JOGO 28 – Bolero de Ravel x Aurum Domini – O ouro das Missões

JOGO 28

Bolero de Ravel,
de Menalton Braff (Global / 2010)
x
Aurum Domini – O ouro das Missões,
de Simone Saueressig (Artes e Ofícios / 2010)

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JUIZ
Reginaldo Pujol Filho
– Nasceu em 1980 em Porto Alegre. É escritor, publicitário, gremista e zagueiro. Publicou Azar do personagem (Não Editora, 2007) e Quero ser Reginaldo Pujol Filho (Não Editora, 2010), e organizou a antologia Desacordo ortográfico (Não Editora, 2009 / Livro do Dia, 2010). Tem contos em jornais, revistas e sites do Brasil, Portugal e Espanha, um conto no YouTube e joga bola às segundas. Escreve no blogue Por causa dos elefantes. Atualmente, está cursando pós-graduação em Artes da Escrita na Universidade Nova de Lisboa (Portugal).

O jogo

Brasil x Argentina, Barcelona x Real, final de Copa do Mundo. Há muitos jogos nessa vida que costumam prometer. Esse aqui, por exemplo, que coloca de um lado o cheio de prêmios Menalton Braff, com um livro finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, pra enfrentar Simone Saueressig, que também se apresenta como autora experiente e premiada, é um deles. Só que tem um porém: quantas vezes Brasil x Argentina, Barcelona x Real, final de Copa não deram um jogo bem chatinho? Pois é.

Bom, se os dois chegam apresentando currículos fortes, também trazem semelhança nos seus uniformes. Nada de especial. Capas sem nenhum arrojo, nenhuma das editoras me brindou com um papel pólen pra descansar os olhos. Vantagem pro Bolero de Ravel que, ao menos, tem uma diagramação mais espaçada; o Aurum Domini, apesar de ter ouro no título, pareceu um pouco econômico na editoração. Letra pequena, usando no limite a página, pra caber tudo no livro. Tá bem. Vamos ao que importa, ao jogo.

E quem começa é o Bolero de Ravel, da editora Global e do Menalton Braff.

Digamos assim: até a página 74, leigos musicais como eu vão ter a impressão de estar lendo um imenso solilóquio marcado por constantes repetições e raríssimas cenas completas. Juntando os trechos de cenas que Adriano, o narrador e protagonista, vai soltando, repetindo e fazendo crescer um pouco, vamos entendendo que a história de Bolero de Ravel é a história de dois irmãos na faixa de 30 anos, que acabam de perder os pais em um acidente. Adriano é a ovelha negra da família, um pós-adolescente que largou os estudos na época do colégio e só fez viver de ouvir música, remoer pensamentos obsessivos e reviver pedaços de cenas do passado, sempre às custas dos pais. Em contraposição está a irmã Laura, pragmática, bem-sucedida, advogada como o pai. Um tanto clichê. Mas vambora. Esses dois vão entrar em conflito, o mundo idealista de Adriano e o mundo realista de Laura, por conta da morte dos pais, do que fazer com a casa deles (de onde Adriano nunca saiu). E isso, até a página 74 – e depois dela –, vai sendo contado de um jeito um tanto enfadonho até. Repetições e mais repetições. De cenas, de palavras, de ideias, de figuras de linguagem, de tudo. Quase nenhuma tensão. E quando começamos a questionar todo o reconhecimento do Menalton Braff, chegamos à página 74 e tá lá, tudo bem explicadinho, justificado por Adriano pra gente. Ao se lembrar da mãe, ele diz:

O primeiro CD que ela me deu foi O Bolero, de Ravel, porque eu sempre pedia a ela que tocasse esse arranjo no piano, de que nós dois gostávamos. Aquele motivo repetido obsessivamente, a frase que permanecia quando parecia ter sumido, o modo como aos poucos tudo crescia, tomava conta dos meus sentidos até a apoteose final.

Ahá, e não é que é mesmo? Lá fui eu ouvir o Bolero de Ravel e confirmar a repetição do mesmo tema o tempo todo. Bela ideia, não? Transformar a estrutura musical do Bolero em estrutura narrativa. Tudo se justifica agora, não? Calma lá. Nem tanto.

Olha, se o autor precisou botar esse paragrafinho tão explícito ali no meio do texto (e mais uma vez depois, tudo se repete nesse livro), é porque a coisa não funciona assim tão bem. Imagino que eu e todos os leitores que não têm uma profunda relação com o Bolero não entrariam no pacto proposto por Braff e não decifrariam esse código. Acredito que esse tipo de proposta é tão mais eficiente quando podemos compreendê-la sem que o autor precise nos explicar.

Mas não é só isso.

O mais grave, me parece, é que mesmo a revelação da relação repetição no livro/repetição na música-título-do-livro não traz novos significados pro que estávamos lendo. Não clareia cantos escuros da narrativa. Não se justifica. Apenas nos diz Viu, era por isso que as coisas ficavam se repetindo o tempo todo. Não é porque o livro é chato, é por causa do Bolero de Ravel.

A sensação é de que a ideia de reproduzir a estrutura musical foi tão tentadora e desafiadora – e é – que essa foi a única preocupação. Nesse sentindo, acabou sobrando pra história, pro conflito e pra linguagem. E tudo isso faltando pra gente.

Explico.

Sobre história e conflito, a verdade é que tem pouca história, além do que já mencionei. E o conflito do protagonista em relação à sua família e ao mundo não é algo que se faça sentir, gerador de empatia com o leitor. A obsessão de Adriano não passa pra fora do texto. Aliás, suas obsessões sequer ficam muito claras. Ele surge como mais um entre tantos desiludidos deste mundo contemporâneo, que não vê sentido no amor, no sucesso profissional, em nada. E tudo bem que esse seja o personagem, não há problema escrever sobre mais um entre tantos, desde que o autor saiba nos fazer ver por que é que ele decidiu criar esse mais-um e fazer um romance sobre ele. E Menalton Braff, ao que parece, escolheu o obsessivo Adriano porque precisava de um personagem obsessivo. Qualquer personagem, qualquer obsessão, desde que permitisse a estrutura do Bolero. Qual o conflito de Adriano, além de suas paranoias e desencontros com o mundo? O que desencadeia?

E no âmbito da linguagem, a escolha formal de Braff exigia o trabalho de repetição, é o que parece. Mas será que não houve um exagero? Um exemplo é a palavra imóvel. Chegou um momento em quem desisti de sublinhar suas aparições. Quase toda página tem algo como Sentado imóvel, eu via um cachorro baio (p.8); medindo o tempo com meu corpo imóvel (p.10); Sentado imóvel, os pés enterrados na areia (p.13); Pernas imóveis e duras (p.19); ou fico parado, mãos, pés e cabeça imóveis (p.28). E por aí adiante. Admito que a repetição constante da palavra imóvel possa ser a tentativa de criar um significante no campo semântico pra reforçar a condição de vida de Adriano: mesmo com mais de 30 anos, não consegue avançar da adolescência e sair de seus pensamentos obsessivos, apesar de, entre tantas repetições suas, reafirmar muitas vezes que é o único ser semovente do universo (desculpem a ignorância, mas precisei ir ao dicionário pra entender que ele diz que é o único ser que se move por vontade própria no universo). Mas, voltando à criação de um significante de imobilidade ou inércia, dava pra ir um pouquinho mais longe nisso. Existem outras formas de potencializar esse significante que não seja usar tantas e tantas vezes a mesma palavra. Nem que fosse apresentando sinônimos como paralisado, engessado, parado.

Se parássemos por aqui, vá lá, ainda estaríamos falando de intenção estética, de vontade de trazer potência pra obra.

Mas e quando o que se repete é o adjetivo gutural depois do substantivo grito, formando o velho e bom lugar-comum grito gutural? Ou dizer que o céu parecia irritado, as nuvens pareciam irritadas, o telefone tocava irritado? Ou ainda, no mesmo parágrafo, com poucas linhas de distância, aparecer o seguinte: Seu rancor começava pelos olhos que me anulavam / Isso me diziam sempre seus olhos que me anulavam. Tá lá, no final da página 43. Essas e outras repetições, inclusive de lugares-comuns, não estão a serviço de significante nenhum.

Tudo somado, Bolero de Ravel, apesar de bons momentos, especialmente quando Menalton Braff se permite narrar cenas completas (o que infelizmente vai contra seu projeto estético de repetir trechos fragmentados), apesar disso, fica como um exercício de forma. Uma espécie de treino. Lembra aqueles times em que os treinadores encasquetam com um esquema de jogo, mesmo que pra isso precisem sacrificar uma série de qualidades e potencialidades do seu time.

Mas ele tem uma ideia de jogo. E por que eu digo isso? Bom, do outro lado estava Aurum Domini – O ouro das Missões, de Simone Saueressig, uma treinadora, suponho, bem menos obcecada do que Menalton com a forma da narrativa. É outra escola. A não ser pela curiosidade de ter dois epílogos – um para cada uma das duas partes do livro e que não precisavam receber esse nome – a forma de Aurum Domini tem nada demais. Em ordem cronológica, pontuada por diversos flashbacks explicativos, nos traz a história do amor entre o índio missioneiro Francisco, o Chico Livre, e a jovem órfã e briosa Adélia. Um casal que terá de enfrentar o ganancioso Bruno, filho do padrinho de Adélia, a quem ela está prometida. E esse núcleo narrativo tem como pano de fundo a busca por um tesouro jesuíta perdido nas ruínas das Missões do RS. Um tesouro que vai revelar caracteres e outras coisas por aí. Digamos assim, apesar de muito se dizer que literatura não é só forma, nem só conteúdo, Simone opta pela história. Põe o conteúdo em primeiro plano. Mas é aí que tá.

Aurum Domini tem problemas no campo do enredo. Um é pra autora: história envolvendo índio missioneiro, órfã guerreira, pampa gaúcho, estâncias e farrapos é um campo complicado de entrar. Tem que começar pedindo licença pro Erico Verissimo, pro Simões Lopes Neto, pra Sergio Faraco e, se bobear, até pra Letícia Wierzchowski. E, depois de pedir licença, apresentar algo novo. O que eu não acredito que seja o caso. Não há novidade em termos de enredo na história contada por Saueressig. Vá lá, a questão do ouro dos jesuítas, uma coisa um tanto O código Da Vinci nos pampas ou Indiana Jones de bombacha, talvez seja uma novidadezinha. Mas o grosso da história não é esse. São os amores, a honra, os valores e as traições no pampa gaúcho e a força da mulher gaúcha.

Não bastasse o campo minado, onde ou se vem pra dizer algo novo, ou melhor nem tentar, a coisa toda cheira a um mezzo novela de época das seis, mezzo thriller de ação americano. Com todos os lugares-comuns a que isso tem direito, como já disse um pouco ali em cima, e completo agora. Os dois mocinhos, Adélia e Chico, são pura nobreza de cabo a rabo do livro, só matam em defesa própria, a única transformação que ocorre nesses personagens é o desabrochar da pálida e taciturna órfã, na bela e corajosa morena, durante as aulas de cavalgada com o seu índio. Da mesma forma, os vilões são vilões e ponto. A dona da fazenda é cega por status e pelo bom casamento para o filho. E por aí vai. E, pra completar essa joint venture Globo-Hollywood, todas as coincidências do mundo são possíveis pra viabilizar o destino dos justos e a punição dos bandidos. E todos os nós da narrativa se desenlaçam com um vulto que ataca pelas costas, é repelido, puxa a adaga e tenta atacar, mas com agilidade o mocinho esquiva, dá um jeito, um golpe e se safa. Adélia é salva do precipício, Chico é dado como morto e ressurge e mais não vou contar.

Tudo bem. Nem tudo tem que ser novo. Amor, vingança, ódio renderam e continuam rendendo ótimos livros. É fato. Mas muitas vezes o bom resultado é obtido porque uma boa história já contada mil vezes é recontada com uma nova forma, com um estilo diferente, com um bom trabalho de linguagem. A linguagem pode salvar. Só que não salva. Como eu disse, a impressão é de que Simone é o oposto de Menalton Braff. E, se Braff se grudou na estrutura formal do livro, o trabalho de Saueressig neste Aurum Domini passa um tanto de desatenção e acaba prejudicando o livro com excessos e descuidos.

Começa pelas tantas descrições e explicações. Talvez pela trama complicada que escolheu, mistura de Ana Terra com O código Da Vinci, a autora opta pela onisciência na hora de contar, pra não perder o controle dos muitos fios que usa na trama. Só que sabendo tudo, ela explica tudo o que acontece. Conta tintim por tintim, não deixando margem pra dúvidas no leitor (é sempre bom ter um pouco). Um exemplo é o momento do livro em que Adélia e Chico são descobertos e o Índio é castigado. Após isso, Chico acha que Adélia vai casar com o vilão. O vilão acha que Adélia fugiu e que Chico morreu. Adélia acha que Chico morreu e foge. Há uma confusão entre os personagens, mas nós, oniscientes, estamos tranquilos. Já sabemos exatamente o que está acontecendo, sem surpresas. Mas também com pouca tensão narrativa. No mesmo sentido, a agilidade do texto é posta a perigo sempre que surge um personagem. Seja ele vital, ou não, vem acompanhado de uma apresentação, como se fosse um asterisco ou um hiperlink. É como se precisássemos conhecer um pouco de cada um. O menino que ajuda o padre que é amigo de Chico merece uma breve apresentação. O mesmo acontece com empregadas, com amigos dos amigos. Em vez de deixar os personagens serem no decorrer do livro, mal eles surgem já nos é dito quem eles são, o que fizeram e o que pensam. Isso é cansativo e deixa a leitura arrastada.

E isso se agrava graças aos descuidos estilísticos.

Impressiona como as pessoas coram e empalidecem no livro a todo instante. Assim como estão sempre estremecendo. Simone abusa dessas expressões do começo ao fim do livro, nas mais variadas situações da história. Há um momento, por exemplo, em que Adélia, a mocinha, na página 56 desmonta do cavalo Ainda com as faces rosadas e após receber um elogio de Chico a moça corou, mas depois de um gracejo dele, sabe o que aconteceu? Ela corou mais ainda. Em outros trechos, personagens empalidecem e ruborizam sucessivamente e, no final da 138, Chico, o bravo índio, surge estremecendo de súbito e, quatro linhas depois, novamente acontece: Chico estremeceu. Muitas vezes isso ocorre.

Assim como, na maioria das vezes, nos diálogos da história, as pessoas não falam. Em geral, os personagens de Aurum Domini “gemem”, “vociferam”, “murmuram” ou “aquiescem”, em diversos momentos “entre dentes” e com o final das suas falas pontuadas por exclamação (se exclamações fossem um bem não renovável, estavam em risco). Ler Voltou! Jesus, Maria José!, seguido do complemento gemia a outra é, no mínimo, confuso, pra não dizer contraditório.

São desatenções ou descuidos que por vezes desafiam as cordas vocais dos personagens. Por outras, a anatomia. Há muitas cenas de ação criadas pra resolver tramas internas da narrativa. Mas muitas delas ficam além da compreensão, como na cena em que Chico monta na garupa do cavalo de Adélia e abraça a amada por trás. Imagine a cena. Adélia conduz o cavalo, Chico na garupa e se passa o seguinte: os braços dele se apertaram ao redor da cintura da moça e Francisco abaixou a boca até sorver seus lábios de pitanga, afogando num beijo (…) sentiu que Adélia assustava-se num ofego, cedia com suavidade, e por pouco não escorregava de seus braços, lânguida. Adélia tem que girar quase cento e oitenta graus o tronco ou a cabeça pra permitir esse beijo, o que já é difícil. Mas e por pouco não escorregar, lânguida, dos braços do Chico, montada e a galope, me parece manobra de circo.

Grandes e pequenos descuidos surgem no livro. Um ou outro passa, é do jogo, é da escrita. Mas quando eles se repetem com uma frequência bastante alta e não tem um Bolero de Ravel que o autor deseje emular pra justificar isso, aí fica grave. Me parece que traz muito prejuízo à obra e à leitura.

Pois bem, e que partida resulta desse enfrentamento Bolero de Ravel x Aurum Domini? Menalton Braff me lembrou a seleção da Alemanha, que não está muito preocupada com o espetáculo, com levantar a torcida. Tem um jogo treinado à exaustão, repetido em treinos, em amistosos, e vai executar à risca sua mecânica, doa a quem doer. Frio, sem emoção. Já Simone parece uma seleção africana dos anos 90, feliz da vida por entrar em campo pra jogar uma bola, vamos correr, marcar pra quê, o negócio é fazer um drible bonito, um toque de letra e o que vier vem bem. Quero dizer com isso que, sim, os dois têm seus defeitos, sim, os dois abusam de repetições, sim, há lugares-comuns nos dois.

Mas o que acontece é que, por mais que se encontrem defeitos no livro de Menalton Braff, no mínimo, há que se reconhecer algo: os erros decorrem de riscos assumidos pelo autor. Há um conceito artístico que o levou pra esse lado que talvez ele nem veja como erro. Não queria fazer mais do mesmo, pensou uma mecânica de jogo, baseada na repetição e repetiu-a. Fosse uma resenha só do livro dele e talvez eu não valorizasse tanto isso porque questiono o resultado que a ideia gerou.

Só que há um outro time: um time em que os erros me parecem não riscos assumidos pelo autor. Não desafios ou inquietações literárias. Mas simplesmente erros. As repetições, os excessos, a trama à la novela de época da Globo não sugerem ter um fim estético, um objetivo formal, uma intenção de fazer a forma potencializar o conteúdo. São descuidos. E uns tantos. E muitos descuidos contra alguém que pensou com frieza (até demais) e muita atenção seu sistema de jogo narrativo, não pode dar outra: gols de quem sabe o que quer contra quem está batendo uma pelota desatentamente. Duas bolas paradas chuveiradas na área, duas vezes a zagueirada estava desligada, duas vezes bola na rede pro Bolero de Ravel. Vitória do Menalton Braff.

PLACAR
Bolero de Ravel 2 x 0 Aurum Domini – O ouro das Missões

VENCEDOR
Bolero de Ravel
, de Menalton Braff

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6 respostas para JOGO 28 – Bolero de Ravel x Aurum Domini – O ouro das Missões

  1. Olá, pessoal!
    Bem, antes de mais nada, obrigada aos que curtiram a leitura de “aurum Domini”. Ter chegado até aqui já foi uma vitória. Obrigada ao Reginaldo, mesmo que não tenha concordado com tudo. Amanhã quando chegar em casa estarei mais disponível para eventuais trocas de comentários. Obrigada ao Gauchão pela chance de receber críticas sérias!Um abraço.

  2. Ae!!!! Estava torcendo por este resultado (sem desmerecer o adversário), mas é sempre bom saber que o time que te tirou do torneio vai adiante!
    Prefiro perder pros cabeças, né!

  3. Luiz Paulo Faccioli disse:

    Sobre o Bolero, a obra mais famosa de Ravel, é bom lembrar que o próprio autor a considerava um trabalho menor. O Bolero tem uma estrutura bastante singela: são dois temas musicais, o segundo claramente derivado do primeiro, organizados num esquena AABB que se repete 14 vezes em diferentes configurações instrumentais. A sedução está na repetição obsessiva de uma mesma ideia — e que ideia: uma melodia longa e toda modal, como é característico em Ravel –, variando apenas o colorido. É como uma roupa muito requintada apresentada em diversas cores; Trata-se de um brilhante exercício de orquestração, mas falha naquilo que se considera o mais importante num trabalho de composição musical, que é justamente o desenvolvimento temático. Assim como a literatura, a música não precisa de muitos elementos para produzir algo notável. O segredo está em usar pouco para fazer muito, e aí entre o conceito de desenvolvimento. Quem não lembra o tema da 5a. Sinfonia de Beethoven? São apenas oito notas — sol, sol, sol, mi bemol, fá, fá, fá, ré — e com elas Beethoven constrói uma sinfonia inteira. Tudo o que está na obra é derivado dessa sequência.
    São, enfim, duas possibilidades quase antagônicas que estão na gênese de duas obras magistrais.
    Concordo muito com o resenhista, sem ter lido nenhuma das obras, quando ele valoriza o risco assumido por Menalton Braff. Achei importante e muito oportuna essa avaliação.

  4. Interessante que o próprio uso de “Adriano” como nome do protagonista de Bolero de Ravel já é uma repetição em si, dado que o Menalton publicou há uns seis anos mais ou menos um romance chamado A Muralha de Adriano, que tratava de uma orquestração de intrigas familiares na disputa pelo controle acionário de uma rede de supermercados construída pelo próprio Adria, homem na meia idade lidando com as consequências de uma saúde debilitada. Como não li o “Bolero de Ravel”, não sei se o autor na verdade usou o mesmo personagem em algum momento anterior de sua vida ou apenas valeu-se do mesmo nome. Assim como também não sei se já comentei isso ou se só pensei na primeira partida que o livro disputou e deixei para comentar depois que não estivesse mais competindo.
    Bela resenha. As leituras nos últimos jogos têm sido exaustivas e os motivos que levaram um livro a superar o outro não poderiam ter sido mais claros.
    E fica aqui uma pergunta para continuar o debate: Reginaldo, já leste a obra do André Sant’Anna? Em que por exemplo tu diferenciaria o uso da repetição como recurso narrativo no Sant’Anna do que leste no Ravel? Pergunto justamente porque não li o segundo livro.
    Abraço

    • Oi, Carlos André.
      Pois é, agora entramos em um impasse. Não li ainda o André Sant’Anna, o que me deixa sem condições de te responder. Mas podemos fazer assim: eu leio “O Paraíso é Bem Bacana” e tu pega o “Bolero” e depois continuamos a discussão sobre o uso da repetição, que pode ser um debate bastante interessante.

      Brigado pela leitura e pelos comentários.
      Um abraço.
      Reginaldo.

  5. paulo tedesco disse:

    A coisa está cada vez melhor, Faccioli, Reginaldo e Carlos André, demais comentaristas, o debate me parece muito curioso, a repetição, afinal, é geralmente alvo de artilharia pesada dos leitores mais exigentes. Utilizar-se de algo da poesia, música ou ainda da fala cotidiana, onde nos repetimos inadvertidamente, na prosa romanesca, pode ser perigoso mas tentador por certo. E a tentação nos impõe riscos, como o Reginaldo bem apontou, portanto, consciência sobre os riscos e seu resultado prático, ou melhor, estético, uma vez que falamos de arte, me parece a questão central. Já ouvi que muitos escritores, por mais prolíficos, ao cabo, fazem sempre não mais do que uma única obra no seu conjunto, e talvez seja essa a busca do Menalton Braff. O que não significa que as obras devam depender uma das outras para uma boa apreciação, e, quem sabe, possa ser esse o pecado também a ser debatido.
    A conversa merece prosseguir, por aqui ou ainda em outro espaço, mas onde nos encontremos numa forma similar a desse bom Gauchão.

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