JOGO 31 – Anjo das ondas x Os famosos e os duendes da morte

JOGO 31

Anjo das ondas,
de João Gilberto Noll (Scipione / 2009)
x
Os famosos e os duendes da morte,
de Ismael Caneppele (Iluminuras / 2010)

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JUÍZA
Tatiana Tavares – É jornalista e mestranda em Literatura Brasileira pela UFRGS. Não é crítica literária registrada em órgão competente, mas gosta de dar pitaco. Também nunca escreveu um livro, mas quem sabe um dia entre com um time no Gauchão de Literatura. Entre as árvores que já plantou, estão uma ameixeira (ainda viva) e duas pitangueiras (assassinadas por um labrador).

O jogo

Vou começar este texto pelo avesso, ou seja, pelo final. Quem ganha a partida disputada entre Anjo das ondas e Os famosos e os duendes da morte é o livro de João Gilberto Noll. Mas aviso que não foi um jogo fácil, nem Noll ganhou de goleada. Ambos são romances de formação, em que as angústias de um adolescente são questionadas por ele mesmo. Mas um deles consegue um conjunto melhor, principalmente no que se refere à fluidez do texto. A apresentação do livro de Noll e a orelha do romance de Caneppele são escritas por Marcelino Freire, em mais uma aproximação entre as obras.

A obra de Caneppele parece falar mais a linguagem dos adolescentes, com pensamentos que não terminam (visto a ansiedade natural da idade) e que falam sobre a sensação de não pertencer ao lugar que se está (comum também aos adolescentes). Talvez por isso eu tenha ouvido considerações elogiosas ao livro vindas de pessoas na faixa de 15 anos. Nisso, a obra parece ter cumprido sua missão.

No entanto, o objetivo aqui não é analisar o sucesso das obras junto aos seus públicos, mas ler o texto e pensá-lo enquanto narrativa. E é com essa ideia que sigo com esta partida do Gauchão de Literatura.

Os times

Anjo das ondas narra a trajetória de Gustavo, um guri de 15 anos que, apesar de ser carioca, vive em Londres com a mãe e a avó. Ele volta ao Rio para passar um tempo com o pai – na última vez em que eles se encontraram, Gustavo tinha sete anos – e deposita nesta temporada a esperança de amadurecer, de transpor a puberdade. A narrativa intercala-se entre a primeira e a terceira pessoa – na minha opinião, a obra não ganha nada com o artifício, poderia ter permanecido o tempo todo em terceira.

Os famosos e os duendes da morte conta a história de um adolescente sem nome, fã de Bob Dylan e que sente a necessidade de sair de seu lugar, ir para longe, traduzindo a eterna busca de quem tem entre 13 e 20 anos. O livro brinca com ferramentas de internet, inserindo vida virtual na realidade cotidiana dos personagens. A obra de Caneppele acabou se tornando filme, o que ajudou a dar cara ao livro.

O uniforme

Os livros seguem um padrão parecido nas capas, até mesmo as cores são semelhantes. Nenhum deles tem mau gosto, por isso a dificuldade em escolher quem leva a melhor por aqui. Mas se compararmos o menino da capa do livro de Noll e o casal da capa de Caneppele, o primeiro me chama mais a atenção, me convida mais prontamente para a leitura.

Em relação ao projeto gráfico, Anjo das ondas tem uma divisão de capítulos elegante, com desenhos em duas páginas com fundo escuro. Desenhos que dão a tônica do capítulo que vem a seguir. Já Os famosos e os duendes da morte apresenta um texto praticamente corrido, dividido de forma muito discreta (sem nomes, capítulos ou numerações, apenas com um espaço maior entre os parágrafos).

Gol de Anjo das ondas.

O estilo de jogo

Foi aqui que João Gilberto Noll determinou a partida contra Ismael Caneppele. A linguagem fluída de Noll (“Voltou ao apartamento do pai, com a sensação de ter vencido seus temores, de ter desencanado e ido até o fim de um surto carnal, embora tudo tenha ficado escondido sob as roupas”) leva o leitor de uma página a outra, enquanto a escolha de Caneppele é por frases curtas e sem final (“A ponte de ferro na escuridão das árvores desenhava as sombras de uma milimétrica composição de vigas enferrujadas dando ao caminho uma escuridão que eu ainda não. A lua voltou para trás da nuvem porque ela também tinha medo das mesmas coisas que eu. Ninguém poderia me”).

Vejo a narrativa de Noll mais madura do que a de Caneppele. Talvez isso se deva à maior experiência literária de um sobre o outro, mas também sobre o caminho escolhido. Caneppele parece querer inovar na forma como constrói seu texto, enquanto Noll se preocupa mais com a linguagem e com o ritmo.

Mais um gol de Anjo das ondas.

A ousadia nos dribles

A narrativa de Caneppele é mais do que um texto, é um hipertexto. No decorrer da história, o narrador indica links, que fazem com que o leitor pare a leitura, corra para o YouTube (o vídeo do link http://www.youtube.com/watch?v=w3nn0qoEQH0 é indicado na página 60, por exemplo) e veja algo mais sobre a história. O artifício funciona bem, principalmente se levarmos em conta o público do livro, leitores que estão na mesma fase vivida pelo personagem. Aliás, os mesmos leitores aparentemente pensados por Noll. Mas Noll é mais tradicional em sua narrativa, fixando-se em contar uma história através de palavras.

Gol de Os famosos e os duendes da morte.

PLACAR
Anjo das ondas 2 x 1 Os famosos e os duendes da morte

VENCEDOR
Anjo das ondas
, de João Gilberto Noll

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Uma resposta para JOGO 31 – Anjo das ondas x Os famosos e os duendes da morte

  1. Claudio disse:

    Caneppele e Noll são mestres nas sugestões, o que torna os dois interessantes a priori. Para mim, o filme retirado da novela de Caneppele é muito superior ao original, conseguindo aproveitar algumas dessas sugestões que o livro parece diluir, talvez desperdiçar. Mas a força do que conta está no impulso do protagonista para não ficar na terra natal, sair e ganhar o mundo – isso me pareceu ausente da crítica, que poderia ter se detido um pouco que fosse no processo de formação de duas sensibilidades, os adolescentes de Noll e Caneppele.

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