é igual 2x5x4 mais 1.

E isso acontece durante mais da metade do texto. Sempre, cabe dizer, acompanhando tabelas numéricas. 

Afora as repetições excessivas, o livro apresenta graves problemas de estrutura e linguagem. Há informações conflitantes (a diferença de idade entre Júlio e sua amiga-namoradinha, Diana, muda ao longo do livro), abuso de clichês (Júlio e seus amigos “falam simultaneamente” com tanta frequência que é impressionante o fato de eles não pensarem em montar um coral), situações exageradas (Foram alguns minutos de silêncio até Otomar responder) e inversões frasais pré-vestibulares (serviam como santuário para filosóficos diálogos).

A falta de coesão também incomoda. Alguns trechos (capítulos, às vezes) destoam completamente do resto do livro, e a estrutura temporal do enredo é um mistério completo. A sensação é de que o autor justapôs exercícios criados para uma oficina literária para transformar em uma novela algo que poderia ter sido melhor trabalhado em um conto.

De qualquer forma, Isacc Sprinz está de parabéns. Escrever um livro dá uma trabalheira danada e, pelo que se lê no posfácio, ele já está preparando o próximo. Isacc, faça como o Uruguai: se você não ganhou a Copa, quando a vida lhe propuser o próximo desafio, erga a cabeça e esteja preparado para atropelar o Paraguai.

PLACAR
Três traidores e uns outros 5 x 0 Curva de Gauss – A sedução da matemática

VENCEDOR
Três traidores e uns outros, de Marcelo Backes

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Uma resposta para JOGO 11 – Três traidores e uns outros x Curva de Gauss – A sedução da matemática

  1. Quê? Ganhou um livro da Record? Conta outra, vai… ¬¬

    Hehehehe… Curva de Gauss me lembrou The Big Bang Theory. Três Traidores? Lembrou a mim mesmo. Velho ranzinza, tradutor, irritante, pentelho, dono da verdade, pé-no-saco, quer-que-todo-mundo-morra… Sim, definitivamente deve ser eu mesmo, em uma versão alemã hipotética e ainda mais narcisista, heheheh…

    Deja vu à parte, parabéns ao Bruno pela resenha consistente.

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