JOGO 12 – Pássaros grandes não cantam x Sanga Menor

JOGO 12

Pássaros grandes não cantam,
de Luiz Horácio (Global / 2010)
x
Sanga Menor,
de Cíntia Lacroix (Dublinense / 2009)

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JUIZ
Marcelo Spalding – É formado em jornalismo e mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS, professor da Oficina de Criação Literária da Uniritter, editor do portal Artistas Gaúchos, autor dos livros As cinco pontas de uma estrelaVencer em Ilhas Tortas, Crianças do asfaltoA cor do outro e Minicontos e muito menos, membro do grupo Casa Verde e colunista do Digestivo Cultural.

Você acha que apitar um jogo de literatura é difícil? Imagine, então, quando esse jogo não pode terminar empatado! E eis um caso, um dos dois seguirá na competição, um dos dois precisará ser eliminado após a leitura de um único juiz e, já adianto, sem querer causar falso suspense, que este jogo irá para as penalidades máximas.

No gramado estão os romances Sanga Menor (Dublinense, 2009, 256p.), primeiro livro individual de Cíntia Lacroix, e Pássaros grandes não cantam (Global Editora, 2010, 220p.), de Luíz Horácio. O livro de Horácio, deve-se dizer, é o último da chamada “Trilogia Alada”, composta também por Perciliana e o pássaro com alma de cão (Códex, 2005) e Nenhum pássaro no céu (Fábrica de Leitura, 2008). Deixemos claro desde já que apenas o último romance é que está disputando o jogo, motivo pelo qual o juiz confessa que não leu e nem procurou ler nesse período os outros dois anteriores.

Ambos os livros se passam numa cidade pequena e em ambos o espaço é mais do que um palco para os acontecimentos, é ele próprio personagem, interfere na ação das gentes, dos bichos, dos fantasmas. Sim, em ambos há fantasmas, ambos podem ser classificados como o que chamamos há alguns anos de realismo fantástico, dos mestres García Márquez e Carpentier.

Em Pássaros grandes não cantam esse espaço é uma pequena cidade pampeana capaz de definir a vastidão do coração até de um filho criado distante dali, Armando, jovem médico que vem do Rio de Janeiro, após a morte da mãe, para acertar as contas com o pai, o estancieiro Horácio.

Armando, com indisfarçável tristeza, passou a mão sobre a cabeça daquele animal que um dia se atrevera a fazer uma escolha. O cachorro balançou o rabo branco e preto. Aquele homem calado, (sic) sequer desconfia, mas carrega o pampa em seu coração e por isso sabe que toda responsabilidade traz consigo um pedaço de melancolia. (p. 146)

Como deixa claro esse trecho, Armando é um protagonista sem ação, melancólico, médico que desistiu da profissão, jovem que confessa ter ataques de choro, homem com coragem para procurar o pai e mostrar a ele as terríveis cartas que este dirigira a mãe, mas sem coragem para confrontá-lo, desafiá-lo, combatê-lo.

Horácio, o pai, por outro lado, é um antagonista forte, presente em todas as cenas do livro, amigo de uns, inimigo de outros, com um passado sombrio e capaz de semear ódio mesmo entre seus aliados. É essa sombra sobre o seu passado que segura o suspense inicial do livro e faz o leitor devorar as primeiras dezenas de páginas em busca de respostas. Verdade que o clichê das relações (filho abandonado que volta à cidade do pai, encontra uma prima linda e se apaixona por ela, sendo naturalmente correspondido) esfria um pouco o romance, mas resta a questão dos morcegos com cara de cachorro que rondam a paisagem – e o romance – perturbando o que poderia ser uma narrativa realista.

Além do ritmo e da paisagem, outra bela jogada do livro é o jogo entre autor-narrador-personagem, pois o próprio autor afirma, na orelha, estar por inteiro em sua obra. E, quando iniciamos o romance, descobrimos um personagem (o antagonista) com o nome do autor e, mais do que isso, dois escritores em cena, sendo que um deles, vindo do Rio, publicará um livro chamado Pássaros grandes não cantam (título, aliás, roubado de uma jovem escritora, a prima jovem, inteligente, linda e disponível de Armando).

Teríamos aí três gols não fossem as bolas-fora, que acabam prejudicando o desempenho da equipe. Primeiramente, e para falarmos primeiro do mais desagradável, a edição traz inúmeros erros de revisão, como “acerca” escrito separado na página 136 e junto na 137 (ambos com o mesmo sentido, claro), ausência de crases, vírgulas separando sujeito do predicado, problemas de concordância (“a um altura”, p. 150) e uma enorme confusão nas vírgulas entre os vocativos, dificultando a leitura: “Pois é seu Armando, conheceu o Horácio numa das idas dele ao Rio?” (p. 44). Falta vírgula antes de “seu Armando” para ficar caracterizado o vocativo, e esse erro se repete em diversas partes do livro.

Bem, tenho certeza que, na segunda edição, esse tipo de problema estará resolvido. O que incomoda mesmo é o maniqueísmo e o excesso de planificação das personagens. Antonio Cândido, em A personagem de ficção, citando Forster, afirma que há dois tipos de personagens, os planos e os esféricos. Os planos não mudam com as circunstâncias e são facilmente identificados, enquanto os esféricos têm capacidade de surpreender de maneira convincente. Pois bem, Armando, Horácio, a prima, a mãe da prima, Elvira, Amâncio, os empregados e até os animais são planos, quase previsíveis, não mudam em nada sua forma de agir ou pensar ao longo da narrativa. E, além disso, são sempre bons ou sempre ruins.

Horácio, que aos poucos se define como o grande antagonista, é um vilão estilo novela das oito, capaz de mentir, roubar, odiar, matar, mandar matar. Homens, mulheres ou crianças, como ficará claro no final do livro. Armando, a prima e Elvira, por outro lado, são sempre bons, não têm raiva, não pensam em vingança, choram impotentes diante da força do estancieiro até que outro personagem mal, Amâncio, empregado de Horácio, resolve bater de frente com o homem.

Acrescente-se a esse maniqueísmo um tema delicado e que tinha tudo para ser o ponto alto do livro: o racismo. Desde as primeiras páginas, fica revelado que Amâncio e Horácio são racistas, racistas convictos, de não esconder, motivo pelo qual detestam Elvira, a viúva da estância vizinha. Adiante se saberá que Horácio teve um caso, na juventude, com a irmã de Elvira, engravidou-a e mandou-a para fora do pampa, já que não queria tirar o filho. A carta que Armando, o filho, revela a Horácio define bem o tom do romance:

Agora que estás instalada, que cumpri minha parte do nosso trato, espero que cumpras a tua. Conforme já expliquei, essa criança não pode nascer. Filho tem que ser fruto do amor, coisa que nunca tivemos, me agradava tuas pernas, teus seios, tua bunda, e esse jeito de mulher da vida que as negras costumam ter. (…) (p. 84).

Sim, falta sutileza. Muito mais em outros trechos, em diálogos nervosos como o das últimas páginas: Escolho a puta da tua mulher, branca mulher de negro é tudo china. Vou te matar e depois vou embarrigar a tua mulher, vai ter filho branco, filho de homem de verdade. Vem, vem, negro de merda, raça amaldiçoada. (p. 204).

Claro que Horácio, autor gaúcho e negro, deve ter sofrido preconceito e tem todo o direito de denunciar esse nojento sentimento que ainda permeia nossa sociedade, especialmente aqui no Rio Grande do Sul. Tenho acompanhado com especial interesse uma literatura local sobre a questão, com obras como Quatro negros, do Fischer, e a tradução de Frizero para Autobiografia de um ex-negro, além do trabalho poético e crítico de Ronald Augusto. Mas não é criando uma ficção em que os negros são sempre bons, honrados, belos, ponderados e justos, enquanto os vizinhos racistas são sempre odiosos, bandidos, desbocados, que Horácio atingirá a complexidade do tema. Assim como as personagens são planas e maniqueístas, a abordagem do preconceito racial aqui também se torna plana e maniqueísta, o que é uma pena, pois se perde uma belíssima chance de trazer a um bom romance um tema de suma importância.

E quando se fala em problema é porque não é verossímil que Horácio tenha chegado até a idade em que chegou, até a idade do livro, convivendo razoavelmente com seus vizinhos tendo esse tipo de sentimento e caráter tão arraigado. Não é razoável que ninguém o odiasse a ponto de matá-lo ou tentar matá-lo. Ou que ele próprio não tivesse cometido algum crime contra os negros, por exemplo, matando Caetano, marido de Elvira, que, conta-nos a história, morreu por causa de um raio.

Aristóteles, lá em sua poética, falaria sobre a verossimilhança e condenaria o que chama de deus ex-machina, soluções para o texto ficcional que passam pela providência divina (como o final de Medeia, por exemplo). E com esse conceito podemos passar a bola para o outro livro, Sanga Menor, de Cíntia Lacroix.

A obra conta a história de outro jovem, Lírio, que vive plantado em uma casa com a mãe superprotetora, a tia-avó e o pai, este paralisado em uma cama, vítima de um AVC, desde o nascimento do filho. Os primeiros capítulos deixam clara a personalidade apática de Lírio, até com um exagero de adjetivação por parte do narrador:

Sim, porque o bilontra do Lírio – que de burro não tinha nada – inventava sempre uma desculpa: infelizmente, justo naquele fim de semana em que haveria bazar, ele precisava enfiar-se na biblioteca municipal, pois tinha de preparar-se para uma prova difícil. Lorota! Se o moleirão precisava mesmo estudar, nada o impedia de fazê-lo no gabinete do chalé! A verdade é que o safado, naqueles dias, preferia manter-se distante. (grifos meus) (p. 11)

Aqui, a voz é do próprio narrador, diferentemente dos trechos de Horácio, em que falava uma das personagens. É, portanto, um narrador heterodiegético e intruso, capaz de saber o que pensa e o que finge Lírio, capaz de emitir juízos de valor e explicando para o leitor como ele deve compreender aquela personagem.

Sanga Menor, aliás, sofre do mesmo mal tático que Pássaros grandes não cantam, e daí o empate nos 90 minutos. As personagens também são planas, agem de forma previsível e não mudam em nenhum momento ao longo da narrativa, mais paralisadas que o pai em cima da cama (tratado de forma clichê pela narradora, diga-se de passagem, mas essa pode ser uma impressão de alguém que conviveu três anos com um pai em cima de uma cama). Aqui, entretanto, não há espaço para bons e maus, as personagens agem de acordo com as circunstâncias para, simplesmente, sobreviver às tragédias familiares que se sucedem (o pai doente, as mulheres sem dinheiro, o filho que não trabalha). Até que, e eis o grande motor da narrativa, Gilberto, primo bem-sucedido de Lírio, que mora na Capital, aparece na casa das tias e oferece levar o primo para a cidade grande, arrancando dele, para surpresa da mãe, da tia e do leitor, um sim.

Dessa forma, no sexto capítulo, Lírio está num arranha-céu da Capital sob a proteção de Gilberto, publicitário tão rico, mas tão rico, que tem uma governanta (amiga da mãe, Caetana, já falecida) e três moças para ajudá-lo no apartamento. O leitor viaja com Lírio para um espaço tão diferente daquela cidadezinha de Sanga Menor, na expectativa de como o moço irá se virar sem a mãe, a sombra do pai, a maledicência da tia-avó. E qual não é nossa decepção quando, num golpe fortuito do destino, Gilberto escorrega numa poça d’água no aeroporto, bate a cabeça e… morre. Deus ex-machina. Poderia ter sido um acidente de carro, de avião, um descuido do próprio primo, mas não, foi uma queda banal que interrompeu os sonhos de Lírio e o andamento da narrativa.

O romance, aliás, perde uma grande chance de transformar Lírio ou Gilberto em personagens um pouco mais complexos, ou esféricos, na terminologia de Forster, com cenas de ciúme mútuo, de boicote de um em relação ao outro, de pequenos conflitos. Mas não: Gilberto é o sobrinho perfeito, o filho perfeito que saiu da pobreza para a riqueza, permitindo a sua mãe continuar trabalhando na praça com seu teatro de fantoches, e morrerá bonzinho, vítima apenas do acaso, do destino, e sendo homenageado por todos da cidade em que nasceu.

Claro que há bons momentos no belo romance de Cíntia, talvez eu tenha sido indelicado por começar com aquilo que considerei problemas. A criação de cenário e de personagens é fabulosa, basta lermos essa esplendorosa descrição da geografia da cidade, no começo do capítulo II:

Sanga Menor era uma cidade em forma de ladeira. Uma ladeira suave na descrição de alguns, que tomavam por parâmetro, decerto, um precipício. Uma ladeira íngreme na opinião de outros, que talvez a comparassem à linha do horizonte. O fato era que, lá em cima, no gramado da praça da igreja, os moleques que jogavam futebol não podiam bobear: se a bola fosse deixada ao deus-dará, acabaria sendo puxada pela força da gravidade, e os peixes feiosos que nadavam na sanga, lá embaixo, tomariam um susto ao receber a visita inesperada.

Também fica evidente o domínio técnico da escritora diante de seu texto, domínio esse que às vezes até destoa com a simplicidade da vida e do léxico daquela família (não imagino Lírio pensando a palavra “pusilânime” (p. 67), por exemplo).

Do mais, evito, aqui, falar do final dos romances, até para que o leitor tenha a oportunidade de lê-los, e gostará da leitura. Digo apenas que o final não poderia ser o critério de desempate porque ambos têm a mesma precipitação dos acontecimentos, e se um peca pelo clichê de final feliz, o outro exagera no fantástico numa medida que até então não aparecia (além de haver uma cena demasiadamente grosseira para o conjunto).

Como critério de desempate, então, utilizo a possibilidade alegórica da leitura de Sanga Menor, um romance que traz em si a metáfora dos títeres, que dialoga com a tradição literária de um Incidente em Antares, que explora com segurança recuos e avanços no tempo da narrativa para entendermos como as personagens chegaram até ali daquela forma, plantadas, planificadas, desesperançosas.

É pena que não possam os dois romances seguir adiante e ter outras leituras, de outros juízes, pois são obras complexas e nenhuma leitura, nenhuma crítica saberá fazer jus a elas.

PLACAR
Pássaros grandes não cantam 1 (2) x 1 (4) Sanga Menor

VENCEDOR
Sanga Menor, de Cíntia Lacroix

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3 respostas para JOGO 12 – Pássaros grandes não cantam x Sanga Menor

  1. Mas bah, tchê! Do meu querido Marcelo Spalding não esperaria nada muito diferente, mas ele brilhou nessa resenha! Equilibrada, bem fundamentada e absolutamente respeitosa com os dois adversários. Li e já comentei Sanga Menor, e concordo em tudo com o resenhista.

  2. Resenha brilhante. Um exemplo para outros resenhistas daqui do CGL. Parabéns, Spalding.

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