JOGO 27 – Dois passos antes da esquina x História de não acontecer

JOGO 27

Dois passos antes da esquina,
de Marcos Fernando Kirst (AGE / 2009)
x
História de não acontecer,
de Reges Schwaab (Modelo de Nuvem / 2010)

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JUIZ
Antônio Xerxenesky – É autor do romance Areia nos dentes (2008) e do volume de contos A página assombrada por fantasmas (2011). Já colaborou com textos para diversos jornais e suplementos, como Blog do Instituto Moreira Salles, O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, Veja.com, Vida Simples, Suplemento de Pernambuco, Revista Norte e outros. Edita, em parceria com Bruno Mattos, a revista Cadernos de Não Ficção.

O jogo

1.
Como é de praxe no Gauchão de Literatura, comenta-se, antes de mais nada, o projeto gráfico dos livros. Admito que, dessa vez, me sinto até meio constrangido de comentar. História de não acontecer, de Reges Schwaab (que, na minha cabeça, insisto em chamar de Marcel Schwob), segue o padrão da independente editora Modelo de Nuvem: uma edição elegante, com uma fotografia bem escolhida na capa e agradáveis páginas amarelinhas na parte interna. A Modelo de Nuvem prima pelo bom gosto em todos os aspectos: da “mancha de página” à escolha de fontes. Já Dois passos antes da esquina, de Marcos Fernando Kirst, poderia ter qualquer espécie de conteúdo. Com essa brega capa com brilho, não chamaria a atenção da mídia nem do leitor anônimo na livraria de modo algum. Para piorar a situação, ainda há um aviso na capa: “De acordo com a nova ortografia”! Uau, uma editora literária que cumpre sua obrigação! Que surpresa, preciso comprar urgentemente esse livro! E a parte interna, com suas páginas offset e suas… OK, OK, fiquei constrangido. Melhor parar de falar dos uniformes. Se fosse uma briga de projetos gráficos, o livro do Schwaab (Marcel Schwob) ganharia de 7 a 0. Ainda bem que o Gauchão discute o que está escrito nas páginas, e não o que está fora delas.

2.
Para constar: nunca tinha ouvido falar de Reges Schwaab (Marcel Schwob) ou de Marcos Fernando Kirst. Entrei virgem, por assim dizer, nos seus livros, sem saber o que esperar.

3.
Eu tenho um amigo que diz que chamamos de “experimental” aquele livro que tenta fazer algo diferente e não consegue emplacar. Um romance ruim do Bellatin com fotografias bizarras no meio do texto seria “experimental”, pois não passou disso, de um experimento. Já um sofisticado livro do Sebald, com o mesmo recurso fotográfico, não recebe o mesmo rótulo.

Não sei se concordo com meu amigo. Seja como for, “experimental” é uma maneira útil de chamar aquilo que foge do convencional, e, nesse sentido, História de não acontecer é um livro experimental desde a primeira página, na qual apresenta uma provocação (quase paródia) com O jogo da amarelinha. Transcrevo abaixo a página inicial:

Guia de leitura
Esta Obra está dividida em três partes assimétricas:
a)                 Começo e fim
b)                 Meio
c)                  Começo e fim
As partes devem ser lidas na ordem apresentada.
Obrigatoriamente.
A assimetria das partes nada quer dizer de relevante.

Chamar um livro de experimental não quer dizer que ele inova, claro. Todo mundo está cansado de ouvir que não há mais nada para se criar no mundo da literatura. Todo jogo metaficcional já está no Quixote de Cervantes (1605), todo experimentalismo gráfico já está no Shandy de Sterne (1759). Reges Schwaab (Marcel Schwob) apenas se afilia a uma tradição – vá lá – amalucada. O livro de Schwaab tem como parentes Cervantes, Sterne, o Machado de Memórias póstumas, Macedonio Fernández, o Cortázar do Jogo da amarelinha, Vidas imaginárias, de Marcel Schwob, e, por fim, o Bolaño de Amberes (mais sobre isso na próxima seção que deve começar… na próxima linha).

4.
Roberto Bolaño escreveu, acerca de Bartleby y compañía, de Enrique Vila-Matas: “Talvez estejamos diante de um romance do século XXI, ou seja, de um romance híbrido, que une o melhor do conto e do jornalismo e da crônica e do diário”. Para o chileno, o romance contemporâneo é, por definição, híbrido. E essa é a palavra adequada para tascar em História de não acontecer, de Marcel Schwob (Reges Schwaab), um romance fragmentado com marcas da poesia e do conto (como o próprio Amberes de Bolaño).

A trama de História de não acontecer não se revela na superfície. É preciso ler com atenção nas entrelinhas para espremer os eventos que ocorrem. O livro força o leitor a tentar se orientar por um labirinto de metáforas recorrentes (a espiral, o caracol) para dar sentido à história. E qual é o enredo? Bem. N.A. (que, por sinal, em inglês significa Not Available, i.e., “não disponível”), protagonista e herói kafkiano da história, após uma noite de sonhos intranquilos (não é fácil nascer), se encontra metamorfoseado em um horrível caracol. OK, OK, não é esse o enredo. Mas é uma leitura (intertextual, vá lá) possível do enredo sobre um garoto que, ao nascer, matou a mãe e obteve, assim, uma posição marginal no núcleo familiar pelo resto de sua vida.

(um possível resumo da trama: “A infância como uma coleção de horrores”)
(um possível paralelo entre este livro e uma HQ: Cicatrizes, de David Small)

Há deslizes, sim. Há um punhado de frases que destoam do conjunto, separações de parágrafos desnecessárias e algumas repetições explicativas que podiam ter sido suprimidas. Entre os poucos diálogos do livro, encontramos um muito artificial: “Você não existe. Não fale com ninguém. Nunca!” Não que o romance busque uma naturalidade, claro que não. Ainda assim, são arestas mal aparadas, que felizmente se dissolvem no meio de passagens interessantes e bonitas.

Um romance experimental que funciona. Talvez seja hora de falar do rival.

5.
É um salto um tanto chocante sair da leitura de História de não acontecer para mergulhar em Dois passos antes da esquina. Se o livro de Reges Schwob/Marcel Schwaab era todo fragmentado, como um quebra-cabeça esperando ser montado (um daqueles quebra-cabeças cheio de nuvens azuis que você nunca sabe qual peça encaixa em qual), o de Kirst se revela assustadoramente linear. A história se passa em poucos dias e avança dia a dia, hora a hora. Claro, há flashbacks nos quais Otto, o ex-militar idoso que é o protagonista da história, lembra-se de sua esposa recém-falecida. Apesar desse vaivém de lembranças, o leitor se encontra diante de um romance realista (na forma), com narrador onisciente (uma terceira pessoa com acesso à consciência de seu protagonista e que às vezes chega a falar por ele), linear, de ritmo às vezes contemplativo. É um livro que se movimenta de modo bastante similar ao romance A trégua, de Mario Benedetti, que acompanha a rotina de um homem viúvo após sua aposentadoria. Não importam tanto os acontecimentos na vida desses homens, e sim o quanto aprendemos sobre eles a partir de breves diálogos e de seus encontros com outros familiares e amigos.

Apesar de um evento carregado de mistério brotar ainda na parte inicial do romance (não darei spoilers – além disso, se você quiser uma descrição mais detalhada do enredo, veja a resenha anterior, que não tem porque eu repetir), a trama de Dois passos antes da esquina gira em torno de um centro vazio, que é a temática do luto. Deixar o livro cair num chororô ou em uma narrativa sem rumo são erros que qualquer amador cometeria nesse caso. E aí uma surpresa: apesar deste livro ser a estreia de Kirst no romance, o autor se revela pra lá de competente.

Assim como no livro de Schwaab, há diversas arestas a serem aparadas, em geral coisas que seriam corrigidas com uma edição (seja por parte do autor ou do editor) mais pesada. Frases que surgem para reforçar e explicitar o que já estava óbvio em um parágrafo se mostram o equívoco mais comum. O abuso do pretérito mais-que-perfeito apontado por Benvenutti em sua resenha é deveras deselegante. E, ainda assim, Kirst não pratica uma escrita empolada ou afetada. Ele dá vida e dimensão aos personagens. Como eu disse antes: é competente.

6.
A pergunta que deve ser feita: o que vale mais? Uma história sólida contada de modo competente ou um experimento que cai em alguns deslizes? Os times empatam, mas estamos no mata-mata, e a decisão terá de ser nos pênaltis. E nos pênaltis, prezados torcedores, o que importa não é tanto o talento dos jogadores, mas as emoções. Um Elano nervoso chuta a bola em direção à lua, como todos sabem. De modo similar, nos pênaltis desta disputa literária, caímos no mais puro gosto subjetivo do juiz. Ou seja, no meu gosto.

E quem vence? História de não acontecer. Por quê? Porque sinto que para Schwaab, a literatura é uma “atividade de risco”, um “salto no vazio” (descubra de quem roubei esses termos e você ganha um doce). Kirst talvez seja mais experiente, mais competente, mas ele joga um jogo mais seguro e acomodado. Schwaab é como o Loco Abreu dando uma cavadinha na cobrança de um chute importantíssimo. O técnico vai gritar: “tá louco?”, e ele responderá com uma risadinha que apenas confirmará a pergunta.

PLACAR
Dois passos antes da esquina (2) 2 x 2 (4) História de não acontecer

VENCEDOR
História de não acontecer, de Reges Schwaab

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16 respostas para JOGO 27 – Dois passos antes da esquina x História de não acontecer

  1. Os termos, bom, Bolaño? Conhecendo as predileções literárias do resenhista meu palpite é mais Kirstiano que Schwaa(o)biano. Gostei da partida!

  2. Apenas para retificar, como editora da Modelo de Nuvem: a Modelo de Nuvem é de Porto Alegre (e não caxiense, como dito na boa resenha do Xerxenesky).

    🙂

    • Lu Thomé disse:

      Oi Camila! Desculpe o equívoco. Mas, assim como o Antônio, eu também achava que a Modelo de Nuvem era de Caxias do Sul. Não pude confirmar essa info, porque o site da editora não traz dados de contato. Mas corrigirei na resenha! Valeu!

  3. O grande mérito do Gauchão Literário reside na oportunidade que se abre, especialmente aos autores estreantes ou menos conhecidos (conceito, aliás, subjetivissimo, uma vez que é possível encontrar gente que “nunca ouviu falar” até mesmo de Pablo Neruda…), de terem suas obras analisadas e resenhadas de maneira distanciada das loas que normalmente se recebe pelo simples fato de ousar publicar. Tive a sorte, nas duas partidas em que meu “Dois Passos Antes da Esquina” participou (o que o fez, aliás, sem sequer me avisar, e quando vi estava inscrito no certame), de ter tido meu texto analisado pelos juízes com elegância e com respeito (não há dúvidas de que de fato leram o material) . Tirei proveito das avaliações feitas, nem tanto dos elogios (que felizmente existiram), mas principalmente das críticas, todas elas fundamentadas e feitas com o claro objetivo de apontar deslizes que podem ser evitados nas futuras ousadias (que existirão – tanto as futuras ousadias quanto os futuros deslizes, porém, diferentes dos apontados, assim espero). Parabéns ao Gauchão (longa vida ao projeto) e aos juízes, e saio para as arquibancadas feliz por ter participado.

    • Lu Thomé disse:

      Oi Kirst! Fico feliz com o teu comentário. Lamento, realmente, que não tenha conseguido comunicar previamente todos os autores. No entanto aproveito para ressaltar: a participação dos livros no Gauchão é autorizada pelas respectivas editoras. E é com a parceria delas que conseguimos viabilizar o projeto. Obrigada!

    • Agora que o livro tá fora de disputa, Kirst, eu digo que o velho ainda ecoa na minha mente seus pensamentos ClintEastwoodianos e, bom, mais não conto, eu enxergo faroeste em muitos lugares. Só pra dizer que é um elogio ao personagem. Abraço!

  4. Confesso que vim aqui torcer pro livro que classifiquei pra essa fase, mas também confesso que comecei a ler Schwaab e, porra, velho, não li o livro mas o sobrenome até tá valendo. Gosto muito do livro Vidas Imaginárias do Schwob.

  5. Salve, Marcelo! Tua resenha, na primeira fase, foi uma verdadeira aula de análise literária (como as de muitos outros nesse Gauchão). Mais do que uma disputa entre livros, o Gauchão é um festival de resenhas, que, agregadas aos comentários, são proveitosíssimas para quem se dedica ao mundo literário. A exemplo do Antônio, creio que tu também nunca tinhas “ouvido falar em mim”, e assim sentiu-se melhor para avaliar os textos em si (nesse quesito, aliás, estamos todos empatados, porque também eu jamais ouvira falar de qualquer um de vocês, e isso é demérito exclusivo da desinformação pessoal de cada um, como eu já disse uma vez para quem nunca tinha ouvido falar de Ringo Starr). Bom saber que meu personagem Otto deixou-lhe marcas e estabeleceu com você um diálogo. Boas leituras para todos nós!

  6. Eu, mui suspeito para falar – já que acompanhei desde a concepção (ato carnal)/gestação, que se deu em uma das minhas oficinas de criação literária, até o nascer da bela criança (parceiro de literatura que nos tornamos desde lá, o Reges e eu), acrescento aqui que concordo (não completamente), com o Sr. Juiz.

    Fino amplexo, pois.

  7. Pena Cabreira disse:

    Antonio, a resenha tá ótima e entendo perfeitamente o impasse final, em obras muito distintas com defeitos e qualidades meio incomparáveis, se impõe o gosto particular. Passei por isso e sofri até me dar a alforria da opinião pessoal. Parabéns.

  8. eu diria que é do enrique vila-matas. se for esse o caso, trocaria o doce por um autógrafo teu no “A página assombrada por fantasmas”. abraços e parabéns pela resenha.

  9. paulo tedesco disse:

    Gente, confesso que depois da boa resenha do camarada Xerxenesky, sim, gostar de boa literatura é coisa de camarada, de nosso pequeno mas sonhador partido literário, voltei para as resenhas anteriores dos livros, e, confesso, muito interessante, os dois romances são provocativos, seja pelos seus problemas seja pelos seus acertos. Se dependêssemos da atenção da grande e velhaca mídia, livros “experimentais” como de Schwaab jamais viriam à tona, e se viessem, emergiria com o selo de “hermético” porque o jornalista não passou da primeira página, lhe era muito difícil de ler! Seguirei divulgando e acompanhando esse bom gauchão.

  10. Devo dizer que não gostei da resenha e não gostei do resultado. O Juiz, excelente escritor, diga-se de passagem, faz exatamente aquilo que não se deve – na minha opinião é claro – fazer: citações e comparações. Não sei se, quando se compara a obra criticada com a de outro autor, está se fazendo um elogio ou uma redução do talento literário do autor. O excesso de citações tornou a leitura recheada de nomes que, a rigor, nada significaram para a compreensão das obras. Quanto ao resultado, não gostei porque li o livro vencedor e, sinceramente, achei ‘experimental’ demais, tão experimental que, no final, fiquei sem saber o que estava experimentando. Não li a obra perdedora, mas deve ser, do ponto de vista do leitor comum, bem mais acessível e interessante. Desculpem a discordância, desculpe o sr Juiz, desculpe o autor. Mas, como dizia eu mesmo, em outra dimensão, opinião é opinião.

    • xerxenesky disse:

      Que é isso, Paulo, valorizo muito a discordância – e a coragem de verbalizá-la com todas as letras. Quanto ao uso de referências, isso é algo que roubei desde cedo da crítica musical: quando vou ler sobre um disco ou uma banda que não conheço, gosto de comparações, na linha: “Seu som tem um uso de sintetizador que remete a New Order”. É traçando relações entre o objeto analisado e outros mais consagrados que eu, que nunca ouvi a banda sendo resenhada, crio uma imagem (ou um “som”, no caso) mental de como ela é. Gosto de fazer isso na literatura. Para mim, dizer que um livro tem um espírito meio borgiano é muuuuuuuuuuuito diferente do que dizer que ele lembra Caio Fernando Abreu. São afiliações, relações intertextuais. De modo algum isso diminui a nova obra resenhada, apenas sugere novos autores para dialogar com o que está sendo analisado. E é através do diálogo – e do que pode ser chamado de literatura comparada – que penso que funciona a crítica.
      Mas, claro, isso é apenas uma dentre várias maneiras de fazer resenhas, e entendo que não agrade a todos. Também gosto de escrever artigos que tentam propor leituras e interpretações ao texto (vide minha última resenha na Veja.com ao livro da Lunardi), ao invés de ficar dizendo o que funciona e que não funciona. Todavia, no Gauchão, por se tratar de uma disputa, muitas vezes tenho que dizer: “eu cortaria isso” e coisas nesta linha.
      Agradeço a leitura atenta, de qualquer forma, e o elogio. Abração.

    • Homero Jucceni disse:

      Sempre desconfio quando alguém me diz que gostou da obra porque ela é “experimental”… Boa obra literária é aquela que conta bem uma boa história, que deixa em nós um impacto suficiente para discutirmos e recordarmos peripécias, frases inteiras, situações contidas no livros por anos e anos. O experimentalismo só é bom quando contribui para isso – experimentar por experimentar é tolice, coisa da década de 1910…

  11. Luiz Paulo Faccioli disse:

    Comentei há pouco a resenha do jogo 28 e assinalei minha concordância com o resenhista por ele ter valorizado o fato de um dos competitores ter assumido mais riscos do que o outro. Me deparei aqui com uma avaliação parecida. Em ambos os casos, isso não significou valorizar o experimental pelo experimental, e sim dar o devido crédito a quem banca uma ideia e a defende com unhas e dentes num processo de criação que pode, obviamente, dar certo ou não. Os escritores que assumem riscos — como inclusive é o caso do próprio Xerxenesky — têm sempre minha admiração. A propósito, a resenha está impecável.

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