JOGO 24 – Só as mulheres e as baratas sobreviverão x Sob o Céu de Agosto

JOGO 24

Só as mulheres e as baratas sobreviverão,
de Claudia Tajes (L&PM / 2009)
x
Sob o Céu de Agosto,
de Gustavo Machado (Dublinense / 2010)

—————
—————

JUIZ
Marlon de Almeida
– Poeta, vencedor do Prêmio AGEs de Literatura 2009 com Prosa do mar, doutor em Letras pela UFRGS. Foi também três vezes finalista do Prêmio Açorianos de Literatura, como o Abel Braga o foi do campeonato brasileiro de futebol, antes de ser Campeão da Libertadores da América com o Internacional de 2006.

O jogo

No princípio, foi a umidade. Depois, o frio e o mau cheiro, a escuridão e o corpo moído. Assim começa Sob o Céu de Agosto, livro do estreante Gustavo Machado contra a tarimbada Claudia Tajes. Começa antes: sobre foto de Marcelo Acosta, a capa de Samir  Machado de Machado integra-se perfeitamente ao projeto gráfico de Évelyn Bisconsin, permitindo ao leitor boa antecipação do clima da obra, seja pelos elementos que lhe dão roupagem, seja pela escolha certeira de sintaxe e semântica da frase inicial.

E o livro não decepciona, porque mantém o ritmo ao longo de seus 21 e breves capítulos:  sem perda de fôlego, prende o leitor à sequência narrativa, fazendo-o rir com as peripécias do protagonista e preocupar-se com sua sorte nas passagens mais tensas.

Já a obra de Claudia Tajes – embalada com capa em parceria de Ivan Pinheiro Machado com o ilustrador Gilmar Fraga – assim começa:

Eu tenho um vestido preto que já vai sozinho para as festas e jantares para os quais me convidam.

Com esse pontapé inicial, o adversário de Sob o Céu de Agosto também nos antecipa a que veio: divertir o leitor, e o consegue, mantendo bom ritmo, garantido por uma dicção habilmente articulada em frases, parágrafos e capítulos curtos e envolventes.

As diferenças básicas entre os contendores: Gustavo propõe-se a contar uma boa história de um tipo de suspense urbano já comum às nossas letras (jogam nesse mesmo tipo gente como Daniel Galera, Marcelo Carneiro da Cunha, Reginaldo Pujol Filho, Pedro Gonzaga, Altair Martins), com elementos que podem lembrar o humor sarcástico de um Bukowski, ou o humor ferino de um Updike, para citar apenas duas das maiores influências americanas na escrita contemporânea.

Enquanto isso, Claudia prefere um humor mais leve (e por isso mesmo mais superficial) e descomprometido, sem instar o leitor a grandes reflexões, preferindo a empatia como possibilidade de compartilhar a coisa humana.

Nessa tentativa de apontar derivações das obras, a considerar também a concepção do narrador: de um lado, o mundo masculino de um solteiro na cidade grande está muito bem representado pelo protagonista de Gustavo; de outro, o mundo feminino na figura da igualmente bem estruturada protagonista solteira de Claudia. Em ambos, o mesmo anseio, a modos diferentes, de viver em um mundo de desencantadas atrações, mas sem as quais se perde o encanto de viver.

No fim e ao cabo, as duas narrativas se sustentam em dois pilares: linguagem ágil, emoldurada pela competente superposição dos planos narrativos e seus pontos de corte (lembrando certa técnica cinematográfica muito em voga nos dias de hoje, de Polanski a Tarantino), e personagens convincentes.

A considerável diferença a favor de Sob o Céu de Agosto está no nível de complexidade da trama, a qual compreende melhor a dinâmica das relações humanas em um cenário de matiz noir, lembrando, em alguns momentos, o melhor surrealismo (se o compreendermos como proposta estética de sobreposição da, digamos assim, fanstasmagoria do inconsciente) comum às graphic novels do entreguerras, e convidando o seu leitor à experiência sinestésica de ouvir jazz, assistir a um bom road movie e, de quebra, ler um ótimo livro ao mesmo tempo.

PLACAR
Só as mulheres e as baratas sobreviverão 1 x 3 Sob o Céu de Agosto

VENCEDOR
Sob o Céu de Agosto
, de Gustavo Machado

Anúncios
Esse post foi publicado em Jogo e marcado , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para JOGO 24 – Só as mulheres e as baratas sobreviverão x Sob o Céu de Agosto

  1. Homero Jucceni disse:

    A resenha foi sucinta, como pede uma resenha do Gauchão, mas talvez sucinta demais… Não conseguiu me empolgar com nenhum dos dois livros.

  2. Magali Lippert disse:

    Gostei da resenha… talvez os livros é que não sejam empolgantes…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s