JOGO 18 – Desculpem, sou novo aqui x Uma leve simetria

JOGO 18

Desculpem, sou novo aqui,
de Carlos Moraes (Record / 2009)
x
Uma leve simetria,
de Rafael Bán Jacobsen (Não Editora / 2009)

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JUIZ
Marco de Menezes – É poeta e editor, autor de Fim das coisas velhas (Prêmio Açorianos em Poesia e Livro do Ano 2010) e Ode Paranoide, entre outros. É sócio da Editora Modelo de Nuvem.

Observação do resenhista:

Jogo difícil, de muitos gols, dois grandes times, com a coincidência de serem autores que trabalham fundamente com a questão religiosa tangencial ao mundo dos seus personagens. Nada como um juiz ateu nestas horas.

O jogo

Desculpem, sou novo aqui | Carlos Moraes | Editora Record | 2009

A narrativa em tela mostra as vivências do protagonista João Silveira, recém-tornado ex-padre, preso político da ditadura, durante a chegada e os primeiros tempos deste na cidade de São Paulo, em meados dos anos 1970. A história contada são as desventuras do personagem em uma metrópole multifacetada e barulhenta – retratada pela ótica de João, homem marcado pelo pensamento religioso e pelos sentimentos de estranhamento em um mundo do qual não possui registro algum. Todo o manancial de experiências pelo qual passará o personagem tem a marca daquilo que é vivido pela primeira vez (da aquisição dos primeiros objetos materiais ao primeiro apartamento, da primeira atividade de trabalho ao enfrentamento de novas relações sociais e afetivas).

Volta e meia reverberando em seu pensamento estão as vozes dos amigos e parentes deixados no Rio Grande do Sul natal, com suas lembranças eivadas de mato, sangas, os modos de ser das gentes deste lugar, que se entrelaçam com as recordações dos tempos de seminário sob sentimentos religiosos fortes fundamentados na fé cristã.

Conhecedor do texto bíblico e da figura de Jesus, o protagonista encontrará seu primeiro trabalho em uma revista, onde atuará como redator de matérias principalmente de cunho religioso, e onde conviverá com uma galeria de tipos humanos/paulistanos retratados de modo sagaz e brilhante pelo autor. Desse meio, em parte, surgirão as primeiras expectativas de encontros amorosos, as quais desencadeiam no protagonista ansiedades e sensações perturbadoras novíssimas, o mais das vezes narradas com um humor fino (porém sempre tendo presente a pergunta sobre o mistério da existência e suas vicissitudes), o que faz um dos personagens apresentar a João como “um raro caso de ingênuo capaz de ironia”.

Essa voz narrativa bem-humorada e irônica/autoirônica é um dos pontos altos do romance, muito bem concatenada com o discurso coloquial, o uso de gírias e termos de época, além de referências tanto do universo popular quanto do erudito (“Pessoinha foi embora mais leve e eu me preparei para mais um domingo de Bach e Corinthians”). Época, aliás – outro ponto forte do livro – observada e descrita pelo autor-protagonista em um painel bastante rico do período pelo qual passava a cultura nacional de então, e na qual o personagem principal se deixará corajosamente mergulhar.

Uma leve simetria | Rafael Bán Jacobsen | Não Editora | 2009

Uma leve simetria, romance de Rafael Bán Jacobsen, é uma narrativa com capítulos breves sobre o apaixonamento na adolescência, tendo como atmosfera a vida cotidiana de uma comunidade judaica (com seus ritos e costumes descritos com beleza e detalhamento pelo autor) em uma cidade grande, possivelmente identificável com Porto Alegre. Conta a história de Daniel, jovem órfão cuidado por pessoas desta comunidade e com intensa vida religiosa na sinagoga local, enfrentando as forças caudalosas da paixão e do desvelamento amoroso da vida adolescente.

Seu melhor amigo, Pedro, vive com a mãe – pessoa influente na política religiosa local – e tem um pai que um dia, inexplicavelmente, desapareceu. Em determinado ponto do enredo, Daniel confessará seus sentimentos amorosos por Pedro, o que virá à tona e desencadeará principalmente reações hostis e de desprezo. A estrutura escolhida pelo autor – interpolando entre os capítulos a história da paixão bíblica entre Davi e Jonatã, de modo a criar um contraponto narrativo à história em si – está rigorosamente bem urdida, de modo que temos camadas de similitude e alteridade a conduzir o texto. No entanto, a boa ideia do enredo às vezes sofre pela mão pesada do autor quanto ao uso de um contingente excessivo de imagens poéticas, e um certo empolamento retórico no tratamento dessas imagens somado à linguagem pouco coloquial poderão criar algum obstáculo ao seguimento da leitura. Afinal, nem sempre é preciso que a água ou uma pedra ou um corredor, por exemplo, necessitem vir acompanhados de adjetivação marcada. Esse excesso – em minha opinião – pesa grande sobre todo o conjunto. Não se trata, evidentemente, de escrever mal – longe disso: é que o autor se excede no uso de adjetivos e metáforas que, elididos, poderiam dar mais frescor ao texto. Ponto para o projeto gráfico e a capa do livro, perfeitos e em sintonia com o conjunto.

PLACAR
Desculpem, sou novo aqui 4 x 3 Uma leve simetria

VENCEDOR
Desculpem, sou novo aqui, de Carlos Moraes

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18 respostas para JOGO 18 – Desculpem, sou novo aqui x Uma leve simetria

  1. Sergio disse:

    Que resenha bem pobre. De resenha tem pouco, é mais um resumão. Será que ele também acha que não é preciso fazer uma resenha?

    Como diria a Rosane, acho que o crítico nem leu os livros.

    Só espero que o autor derrotado não faça que nem a Rosane e chame os amigos para defendê-lo.

  2. Marco disse:

    Oi, Sérgio. Mas é claro que li os livros!!! que papo é esse? Não te conheço, mas o que posso te dizer é que lamento pelo comentário. Acho que uma resenha implica evidendemente em dar uma ideia geral do livro, mas procurei também apontar os elementos que mais me chamaram a atenção. Como não sou resenhista profissional (provavelmente tu sejas), fiz o que estava a meu alcance. Pobre é esse teu comentário, Sérgio.

    • Homero Jucceni disse:

      Lamentável que um árbitro se posicione aqui sobre os comentários de um leitor. Mais ainda nesses termos. Há que se exercitar a humildade, meu jovem.

    • Sergio disse:

      Marco, meu comentário só faz sentido para quem acompanhou a polêmica do jogo da Rosane.

      Só quis dizer que, excluindo o resumão, o que sobrou aqui foram poucos parágrafos de resenha, como foi o caso da resenha daquele jogo.

      Achei que poderia desenvolver bem mais, só isso.

      E não sou resenhista profissional, apenas um modesto estudante de Letras.

  3. Gertrude disse:

    Pelo jeito eu não li a mesma resenha que o Sergio. Comentário pobrinho, pô. Gosto da resenha pq justamente ela traçou paralelos entre os dois livros (e o Marco fez isso bem), coisa que pode até ser mais difícil para outros juízes.

  4. Claudio disse:

    Não cheguei a nenhuma conclusão, mas alguns comentários parecem indicar que o nível das resenhas piorou. Mas juiz tentar esculachar o comentário é demais, não? Aceite o que for dito, esteja certo ou errado. Se há espaço para isso, que se use e quem apita que aceite o veredito.

    • Engraçada essa postura: o comentarista pode dizer o que quiser contra o árbitro, inclusive insinuar que ele julga sem conhecimento de causa, mas o árbitro tem de ouvir tais estultices e calar. De minha parte, prefiro sempre silenciar diante dos que me agridem com pobreza de argumentos (aliás, uma agressão gratuita busca exatamente superar a falta de bons argumentos), mas não aceito negar esse direito a quem quer se manifestar. Democracia não combina com unilateralidade. É estranho ter de lembrar isso, mas tem gente que ainda não aprendeu o básico.

  5. O juiz respondeu ao comentário – no que está no seu direito. Li os dois livros e posso asseverar que o Marco também os leu, pelo que comenta no seu texto. Achei um texto bastante equilibrado, dá uma ideia geral de enredo mas também avança sobre considerações de linguagem, estrutura, montagem. O único reparo que eu faria seria que o juiz não detalhou um por um os gols que atribuiu ao certame, mas ficou claro por que ele escolheu um em detrimento do outro.

  6. Marco disse:

    Pessoal, desculpem a minha rispidez no comentário. Só achei que deveria responder, principalmente em consideração aos livros lidos e resenhados. E concordo com o Carlos André: eu poderia ter explicitado o resultado gol a gol. Abraço a todos.

  7. Lu Thomé disse:

    Gente! Vamos acalmar os ânimos nesse jogo 18! Em primeiro lugar, quero ressaltar o seguinte: toda e qualquer pessoa tem TODO o direito de se manifestar no Gauchão. Comentarista/leitor, autor/time ou juiz (até os organizadores, embora muitos não gostem). Defendo (e sempre defenderei) o direito dos juízes se manifestarem aqui. Acho que o Marco pode ter se sentido desconfortável (como eu me senti) com o primeiro comentário. Ficou claro que ele leu, sim, os livros (a acusação não tem fundamento). Eu não tenho dúvidas sobre isso. E expôs seus argumentos. Alguém quer contestar? Sinta-se à vontade para fazer isso. Mas não vamos expulsar os juízes da caixa de comentários. OK?

  8. Djegovsky disse:

    Como fui expulso (censurado) da Copa de Literatura nacional quando comentei sobre um dos concorrentes deste jogo, vou me abster de quaisquer comentarios aqui.
    (mas que gosto de ver uma briga na torcida, eu gosto)

  9. Djegovsky disse:

    Ah, sugestao para o proximo campeonato (ou antes do proximo):
    Campeonato de Capas!

    • Gertrude disse:

      kkkkkkkkkkkkkk. Po adorei Djegovsky. Vou propor outra premiação tb (pode até ser pra essa edição): melhores comentaristas, nas categorias “Mimimi” e “Fake”. Já aviso tô me candidatando nessa segunda aí. Vota em mim, povo!

      • Djegovsky disse:

        Mas e` serio.
        Ainda mais que muitos juizes comentam as capas (obrigacao contratual, pelo visto) e aparentemente julgam os livros pelas capas e ate` pelo papel, o que acho meio injusto. O critico reclama da dificuldade de ler em papel branco, e ja comeca com ma vontade. Poxa, isso e` irrelevante para a obra em si. Ja li Kafka em edicoes pobrissimas e Pablo Conejo em luxuosa capa dura (essa e`mentira). Parece que ha alguma confusao em se definir livro como obra artistica ou como projeto editorial.
        Ao mesmo tempo, se perde o trabalho de muitos bons capistas, que ficam a margem da competicao.

        • Robertson Frizero disse:

          Foi um pedido da organização que os juízes comentassem o projeto gráfico.

          • Sharon Caleffi disse:

            Eu estava com essa mesma dúvida que o Djego… também acho irrelevante a cor do papel e o que está na capa.

          • Djegovsky disse:

            Sim, isso eh evidente (tanto que comentei acima).
            A questao eh que alguns valorizam demais esse aspecto, dando pontos que nao tem nada a ver com a obra em si, e que nao eh responsabilidade do autor. Voltando as infames metaforas futebolisticas, seria como um time ja sair ganhando pois tem o uniforme mais bonito. Insistindo ainda: camisa nao ganha jogo.

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