JOGO 25 – Os espiões x A anatomia de Amanda

JOGO 25

Os espiões,
de Luis Fernando Verissimo (Objetiva / 2009)
x
A anatomia de Amanda,
de Hilda Simões Lopes (Juruá / 2009)

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JUIZ
Rafael R. – É formado em Letras e tem especialização em Gêneros do discurso pela Universidade Mackenzie. É autor do blog Casmurros (http://blogcasmurros.blogspot.com) e edita um fanzine de mesmo nome. Faz freelas de parecerista de vez em quando e está no twitter @casmurros.

O jogo

Todo mundo sabe que numa disputa como o Gauchão de Literatura tanto os livros quanto seus autores sempre contam com um pouco de sorte para além de seus atributos literários. Esse fator aleatório pode te colocar frente a um livro que já traz consigo uma trajetória de sucesso ou frente a um livro sobre o qual muita gente nunca ouviu falar. Para sorte ou azar dos autores, fui escolhido para ser o juiz da partida entre A anatomia de Amanda, de Hilda Simões Lopes, e Os espiões, de Luis Fernando Verissimo.

Se vocês leram as resenhas dos jogos anteriores, já sabem as histórias escondidas em A anatomia de Amanda e Os espiões. Portanto, vou poupá-los dessas explicações e partir do princípio que todos vocês sabem que estou falando da história de uma moça arrebatada pela leitura de A paixão segundo GH e de um sujeito que leva uma vida de tédio até se deparar com um livro misteriosamente confessional.

Por mais estranho que isso possa parecer, começo dizendo que os dois livros quando lidos em conjunto se complementam, embora sejam de estilos bastante diferentes. São dois livros com livros no enredo (com o perdão do trocadilho). E, nos dois casos, o tal livro na história foi responsável por uma grande transformação na vida das personagens.

A minha lista de coisas ficou mais comprida para A anatomia de Amanda. Por isso, quero falar mais detidamente sobre esse livro. Antes de mais nada, preciso contar uma historinha que serve para ilustrar muitas situações que vou dizer logo mais. Prometo não ser muito enfadonho.

Outro dia, vi um jovem escritor dizendo “não posso ler mais os livros de fulano porque me contamino e o imito”. Encontrar uma voz própria ou um jeito particular de escrever não é uma tarefa das mais fáceis. Naturalmente, a gente começa imitando aqueles escritores de que gosta. No entanto, ficar próximo demais das nossas influências ou de gente seminal pode ter uma consequência desastrosa: a esterilização criativa. Ou você fica bloqueado e não escreve nem mais uma linha, já que descobre que está fazendo tudo exatamente igual; ou, na pior das hipóteses, você desliga o superego e cria um pastiche que “não parece com nada e não lembra ninguém”.

Entendo que muitas vezes o escritor escolhe intencionalmente “imitar um jeito de escrever” para causar no leitor um certo efeito que ele pretende. Embora esse recurso esteja muito em voga na literatura contemporânea, não fomos nós que inventamos a roda. Só estamos fazendo-a girar. Como vocês estão carecas de saber, antigamente “imitar” era quase a mesma coisa que demonstrar admiração por aquele que era imitado, de maneira que muitos escritores da antiguidade clássica já faziam isso.

Na realidade, a grande questão moderna/pós-moderna não é “imitar”, mas ser original e inventivo. Quem opta por “imitar” tem de assumir os riscos e encontrar uma maneira de usar a “imitação” em benefício próprio. Copiar por copiar hoje em dia não vale quase nada. Um jovem escritor pode “imitar” um outro com a intenção de satirizar ou dialogar com aquele determinado estilo. Explico melhor: posso “imitar” a maneira de escrever de Guimarães Rosa para ironizar seu estilo. Mas também posso fazer a mesma coisa na tentativa de arrumar alguns desvios que me incomodam de modo a conversar com o seu texto e atualizá-lo no tempo. Estou falando aqui de maneira bem prosaica e evitando os termos técnicos.

As coisas podem parecer simples ditas dessa forma. Agora, pensem comigo: se já é difícil encontrar uma voz própria, imaginem manejar a voz alheia?

Eis a chave para entender o problema de A anatomia de Amanda. Fica nítida a impressão de que um enorme espectro de Clarice Lispector assombra o livro do começo ao fim. Hilda Simões Lopes não se apropriou da obra lispectoriana mais branda, preferiu a fase mais aguda da escritora e misturou num só livro quatro monólitos: Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, Água viva, A hora da estrela e A paixão segundo GH – sendo que esse último tem presença bem demarcada dentro do romance.

Volto ao meu jovem escritor do começo e digo tudo novamente de outra forma: Clarice Lispector é uma dessas escritoras cujo texto contamina seus leitores. É difícil resistir à sua voz e ao seu encantamento – seu estilo funciona como uma espécie de canto da sereia homérica, para usar uma metáfora bem gasta. Ao invés de ficar presa no mastro do navio, Hilda afrouxou as cordas e seguiu aquele belo canto até ser completamente devorada.

O leitor mais atento consegue perceber que a imitação do romance não se resume ao estilo da prosa de introspecção psicológica. Guardadas as devidas proporções, a trama de A anatomia… também tem um jeitão Clarice de ser. A relação amorosa de Amanda e Vinícius lembra muito o enredo de Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres. Há duas longas passagens em monólogo interior que parecem Água viva. As interferências do narrador são muito similares à voz de Rodrigo SM, em A hora da estrela. Tudo pode ficar mais claro quando lemos um trecho como esse: “Leitor, cheguei para me despedir, ficaremos páginas e páginas separados. Não, não vou embora, mas não conversaremos porque você estará dentro da cabeça de Amanda”.

Outro pecado: durante a leitura, tive a nítida impressão de que a construção do romance foi baseada numa enorme vontade de expressão. O narrador e as personagens deixam bem demarcada sua admiração divina pelo livro A paixão segundo GH; todos querem falar da falsa moral do mundo ainda que sejam imobilizados por ela; Amanda, Vinícius, Maura e o narrador amam tanto Paris a ponto de incluir na história todos os preciosos detalhes geográficos da cidade; e, por fim, eles acreditam que a arte e a filosofia são a salvação da humanidade e precisam contar isso para o mundo.

A confluência na voz do narrador e das personagens sem relativismo, sem variação, sem modulação, etc. faz com que todos pareçam frutos de uma visão maniqueísta do mundo – ainda que a intenção não seja essa.

Mesmo que a minha vontade de expressão resulte em boas histórias, preciso domá-la de modo que obedeça ao princípio de verossimilhança do universo ficcional. De outro modo, o texto pode se colar demais na realidade e virar um outro negócio. O leitor sabe perceber esse tipo de coisa quando está lendo e fica desconfiado, não se identifica com aquilo e pula fora da história. A vontade de expressar as coisas erradas do mundo por si só não é capaz de mantê-lo preso na leitura, ainda que ele concorde linha por linha com as coisas que estão sendo ditas.

É curioso que os próprios personagens façam interpretações livres do livro A paixão segundo GH, de Clarice Lispector. Amanda, Vinícius e Maura sofrem de uma paranoia permanente. Todas as pessoas ao redor deles são descritas como personagens de teatro que estão representando o tempo todo e julgando as atitudes uns dos outros. Acuados, eles buscam uma saída mergulhando nas águas profundas do estudo e esbarram em Clarice Lispector. Segundo o que eles entenderam, ela confirma essa visão de mundo quando fala das “máscaras” da barata e ensina através de uma experiência transcendente algumas verdades da vida.

Também encaro como um ponto fraco a Paris descrita com muitos excessos: nome das ruas, dos cafés, das lojas, etc. Por exemplo: “Ao final jantaram na Ile Saint Louis, no Tour d’Argent”. Não há nenhum problema em ambientar seus personagens num espaço com tanta riqueza de detalhes, mas será mesmo necessário nomear todas as coisas? O quanto isso pode contribuir para o desenvolvimento da história? Não seria melhor sugerir? No fim, ficamos com uma caricatura de Paris desenhada em traços românticos e encantadores.

Talvez o ponto positivo do livro tenha sido o narrador inquieto que faz inúmeras interferências, maneja a história para o passado e para o presente, do Brasil à França e da cabeça de uma para a de todas as outras personagens. Temos acesso direto até às cartas escritas por Amanda e pela tia que ela tanto admirou. Mas depois me lembro de Rodrigo SM, de outros famosos narradores e chego à conclusão de que esse jogo de cintura narrativo nem é tão precioso quanto pode parecer.

Agora, esqueçam tudo o que eu falei antes, pois com Os espiõesacontece exatamente igual só que ao contrário. Luis Fernando Verissimo soube dialogar e atualizar os clichês dos romances policiais e foi além, fez piada com frases lugares-comuns que a gente ouve aos montes nos botequins.

Há, no romance, duas intertextualidades bem evidentes que demonstram a experiência do autor ao “imitar” o estilo alheio relativizando as coisas.

A primeira intertextualidade está concentrada na história detetivesco-rocambolesca inspirada em algum livro do escritor John Le Carré – não é à toa que esse é o autor preferido do narrador-personagem. Só que o autor não se leva a sério a ponto de recriar com precisão o estilo de Le Carré. Acho até que Le Carré só está presente no livro porque seu nome foi citado.

A segunda intertextualidade acontece com o mito de Teseu. O herói grego enfrenta um Minotauro assustador e conta com a ajuda de sua musa, Ariadne, para sair do labirinto. O mito funciona como fio condutor do enredo em Os espiões, pois a autora do romance confessional que aparece dentro do livro também chama Ariadne e, tal qual acontece no mito, ela lança um fio narrativo que prende o herói (nesse caso, um bando de heróis de meia-tigela). O livro e o mito também dialogam de maneira despretensiosa. Não percebemos em nenhum momento a mão pesada do mito grego nem dos autores de romance policial de primeira linha.

Um ponto forte está no grande controle do enredo. A trama inicial dá origem a outras tramas, numa confusão tamanha que culmina num clímax catártico. Assim como o narrador-personagem e os frequentadores do bar do Espanhol, os leitores são instigados a desvendar a história que está por trás do livro de Ariadne – ela realmente nos prende por um fio no meio do labirinto.

As personagens não passam de pequenos tipos, mas elas não precisam de complexidade para o desenvolvimento do enredo. Como o tom do livro é cômico, os tipos funcionam bem.

Ainda há pouco, falei sobre ambientar as personagens num determinado espaço de modo sugerido. A cidade de Frondosa, no interior do Rio Grande do Sul, jamais existiu, e o narrador não precisa nos dizer isso. Como leitor, acreditamos naquilo que estamos lendo porque reconhecemos o bar, o ginásio de esportes, a praça, a sorveteria, o clube dos artistas, as casinhas, todos esses elementos reunidos ativam na nossa imaginação o espaço da cidadezinha do interior do Brasil – sem nenhum nome real.

Finda essa longa análise, só me resta declarar que nessa coisa de “imitar” aqui e ali como fazem os nossos escritores contemporâneos/pós-modernos, o livro do Verissimo certamente leva a melhor e marca cinco gols de placa: intertextualidade, controle do enredo, personagens, despretensão e bom humor. A anatomia de Amanda se esforçou bastante, mas ficou apenas com o gol “meio mandrake” do narrador inquieto.

PLACAR
Os espiões 5 x 1 A anatomia de Amanda

VENCEDOR
Os espiões, de Luis Fernando Verissimo

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5 respostas para JOGO 25 – Os espiões x A anatomia de Amanda

  1. Parabéns ao Rafael R. pelo magnífico voto. Insisto: Este campeonato está revelando uma geração de críticos e resenhistas que, certamente, vão dar o que falar na poética da crítica brasileira. Cumprimento os organizadores pelas escolhas.

  2. Cadorno Teles disse:

    Parabéns, cara! gostei do lance da jogada, não conhecia o teu blog, valeu!

  3. Athos Ronaldo Miralha da Cunha disse:

    Na minha opinião “Os espiões” é a melhor narrativa de LFV. A primeira frase do romance demonstra toda sua genialidade.

  4. Robertson Frizero disse:

    Boa resenha. Gostei. Interessei-me em ler o livro do Verissimo.

  5. Pena Cabreira disse:

    Boa. Disputar com o Veríssimo é sacanagem. Resenha ótima.

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