JOGO 16 – Todos morrem no fim x Fetiche

JOGO 16

Todos morrem no fim,
de Carlos Gerbase (Sulina / 2010)
x
Fetiche,
de Carina Luft (Dublinense / 2010)

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JUIZ
Luiz Gonzaga Lopes – É jornalista cultural do Correio do Povo, no qual elabora matérias sobre literatura. Foi jurado da categoria contos do Prêmio Açorianos de Literatura 2010. É autor do romance Amor sobre tela (Armazém Digital, 2007). Seu conto Na direção do nada foi selecionado entre os melhores do concurso Histórias do Trabalho da SMC, em 2002. Blogs: www.blogonzaga.blogspot.com e www.textostelona.blogspot.com. Twitter: @luizgonzagalops.

Os concorrentes

Todos morrem no fim, de Carlos Gerbase (Editora Sulina)
Fetiche, de Carina Luft (Dublinense)

2.1. – Capa e projeto gráfico

Nesse item, não há nada que decida a favor de um e contra outro. As duas capas seguem a tradição de predominância negra dos romances policiais, ambas com detalhes em vermelho. O livro de Carlos Gerbase me parece melhor acabado no que tange à continuidade do conceito da capa na contracapa. Já a obra de Carina Luft tem um signo que representa melhor o conceito exposto na obra, o pé-objeto do Fetiche, enquanto que, na publicação de Gerbase, a simbologia dos óculos com lente trincada atinge a conceituação da ação inicial da obra. Mesmo assim, Todos morrem no fim se destaca por pequena margem.

O jogo

Não há como iniciar a análise tática deste jogo sem citar algumas pequenas regras do romance policial. A primeira é que o mistério sobre quem cometeu o crime deve ser guardado para a revelação nos capítulos finais. Não há a possibilidade de se delimitar o(s) suspeito(s) na primeira metade do livro, com exceção dos romances noir, cujo suspeito ou assassino pode ser enunciado desde o início. Em As vinte regras do romance policial, o autor e teórico do gênero S.S. Van Dine estabelece regras como o “o culpado deve ter certa importância na história”, “tudo deve se explicar de forma racional” e “é preciso evitar as soluções e situações banais”.

É importante toda esta introdução para dizer que Todos morrem no fim parte para o ataque desde o início, pois o autor Carlos Gerbase, com o seu domínio da técnica narrativa fragmentada (também como roteirista e cineasta), cria uma estrutura com capítulos intercalados, histórias paralelas que irão se cruzar no fim e explicar o que um ou mais personagens têm a ver com os outros. As duas histórias. Uma professora gostosa, Isabel, é atacada e estuprada no estacionamento do Centro Universitário Vera Cruz, em Sapucaia do Sul, e um detetive gordo, que não carrega arma, inteligente, mas meio frouxo, chegado numa cerveja e em prostitutas, é quem vai se empenhar para esclarecer o caso. Se passa nos dias atuais. Na outra história, o filho de um militar, Tavinho, e a secretária do pai, Vera, participam indiretamente de atos de tortura a um casal de uruguaios, considerados subversivos, à reprodução, com algumas pequenas alterações, do sequestro do casal Lilian Celiberti e Universindo Diaz, no fim dos anos 70. A costura das histórias é boa. Um personagem vai adentrar a outra história e a maestria da narrativa é concatenar as duas histórias sem deixar que o leitor desconfie antes do tempo. Este é o gol de placa da obra, que sai marcando 1 a 0 no adversário.

Fetiche também abre o placar com um gol bonito. O livro de Carina Luft mantém como seu ponto alto a minúcia do que ocorre numa investigação, desde o interrogatório até as campanas do detetive Nestor nas casas dos suspeitos de pelo menos três mortes de modelos na pequena cidade de Adenauer, tendo como principal característica os pés decepados – o que depois vem a se caracterizar como um fetiche do matador. Evidentemente que a autora pesquisou bastante como se comportam os delegados e investigadores de polícia e deu verossimilhança aos interrogatórios, aos procedimentos ligados à rotina do inquérito e da investigação. No romance policial, o leitor até pode saber quem cometeu o crime, mas as provas é que vão colocar o criminoso na cadeia. Os diálogos nos interrogatórios com os três principais suspeitos são certeiros. O investigador Nestor atende os requisitos de um bom romance policial, tem interesse afetivo em uma possível suspeita e também uma atitude ousada que não se atém apenas à rotina da investigação policial. O jogo fica empatado em 1 a 1.

Os gols vão saindo ao natural nesta partida, mas repito que Todos morrem no fim tem uma estrutura de jogo mais interessante. A alternância dos capítulos em duas histórias paralelas mantém o suspense até o final, um pela elucidação do crime pelo inspetor Otávio e o outro para ver como as duas histórias irão se encontrar. A delimitação dos suspeitos do estupro e da tentativa de homicídio gira inicialmente em torno dos colegas da professora e pessoas do seu círculo pessoal de amizades. Enquanto isto, Tavinho e Vera, mais de três décadas antes, ficam à disposição dos policiais torturadores, mas com o objetivo de cuidar dos filhos dos uruguaios que estão sendo interrogados. O ritmo é intenso, a narrativa é ágil, com imagens bem construídas, além de um bom universo referencial, como, por exemplo, a leitura que Tavinho faz de um livro em espanhol Todos los fuegos el fuego, de Julio Cortázar, principalmente do conto La Autopista Del Sur. O livro de Gerbase passa à frente no placar, 2 a 1.

A retranca proposta por Fetiche acaba não sendo boa para o desempenho do livro no jogo. A história é simples, que prende por um tempo, mas não muito. Uma modelo vai para uma cidade do interior, Adenauer, para estrelar fotos de campanha publicitária de sandálias e é assassinada. Seus pés são cortados, e mais dois crimes semelhantes ocorrem no mesmo período. A calma de uma pacata cidade é quebrada por esses crimes. O detetive Nestor é designado para o caso, e os elos com o crime são um taxista, o proprietário de uma boate e um fotógrafo, todos vindos de fora da cidade. Os três são interrogados pelo delegado Weber, e a delimitação dos suspeitos fica restrita a eles. Neste ponto, o lugar da transgressão, do leitor-detetive, buscando as minúcias para chegar ao desfecho, como diria Ricardo Piglia, não acontece. Isto é, ocorre de forma apenas linear, sem nenhum sobressalto.

O gol de empate de Carina Luft acaba acontecendo por uma jogada simples, pela qual suplanta a obra de Gerbase: a linguagem mais próxima do real, diálogos mais simples, mais populares, dando um senso de muita verdade aos personagens. Vejamos o exemplo de um personagem secundário, como é o caso do Seu Nelson, dono de um boteco de Adenauer. Ao conversar com Nestor, ele resume o que a cidade pensa. Quem sabe mais do que o barbeiro, o dono do boteco, o padre, o cara da banca de jornal, o taxista, etc.? Seu Nelson simplesmente dá a dica a Nestor que o taxista Anselmo foi o que conduziu as três moças mortas. Nestor pergunta quem foi que deu aquela informação. “Tu que é da polícia tá mais desinformado do que eu, Seu Nestor”, é a resposta de Nelson. O coletivo da cidade sabendo mais do que a polícia. Grande jogada, apenas duas páginas, um gol singelo.

Mas o jogo segue. Já que falamos de personagens, não posso me furtar ao direito de comparar os dois investigadores. O investigador Otávio, de Todos morrem no fim, é o anti-herói, é gordo, sua como um porco, bebe conhaque e cerveja no bar Majestade, obtém informações das prostitutas e dos marginais, não mete medo nos investigados, não carrega arma, não dirige. Enfim, é aquele que ninguém reconhece como policial, mas que tem uma inteligência, uma perspicácia acima da média. É um personagem completo e protagonista com grandes louvores. Para conseguir informações com os criminosos, pede dinheiro ao delegado Xavier, que é repassado a estes pela prostituta Neusa, sua amante e um dos elos entre Otávio e os meliantes. A filosofia de Otávio é que “todos morrem no fim” e que, mais cedo ou mais tarde, ele vai descobrir o culpado.

Por outro lado, o protagonista da segunda história do romance de Gerbase, a dos anos 70, Tavinho, é um advogado que já serviu ao Exército, no CPOR, saindo como tenente, e que nutre uma admiração pelo pai – que é tenente-coronel – e uma paixão pela secretária do pai, Verinha, que é casada. Quando se expõe ao plano de ajudar a cuidar das crianças do casal de uruguaios torturados, fica apelando para a sua ética e a sua moral, como um bom advogado, para não permitir que a história vá adiante. Mas é intimidado por policiais brasileiros – que dizem que ele defenderia os direitos dos torturados –, não sabendo que eles são subversivos e que podem explodir qualquer lugar e precisam contar o que sabem. São personagens antagônicos e complementares. Otávio soluciona um crime e Tavinho tenta evitar o crime de tortura e até morte de uruguaios. Gerbase ganha pontos também por contar tempos depois, com outros nomes, um pouco da história do sequestro do casal uruguaio Lilian Celiberti e Universindo Diaz, durante a Operação Condor, de colaboração entre os serviços secretos da ditadura brasileira e uruguaia, que foi descoberta por dois jornalistas da Veja. Aliás, na história ficcional, os dois jornalistas são o estopim para a desarticulação da operação com Tavinho e Verinha, o que causa o afastamento deles. Por todos os argumentos dessa trama, o livro de Gerbase faz o placar de 3 a 2.

Chegando ao desfecho das duas histórias, temos o quarto gol do livro de Gerbase e nenhum sendo marcado pelo livro de Carina Luft. Todos morrem no fim consegue unir as duas histórias, a do advogado e a do investigador, com uma passagem de tempo e acontecimentos bastante verossímeis, logo após o investigador solucionar o crime utilizando a técnica de acusar um suspeito(a) de ser o mandante para que a pessoa que gosta dela e que teria cometido o crime de estupro e tentativa de homicídio confessasse que era o(a) criminoso(a) e apresentasse a prova que faltava. Já em Fetiche, a resolução continua na delimitação dos três suspeitos de matarem as modelos e cortarem seus pés, mas fica numa artimanha do(s) verdadeiro(s) criminoso(s) plantando provas naquele que não teria cometido o crime para deixar um rastro de dúvida no pensamento do investigador Nestor e do delegado Weber. Solução que deve ter sido bastante pensada pela autora, mas um pouco simplista, na modesta opinião deste resenhista, para um livro do gênero policial. Placar de 4 a 2 para o livro de Gerbase.

PLACAR
Todos morrem no fim 4 x 2 Fetiche

VENCEDOR
Todos morrem no fim, de Carlos Gerbase

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4 respostas para JOGO 16 – Todos morrem no fim x Fetiche

  1. Resenha simplesmente brilhante. Deu-me vontade de ir agora comprar os dois livros.

  2. Tenho o livro da Carina aqui comigo, na minha pequena fila de cento e trinta e poucos livros pra ler. Acho que Fetiche furou algumas posições na fila depois de ter encarado tão bem o livro do Gerbase.

    P.S.: Finalmente uma partida entre dois times de um mesmo tipo de “esporte”. Policial contra policial. Já tava cansado de ver tênis contra handebol, golfe contra biriba, fliperama contra jogo de damas, hehehe.

  3. Carina Luft disse:

    Resenha genial! Elegantemente bem elaborada.

  4. Bah, como é bom ler um resenhista desses. Claro e com os argumentos sólidos de quem tem grande vivência como leitor. Só faltou cantar, o Luiz Gonzaga.

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