JOGO 22 – Os Getka x Correntezas

JOGO 22

Os Getka,
de Letícia Wierzchowski (Record / 2010)
x
Correntezas,
de Pedro Câncio (Libretos / 2009)

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JUIZ
Robertson Frizero
– É mestre em Letras pela PUCRS, escritor e tradutor. Foi gestor cultural da Editora 8INVERSO entre 2009 e 2011, editora para a qual organizou e traduziu dois títulos finalistas do Prêmio Açorianos de Literatura. Por que o Elvis não latiu? (8INVERSO, 2010), sua estreia como autor, foi eleito um dos 30 melhores títulos infantis do ano pela Revista Crescer. É colunista do site Artistas Gaúchos e professor em oficinas de literatura na Sapere Aude! Livros.

Blog: Locutório (http://locutoriodofrizero.blogspot.com)
Twitter: @frizero

O jogo

A literatura não é um jogo – ao menos, não é uma competição entre escritores. É um jogo entre autores e leitores, no qual o bom resultado traz sempre dois vencedores: um autor que conseguiu conduzir o leitor até o efeito emocional desejado e um leitor que saiu de tal experiência com algo novo, proporcionado pela leitura. Quase todas as vezes em que a literatura – melhor seria dizer, o mundo literário – limitou-se à disputa entre escritores, o resultado foi um afastamento mesquinho do que deveria ser seu mais importante papel: a percepção da natureza humana por um olhar distinto do compartilhado pelo senso comum.

Mas o Campeonato Gaúcho de Literatura é uma disputa na qual dois livros – e dois autores – são confrontados, para deleite da arquibancada de futuros leitores, ávidos por novidades. E para que a disputa funcione a contento, somos nós, os árbitros, quem devemos indicar ao público um vencedor – e um único vencedor, sem empates, sem a mínima chance de prorrogação. Confesso que a função de árbitro é tentadora – o poder nas mãos do crítico, a possibilidade de fazer um romance seguir na disputa ou não –, mas, em um país como o nosso, no qual a crítica literária muitas vezes se confunde com uma fogueira de vaidades, na qual o crítico parece tão-somente querer mostrar mais conhecimento que seus leitores, entro humilde em campo, vestido de preto, apito na mão, para respeitosamente analisar dois romances sem perder de vista o fato de que estão diante de mim dois times que treinaram muito até chegarem à corajosa entrega de se apresentarem aos olhos da torcida, com inúmeros jogos a disputar a cada leitor.

Coube a mim avaliar o embate entre Correntezas, de Pedro Câncio (Libretos, 2009) e Os Getka, de Letícia Wierzchowski (Record, 2010), dois livros díspares nos cenários que visitam e nos artifícios que usam para cativar o leitor para que acompanhe suas histórias. Antes de entrar no conteúdo das obras, vale a pena tecer breves palavras sobre os “uniformes” dos times: a edição da Record para Os Getka é correta, com bom acabamento, foto de capa coerente à história, uma fonte tipográfica de fácil leitura, mas sem nenhuma inventividade que mereça mais comentários; a edição da Libretos para Correntezas parece abraçar o universo do livro, com as acertadas opções pelo uso de papel reciclado e de uma foto de capa que reforçam o imaginário da narrativa, ligado à natureza quase intocada – mas a edição é prejudicada por uma escolha infeliz da fonte tipográfica e um glossário ao final do romance com termos que parecem de desnecessária explicação, assim como soa deslocado o texto explicativo academicista inserido pelo autor no início do livro, remetendo-se à obra que o leitor ainda não leu e nada acrescentando à fruição da leitura.

O tom do texto de abertura de Correntezas, que parece ser a estreia do autor na literatura, anuncia a primeira bola fora do romance de Câncio: a presença muito forte do autor onisciente intruso, que neste caso atrapalha a leitura, imprimindo um perigoso rallentando no ritmo narrativo. Isso já se nota nas primeiras páginas do romance: de uma frase na qual a protagonista surge ainda inominada – (…) ela olhava firme apoiada nos ventos gelados que lhe açoitavam por inteiro (…) –, o autor abandona sua personagem e começa a discorrer sobre o vento, personificando seu som como uma queixa e daí partindo para elucubrações filosóficas acerca do confronto entre natureza e humanidade, de questionável relevância; ele apresentará sua Paulina apenas na página seguinte, em um bloco de descrição bastante convencional, também entremeado por reflexões que talvez funcionassem como aforismos, mas pouco ajudam uma narrativa longa.

Outra bola fora de Correntezas é o uso confuso das marcações de diálogos. Em vários trechos do livro, o leitor perde-se entre o que é narrativa e o que é fala direta, ou sobre quem está a se pronunciar naquele momento – já que não há grande diferença entre a voz do narrador e a das personagens. Há falas desnecessárias, também, por pouco acrescentarem à história – algumas, aliás, que não pertencem a personagem algum, mas sim expressam o pensamento do homem comum diante das digressões filosóficas do autor-narrador.

A linguagem do livro é sempre gramaticalmente correta, mas rebuscada, pouco adequada a um romance que se passa no interior do Rio Grande do Sul, às margens dos rios Uruguai e Ibicuí, e que pretende mostrar a força telúrica da protagonista diante das adversidades da vida. Há trechos em que se chocam as expressões gauchescas e um linguajar que lembra textos acadêmicos das Ciências Sociais:

(…) Ali nasceram os dois guris. Paulina e os filhos são a base de um grupo social de pouca movimentação interna (…),

ou ainda,

(…) É a permanência de um curioso jogo entre o que foi, o que é e o que deve continuar a ser. É o tempo cronológico que passa paralelo com o tempo psicológico, aliando-se ao emotivo que teima em permanecer. Os fatores humanos sobrevivem em si mesmos, sem que haja alteração nos seus elementos essenciais.

E não poderia deixar de mostrar esta fala de um dos filhos de Paulina em um diálogo travado com o irmão enquanto “desgalhavam as árvores derrubadas” para a construção de uma jangada:

– Martim, te toca, Martim! – afirmou André – Os seres vivos se organizam por grupos. Cada grupo possui características de organização e relacionamentos específicos, próprios da necessidade dos seus componentes. Tais fatos são diferentes de um grupo para outro. A natureza é um corpo surpreendente. Aquele que pensa que a ela domina está fadado a ser auto-humilhado. Quando menos espera, ele reage e paf! É apenas mais um que quebra a cara.

Ao qual se segue um parágrafo no qual o autor onisciente intruso discorre sobre o “homem em processo de autodestruição” e que me abstenho de reproduzir aqui, considerando já ter bem exemplificadas as minhas observações.

A história de Paulina quase se perde para o leitor em meio a longas digressões como essas. Por vezes, há a sensação de se estar lendo parágrafos dispersos e não um fluxo narrativo contínuo. Ou, como na passagem do capítulo dois aos três, a de que o livro retoma o que já foi dito e que ali poderia ser iniciado o romance, sem grandes perdas. O autor ainda titubeia entre o uso do presente e do passado nos trechos narrativos, tornando por vezes confusa a leitura. Em meio a todos esses tropeços, sobra pouco espaço para o leitor se interessar pela história dessa mulher “de origem paraguaia e fisionomia guarani” que vê morrerem filha, genro, neto, cachorro e papagaio – literalmente – enquanto vê a vida passar como um rio caudaloso e lento…  Há que se ressaltar o profundo e extenso trabalho de pesquisa do autor que parece ter precedido a escrita do romance – o texto é rico em referências à natureza peculiar do cenário escolhido para a história, aos costumes locais, à vida nas estâncias, à região de Uruguaiana, ao regime de águas dos dois rios que banham o lugar –, mas a precisão das descrições não sustenta uma história que carece até mesmo de um grande conflito que motive o leitor a perseverar na leitura.

Os Getka tem alguns de seus pontos fortes justamente no que Correntezas apresenta de fraco e impreciso. Letícia Wierzchowski, autora de mais de 16 livros de ficção que já alcançam leitores em traduções para outros idiomas, apresenta-nos um convincente narrador em primeira pessoa – Andrzej, um escritor muito seguro dos rumos que deseja dar à narrativa. Frases como a que encontramos na primeira página do livro – Fiquei muito tempo sem ter notícias dela, e agora tudo isso. – lançam o leitor na deliciosa vontade de saber mais sobre o narrador-protagonista e sobre a mulher a quem ele revisita em suas lembranças de infância. E nada demora a surgir na trama: já na segunda página, surgirá o nome Lylia Getka, e a descrição da personagem circunstanciada pelas ações passadas e por relances de memória do narrador, sem que a narrativa sofra alterações rítmicas significativas – um ritmo, aliás, constante e equilibrado, que vai revelando aos poucos a história que liga Andrzej e Lylia.

A linguagem usada no livro – direta, sem floreios e precisa, com raras exceções – ajuda a conduzir o leitor pelos pensamentos de Andrzej. Aliás, percebe-se bem a voz de um narrador masculino em primeira pessoa, com as características da personagem estabelecidas ao longo do texto – no que parabenizo o trabalho da autora. Ainda assim, há alguns momentos em que a autora transita entre o uso do presente e do passado na narrativa em primeira pessoa, sem motivos aparentes para tal.

Louvável também a forma como a autora caracteriza-nos a ambiência das duas famílias polonesas sem que o texto se transforme em um inventário da imigração; para tal, ela cria pequenos estranhamentos para o leitor nos nomes, nas formas de tratamento, ou em algumas palavras e costumes próprios daquela etnia, sem que o leitor precise recorrer a um glossário para compreender o que se passa. Incomodaram-me mais, como leitor, certos excessos no uso de reticências e onomatopeias.

bolas fora no livro – na cena da descoberta do amor entre os dois, por exemplo, o protagonista “tinha nove anos”, mas duas páginas depois, na mesma cena, torna-se “um tolo garoto de dez anos”; no final de um dos capítulos, o reforço vazio e experimentalista de algo dito antes:

Antes de dormir, repito várias vezes aquela palavra estranha pronunciada pela Sra. Getka, e que ficou dançando dentro da minha cabeça:
– 
Umschlagplatz.
Umschlagplatz. Umschlagplatz. Umschlagplatz. Umschlagplaz. Umschlagpla. Chlagp. Lagpla. Umsch. Um.

Mas esses problemas não comprometem a fruição da leitura, nem a história que se constrói aos poucos, em narrativa segura. Letícia Wierzchowski sabe guardar os trunfos de sua história para apresentá-los aos poucos ao leitor. O passado dos Getka, a família com quem os pais de Andrzej sempre compartilhavam o verão, só surgirá na metade do livro, e com grande efeito para a trama. Essa, aliás, é bem desenhada por linhas temporais que se revezam e entrelaçam – o presente narrativo, a infância de Andrzej e Lylia e o reencontro dos dois já adultos são alguns desses tempos que se complementam na narrativa. Lamento, contudo, a ausência de um clímax narrativo mais forte, embora considere a última cena um belo desfecho para o livro.

Sem ter me entusiasmado vivamente por nenhum dos dois títulos, a vitória de Os Getka é clara por apresentar uma autora mais consciente de sua escrita. Torço para que o placar favorável a ela não tire a vontade do autor de Correntezas de seguir escrevendo, já que a prática constante e a capacidade de reinventar-se são as qualidades que constroem os grandes escritores.

PLACAR
Os Getka 4 x 1 Correntezas

VENCEDOR
Os Getka
, de Letícia Wierzchowski

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5 respostas para JOGO 22 – Os Getka x Correntezas

  1. Homero Jucceni disse:

    Esse juiz com certeza leu os dois livros do início ao fim. Fiquei com pena dele, porque o “Correntezas” parece ser bem ruim…

  2. Claudio disse:

    Não li “Correntezas”, mas me incomoda, em Leticia Wierzchowski, o uso abusivo de clichês. É demais. Num romance é quase incontornável espalhar alguns. O problema é a quantidade de frases-feitas. Poucas vezes vi tantas, fora dos best-sellers habituais, norte-americanos.

    • Homero Jucceni disse:

      Mas o Gauchão é uma disputa de dois times. Vai que esse jogo aqui é uma daquelas peladas de várzea… Mesmo assim, o juiz tem que escolher um vencedor…

  3. Marcos Columbelli disse:

    O juiz escreve “Sem ter me entusiasmado vivamente por nenhum dos dois títulos” e mesmo assim analisa os dois livros no detalhe. Gostei. Só não sei se quero ler nenhum dos dois. Mas a resenha ajudou a decidir pela não-leitura.

  4. Se todos tivessem a oportunidade de escolher os livros e fazer uma crítica monstruosa (no bom sentido) a um Eça de Queirós, por exemplo, teriam também os críticos que ser avaliados por alguém do porte de Machado de Assis. Haveria um gaúchão da crítica literária!

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