JOGO 17 – Suíte dama da noite x Arquimedes

JOGO 17

Suíte dama da noite,
de Manoela Sawitzki
(Record / 2009)
x
Arquimedes,
de Athos Ronaldo Miralha da Cunha & outros (Movimento / 2010)

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JUÍZA
Magali Lippert – É Bacharel em Biblioteconomia (UFRGS), Mestre em Comunicação e Informação (UFRGS), Doutoranda em Literatura Brasileira (UFRGS), professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS/Campus Porto Alegre) e idealizadora dos Encontros Literários do SESC/RS.

O jogo

As obras Suíte dama da noite, de Manoela Sawitzki, e Arquimedes, romance coletivo organizado por Athos Ronaldo Miralha da Cunha, já, de início, impressionam pela apresentação: bela capa e boa encadernação (embora a de Suíte dama da noite seja mais luxuosa, vantagem de publicar por uma grande editora como a Record). Ambas tiveram, sem dúvida, um projeto gráfico bem pensado.

Quanto aos autores, Manoela Sawitzki, autora também de Nuvens de Magalhães (Mercado Aberto) e já conhecida em meios literários, publicou Suíte dama da noite por uma editora cuja inserção nacional coloca essa jovem e promissora autora em vantagem em termos de popularidade, tendo em vista que a boa distribuição de uma obra em livrarias e a inserção do nome de um escritor na mídia (prática comum de divulgação da Record) eleva a possibilidade de ser lido. Já o romance coletivo organizado por Athos Ronaldo Miralha da Cunha conta com alguns nomes já conhecidos da literatura gaúcha, o que lhe confere credibilidade imediata, embora a publicação por uma editora menor (Movimento) e normalmente a necessidade de financiar a obra (já que boa parte das editoras desse porte não as financia) limita a distribuição e a divulgação do livro.

O jogo inicia com Suíte dama da noite, de Manoela Sawitzki. A narrativa é em terceira pessoa com reflexões em primeira, mas sempre feita de forma delimitada, demonstrando que a autora possui domínio sobre seu narrador, já configurando um gol de placa. A autora arma uma trama que irá despertar a curiosidade do leitor e segurá-lo até o fim da narrativa. É impossível não se envolver, entramos num jogo de mentiras, encontros, desencontros, euforia e depressão, nos sentimos Júlia Capovilla, a personagem principal, mas não da forma medíocre como algumas cronistas de jornal fazem com que nos identifiquemos com suas personagens ou com elas próprias. Manoela constrói uma personagem única, pois Júlia é, em tempo integral, o que fomos ou poderíamos ter sido por alguns momentos… ela vive no limite, num atordoamento constante…

Suíte dama da noite tem ritmo. Faltou um pouco mais de experiência para Manoela tornar seu texto uma prosa poética plena, mas sem dúvida ela ainda vai chegar lá! De qualquer forma, há no texto uma sensibilidade aguda, metáforas ricas e uma linguagem de muito bom gosto. A experiência de vida/amor/dor da personagem principal é vista por dentro, o leitor se depara com uma série de confrontos: entrega ou fuga, vida ou morte, verdade ou mentira…

O narrador começa descrevendo os preparativos de Júlia Capovilla para ir a um velório. Só mais adiante no texto será possível compreender a importância do personagem morto para a personagem principal. Quando a narrativa parece encerrada, a autora toma um novo fôlego e promove o recomeço da personagem. A história começa melancólica, triste, logo vai se intensificando, torna-se intensa para novamente parar… a organização da narrativa é semelhante à bipolaridade da personagem Júlia Capovilla: depressão/euforia/depressão. O final da obra possui um ritmo alucinado, é como se estivéssemos no meio de uma rave. Júlia gira, faz loucuras e nós, meros leitores, a acompanhamos meio tontos, confusos, sedentos, numa espécie de frenesi, cheios de medo, pois há muitos riscos… e ela vence, e ela perde, e ela volta a vencer, e ficamos imaginando quantas vezes voltará a perder…

Quanto a Arquimedes, também surpreendeu, isto porque todos sabemos a complexidade envolvida na criação de um romance coletivo. A obra trata de um dia na vida do professor de física Arquimedes. Os autores conseguiram concentrar em um dia desde as angústias e ansiedade do jovem professor de pouco mais de 30 anos (que se acha velho) até questões curiosas sobre a atuação dos militantes políticos de Santa Maria durante a ditadura militar. O dia é 16 de junho de 1978.

O problema de um romance coletivo é a expectativa que um dos autores pode causar no leitor e que, às vezes, acaba sendo frustrada pelo autor que escreve o capítulo seguinte. E isso acontece bastante em Arquimedes. O enredo é bom, mas a descontinuidade do raciocínio frustra o leitor. O quinto capítulo, escrito por Orlando Fonseca, é de qualidade e a sequência anima, o sexto e o sétimo capítulo mantêm o nível elevado da narrativa, mas os dois últimos, talvez por terem a responsabilidade de resolver a trama, perdem-se em devaneios que tentam dar ritmo e poeticidade à narrativa, e em parte até conseguem, mas não era o momento para isso… era o momento da conclusão, de sabermos de fato o que aconteceu no fim do dia daquele personagem interessante, enigmático e que ao longo da narrativa foi ficando desorientado… a impressão é que ficou faltando mais um capítulo… ou talvez a alteração na ordem dos capítulos resolvesse. Enfim, o time precisava ter jogado um pouco mais.

PLACAR
Suíte dama da noite 3 x 1 Arquimedes

VENCEDOR
Suíte dama da noite, de Manoela Sawitzki

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6 respostas para JOGO 17 – Suíte dama da noite x Arquimedes

  1. Athos Ronaldo Miralha da Cunha disse:

    Evidentemente, que quando saiu a tabela dos jogos desse gauchão, no outro dia adquiri o “Suíte dama da noite” e li com atenção redobrada. Afinal, como competidor temos que conhecer o adversário.
    Manoela desenvolve com muita destreza e técnica literária a sua trama. Construiu uma personagem instigante e que mexe com a nossa imaginação. Comentei com a “Turma do café” que o jogo seria muito difícil, pois o time “Suíte” jogava uma bola redondinha. E entendo como merecida a vitória.

    Nós, aqui da Boca do Monte, já publicamos quatro livros pela editora Movimento.
    “Os dez mandamentos” romance coletivo com dez autores.
    “A frase do doutor Raimundo” livro de contos coletivos com quatro autores.
    “Arquimedes” romance coletivo com oito autores.
    “Milongueiro” livro de contos coletivos com quatro autores.
    Em todas essas empreitadas literárias eu fui o representante dos autores junto à editora, e nunca, em nenhum momento sequer, o Appel – diretor a editora – ventilou a hipótese ou propôs que bancássemos a edição. Assim, gostaria de contrapor a insinuação da juíza acerca das finanças da edição. Gostaria de clarear essa questão. Até pode ser corriqueiro, mas não foi o nosso caso.

    A mim, pareceu que a juíza nunca leu James Joyce, mas acho que não vem ao caso. Ou vem?

    Por fim, deixo um abraço à Manoela – que não conheço pessoalmente – e tenho a certeza que “Suíte” vai incomodar muitos times com jogadores consagrados. Sucesso guria.

    • Salvatierra disse:

      Pois é, camarada Athos. Quando a juíza Magali falou q, no final, ao invés de concluir a trama, os últimos capítulos se perdem em devaneio, pensei… mas esse livro coletivo não é uma homenagem a Ulisses? E Ulisses não segue à risca a mesma estratégia narrativa?
      Talvez a juíza não tivesse lido Ulisses ou não desse bola para a proposta do livro.
      A pergunta: Athos & cia., ao escrever esse livro coletivo, almejavam encantar apenas os fanáticos por Joyce? Ou queriam atingir o leitor comum?

    • Magali Lippert disse:

      Athos,
      que bom que vocês não precisaram bancar a edição!!! Acho fantástico, é raríssimo atualmente! Escrevi justamente porque acho triste bons escritores terem de financiar suas obras… e acredite: fazia muiiiito tempo que não ouvia alguém afirmar que a editora (principamente pequena) bancou! Maravilha!
      Qto a Joyce, sinto muito, mas a obra avaliada e comparada a “Suíte Dama da Noite” era “Arquimedes”, escrita pelo grupo, independente das referências, que são inúmeras também em “Suíte”. Sobre as minhas leituras, ainda sou jovem… apesar do meu belo currículo… daqui a 20 anos terei lido bem mais, eu garanto!

  2. Manoela Sawitzki disse:

    Primeiro, muito humildemente, faço um mea culpa: não conhecia o Campeonato. Foi o Google (o Google!!) que me alertou ontem sobre ele. (que vergonha, Manoela, que vergonha…).

    Achei tão curioso o projeto que até agora não consegui entender como podia desconhecê-lo.
    E já que estou recém chegando (da mesma forma que aterrissei há pouco no mundo do futebol, ainda não sei muito bem o que fazer com as mãos durante os jogos, e vivo trocando os nomes do jogadores), vou me familiarizar com o espaço, a ideia e as regras antes de pensar em dar pitaco.

    Athos, não li o livro de vocês, mas gostaria. A proposta e a experiência de Arquimedes me interessaram. Será que consigo encontrá-lo no Rio?

    (Posso falar com a juíza?!) Magali, gostei muito da tua análise. E fiquei contente por você ter se dado bem com a Júlia. Às vezes ela é um pouco difícil…

    Vou acompanhar tudo mais de perto.
    Abraços

    • Lu Thomé disse:

      Oi Manoela! Seja bem-vinda! Um dos destaques positivos da segunda edição do Gauchão está sendo a participação efetiva dos autores. Muito bacana! Abraço!

  3. J.J. disse:

    Pois é meus caros Tenho acompanhado à distancia esse debate que vocês fazem aí no sul do Brasil Particularmente acho meio estranho esse campeonato mas tudo bem tudo pela literatura Eu tive uma pequena participação nessa brochura do Arquimedes Fiz porque estou sem publicar há muito tempo e era o que tinha para o momento Mas gostei da minha participação e reconheço que sou uma leitura difícil O Arquimedes foi escrito em 30 meses e em compensação eu levei 7 anos para escrever Ulisses Por falar em Ulisses aproveito a oportunidade e convido a todos para participarem do Bloomsday em Santa Maria no bar Ponto de Cinema e na Cesma no dia 16 de junho de 2012 Aliás a Cesma que é um Centro Cultural foi criada num 16 de junho só que é 78 Vou ficando por aqui volto em outra oportunidade em que vocês quiserem me homenagear Com licença que eu vou tomar uma Guinness Draught T+ como dizem os jovens de hoje

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